Capítulo 6: O Convite para a Terra Firme


Nos dias seguintes, porém, uma sombra familiar começou a pairar sobre Taehyung. O peso das expectativas e a exaustão acumulada o engoliram. Ele entrou em um "apagão" emocional — aquela fase da depressão onde o mundo perde a cor e até responder uma mensagem parece carregar uma tonelada. Ele sumiu, não visualizou as notificações e não respondeu JungWoo por três dias.


Na quarta noite, o celular vibrou. JungWoo estava ligando. Taehyung atendeu, mas não houve imagem, apenas uma tela preta contra o travesseiro.


— Taehyung? — JungWoo chamou. A voz dele não era suave ou ensaiada, era apenas firme.


— Oi... — A voz de Taehyung veio como um sussurro quebrado, arrastada e sem vida.


— Você sumiu. Eu fiquei preocupado — JungWoo disse, sem rodeios ou meias palavras. — Não precisa se explicar, eu sei que às vezes as pessoas cansam de falar. Eu só liguei para saber se você ainda está aí.


— Eu estou... Só é difícil hoje, JungWoo. É tudo muito pesado. Eu não consigo ser quem eles querem que eu seja agora.


Houve um pequeno silêncio do outro lado. JungWoo não tentou dar conselhos motivacionais ou pedir que ele reagisse.


— Tudo bem. Você não precisa ser nada agora. Se quiser falar, eu escuto. Mas se quiser só ficar em silêncio, eu também fico na linha. Vou continuar fazendo minhas coisas aqui. Pode fechar os olhos. Eu não vou desligar.


— Fica... — Taehyung pediu, sentindo um alívio imenso pela falta de cobrança. — Só fica.


E assim passaram a madrugada. O som da respiração um do outro e o barulho ocasional de JungWoo virando páginas ou mexendo em algo no quarto eram o único fio que os prendia à realidade. No dia seguinte, Taehyung acordou e, ao tocar no celular, viu que a ligação ainda durava sete horas.


— JungWoo?


— Sim? — a voz dele veio instantânea, embora estivesse visivelmente cansada.


— Você ainda está aí? Por que não desligou? Você deve estar exausto, tem seus compromissos hoje...


— Eu disse que ficaria — JungWoo respondeu de forma simples, como se cumprir uma promessa fosse apenas um fato lógico. — Não faria sentido desligar se eu não tinha certeza de que você estava bem. Só queria garantir que você ia acordar melhor.


Eles se despediram logo após. Taehyung ficou olhando para a tela apagada, processando aquela experiência. Ele nunca foi alguém de namoros ou grandes paixões; já tinha tido seus casos, mas nada profundo. Ele não estava "apaixonado" por JungWoo, e nem sentia que ele era mais real que seus amigos de longa data, que estavam sempre ali por ele. A diferença era o peso. Com os amigos, havia o amor que vigia, que pergunta e que tenta curar com a melhor das intenções. JungWoo, por outro lado, oferecia algo raro: ele aceitava o silêncio sem tentar preenchê-lo. Foi essa aceitação desarmada, essa falta de cobrança por uma reação, que cativou a confiança de Taehyung de um jeito novo. Ele queria aquele cara por perto. Queria um amigo que fosse assim: direto, prático e que não se assustasse com o seu vazio.


Sua rede de apoio funcionava de forma automática. Seus amigos eram leais e, naquela tarde, Park Seo-joon era quem estava de vigia para garantir que ele não ficasse sozinho. Ao entrar, encontrou um Taehyung um pouco aéreo, mas nada assustador comparado aos dias anteriores.


— O que houve? — indagou Seo-joon, deixando seus itens na mesa de centro. — Você tem aquele olhar de quem não dormiu, mas não é o olhar de quem estava chorando.

​

— Estou confuso com o JungWoo — Taehyung confessou, com o pensamento longe. — Ele passou a noite inteira comigo em silêncio por chamada. Ele só... ficou lá. Sem me pedir para dizer uma única palavra.


Park Seo-joon respirou fundo, passando a mão no rosto enquanto assimilava o que acabara de ouvir. O ceticismo ainda estava lá, mas ele estava atento à calma do amigo.


— Certo. Me explica direito onde virou essa "noite de núpcias online" — zombou no final, sentando-se. — Deixa eu ver se entendi: o cara é um cozinheiro-astrônomo que não sabe quem você é, não pede nada e fica sete horas ouvindo o seu silêncio? Taehyung, para alguém fazer isso, ou o cara é um santo ou tem muito interesse em entrar na sua vida.


Taehyung revirou os olhos. Para ele, não era sobre flerte, era sobre ter encontrado uma nova frequência de amizade que ele queria preservar.


— Não é isso, hyung. Ele só é direto. Ele ficou preocupado e cumpriu o que disse. Ninguém faz isso sem querer algo em troca, mas ele fez. Eu quero que ele seja meu amigo na vida real. Quero somar ele no meu dia a dia.


Seo-joon permaneceu em silêncio por alguns instantes, tamborilando os dedos no braço do sofá. Ele decidiu tirar a prova e passaram a hora seguinte investigando a pegada digital de JungWoo. Tudo batia: fóruns de culinária, grupos de astronomia amadora, fotos antigas de faculdade. JungWoo era, de fato, apenas JungWoo. Sem registros de escândalos ou segundas intenções.


— É... ele é limpo, Tae — Seo-joon suspirou, jogando o celular de lado. — É realmente esse cara simples que você diz.


Taehyung sentiu um alívio imenso percorrer o peito.


— Eu te disse, hyung.


— Mas isso não muda o fato de que você está tratando esse estranho como se fosse um irmão de alma — Seo-joon zombou, mas logo mudou para um tom mais sério. — Escuta, se ele te faz bem, vocês precisam se ver. Se você quer ele como amigo na vida real, precisa saber se a conversa funciona ao vivo. Vou reservar o restaurante de um amigo, fechamos o andar. Segurança e discrição total. Você o conhece, vê se ele é mesmo esse cara pé no chão, e a gente garante que nada saia do controle. Se ele for um cara legal, vai entender o aparato de segurança.


Taehyung mordeu o lábio, o coração acelerando. Não era um encontro romântico, era o teste final para trazer JungWoo para o seu mundo.


— Você acha que ele aceitaria?


— Só tem um jeito de saber, "grude" — Seo-joon deu um tapa amigável no ombro dele. — Manda a mensagem. Convida o seu mestre das estrelas para um jantar na terra firme. Vamos ver se ele é tão bom de papo pessoalmente quanto é nas madrugadas.