Friendzone
12 O noivo da minha melhor amiga
Notas iniciais
Posso jurar que senti o chão rachar ao meio como num terremoto tenebroso desses filmes super produzidos onde tudo parece real. Segundos se passaram desde que ouvi as palavras de Lily e ainda não sei o que dizer. Ela espera que eu responda.
Minhas mãos destapam seus olhos e lentamente deixo os braços caírem ao lado do corpo. Parece até que meu coração bate mais fraco. Eu quero poder gargalhar com essa grande piada sobre casamento. Contudo, ao ver os olhos azuis me encarando e esperando algo que não sei o que é, paraliso enquanto um filme passa em minha cabeça de uma só vez.
Cenas que mais parecem flashes. Rápidas, cortantes, intensas, solitárias.
— Não vai dizer nada? Nem uma palavra sequer? — ela está receosa, as sobrancelhas arqueadas e os lábios entreabertos me dizem.
Então sei que é verdade, é tudo verdade. Ela vai mesmo se casar. Isso não é brincadeira. Não consigo me mexer.
— Inacreditável, Tyler. Mas eu sabia que essa seria sua reação. — ela então levanta com pressa e não vejo para onde vai. Volta depois e se senta à minha frente de novo, agora me mostra a mão direita e o diamante do tamanho de um meteoro no dedo anelar.
E se antes meu coração batia fraco e eu não conseguia me mexer, agora parece que tudo acontece de uma vez. Pisco algumas vezes e o diamante parece crescer e chegar mais perto de mim até explodir bem no meio da minha cara. Levanto abruptamente e corro para o banheiro mais próximo, o de visitas. Não consigo fechar a porta antes de vomitar o vinho e os sanduíches e suas batatinhas na privada.
Consigo recuperar o fôlego e estico a perna até bater a porta com o pé. Sinto-me péssimo, doente, vazio, iludido. Como isso foi acontecer? Lily noiva de alguém? E casar em três meses? Como isso é possível? Quase afundo o rosto dentro da privada novamente e desejo vomitar aquela notícia de casamento junto com os pedaços nojentos de comida que saem de mim.
Espero alguns minutos respirando fundo e então me levanto. Aperto o botão de descarga e em seguida a torneira faz barulho enquanto lavo o rosto e passo as mãos molhadas atrás do pescoço e tento me acalmar. Meu reflexo no espelho é de derrota e encarar isso é absolutamente ridículo. Pareço uma adolescente com creme para espinhas no rosto enquanto come sorvete e chora pelo garoto que nunca vai corresponder seus sentimentos juvenis e apressados.
Uma raiva estranha começa a circular pelo meu sangue, posso senti-la arder. Sinto raiva de mim mesmo, de Lily e desse babaca que colocou esse anel em seu dedo. Seco o rosto com a pequena toalha de mãos e saio do banheiro. Com um calor que surgiu de súbito, tiro o blazer enquanto volto à sala forçando um riso grotesco quando vejo o olhar preocupado de Lily me seguir até o sofá.
— Você está bem, Ty?
Ela vai se casar e me chama de Ty e eu amo isso, mas deveria odiar. Odeio o quanto isso me atinge. Por que diabos ela vai se casar? Por que isso? Por que agora? Por que logo quando eu me apaixono por ela? Por quê?!
— Acho que o vinho caro e o fastfood não funcionaram muito bem para mim. — forço um sorriso que não a convence em nada.
— Quer um analgésico? Um chá, talvez? — sua mão toca meu joelho e recuo no mesmo segundo.
Não consigo disfarçar minha péssima reação à notícia, mas não posso agir assim.
— Não, estou melhor. Não se preocupe. — busco forças de lugares que eu nem sabia que existiam em mim e sorrio novamente — Então, quem é o felizardo? Como isso aconteceu?
Ela coloca alguns fios bagunçados do cabelo atrás da orelha, receosa. Apoia-se nas costas do sofá e começa sem olhar para mim:
— O nome dele é Henry. Nos conhecemos numa lojinha de souvenir e derrubei um globo de neve quando ele esbarrou em mim. Ele se desculpou um milhão de vezes e se ofereceu para pagar o globo quebrado e um novo para mim. — ela sorriu. Eu sentia o ódio correr quente por meu corpo todo. Eu estava em chamas, mas com uma cara de idiota tentando sorrir de felicidade ao ouvir a história — É engraçado lembrar que eu estava lá procurando algo para você.
Concentro-me apenas em respirar, não é possível fazer nada diferente disso. Porém, vejo Lily colocar a mão atrás da almofada e tirar de lá o globo de neve com o Big Ben e o London Eye em miniatura. Ela me estende o objeto e eu tenho que me concentrar em pegá-lo, contra minha vontade.
Henry é o nome dele. E foi ele quem comprou o maldito globo. Minha vontade é pegar isso e jogar longe. Ou, melhor ainda, na cabeça desse idiota.
— Obrigado. — engulo seco e observo o globo com sua neve falsa brilhando enquanto cobre os pontos turísticos de Londres. Minha mão parece queimar ao segurá-lo, então estendo-o de volta à Lily — Mas se foi Henry quem te pagou o globo, o presente é seu.
Ela pega o objeto e não me sinto melhor nem pior, me sinto o mesmo bosta desde que ela disse que se casará em três meses. Seu olhar alterna entre mim e o globo quando responde:
— Eu fui até a loja na intenção de encontrar um presente para você, Tyler. Não importa quem pagou, o presente é seu. É o globo que eu escolhi para você. — Lily me obriga a segurar o maldito globo novamente e não tenho como recusar de uma maneira educada e que não vá me entregar de uma vez.
Respiro fundo encarando o globo de novo. Meu coração aperta ao imaginar a cena do esbarrão dos dois no outro lado do mundo. Não sei se fico calado por muito tempo, mas Lily se levanta e vai até a cozinha, e enquanto está longe, pego meu celular e tento pensar em algo. Quando vejo a tela repleta de aplicativos inúteis com uma foto minha e de Lily vestidos com a beca e o capelo no dia da formatura na universidade no fundo da tela, meu coração aperta de novo.
Vou até a lista de chamadas e vejo o último número que me ligou: Amanda, a garota que não me lembro. Toco na tela e ligo para ela sem mesmo encostar o aparelho na orelha, porém desisto no segundo em que Lily aparece com um copo de água para mim.
— Tem certeza que foi só o vinho e os lanches, Tyler?
Agradeço pela água, mas tomo apenas um gole. Não consigo fingir interesse nessa história de casamento. Lily jogou uma bomba sobre meu colo e eu não sei como agir diante disso. Ela parece prestes a falar algo quando meu celular começa a tocar.
Vejo a tela brilhar com o nome de Amanda e me pergunto se essa é uma boa idéia. Deslizo o dedo na tela e atendo enquanto coloco o copo d’água sobre a mesa no centro na sala.
— Oi, Amanda.
— Mudou de idéia?
Suspiro pesado e percebo que Friends voltou a passar, Lily agora está jogada no sofá ao meu lado.
— É, acho que aceito seu convite.
Escuto sua risadinha e em seguida ela me diz o endereço do hotel, mas não me sinto bem o suficiente para ir até o SoHo agora. Meu plano para hoje era passar a noite inteira com Lily ao meu lado, mesmo que eu não dissesse nada sobre meus sentimentos, eu ficaria com ela. Mas essa notícia de casamento me atingiu como uma flecha atravessada no meio do peito. Não posso ficar aqui nem mais um minuto.
— Por que não vai até minha casa? — fico de pé e ainda me sinto enjoado, mas nada grave. Amanda fala algo que não me importo em ouvir, só escuto o ok e me preparo para sair — Estarei te esperando.
Visto meu blazer de novo e tento adiar o momento de encarar Lily e me despedir dela. Não consigo. Enquanto tento criar coragem para tal, ela solta:
— Eu acabo de te contar que vou me casar e você vai embora se encontrar com alguém que nem conhece direito.
Meu coração dói, e dói de verdade, coisa de louco. Ainda espero pelo momento que ela dirá que tudo isso não passa de uma brincadeira. Mas não, ela vai mesmo se casar.
— Foi ela quem me ligou, você viu.
Lily pausa o episódio mais uma vez e então me encara. Quando olha desse jeito, com raiva e com o olhar para o alto, sempre parece estar prestes a me fuzilar. E então o diamante em seu dedo brilha de novo me fazendo lembrar de sua maldita existência.
— Faz um dia que voltei, Tyler. Isso... — ela para. Respira rápido e desiste de falar. Não me importo em não ouvir o que estava prestes a dizer, só quero ir embora.
— Faz apenas um dia que você voltou, mas foram seis meses em que ficou fora. Foi tempo demais, Lily. — mordo a língua para me impedir de continuar falando.
Lembro-me de pegar o estúpido globo de neve e penso se é uma boa idéia dar-lhe um beijo ou abraço de despedida. Não sei por quanto tempo hesito, mas saio sem fazer nenhum dos dois. Lily, no entanto, não é essa pessoa pacífica que aceita qualquer coisa, ela sempre responde.
— O que quer dizer com isso? — pergunta quando estou prestes a abrir a porta.
Meu coração para, minha vontade é gritar para ela que durante todos os meses que passou fora, provavelmente transando loucamente com esse britânico idiota e rodeada de globos de neve estúpidos, eu estava aqui definhando em solidão e me apaixonando cada vez mais por ela.
Quem me dera fosse apenas saudade.
— Quantas vezes nos falamos enquanto esteve fora?
Demoro a me virar para encará-la. Ela, por sua vez, tem os olhos fixos na tela com a série pausada. Ross acabou de descobrir sobre o noivado de Rachel e Joey. É, na vida, eu sou o Ross preso nesse episódio.
— Você também poderia ter me ligado, Tyler. Não tente jogar qualquer culpa sobre mim.
— E quem falou sobre culpa?
— Você devia ir logo. A tal Amanda deve estar esperando nua na sua cama. — ela afunda no sofá, mas seu rosto não tem uma expressão confortável como deveria.
Encaro-a por mais alguns segundos. Quero vomitar de novo, mas dessa vez não literalmente. Quero dizer a ela tudo que tenho entalado na garganta há meses.
— Como você?
Lily finalmente me olha nos olhos. Consigo notar mesmo à distância que está nervosa.
— O quê? — ela franze o cenho, os olhos brilhando e se fechando lentamente. Lily está ficando furiosa.
Percebo o que estou prestes a dizer e paro.
— Não faz diferença. — giro a maçaneta e saio. A luz do corredor acende e eu agradeço a algum deus que deve estar no céu ferrando com a minha vida pelo elevador estar justamente ali, à minha espera, contrariando todas as merdas que vem acontecendo comigo.
...
O trajeto até meu apartamento foi extremamente desconfortável e eu já havia me arrependido de ter chamado Amanda. Agora estou aqui, sozinho, jogado no sofá com um Jack Daniels pela metade numa mão, pensando em meu labrador internado e em minha melhor amiga, sócia, amor da minha vida e noiva de um britânico almofadinha.
Depois do interfone, espero pela chegada de Amanda. É bom estar bem bêbado para quando ela chegar. Não vejo outra saída para isso. Escuto o barulho do elevador e me endireito esperando. E então ela finalmente aparece e eu ainda não me lembro dela. Amanda é alta, bem alta, e está com sapatos baixos e brilhantes. Tem um corpo esguio e seios grandes, seu decote revelador deixa isso mais do que claro e eu fico tempo demais olhando para eles. E então escuto sua risada.
— Olá, Sr.Reed. — sua voz é melhor ao vivo do que ao telefone.
Amanda sorri para mim um sorriso branco e perfeito, com lábios finos e pintados de vermelho. Foco em seu rosto anguloso e em seus olhos claros de uma cor que não consigo identificar. Espero que não sejam azuis.
E então é minha vez de sorrir. Fico de pé e vou até ela de braços abertos.
— Amanda. — dou-lhe um beijo na bochecha e penso que poderia ter sido mais perto dos lábios.
Estou obviamente afetado depois de tudo.
— Como está? — ela pergunta e coloca a bolsa sobre o sofá onde eu estava e em seguida se senta.
Vou até o bar e sirvo uísque em dois copos.
— Estou bem, melhor agora que chegou. — dou meu melhor sorriso, que deve parecer ridículo, e lhe entrego o copo — Você parece muito bem, aliás.
— Obrigada. — Amanda sorri e eu me sento ao seu lado, ela se vira sentada de frente para mim, mais perto.
Ela parece ser bem rápida, talvez por isso não consiga me lembrar dela.
—Ah, me desculpe, Amanda, nem perguntei se queria beber e já te dei o copo. — digo assim que tomo meu primeiro gole daquele copo.
— Está tudo bem. Você já estava bebendo, não é? É perfeitamente normal. — ela coloca uma mão sobre minha perna, unhas longas e pontudas pintadas de preto dão a sensação de estragos e marcas que devem durar uma semana.
Será que ela me deixou marcas e também não me lembro?
Apenas sorrio em resposta e dou um gole em meu uísque assim como tenho feito desde que cheguei.
— Quanto tempo faz que não nos vemos?
Ela apoia o braço em meu ombro e chega mais perto. Ou eu sou mais atraente do que imaginava ou ela é mais rápida do que pensei. Não sei se amo ou odeio isso.
— Nos encontramos no ano passado. Eu estava aqui para a Fashion Week.
Então ela é modelo.
— E agora, o que te traz aqui?
— Desde a última vez que nos vimos, minha carreira alavancou bastante e vim para uma sessão de fotos para a Vogue.
Encaro-a com surpresa, mas nem me importo. Lily e seu diamante gigantesco no dedo não saem da minha cabeça.
— Vai sair na Vogue e está aqui comigo enquanto podia estar com algum modelo famoso? Vou me sentir importante, Amanda. — rio da minha piada estúpida, se eu fosse mesmo importante já saberia sobre o noivado de Lily com o tal Henry.
— Os modelos com quem saio são todos iguais. Lindos, egocêntricos, perdidos e drogados.
Nunca fui modelo, mas já quase fui um desses caras. Não gosto de me lembrar disso.
— Então o que eu tenho que eles não têm? — toco seu lábio e ela sorri.
Qual será a idade de Amanda?
— Não me leve a mal, mas... — ela ri e enfim toma um gole do uísque antes que eu o pegue e beba por ela — Você não é muito diferente deles, só é mais velho, mais charmoso e não usa drogas. Até onde sei.
Sua risada me incomoda, é aguda, como a de um personagem irritante e excêntrico saído de um filme dos anos 50. Não gosto de filmes antigos. Eu sempre perdia a aposta e Lily me obrigava a assisti-los. Talvez meu ódio deles venha daí.
Dela.
— Essa foi a coisa mais legal que ouvi hoje. — rio cansado.
— Isso é bom. Mas eu não queria vir aqui hoje para falar, raramente quero falar. A verdade é que é nisso que você é diferente, nunca quer falar nada, é um livro em branco. — sua mão volta sobre minha perna e vai deslizando até minha virilha — Acho fascinante como nos parecemos nisso.
Termino meu uísque e quase quebro o copo quando o coloco sobre a mesa. Volto-me para Amanda e, de perto, me certifico de que seus olhos são verdes. Logo, é ela quem me beija, ávida e até um pouco agressiva, eu diria. Em cinco segundos está em meu colo, e em um minuto está só com o sutiã rendado e preto.
Quando ela puxa meu cabelo e minha cabeça para trás, me arranha e não sei se de propósito, mas já sei que terei marcas ao amanhecer.
...
Minha nada humilde residência tem sido a cobertura do Redford III, no Upper East Side, por quatro anos. A decoração foi trocada duas vezes e perdi a conta de quantas mulheres foram trazidas até aqui durante esse tempo, mas nenhuma até este presente e estranho dia fez tanto escândalo quanto Amanda Benini, filha de italianos e talentosíssima na cama e na habilidade de ir embora sem dizer nada.
Uma dor de cabeça horrorosa é a primeira coisa que percebo quando abro os olhos. O lado vazio da cama está frio, o que indica que Amanda foi embora há tempos. Fico aliviado de não ter que fazer o diálogo de bom dia-tomar um café-despedida.
E então me lembro de Lily.
Levanto bufando e xingando, minha cabeça parece a ponto de explodir. Vou até o banheiro e lavo o rosto, mas meu reflexo está tão medonho que nem me dou ao trabalho de secar o rosto, apenas ando mais alguns passos e ligo a torneira quente da banheira e entro esperando-a encher o suficiente.
Em poucos minutos tenho apenas a cabeça e os ombros para fora. A água quente me faz relaxar e a dor até parece diminuir. Deito a cabeça até a borda da banheira e fecho os olhos. Eu poderia pegar no sono, mas minha mente fervilha com rapidez e alterna imagens de Lily e seu anel de noivado e sua voz dizendo que está noiva. É um pesadelo acordado.
Escorrego até ficar completamente submerso na esperança de que estou mergulhando num silêncio profundo da minha mente, mas não funciona, é claro. Enquanto seguro a respiração, me concentro, ao mesmo tempo, em esquecer Lily. Penso no meu trabalho, em como amo ser químico, mas, além disso, perfumista. Eu trabalho com Lily.
O único emprego que tive antes da sociedade com minha melhor amiga foi o de assistente de escritório. Meu trabalho era organizar tudo relacionado à rotina do advogado Ben Sullivan, um quarentão barrigudo que, por mais inesperado que fosse devido sua aparência e comportamento, tinha vários clientes. Em sua maioria casais que estavam a ponto de se matar e queriam o divórcio.
Eu sempre voltava para casa exausto, mas tinha tempo de ir até a casa de Diana e, com sorte e quando ela estava de bom humor, passava o resto do dia com ela até ir embora para minha casa. Se isso não acontecia, eu ia até a casa de Lily, que sempre ria quando eu imitava meu chefe. Argh, aqui estou eu pensando nela de novo.
Volto à superfície e, pelo menos, a dor de cabeça diminuiu.
Resolvo que meu sábado será diferente de todos os outros: ficarei em casa. Exceto por Slash, preciso ir até a clínica saber se ele pode voltar comigo e, do fundo da minha alma, é o que mais desejo nesse momento. Todas as pessoas que você ama, em algum momento, podem te dar as costas, mas um cachorro jamais fará isso. É impressionante.
Permito-me ter um café da manhã decente. Encontro torradas integrais, suco de laranja processado e uma maçã. Isso é o mais saudável que posso ser depois de beber tanto uísque ontem. Visto roupas confortáveis, mas não desleixadas, afinal, alguém pode puxar uma conversa comigo no meio da rua e eu não gosto de parecer um mendigo. Calço meus tênis de corrida e coloco um boné com as iniciais NY. Pego o celular e saio para a rua.
Já dentro do táxi penso que preciso de um carro e cogito comprar uma casa, ou, quem sabe, passar alguns dias com minha mãe. Fazer-lhe companhia enquanto não está no restaurante não é uma má idéia. Sinto falta dela. A mulher mais importante da minha vida. E em segundo lugar... Bem, nem é preciso dizer.
Chego à clínica e dessa vez tem mais pessoas na sala de espera. Felizmente não demoro a encontrar o médico de ontem e ele me recebe com um sorriso torto, o que espero ser um bom sinal.
— Olá, Sr.Reed.
— Olá. Pode me chamar de Tyler apenas.
— Tyler. — ele lê algo num papel preso a uma prancheta — Bom, seu cão permanece estável, mas ainda não poderá ir para casa. Descobrimos que ele ingeriu uma meia.
Minha cara inteira se transforma numa careta.
— Uma meia? — sobressalto-me — Como isso é possível, doutor?
— É inusitado, eu sei, mas fizemos um raio-x, e depois de muito tempo tivemos certeza de que sim, é uma meia.
— Meu cachorro é maluco. E agora?
— Bom, será preciso uma cirurgia para a remoção do objeto e estávamos prestes a comunicá-lo sobre isso. É preciso assinar alguns papéis de autorização antes, o senhor pode ir até a recepção e Ronda vai te ajudar com isso.
— Obrigado, doutor. E quando a cirurgia será feita?
— Hoje mesmo. Felizmente, ele não está vomitando ou tendo reações mais agressivas, então não é um procedimento de emergência. O senhor pode vê-lo depois que assinar os papéis.
— Muito obrigado, doutor. — apertamos as mãos e ele sai. Sigo para a recepção e Ronda, uma mulher na casa dos quarenta, solteira e mãe de três filhos adolescentes, me vê e abre um sorriso — Como vai, Ronda?
— Bem, ocupada como sempre e preocupada com meus filhos, como sempre. — ela ri e eu me permito rir junto ao me lembrar de seu jeito alto astral e carismático. Ela conversa com qualquer pessoa que mostra intenção em ouvi-la, foi assim que soube de seus três filhos adolescentes e briguentos — Você parece triste.
— É, meu cachorro resolveu engolir uma meia e agora vai ser operado.
Ela balança a cabeça negativamente enquanto procura por papéis, talvez os que eu preciso assinar.
— Ele vai ficar bem. — ela para por alguns segundos e me encara com uma cara engraçada — Mas você deveria estar com um quê de alívio por saber que seu cão vai ficar bem logo. Não parece.
Pisco com pesar. É tão óbvio assim?
— Está imaginando coisas, Ronda.
— Não estou não, garoto. Eu tenho essa coisa de sentir a energia das pessoas e... Posso afirmar que sua energia não está nada boa. O que foi? É dinheiro? Não pode ser... Pode?
— Não, Ronda. — apoio o braço no balcão e rio da minha própria desgraça de estar apaixonado por uma mulher impossível.
— É o coração, eu sabia. — ela coloca os papéis sobre o balcão e eu não quero nem pensar em lê-los, confio plenamente no compromisso e bom trabalho da clínica e de todos que já cuidaram de Slash desde que ele era um filhotinho possuído que comia e roía a casa inteira.
— Não sou um cara de coração, Ronda, você me conhece.
Ela pesquisou sobre mim no Google e puxou assunto comigo sobre isso quando trouxe Slash para uma vacina.
— Ah, eu sei disso, mas tem algo diferente em você. Alguém finalmente te fisgou, mas não está nem ligando pra você, não é? Isso é punição pelo tanto de mulheres que iludiu. — ela começa a rir, mas para quando digo que não.
— Ela vai se casar.
Vejo o queixo de Ronda cair e seus lábios enormes se abrem em O.
— Ah, meu Deus, Tyler.
— É, eu sei. — pego a caneta que sempre fica disponível e assino os dois papéis — Mas é passageiro, eu vou sobreviver e na próxima vez que nos virmos já serei o velho Tyler de novo. — forço um sorriso.
— Já tentou dizer que a ama?
É engraçado responder a isso porque eu sempre disse a Lily que a amo, pois sempre foi verdade. Contudo, sempre foi um amor de melhor amigo, de irmão. E agora é um amor desastroso que nunca vai ser correspondido e só vai me fazer sofrer até minha morte solitária aos noventa anos. Se eu chegar até lá.
Respiro fundo e dou meu melhor sorriso a Ronda.
— Vou dar uma olhada no Slash agora. Foi bom te ver, Ronda.
Ela sorri fraco e acho que me entende por desconversar e simplesmente sair. Sigo sozinho pelo caminho que fiz ontem e uma senhora que cuida dos cães que ficam internados me cumprimenta e pergunta qual deles é o meu.
— É o que engoliu uma meia e vai ser operado em breve.
Ela reage com surpresa, mas logo dá um sorriso. Pelo jeito Slash já fez amigos humanos por aqui mesmo com uma meia no estômago. Ela me aponta o pequeno aposento temporário dele, escuto seu grunhido e ele se agita assim que me aproximo. Fico tentado a contar a Slash sobre o noivado de Lily e de como isso me partiu ao meio, mas meu labrador tem seu próprio drama pessoal, então, fico calado. Fico alguns minutos com ele e então vou embora.
...
Depois de voltar para casa caminhando, o que deve ter durado em torno de quarenta e cinco minutos, chego em casa me sentindo um pouco melhor, ouso até dizer relaxado. Por um milagre que só me agrada, Dimitri não está no elevador quando subo e nem sinto sua falta, observo os números mudarem lentamente até chegarem ao último, o meu. Respiro fundo relaxando os ombros quando as portas se abrem e entro em casa. Minha primeira parada é a cozinha, bebo três copos de água e me sinto mais relaxado do que o normal. Isso é estranho, não gosto disso. É como se uma apatia tivesse se apossado de mim e eu não me importasse mais com nada.
Resolvo tomar um banho e pensar em algum útil para fazer depois, talvez ler um livro do Neil deGrasse Tyson que venho postergando há tempos. O pensamento de que tenho estado ausente em muitos eventos sociais me faz imaginar que este seja exatamente o motivo pelo qual nunca mais recebi o mesmo monte de convites para festas e eventos de lançamento de filmes, livros, e qualquer outro evento glamoroso que acontece em Nova Iorque.
Tornei-me um homem apático e, por que não, inútil socialmente.
Tento me afugentar desse pensamento e vou em direção a escada, mas antes que meu pé toque o primeiro degrau escuto alguém pigarrear alto demais, e de propósito, então me viro para olhar.
— Oi.
O jeito calmo e baixo com que Lily diz essa mísera palavra me paralisa. Não tem maquiagem em seu rosto, os cabelos estão presos num rabo de cavalo e sua camiseta branca e os jeans me fazem lembrar a Lily adolescente.
Droga, eu amo essa garota.
— Podia avisar que viria. — falo ainda parado prestes a subir.
Ela encolhe um pouco as pernas e apóia os braços nos joelhos.
— Decidi no último minuto.
Assinto sem saber o que responder. Apesar de amar sua presença em qualquer hora do dia e fazer tudo de mais empolgante e de mais inútil ao seu lado, eu não quero conversar agora.
— Eu vim caminhando. Se importa de eu tomar uma ducha antes?
Ela faz que não com a cabeça e vejo um vislumbre de um sorriso que some num piscar de olhos. Subo as escadas e todas as minhas ações são lentas, apáticas. Começo a odiar essa palavra: apatia. Por que isso tem que me afetar tanto?
Demoro no banho o quanto posso sem me fazer sentir culpado por deixá-la esperando. Sinceramente, eu esperei por ela durante meses e o que recebo agora? Um corpo inteiro partido por sua causa, antes fosse só o coração. É como se a dor que sinto nele fosse para todas as outras partes vitais.
Decido não demorar enquanto me troco e desço, é melhor enfrentá-la de uma vez, seja lá com o que tem para me dizer. Desço descalço e assim não faço barulho, o que me dá a chance de vê-la de pé, ainda na sala, observando os livros em minha estante. Ela desliza os dedos finos sobre alguns títulos e então para em um intitulado BFF’s. Não é um livro, é a fita VHS com filmagens de nós dois.
Limpo a garganta fazendo barulho de propósito e ela se vira com rapidez. Olha-me com tranqüilidade, mas ainda tem algo nela de diferente que não consigo entender. Quero perguntar o que é, mas ela fala primeiro:
— Podemos agora?
— Sim.
Sigo Lily até o sofá onde ela estava antes e sento um pouco afastado. Agora que está noiva, devo me torturar tanto assim ficando perto?
— Quero conversar sobre nós.
Meu coração para por alguns segundos.
— Nós? — não evito o tom surpreso e ela assente.
— É óbvio que a notícia do meu casamento te abalou. E eu te entendo por isso.
Lily começa a soar diferente, prepotente, quem sabe até arrogante. É sério que está dizendo isso?
— Você me entende?
— Você tem medo, Tyler. — ela olha nos meus olhos e desliza a mão pelo sofá parecendo procurar pela minha, mas para — Eu vou me casar em três meses e isso te faz pensar que vai ficar sozinho.
Paro por algum tempo pensando. Será que ela realmente gosta desse tal Henry?
— Acho que sim. — aquela dor no peito surge de novo, me partindo em dois, queimando como ácido, corroendo por dentro e se espalhando pelo resto do meu corpo.
O simples pensamento de Lily sentir algo próximo de amor por esse cara faz essa dor ser mais intensa só pelo fato de estar claro que eu jamais terei alguma chance. Não ter sequer uma fagulha de esperança faz tudo doer porque sei que o que sinto não vai sumir. Nunca senti algo tão forte assim antes, isso é o que realmente me faz sentir medo.
— Então você precisa saber que jamais ficará sozinho. Não é por que vou me casar que vou abandonar você ou a nossa empresa. — ela segura minha mão e um meio sorriso enfeita seu rosto, mas não funciona muito bem, pois seus olhos não sorriem junto. Lily não me passa a convicção que sempre tem quando fala.
— Está tudo bem, Lily. Eu só quero que você seja feliz.
Ela fica ali com aquele sorriso estranho no rosto enquanto tento mascarar meu coração partido e ficar feliz por ela.
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