Friendzone
11 Back to NYC
Notas iniciais
Estou tendo problemas para avaliar a situação.
Devo estar sonhando.
E o pior nisso tudo é que nunca me senti tão feliz em toda a minha vida. Mas então Lily franze a testa e começa a formar uma carranca de desaprovação e percebo que a mulher sorridente e convidativa com quem venho alucinando jamais me olharia desse jeito.
É ai que percebo que ela está aqui de verdade, não é sonho dessa vez.
É isso pessoal, e o prêmio de maior trouxa do ano vai para mim, Tyler Reed! Quase não consigo conter a felicidade. Mas sou obrigado a disfarçar, pois nem tudo pode ser assim tão simples.
— O que aconteceu com você?
Eu disse, essa mulher vai me matar.
— O que quer dizer?
— Você e sua bebedeira. Isso te lembra algo?
Entro na defensiva:
— Você já me viu mais bêbado do que aquilo. Não finja que se importa.
— Mas é claro que me importo. E não estou falando da cena que você fez na festa. Admito que aquilo me decepcionou muito, mas estou falando de você, Tyler. O que aconteceu?
Ela se levanta e começa a dar a volta na mesa, se aproximando de mim. Começo a suar frio e minhas mãos tremem, então as enfio nos bolsos do casaco.
— Como assim?
— Parece que morreu e esqueceram de te enterrar.
Fico calado por dois segundos, o que ela acabou de dizer está entalado em minha garganta. Maldita. Mas que cretina! Fica seis meses fora e volta sem me avisar só para falar na minha cara que pareço um zumbi?
Quer saber, ela pode ir para o inferno. Ou voltar para sua querida Londres idiota.
— Se veio até aqui para me insultar, pode fazer o favor de se retirar da minha sala?
— Tyler? — ela arqueia as sobrancelhas, pedante como sempre, e tomba o rosto para o lado, e quando faz isso é por que sabe que não falo sério. Afinal, por que, depois de todos esses meses, eu iria querer ficar longe dela na primeira oportunidade que tenho de vê-la? — Por que...?
— Você não pode aparecer aqui depois de todo esse tempo longe só para me insultar dessa maneira.
— Eu jamais quis te insultar, Ty. Fiquei realmente preocupada com você. Sou sua melhor amiga antes de ser sua sócia.
— Se estava tão preocupada assim, por que não voltou antes?
— Eu achei que você estava indo bem. — ela senta na beira da mesa. — Lucy me disse que você estava trabalhando, chegando cedo e que parecia seriamente responsável com tudo, então achei que ficaria bem sem que eu estivesse por perto.
— Eu não sou um cara responsável, Lily.
— Pois é, sabemos que isso não é possível. A festa de ontem está de prova. E é por isso estou de volta, alguém precisa assumir as rédeas desse lugar.
— Eu sou plenamente capaz de cuidar da... Ok, isso é mentira. — eu já perdi essa discussão, é óbvio, mas não sei por que estou discutindo com ela quando eu deveria estar abraçando-a ou coisa do tipo. — Lily...
— Também senti sua falta, Ty.
Estou plenamente consciente da parede de vidro do meu escritório — eu fechava as cortinas quando estava com outras mulheres que não tratavam de negócios — então quando passo os braços pelos ombros de Lily e a seguro firme, num abraço de urso, sei que Lucy está vendo tudo, possivelmente com a maior cara de boba, mas não dou a mínima.
Eu finalmente tenho minha amiga de volta, presa e segura em meus braços. E não pretendo soltá-la tão cedo.
Sentir sua pele tão perto da minha é exatamente como imaginei durante todos esses meses longe dela. Os cabelos estão mais lisos e longos, até a cintura. Afasto-me e seguro seu rosto para vê-la mais de perto. Sua pele macia parece ter pequenos pontos de brilho espalhados, seus olhos parecem mais profundos do que me recordo.
Parte de mim quer muito beijá-la profundamente, mas poder olhar Lily desse jeito, de tão perto, é quase hipnótico. É só o que consigo fazer.
— Senti tanto sua falta. — ela ri e se afasta rápido demais.
— Eu também. — a raiva que senti no dia do lançamento do perfume parece que jamais existiu.
Tê-la comigo de novo é como um sonho do qual nunca vou acordar.
— Agora me diz: por que achou que era a Victoria na sua cadeira? Vocês não estão tendo um caso de novo, estão? — ela vai até a enorme janela e vira para mim com aquele olhar incisivo que me deu arrepios durante meus sonhos.
— Claro que não. Só achei que fosse a Victoria porque só ela fazia isso. — enfio as mãos nos bolsos e dou de ombros. — Entrava e sentava aí só de calcinha e sutiã.
A expressão no rosto de Lily quase me faz rir, é uma mistura de puro terror e espanto, que com os olhos azuis arregalados fica sensacional, quase uma pintura.
— É a mesma cadeira? — ela aponta com nojo.
É completamente redundante dizer que Lily detesta Victoria, mas ela precisa admitir que a ruiva sabe fazer o seu trabalho muito bem. Melhor do que muitos, na verdade. E foi somente por esse motivo que a Srta. Carter não a chutou para fora quando descobriu sobre nosso caso.
— Não, já faz muito tempo, e desde aquela época eu mudei a decoração.
Ela bufou e se sentou de novo.
— E então, quais são as novidades?
— Como foi em Londres?
Falamos ao mesmo tempo, o que nos faz rir.
— Você primeiro. — eu sento na cadeira de visitas e aponto para ela.
— Foi incrível. Pude aprender muita coisa nesses meses que passei lá e... — ela respira fundo e desvia do meu olhar, sorrindo de orelha a orelha. — Foi muito bom.
— Trouxe presentes? — solto uma gargalhada que a faz rir junto. — Não ligo para o que você aprendeu, só quero saber se me trouxe presentes.
— Claro que trouxe. Estão no meu apartamento.
— Chegou ontem?
— Cheguei durante a madrugada de hoje.
De repente reparo em algo novo em Lily. Ela parece... Brilhar mais? Como quando dizem que transar faz bem para a pele. Mas que...?
— O que aconteceu? — é quase impossível não demonstrar o pânico.
— Como assim? — o brilho não some, mas a sobrancelha escura e grossa se arqueia de um modo quase agressivo.
— Você parece diferente... — engulo em seco. Não, não, não... — Mais... Brilhante?
Rio de nervoso e a expressão brava que estava prestes a me atacar some de repente e tenho o vislumbre de um sorriso iluminar seu rosto ainda mais.
O que é isso? Jesus...
— Acho que nunca ficamos tanto tempo assim longe um do outro.
Tento captar algo que me diga que está mentindo, mas Lily é boa em esconder suas emoções desde a época do colégio. Prefiro ficar com a opção de que ela está feliz em me ver. Dou de ombros e tento esquecer essa ideia.
De repente volto a ficar animado demais e tento conter a animação com ela aqui de novo.
— E então, já quer trabalhar ou podemos sair por algumas horas?
— Podemos sair, mas em algum momento falaremos de trabalho. — ela quase ordena, chega a ser engraçado. É fantástico tê-la de volta de surpresa. Foi a melhor coisa que aconteceu.
...
Observo atentamente a mão delicada de Lily levar uma batata frita até a boca e comer devagar e sensual. O que está acontecendo comigo?
Essa visão se mistura com a lembrança dela lambendo o chantilly do dedo e... Peixe podre, árvores caindo, touca de banho da minha avó! Porra, Tyler, não fique excitado!
Ela não percebe que quase babo ao observá-la, está lendo algo no celular e parece importante demais. Saio do transe e jogo uma batatinha nela.
— Acaba de voltar de viagem e já me troca pelo celular? É sério? Logo você?
Ela ri e joga a batatinha de volta, deixando o celular ao lado de seu copo de suco e pedindo desculpas com o olhar. Rio sozinho e não consigo parar de me sentir idiota perto dela.
— Já que quer conversar, vamos falar de trabalho. Já não era sem tempo — ela se ajeita na cadeira e apoia os cotovelos sobre a mesa.
Olho para o meu prato praticamente vazio e tento resistir a encará-la.
— Sobre o que quer falar?
— Posso ser direta?
— Sempre. — encaro-a de volta com receio do que dirá e sua cara de seriedade misturada com mau humor me faz querer sorrir e, ao mesmo tempo, bater em mim mesmo por ser tão idiota em perceber certos detalhes que antes nem me importavam.
— O que foi aquele vexame no lançamento do último perfume?
Eu não quero retrucar, pois parecerá que estou na defensiva. Porém, não consigo relembrar desse dia sem ficar puto no processo.
— Posso ser direto? — pico as batatinhas e as jogo no prato. Não espero que ela me dê permissão para continuar. — Foi tudo culpa sua.
Ela me olha desconfiada e incrédula.
— Como é que é?
— Foi tudo culpa sua.
Lily começa a rir. Na verdade, a gargalhar. Vai parando aos poucos e percebe que ainda estou sério e que não é uma piada.
— Não estou a fim de esperar que me diga que é brincadeira, Tyler.
— E não é. Só agi daquele jeito na noite do lançamento por sua causa, logo, a culpa foi sua.
Ela agora me fuzila com o olhar. É de dar medo. Mas me recuso a ser o único culpado.
— Culpa minha? — sua voz muda.
— Você não deu a mínima para o perfume. Nem deve ter visto que dei o seu nome, sequer me ligou quando pedi por e-mail. Como achou que eu reagiria?
Lily não diz nada, encara as batatinhas espalhadas por sua bandeja e então olha para mim.
— Você já está bem crescidinho para esse tipo de coisa, Tyler. Encheu a cara no dia do lançamento do seu perfume porque eu não te respondi. Até parece que nunca ficamos algum tempo sem conversar, não é? E não foi você quem mandou e-mail coisa nenhuma, foi Lucy quem me escreveu. Então, vamos parar com esse teatrinho que você não nasceu para o drama.
Essa é a Lily irritante que me enlouquece em dois segundos. Que raiva. Não foi essa versão que me deixou tão transtornado de saudade.
— Então você não nasceu para a amizade.
— Será que é possível você ser ainda mais infantil?
— Será que é possível você ser ainda mais megera?
O olhar que recebo não tem um rastro de arrependimento. Posso ficar e discutir com ela até alguém que está por perto perceba, mas não faço isso. Levanto e pego uma batatinha antes de sair sem dizer mais nada.
...
Espero, pacientemente, chegar em casa antes de ter um acesso de raiva. Dimitri mal me olha depois que entro em meu apartamento e estou pouco ligando que ele me escute xingar o mundo todo.
— Como ela pode fazer uma coisa dessas e nem sentir remorso? Aquela maluca, hipócrita! — tiro o casaco e o jogo no chão, depois chuto os sapatos. — Slash! Cadê você?
Corro para a cozinha à procura de uma garrafa de vodca que sei que tenho guardada e me deparo com meu cachorro deitado arfando em frente à geladeira.
— Slash?
Ele nem se move o suficiente para abanar o rabo.
— Droga, Slash, o que você comeu?
Seu corpo mexe rápido demais de acordo com sua respiração acelerada. Passo a mão sobre ele e não tenho resposta, seus olhos encaram o vazio, parece nem me ouvir chamar seu nome. Toco em sua boca e olho a cor de sua gengiva e está quase branca. Isso é um péssimo sinal desde a última vez que o levei ao veterinário e ele me aconselhou a fazer isso.
Não consigo pensar direito, fico de pé e fecho os olhos tentando me concentrar. Certo, a caixa de transporte. Tenho uma enorme que suporta o tamanho e peso de Slash. Corro até meu escritório que sequer funciona como um e está sempre cheio de coisas que nunca ou raramente uso, como a caixa. Pego-a e corro de volta até a cozinha.
Com um esforço enorme que me faz suar, consigo colocar Slash dentro da caixa e afago sua cabeça por alguns segundos dizendo a ele e a mim mesmo que tudo vai ficar bem. Apesar de o dia ter começado bem pela volta de Lily, e, ainda assim, ter piorado com ela, o dia não poderia acabar mal.
Volto a calçar os sapatos de novo e seguro na alça da caixa e a levanto. Aguento o peso de Slash com um pouco de dificuldade e quando dou por mim estou arfando como ele. É nessa hora que xingo a mim mesmo por não ter uma casa com garagem e carros nela, eu não precisaria gritar por um táxi enquanto segurava uma caixa de transporte com um cachorro enorme dentro.
...
Uma hora de espera e o veterinário aparece com uma expressão apática no rosto. Ah, mas que belo dia de merda. Ele se aproxima e eu permaneço sentado na cadeira da sala de espera da clínica. Sou o único aqui.
— Bem, Sr. Reed, Slash está melhor, mas precisaremos realizar alguns exames para descobrir o que causou seu mal estar.
Respiro fundo tentando não explodir, o médico não tem culpa de o meu dia ser um completo desastre.
— Ele precisa ficar?
— Sim, Sr. Reed. Pelo menos por hoje. Amanhã, se já estiver melhor, poderá ir para casa.
Suspiro pesado e deixo os ombros relaxarem.
— Posso vê-lo antes de ir?
O médico então faz que sim com a cabeça e pede que eu o siga até a área onde os cães ficam internados, cada um em uma espécie de jaula individual, mas completamente adequada. Slash parece triste e fraco, mas quando me vê abana o rabo e dessa vez olha para mim quando chamo seu nome. Fico aliviado com sua reação e pequena melhora.
Meu dia não podia terminar com meu cachorro — Deus que me livre — morrendo.
Aliás, meu dia parece querer terminar muito bem. Já estou indo de volta para casa, caminhando e tentando fazer disso uma espécie de mantra que me deixe mais calmo. E então me celular toca, é Lily. Resisto por alguns segundos, mas o pensamento de tê-la longe de mim novamente me faz me arrepender no mesmo segundo e atender.
— O que foi?
Escuto algo como um suspiro pesado.
— Desculpe por hoje no almoço. Não sei como fazemos isso de sermos melhores amigos e brigar do nada o tempo todo.
— Estamos velhos. É isso.
— É, raramente brigávamos quando mais novos. — eu podia dizer que estava nostálgica por sua voz.
Argh, como posso conhecê-la tão bem?
— Que tal um jantar? Hoje à noite? Ficamos tempo demais longe um do outro, precisamos nos atualizar de tudo. — agora ela parece animada.
Eu também me animo, sempre fico assim quando ela tem idéias como essa.
— Eu escolho?
— Não, vai ser na minha casa.
— Ah, não, você vai cozinhar? Lily, não quero ter dor de barriga por três dias como na oitava série. — não evito e começo a gargalhar no meio da rua com a lembrança. As pessoas que passam ao meu lado e que notam me olham de cara feia.
— Comprarei a comida como sempre fazemos, seu idiota. — ela também ri.
Na oitava série, Lily resolveu que faria um bolo de aniversário para sua mãe. A surpresa foi comemorada por todos, porém o bolo em si... Aquilo estava horrível. Pelo que há de mais sagrado nesse mundo, aquele bolo estava horrível! Era duro e doce demais. Contudo, para não vê-la triste, resolvi comer alguns pedaços extras e ela se sentiu melhor, mas eu me senti péssimo. Passei horas terríveis no banheiro sentindo que o bolo com gosto de morte seria a causa do meu fatídico falecimento.
— Nos vemos às 20h? — estou ansioso.
— Perfeito.
...
São 19h e eu já estou pronto. Isso não tem explicação lógica, estou nervoso como um idiota. Passei o resto da tarde fantasiando sobre esse jantar para me livrar do mau pensamento de Slash internado. O resultado? Durante o jantar, no meu sonho acordado, eu recusava a sobremesa e encarava Lily em silêncio. Ela sorria, um pouco desconsertada e ruborizava. Eu saía do meu lugar e ia até ela, tocava seu rosto e sorria de um jeito que não me deixava parecer idiota como na vida real.
Então eu a guiava até o sofá e a observava saborear seu sorvete de baunilha, seu preferido desde pequena, até rir de mim e perguntar o que havia de errado. Eu respondia dizendo que não havia nada de errado, mas tudo de certo. Mais do que certo, perfeito. Melhores amigos que se conhecem melhor do que ninguém mais e que anos depois se apaixonam e se tornam um casal. Nada poderia ser melhor do que aquilo.
Lily ficava chocada e deixava o pote com o sorvete sobre a mesa de centro que ela se orgulhava de ter comprado numa dessas feirinhas descoladas que freqüentava desde a adolescência. Eu contava a ela tudo sobre os meses em que esteve em Londres e de como fiquei quando estava só, logo depois daquela noite maluca em que acordamos nus na mesma cama.
Ela não sabia bem como reagir enquanto eu lhe contava tudo, mas de repente tinha os olhos transbordando em lágrimas e, absorvendo cada detalhe, começava a falar. Em meus sonhos mais loucos Lily me dizia que os meses em Londres foram uma grande tortura para ela assim como para mim.
Meu coração explodia de felicidade em segundos e eu secava suas lágrimas antes de abraçá-la e então beijar sua boca.
E então meu celular interrompeu meu sonho deliciosamente maluco.
— Tyler falando. — cometo o erro de atender sem antes olhar quem é.
— Oi, Ty! Aqui é a Amanda, tudo bem? — uma voz doce fala comigo e me faz mergulhar em minhas lembranças mais profundas, mas... Quem é Amanda?
— Oi, Amanda. Como vai?
— Muito bem. — ela ri contida e soa proposital. Sempre sei quando o riso delas é fácil. Anos de prática ininterrupta. — Achei que não se lembraria de mim.
— Ora, imagine só se eu me esqueceria. — rio de volta, mas, ao contrário da sua, minha risada é sincera. Eu não me lembro dessa garota e, de certa forma, é engraçado.
Contando o fato de eu ter todos esses sentimentos malucos pela minha melhor amiga.
— Bem, eu estou em Nova York essa noite e pensei que... Pensei que podíamos nos ver hoje. O que acha? — ela pausa de vez em quando.
Eu deveria me lembrar de alguém tão falsa que dá para detectar por uma ligação, mas de alguma maneira compreensível eu não lembrava.
— Ah, Amanda... É uma pena, já tenho um compromisso essa noite.
Ela demora alguns segundos e eu checo a hora, já posso sair. Levanto do sofá onde fiquei jogado por uma eternidade miserável e sonhando demais, pego minhas chaves sobre o balcão da cozinha junto com uma garrafa de bordô que Lily ama e saio.
— Não pode adiar? — sua voz é boa, consegue seduzir facilmente se estiver bem bêbado, mas gosto mesmo assim. No entanto, é impossível que eu desmarque um jantar na casa da minha melhor amiga para me encontrar com alguém que não me recordo.
— Peço perdão por isso, linda. Mas juro que não posso, é inadiável. Podemos marcar outro dia. O que me diz?
Amanda não parece demorar, ou sou só eu e minha pressa de alcançar o táxi antes do Sr.Banks, meu vizinho de baixo e meu inimigo desde que comprei a cobertura. Ele sempre reclamava das minhas convidadas e da bagunça que ocorria durante o trajeto do saguão até o último andar.
O problema não é meu se ele é um herdeiro ricaço da indústria alimentícia, mas um escritor fracassado que não consegue produzir um texto para um jornal tosco local. Matthew Banks era um velho rabugento infeliz e sozinho que me odiava.
E que me odeia ainda mais depois que passo em sua frente e entro no táxi antes dele. Eu sei que vou para o inferno, ele já faz parte do seleto grupo da terceira idade e eu acabei de passar em sua frente.
Fazer o que se tenho prioridades e ele não?
Não percebo o quanto Amanda demora a falar, mas me surpreendo quando ouço sua voz de novo:
— Meu vôo é amanhã à noite, podemos nos ver durante o dia. Tudo bem por você?
— Claro, está perfeito. Pode me mandar o endereço do hotel onde está?
— Não seria melhor na sua casa? Você tem a melhor vista da cidade, Ty. — ela ri.
Não posso deixar de concordar, lutei muito para conseguir comprar o último andar. Tive que disputar a compra com um sub-celebridade que tinha acabado de chegar em Hollywood. Nem é preciso dizer que sua carreira não despontou, sequer me lembro de ter visto aquele atorzinho estranho que as adolescentes veneravam em algum filme relevante.
— Podemos decidir isso pessoalmente, que tal um jantar antes? É por minha conta. — estou curioso para ver Amanda, não me lembro de seu rosto e isso é interessante.
Muito mais interessante ocupar a mente tentando me lembrar de alguém do que tentando esquecer alguém que conheço desde bebê e me afeta de um jeito assustador.
Termino a ligação com Amanda e nos veremos no dia seguinte, só consigo ver as luzes brilhantes e infinitas da minha amada cidade que nunca dorme durante o curto caminho até o apartamento de Lily.
Depois de pagar e descer do táxi sinto que meu coração pesa em torno de dez quilos. Tenho a impressão de que meu estômago também começa a pesar, mas respiro fundo, olho para o céu e para o alto do prédio de arquitetura moderna em que minha melhor amiga mora e me sinto melhor. Ela está à minha espera, não posso ficar aqui perdendo tempo com trivialidades como coração e estômago pesados.
Quando estou no elevador, sozinho, com as portas quase se fechando, uma mão branca e delicada de unhas pintadas de rosa as impedem de fechar. Uma moça baixinha, de cabelos curtos e loiros, e usando óculos que caem na ponta do nariz extremamente fino, entra. Ela me vê e arregala os olhos.
Que dia.
É Becky Hill, uma estudante de jornalismo que caiu em meus encantos numa das vezes em que vim até Lily, mas que ela não estava, o que me fez vagar pelo corredor bêbado e foi quando a loirinha me encontrou ao sair do elevador.
O encontro terminou em sexo, ou amor, como ela preferiu nomear. Becky é uma garota romântica, sonha em escrever romances épicos, mas acho que, se um dia escrever profissionalmente, não passará das histórias eróticas água com açúcar que vendem como água, mas são rasas e sem sentido.
Uma pena, mas, de qualquer maneira, sua foto no final do livro ficará bonita.
Estamos no quarto andar agora. Ela mora no décimo.
Lily mora no décimo.
O prédio possui dois apartamentos por andar, Lily não queria nada muito grande, pois morar sozinha num lugar assim não lhe fazia bem, segundo ela. Uma grande idiota, eu moro numa cobertura e estou muito bem, obrigado. E então, no maldito décimo andar, um apartamento é da minha melhor amiga e sócia e o outro tinha que ser de Becky.
Não direi que fiz falsas promessas à jovem e românica Becky, não engano as mulheres e não digo que ligarei no dia seguinte. É melhor surpreender do que prometer e não cumprir. Contudo, a loirinha nerd e gata se encantou por mim e me perseguiu por algumas semanas, até conversou com Lily, mas depois de algum tempo soube que ela havia viajado para o Iowa e nunca mais ouvi nada. Por que deveria?
Eu alterno entre olhar para o chão, para a garrafa de vinho em minhas mãos e encarar a porta metálica onde consigo, mais ou menos, ver meu reflexo. Confirmo novamente que a combinação desses jeans pretos com essa camiseta branca não seriam nada sem o blazer azul-marinho Tom Ford.
Claro que eu precisava estar impecavelmente mais bonito do que o normal hoje. É um jantar com Lily.
Paraliso quando escuto Becky pigarrear e imagino que vá falar algo ou me estapear ou agir de um jeito louco como ela parece fazer com seus ex-namorados do Iowa. Porém, não faz. Chegamos ao décimo andar e a porta se abre, finalmente. Becky sai praticamente correndo como se estivesse participando da Maratona de Boston.
De qualquer maneira fico aliviado com seu silêncio e quase total indiferença. Saio e caminho a passos propositalmente lentos até a porta de número 63, o recanto de Lily Carter. Toco a campainha e mais de um minuto depois ela abre. E meu Deus.
Lily está com um vestido de alçar finas na cor laranja e que vai até os joelhos, meio rodado e com pregas na cintura, o que destaca aquela área específica de seu corpo lindo e o deixa ainda mais lindo. Lembro-me do contato em sua pele desnuda bem ali e quando fala comigo desperto do transe.
— Você chegou! Cheguei com a comida faz alguns minutos. — ela ri e me abraça apertado. — Venha, entre. Está tudo um pouco bagunçado porque voltei há um dia, praticamente. Mas você é o Tyler, então nem sei por que estou dizendo isso. — Ela ri de novo.
Deus, ela está iluminada essa noite.
Quando caminha à minha frente e fecho a porta atrás de mim, vejo seu cabelo preso em um rabo de cavalo que mais parece um ninho repleto de nós, com alguns fios escapando e caindo na lateral e lhe dando um charme insuportavelmente irresistível.
— Está com fome?
Minha garganta está seca. Droga, eu não estava preparado.
— Não muito. Podemos abrir o vinho enquanto isso.
Só então percebe que o trouxe, e quando vê o título na embalagem deixa a cabeça tombar um pouquinho para o lado e um piscar de olhos lento e provocante me deixa mais desconcertado do que nunca.
— É por isso que somos melhores amigos.
Vamos até a cozinha e me sento em um dos bancos metálicos com assento de couro que lhe dei de presente quando se mudou. Eu adoro ver meus presentes expostos aqui. O apartamento de Lily, de certa forma, também é meu.
Estico o pescoço e vejo a sala de jantar. Sacos para viagem do Mc Donalds ocupam parte da mesa e encaro minha sócia.
— Eu te trago vinho francês, seu preferido, e você me traz Mc Donald’s?
Lily me olha com um sorriso sem vergonha, mas nada de malícia. Que me dera.
Rio e vou direto para a sala de jantar.
— É por isso que somos melhores amigos!
Com um corpo belo e esculpido por anos de esforço na academia e uma dieta balanceada, não tenho mais noites de junk food como na adolescência. Eu sequer me lembro da última vez que comi um sanduíche cancerígeno e delicioso como esse. Ataco um dos sacos de papel e aproveito desde o cheiro do sanduíche e das batatinhas até a primeira mordida.
Lily volta minutos depois com duas taças em uma mão e a garrafa de vinho aberta em outra. Senta-se na ponta da mesa e eu me acomodo na cadeira à sua direita.
— Nada melhor do que Mc Donald’s acompanhado de um belo vinho francês, não acha? — ela ri daquele jeito que me faz rir junto só por ouvir, como uma risada de criança, você pode ouvir o dia todo, a vida toda.
— Você é o vinho e eu o Mc Donald’s, ninguém acha que combina, mas somos perfeitos juntos. — dou uma mordida em meu sanduíche e é quase como ter um orgasmo só de sentir aquele gosto de novo.
E não é só o sanduíche, é também o olhar azul e límpido de Lily sorrindo para mim enquanto isso.
...
Lily está recostada no sofá com as pernas esticadas e com os pés sobre meu colo. Claro que sobre uma almofada, isso pode ser perigoso. Eu também estou com as pernas esticadas, mas os pés apoiados na mesa de centro.
Tento me concentrar no episódio de Friends que passa na tevê onde Rachel acabou de dar a luz e Joey a pede em casamento. Não consigo evitar associar a paixão entre dois melhores amigos na ficção com a minha vida real. No entanto, na série, Joey acaba sozinho e Rachel fica com o outro amigo, Ross.
A pergunta é: na vida, eu sou Joey ou Ross?
Ah, droga, é agora. Eu preciso dizer. Preciso aproveitar o momento e dizer de uma vez o que sinto por Lily. Bom, eu nem sei bem o que sinto, mas é algo forte demais para ignorar assim, ela precisa saber e me entender, afinal, é minha melhor amiga.
Meu coração acelera de súbito, suas batidas parecem as de um gongo. Meu estômago pesa de novo e desejo que fosse a mistura de junk food com vinho caro, mas não, é só meu psicológico atacando o físico.
Respiro fundo e olho de esguelha para Lily, está séria e concentrada na tela de 70’’, onde agora Ross e Phoebe conversam e ele confirma que não pediu Rachel em casamento, mas ela não acredita. Será que alguém acreditaria se eu pedisse Lily em casamento? Eu só estaria antecipando nossa promessa dos quarenta anos e solteirões.
Coloco a mão sobre seu tornozelo e me preparo para falar. Contudo, ela pausa o episódio de repente e senta, dizendo:
— Ok, eu não posso mais ficar calada sobre isso.
Meu coração para no mesmo segundo. Uma luz começa a crescer em mim em proporções impossíveis de medir. O olhar apressado de Lily procura o meu e eu me sinto nas nuvens. Sinto que sua fala pode ser minha.
E só pode ser.
Sento virado para ela e vejo-a se aproximar. Fica de pernas cruzadas e pega a almofada que tinha sobre meu colo e a coloca no seu. Lily parece aflita e eu também estou, porém, uma alegria estranha cresce dentro de mim com o que imagino ouvir dela. E se ela disser o que eu estava prestes a dizer?
Meu sonho acordado não chegava nem perto da vida real.
— O que foi, Lily? — estou tranqüilo o suficiente para segurar suas mãos.
Ela suspira pesado.
— Não tem um jeito correto de dizer isso... É tão estranho... Eu não achei que ficaria assim tão nervosa ao te contar, mas...
É agora! Só pode ser! Melhores amigos que se apaixonam e ficam juntos. Eu sou o Ross. Eu estou prestes a me tornar o cara que fica com a melhor amiga, eu não posso acreditar!
Sorrio largo deixando minha alegria chegar até ela, que continua aflita. Que linda.
— Você sabe que não precisa ficar nervosa comigo, Lily. É só contar. — brinco com uma mecha de seu cabelo que caía sobre a testa.
— Eu sei, mas... — suspira novamente.
— Vamos lá, vou tapar seus olhos e assim vai ficar mais fácil, tudo bem? — ela me olha com dúvida e não acredita que precisa disso para conseguir falar. Continuo sorrindo. — Como nos velhos tempos...
— Eu não deveria precisar disso agora que sou uma mulher adulta e independente.
Ela dá de ombros enquanto fecha os olhos e eu os cubro delicadamente com minhas mãos, nos deixando ainda mais próximos. Assim a distância já será curta o suficiente para quando ela disser que me ama e está apaixonada por mim e eu me apressar para beijá-la.
Mal posso acreditar. Sorrio enquanto ela não me vê e não ligo se pareço o cara mais idiota do universo. Não ligo mais para a imagem que passo, só me importo com a imagem que ela gosta e eu sei que gosta do Tyler idiota. Lily gosta de todos os Tylers.
Ela respira fundo e solta o ar pela boca, nervosa.
— Apenas diga, Lily.
— Tudo bem. — vejo seu sorriso nervoso e seu hálito quente de vinho vematé mim. Argh, ela não pode simplesmente dizer e eu tirar as mãos de seus olhos e então beijá-la explodindo de felicidade?
— O que quer que seja deve ser maravilhoso. É só dizer, Lily.
Ela inspira fundo e antes de soltar o ar, diz, finalmente:
— Eu vou me casar daqui três meses.
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