Frequência do Amor
3 Capítulo 3
Taehyung estava com o headset apertado nas orelhas, os olhos fixos no monitor curvo enquanto seus dedos voavam pelo teclado mecânico. Ele estava em uma partida ranqueada com os amigos e o clima estava caótico no chat de voz.
— Alguém dá roaming nesse mid! O cara tá free farm! — Taehyung gritou, sua voz subindo uma oitava. — Eu tô tentando dar poke, mas esse suporte deles não sai de cima de mim.
— Calma, Tae! Tô chegando de Lee Sin, vou dar o insec e a gente limpa a lane — respondeu um dos amigos, rindo do desespero dele.
— Insec nada, você vai errar o Q e morrer pra torre, que eu te conheço — Taehyung rebateu, mas riu junto.
Ele estava jogando de Ezreal, tentando caitar o time inimigo, mas a situação estava feia. O time adversário tinha um Blitzcrank que parecia ter um imã nos ganchos.
— Ai! Fui puxado de novo! Que hitbox é essa? — Taehyung reclamou, vendo seu campeão ser deletado em segundos. — Tela cinza... que ódio.
Enquanto esperava o tempo de renascimento, ele deu um alt-tab rápido. Ele tinha deixado o celular ao lado do mousepad e viu uma notificação de JungWoo.
"Esqueci minha garrafa de café em casa hoje. Vai ser uma madrugada longa tentando não apagar em pé. Torça por mim."
Taehyung soltou um riso nasalado. Ele estava ali, cercado pelas vozes familiares dos amigos e pela adrenalina do jogo, enquanto o outro estava lutando contra o sono no silêncio do trabalho. O contraste era bizarro.
— Tae? Tá vivo? O Dragão nasceu e você tá parado na base? — a voz do amigo estalou no fone.
— Tô indo, tô indo! — ele voltou para o jogo, mas digitou rapidinho com uma mão só:
"Putz, sem café é pesado. Ó, aguenta aí. Daqui a pouquinho eu te mando um café, só espera eu terminar aqui porque não quero que meus amigos me matem. Tô parado na base e eles já estão surtando kkkkk. Não dorme!"
Ele bloqueou o celular e voltou para a partida com tudo.
— Voltei, voltei! — Taehyung gritou no microfone, fazendo o seu Ezreal dar um Flash seguido de um Ultimate perfeito no meio da Team Fight. — Olha o dano! Olha o penta vindo!
Assim que o Nexus inimigo explodiu e a tela de "Vitória" brilhou, a euforia do jogo começou a evaporar em segundos, como sempre acontecia. Taehyung ignorou os convites dos amigos para a próxima partida. Ele abriu um aplicativo de recompensas que raramente usava e gerou um código de cupom para uma cafeteria 24h.
"Toma. Ganhei esse cupom e não vou usar agora. Passa em uma franquia dessas aí perto, é de graça. Bebe algo forte pra não cair no chão!"
Ele enviou e ficou esperando, com o headset pendurado no pescoço. A resposta veio rápido:
"Obrigado pelo café, de verdade. Salvou meu turno."
E logo em seguida:
"E você... você tem amigos?"
Taehyung encarou a tela e arqueou uma sobrancelha, sentindo aquela pontada de indignação que sempre surgia quando falava com JungWoo. Uma risada curta e incrédula escapou de seus lábios.
— Mas o que esse louco pensa que eu sou? — resmungou para o quarto vazio, sentindo aquela raiva amigável subir pelo peito.
Ele era Kim Taehyung. Tinha amigos leais, pessoas com quem acabara de dividir horas de risadas e estratégias. Sua vida era cheia de afetos genuínos. Ele bufou, os dedos voando pelo teclado:
"Claro que eu tenho amigos! Eu acabei de te falar que eles iam me matar se eu perdesse o jogo. O que você acha que eu faço o dia todo? Fico conversando com as paredes?"
Ele enviou e cruzou os braços, esperando. Mas a resposta de JungWoo veio com aquele tom desarmante de quem simplesmente diz o que pensa:
"Desculpe. Eu não quis te ofender, Taehyung. É que, pelo jeito que você fala comigo... no meio da madrugada, ou quando está entediado no trabalho... eu achei que fôssemos iguais. Que você também estivesse sozinho."
Taehyung olhou para a luz do teclado, o silêncio do quarto subitamente parecendo mais pesado. Ele releu a mensagem: "...eu achei que fôssemos iguais. Que você também estivesse sozinho."
Aquilo o pegou de surpresa. Taehyung sempre imaginou que JungWoo fosse um cara sozinho — afinal, ele estava sempre trabalhando de madrugada e falando com um estranho na internet —, mas nunca o tinha imaginado como alguém solitário. Ouvir JungWoo admitir que se via "igual" a ele, e que essa igualdade vinha de uma solidão profunda, mudava a forma como ele via o outro.
Ele pensou nos amigos que ainda o esperavam no chat, pessoas que ele amava de verdade, mas percebeu que a depressão fazia o trabalho sujo de dar razão ao achismo de JungWoo. O outro tinha projetado a própria solitude nele e, embora Taehyung quisesse gritar que não era assim, ele não conseguia. A sensação de desconexão interna era tão real que a percepção "errada" de JungWoo parecia a verdade mais nítida que ele já tinha ouvido.
Pela primeira vez, o cinismo não servia de escudo. Ele percebeu que JungWoo tinha criado um laço baseado em uma fragilidade que ele escondia de todos. JungWoo não via o "ídolo com muitos amigos", ele via apenas o reflexo de um deserto que ele também habitava.
Ele encarou a tela por um longo tempo, mas não respondeu. Não queria admitir que a percepção distorcida do "louco" tinha criado uma sintonia tão forte. Acabou bloqueando o celular e jogando-o na cama, mas sabia que mandaria mensagem no dia seguinte.
Taehyung percebeu que era sempre ele quem iniciava as interações, como se precisasse provar para si mesmo que aquela conexão de "pessoas sozinhas" era a única coisa capaz de atravessar o seu vazio quando as luzes do monitor se apagavam. Ele era o grude, e estava começando a aceitar isso com uma facilidade estranha.
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