Frequência do Amor
2 Capítulo 2
As semanas seguintes foram um borrão de compromissos. Taehyung tentou enterrar aquela interação bizarra da madrugada no fundo da sua mente. Sempre que pensava em JungWoo, a imagem que vinha era a de um cara estranho, um "louco" de internet que mandava mensagens sem sentido sobre não conseguir dormir por causa de um estranho.
— Ele é só... esquisito — Taehyung murmurava para si mesmo, guardando o celular enquanto o cabeleireiro finalizava seu penteado.
Porém, o problema não era o JungWoo. O problema era o que ele tinha escrito.
Sempre que Taehyung estava prestes a explodir de estresse no set de gravação, ou quando o vazio no peito voltava a soprar frio durante as madrugadas de insônia, ele se pegava abrindo a DM. Ele não lia as respostas curtas e secas que vieram depois. Ele ia direto para o trecho final do primeiro recado.
Aquela frase específica: "Trate sua própria alma com a doçura que você dedica aos outros, antes que não sobre nada de você para receber o que você tanto oferece."
Era bizarro. O JungWoo parecia uma pessoa comum, até meio "curta e grossa" nas respostas, mas aquele trecho... aquele trecho parecia ter uma frequência diferente. Não parecia ter sido escrito pela mesma pessoa que disse "não o culpo por me achar louco". Tinha uma calma, uma autoridade gentil que desarmava Taehyung todas as vezes.
Era como se o JungWoo fosse um rádio velho e chiado, mas que, por um segundo, tivesse sintonizado uma estação de música perfeita e cristalina.
— Que ódio — Taehyung bufou, jogando a cabeça para trás na cadeira.
Ele estava irritado porque estava começando a ficar dependente daquela sensação. Ele achava o JungWoo um cara "nada a ver", mas precisava desesperadamente do que o JungWoo tinha para dizer.
Foi em uma dessas noites de frustração, cerca de duas semanas depois, que Taehyung quebrou o próprio silêncio. Ele não queria ser legal, ele só queria entender a contradição.
"Como você consegue escrever coisas que parecem que me conhecem há dez anos, mas responder minhas mensagens como se você fosse um robô ou um cara que só quer terminar o turno?"
Ele enviou, cruzando os braços e esperando. Ele queria que o JungWoo pessoa finalmente explicasse o JungWoo "mensageiro".
O celular vibrou. Não era uma explicação longa. Era uma foto e um texto curto. A imagem mostrava um par de tênis pretos, desgastados e com marcas de poeira, sobre o chão de metal frio e riscado de um vagão de metrô vazio. O zoom estava quase focado nas costuras gastas do calçado. Logo abaixo, a resposta:
"Eu não sou um robô. Robôs não ficam cansados. E sim, eu só quero terminar meu turno. Ainda falta meia hora para eu conseguir chegar em casa e dormir."
Taehyung encarou a foto por um tempo. O zoom no tênis, o chão de metal do vagão... aquilo era muito diferente de tudo o que ele via o dia todo. Ele releu a mensagem. JungWoo tinha levado a comparação com o robô totalmente a sério, usando a exaustão física como prova de sua humanidade. Não havia sarcasmo ali, apenas uma honestidade tão nua que chegava a ser desconcertante.
Ele olhou para os próprios pés, calçados com um chinelo de marca que custava uma fortuna, e depois voltou para a imagem no celular. JungWoo não era um místico, nem um personagem de internet. Era só um cara que trabalhava no turno da noite, pegava o metrô de madrugada e estava genuinamente acabado.
Aquele par de tênis velho, mas limpo, era estranhamente maneiro. Tinha uma verdade ali que as roupas de grife do Taehyung não tinham. O cara não estava tentando impressionar; ele estava apenas mostrando que o turno acabou e ele precisava apagar.
— Então é isso... — Taehyung murmurou, jogando o celular no peito e olhando para o teto.
Ele não se sentiu "tocado" poeticamente. Ele só percebeu que o JungWoo era um humano real, com um emprego comum e uma vida cansativa. E o fato de ele não ter energia nem para ser simpático agora fazia todo o sentido. Ele só queria que aquela meia hora passasse para poder descansar.
Taehyung não respondeu. O que ele diria? "Bom descanso"? Parecia pouco. Ele apenas bloqueou a tela, mas a imagem do tênis ficou ali, martelando. Pela primeira vez, ele não estava intrigado com um mistério espiritual, mas com a rotina de um cara que ele nem sabia o rosto, mas que parecia ser muito mais autêntico do que qualquer um ao seu redor.
Três dias depois, Taehyung estava jogado em uma cadeira de lona nos bastidores de um set de filmagem. O clima estava tenso; um dos atores principais não conseguia acertar o tom de uma cena simples, e a gravação já estava atrasada em três horas. O tédio era quase insuportável, mas a pressão interna era pior.
Taehyung sentia o sangue ferver a cada erro do colega, a cada vez que o diretor gritava "corta". Ele sentia as mãos suarem de ansiedade. Ele mesmo já havia decorado não só as suas falas, mas as de todo o elenco, e não conseguia entender como alguém podia ser tão negligente. No entanto, ele não dizia nada. Sempre que alguém da produção passava por ele com um olhar cansado ou pedia desculpas pelo atraso, Taehyung forçava um aceno compreensivo e um sorriso contido. Ele tentava, com todas as forças, oferecer aos outros a paciência que ele nunca tinha consigo mesmo. Ele guardava a irritação no fundo da garganta, sentindo o gosto amargo do estresse, preferindo se sufocar com a própria raiva a ser o motivo do desconforto de alguém.
Ele observava a movimentação da equipe, o brilho excessivo dos refletores e a falsidade dos sorrisos de protocolo. De repente, a imagem do tênis desgastado de JungWoo voltou à sua mente. Onde aquele cara estaria agora?
Sem pensar muito, ele puxou o celular e mandou a primeira coisa que veio à cabeça:
"O que você faz quando não está descansando ou trabalhando?"
Ele bloqueou a tela, esperando que a resposta demorasse o dia inteiro, como das outras vezes. Mas, para sua surpresa, apenas duas horas depois — enquanto ele ainda esperava o "ação" do diretor — o celular vibrou.
"Eu gosto de arrumar a minha casa e cozinhar. E você?"
Taehyung arqueou as sobrancelhas. Foi a primeira vez que JungWoo devolveu uma pergunta. O tom era simples, quase comum demais, mas o pegou desprevenido. Arrumar a casa? Cozinhar? Eram atividades tão mundanas que Taehyung mal conseguia se lembrar da última vez que as fez sem uma câmera por perto.
Ele olhou ao redor, para o set caótico, para os assistentes correndo e para o ator que ainda errava as falas. Ele sentiu uma pontada de inveja daquela simplicidade.
"Eu estou preso em um set de filmagem há horas porque alguém não consegue decorar três frases", Taehyung digitou, a irritação aparecendo um pouco apenas na tela do celular, o único lugar onde ele se permitia ser honesto. "Então, agora, eu só estou sendo pago para ter tédio. Você cozinha o quê?"
Ele enviou e ficou olhando para a tela. Era estranho, mas falar sobre "arrumar a casa" com um desconhecido parecia muito mais interessante do que qualquer conversa que ele teve naquele set o dia todo.
Taehyung soltou um riso nasalado ao ler a primeira parte da mensagem.
"que droga..."
Era tão direto. Ninguém no set diria aquilo; eles diriam "tenha paciência" ou "faz parte do trabalho", mas JungWoo apenas concordou que a situação era ruim. E pronto. Não houve julgamento, apenas validação.
O celular vibrou de novo com o complemento:
"Estou preparando Japchae."
Taehyung inclinou a cabeça, tentando imaginar a cena. Ele conseguia visualizar o cara do tênis velho, agora em uma cozinha pequena, cortando vegetais e lidando com o macarrão de vidro. O cheiro de óleo de gergelim e shoyu parecia quase atravessar a tela, contrastando com o cheiro de laquê e poeira do set de filmagem.
— Japchae... — Taehyung murmurou.
Ele estava com fome, mas não era fome de comida de buffet de luxo. Era fome de algo feito em casa, por alguém que gosta de cozinhar no seu tempo livre.
"Você cozinha para muita gente ou só para você?" — Taehyung perguntou, sentindo que a conversa estava fluindo de um jeito estranho, mas confortável. "E o Japchae está com uma cara boa? Manda foto se não for te atrapalhar."
Ele enviou e ficou ali, balançando as pernas na cadeira de lona. O diretor finalmente gritou "Ação!", mas Taehyung agora estava muito mais interessado em saber se o Japchae do "louco" do metrô tinha ficado bom.
Nas semanas que se seguiram, as conversas entre os dois deixaram de ser eventos isolados e se tornaram parte da rotina. Não se falavam todo dia — a vida de JungWoo era exaustiva entre os turnos e os estudos, e a de Taehyung era um furacão de viagens e eventos —, mas havia um fio invisível que os conectava.
Eles falavam sobre coisas banais. Taehyung reclamava do café ruim dos camarins ou do frio que fazia nos ensaios de madrugada. JungWoo, por sua vez, contava sobre um tempero novo que descobriu ou sobre como o metrô estava estranhamente silencioso naquela manhã.
Não havia mais o peso de "quem você é?". Para JungWoo, Taehyung era apenas o cara que vivia entediado em sets de filmagem. Para Taehyung, JungWoo era o porto seguro da "vida real", o cara que cozinhava pratos incríveis em uma cozinha simples e que não se impressionava com o glamour do mundo das estrelas.
Eles aprenderam o ritmo um do outro. Taehyung já não esperava respostas imediatas, e JungWoo já não achava Taehyung um "louco" por mandar mensagens do nada. Eles dividiam o cansaço de mundos opostos.
Essa amizade silenciosa e digital se tornou o refúgio de Taehyung. No meio de tantas pessoas que queriam algo dele, JungWoo era o único que só queria terminar o prato que estava cozinhando ou chegar em casa para descansar. E, ironicamente, era essa falta de interesse na fama de Taehyung que o fazia querer falar com JungWoo cada vez mais.
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