A viagem recomeçou com Mary voltando a jogar seu jogo, totalmente dispersa à conversa entre Miley e Taylor sobre David e o emprego que ele oferecera para nós. Selena e eu observávamos a paisagem pela janela. Ela estava deitada em meu ombro falando as formas que as nuvens tomavam.

— Aquela ali tem forma de coelho. — Ela apontou para uma.

— Parece mais um cachorro para mim — eu disse, passando meu braço por seu ombro.

— Você sempre teve problema de vista.

Suspirei. Selena deixou cair a franja no olho. Aquilo me matava. Eu não entendia, mas uma garota de dezesseis anos conseguia me deixar mais louca do que qualquer garoto de faculdade com um futuro já traçado. Por acaso mencionei que é muito bizarro?

— Mary, quanto dinheiro temos? — indagou Taylor.

— Cerca de trezentos — falou ela sem piscar.

— Viu? Precisamos de um emprego.

— Estamos andando pela Rota 66 — disse Selena. — Emprego não vai faltar.

— Continuo preocupada — disse Taylor.

— Relaxe e dirija — falou Selena. — A viagem será bem mais divertida se começarmos a roubar.

— E virarmos fugitivas. Teremos um nome, também: “As Garotas da Rota 66” — eu disse.

Pelo retrovisor, Taylor nos deu um olhar fatal. Selena e eu só sorrimos.

Nós não paramos para almoçar, porque já era meio-dia quando saímos do motel de David. Ninguém havia comido muito, a exceção de mim, mas elas não estavam com fome.

Mary havia parado de jogar, pois seu celular estava acabando a bateria. Ou seja, ela provavelmente queria dormir em outro motel para recarregá-lo. Miley tentava dormir, mas Taylor não deixava, ouvindo suas músicas country e cantando em plenos pulmões.

Selena continuava com a cabeça encostada em meu ombro. Praticamente passamos a tarde inteira daquele jeito, vendo através da janela a paisagem mudar ao longo do Novo México. Eu não deveria gostar daquilo e não permitir que Selena também gostasse, mas era quase impossível resistir àquela garota.

Ela acabou dormindo ao som de Elvis Presley e sua nova backing vocal, Taylor Swift. Mary estava com a filmadora na mão e sorria para mim enquanto pedia para eu dizer algo.

— Vamos, Demi, seja legal com a câmera.

— Ficou louca? — exclamei. — Ela vai enlouquecer se você nos filmar. — Apontei para Selena. — E não só ela, como nossas mães e pais e todos da família quando você mostrar.

— Isso é pra gente — disse Mary. — Não para nossos pais.

— E para as pessoas da internet, não é?

— Para eles também. — Ela deu de ombros. — Vamos, sorria.

— Não.

— Train I ride, sixteen coaches long — cantou Taylor em voz alta.

Mary desligou a câmera e me fitou.

— Você gosta mesmo dela — afirmou.

— Não quero ofender, mas ela é mais especial que você — falei.

— Não ofendeu. Eu sei que de algum jeito sou especial. Mas... O que você sente por ela é tão puro e intenso que eu acho que nunca senti isso antes.

— Como percebeu isso? — perguntei.

— Train train, comin' down, down the line— continou Taylor. Miley deu um soco no ombro dela, irritada. — Me deixe cantar! — gritou.

— Cante baixo! — exclamou Miley.

Quando voltou a cantar, Taylor apenas sussurrava a música.

— O jeito que você olha para ela, como ela retribui esse olhar... Coisas assim. Ou você acha que tudo aquilo que fizemos ontem foi por puro charme?

Mary era muito perceptiva. Talvez as tantas contas que fizera na vida a deixaram daquele jeito. Quando alguém queria desabafar, todos iam para ela. Mary ouvia todo mundo enquanto jogava algum jogo no celular e concordava. A pessoa terminava de desabafar, ela resumia o problema e dava a solução como se estivesse prestando atenção todo o tempo.

Era a melhor coisa nela. Só que eu não tinha coragem de contar para ela o que eu sentia por Selena. Aparentemente, Selena tinha essa coragem e contara para Mary que contara para Taylor que contara para Miley. Eu, para variar, fiquei sobrando.

Sorri para Mary.

— Ela gosta de mim — eu disse. — Falou para você isso, não falou?

— Há muito tempo — respondeu Mary. — Mas... E você? Há quanto tempo gosta dela?

— Talvez mais tempo que ela gosta de mim. — Dei de ombros. Selena abraçou meu corpo sem constrangimento. — Mas porque ela nunca contou para mim? Porque ela nunca disse que me amava?

— Olhe para ela, Demi — disse Mary. — Ela está abraçada a você tem três horas. Tem certeza de que precisa que ela diga “eu te amo”?

Pensei nas palavras de Mary. O “eu te amo” estava implícito. Nenhuma de nós duas precisava dizer. Com Selena há tanto tempo na minha vida, amá-la passou a ser algo onipresente. Digo, ela sempre estaria lá por mim. Sempre. Não importava se eu matasse alguém ou achasse a cura para a AIDS. Selena nunca iria me deixar.

— Obrigada — falei para Mary.

— Ah, somos amigas. É o que eu tenho de fazer. — Ela pegou a câmera e a ligou outra vez. — Agora, sorria e diga obrigada de novo.

Revirei os olhos.

— Obrigada, Marissa — repeti, dando ênfase no nome completo dela.

Mary bufou e desligou a câmera. Ela começou a cantar junto com Taylor e Miley ficou irritada com as duas. Fitei Selena por um longo tempo, até a briga das três terminar. Ela sorria, mas eu não sabia o porquê. Talvez ela tivesse ouvido toda a conversa entre Mary e eu e estivesse feliz por não ter de dizer “eu te amo” em voz alta. Ou talvez estivesse feliz por estar naquele carro, com suas três melhores amigas e uma outra muito mais que especial.

Para mim, era a segunda alternativa.

— Eu preciso parar lá, Taylor! — exclamou Mary.

— Por quê? É só Las Vegas — retrucou Taylor.

— Só Las Vegas?! É a cidade-luz!

— A cidade-luz é Paris — corrigiu Selena.

— Dane-se! — exclamou Mary, jogando os braços pra cima. — Devemos ir para Las Vegas, não acha Demi?

Taylor me olhou pelo retrovisor.

— Talvez sim, talvez não.

— Viu? Nem ela sabe o que quer.

— Ninguém aqui sabe o que quer — falou Miley. — É por isso que estamos viajando pelos Estados Unidos.

Eram cinco horas da tarde. Nossa próxima parada deveria ser uma pequena cidade antes de Las Vegas, chamada San Jose. Só que Mary vira a placa que indicava Las Vegas há 56 quilômetros e queria por tudo ir para lá. Taylor não queria, pois achava que ficaríamos loucas com tantos cassinos e perderíamos todo o dinheiro que tínhamos. No final trágico dela, teríamos apenas a nós e montaríamos um bordel de beira de estrada, perto do Caesar’s Palace.

— Quando saímos de Los Angeles, você disse que visitaríamos todos os lugares turísticos e não turísticos dos Estados Unidos — argumentou Mary. — Se Las Vegas não for um local turístico, eu não sei mais o que é!

— Por favor, Tay — implorei. — Para fazer a Mary calar a boca.

Mary lançou um olhar de cachorro sem dono para Taylor.

— Vamos, Tay — apoiou Selena. — Talvez ganhemos dinheiro lá e não vamos precisar aparecer na lista dos mais procurados da América.

— O que seria triste, mas muito bom — completei.

Taylor pensou por longos minutos. Enquanto isso, Mary terminou com a bateria de seu celular por puro ódio; Miley aumentou o volume do som numa música do AC/DC; Selena acariciava minha mão, jogando a franja para todos os lados; e eu apenas observava as quatro, tentando adivinhar no que estavam pensando.

— Tudo bem — disse, por fim, Taylor. Mary gritou de felicidade. — Mas vamos partir amanhã cedo, o.k.?

— Beleza! — exclamou Mary sem realmente ouvir.

— Quanto tempo acha que vamos ficar em Las Vegas? — perguntou Selena em meu ouvido.

— Dois dias — respondi.

— Três.

Ela apertou minha mão, selando a aposta.

Notas finais
A música que Taylor escuta é Mistery Train, do Elvis Presley, para quem sentiu curiosidade.
Reviews? *-*