Fredo, Meu Querido Fredo
5 Você Não É Uma Fotógrafa Profissional, Mas Dá Pro Gasto
Notas iniciais
Todo mundo tem um tipo de lista. Há as listas de coisas para fazer antes de morrer, lista de compras, listas de meninos ou meninas mais bonitos da sala, lista de livros para ler, listas, muitas listas. Ágatha também tinha uma lista. Ela havia criado-a hoje de manhã cedo, depois de achar que se recuperara do que acontecera ontem. Na verdade, caros leitores, ela não tinha se recuperado e a prova disso era o nome de sua lista: “2 Maneiras Restantes para Minha Vida Ficar Ainda Pior.” Item 1 – Minha família toda morrer; item 2 – Minha família toda morrer e só sobrar Miranda.
Depois de concluir os itens, Ágatha desceu para tomar seu café da manhã. Pegou leite na geladeira, cereal e uma tigela no armário e se sentou à mesa. Marcus, como sempre, lia o jornal do dia, na parte de esportes e economia. Michele estava dando comida a Gabbe, que já começava a falar “papinha”, mamãe e papai.
– Filha, hoje eu tenho cabeleireiro marcado, então será que você podia ficar tomando conta do Gabbe para mim?
– E meu pai? – ela perguntou.
– Ele vai fazer hora extra no escritório. Estamos juntando o máximo de dinheiro possível para no final do ano viajarmos. – explicou.
– Para onde?
– Vamos visitar seu avô, ué.
Ágatha ficou boquiaberta. Tipo, ela iria para Rússia? No final do ano? Época de dentes rangendo e dedos roxos de frio? Não, não. Ela não iria de jeito nenhum. Daria um jeito, ficaria na casa de Luíza ou sei lá.
– Hum, legal. – mentiu.
A casa voltou a ficar em silêncio. Todos vivendo dentro de suas próprias mentes, Marcus preocupado com a bolsa de valores e com a partida seguinte e decisiva do seu time, Michele pensando se daria tempo de passar no supermercado para comprar mais água sanitária, que estava em falta. Ágatha estava submersa em seus pensamentos, analisando as questões que tinha que estudar para a prova de matemática e analisando como iria suportar Patrícia segunda-feira, Gabbe estava balbuciando palavras, junto com a papa e baba, dentre elas estava:
– Tita...
– O que você falou, bebê? – perguntou sua mãe, com aquela voz de pessoa retardada.
– Tita...
– Tinta?
Então, ele pegou uma colher de plástico e atirou em direção à Ágatha, acertando-a na cabeça.
– Ai! – ela lançou um olhar furioso para... Godofredo.
Este estava parado ao lado de Gabbe, rindo da cara dela.
– Eu adorei seu irmão! Ele tem um espírito de aventura, não sei... Me lembra alguém.
– Tita...
– Que nome é esse, Gabbe? – Michele perguntou, curiosa.
– Então, Tita, digo eu ou você diz? – Fredo perguntou.
– Ele está me chamando, mãe. – respondeu Ágatha.
Sua mãe olhou-a confusa.
– Eu o ensinei a me chamar assim. Acho que é mais fácil que Ágatha.
Parecendo querer comprovar o que Ágatha disse, Gabbe começou a bater palmas e sorrir.
– Não quero te ofender, mas esse seu irmão é mais inteligente que você. Ele me ouve, o que não é seu caso.
– Ahn, mãe. Tenho que subir, tudo bem? Estudar para a prova.
– Bons estudos, filha. – pronunciou Marcus, pela primeira vez no dia.
– Obrigado, pai.
– Quando eu for, eu te chamo para cuidar dele, ok?
– Ok.
Quando Ágatha entrou em seu quarto, alguém já a esperava.
– Não, não. Você não vai estudar. – disse Fredo, mais determinado do que se achava ser possível.
– E quem é você para mandar em mim?
– Qual é, Tita! – ele se levantou da cadeira. – Olhe só o céu hoje! – abriu a cortina e uma luminosidade absurda invadiu o quarto, queimando os olhos dela.
– Fecha isso! Meus olhos estão doendo!
– Não me diga que você não se lembra. – Fredo a instigou.
– Eu devia me lembrar de alguma coisa? – então, olhando dentro daqueles olhos castanhos brilhantes, ela viu que ele queria algo dela.
– Filha! – sua mãe gritou seu nome, interrompendo a conexão – Eu já vou para o cabeleireiro!
– Já estou descendo! – gritou de volta.
– Então, o que você vai fazer? – Fredo perguntou.
– Cuidar de Gabbe, o que você acha? – falou, irônica.
– E você vai deixa-lo aqui confinado dentro dessa casa?
– O que você quer, Godofredo? – ela indagou, cansada dos joguinhos dele.
– Agora assim estamos falando a mesma língua. – sorriu.
[...]
– Amiga, estou falando sério. É melhor você consultar um psicólogo.
Ágatha não pôde falar, pois um menino de uns quatro anos passou correndo atrás do cachorro entre ela e Luíza, gritando e com os braços levantados ao vento.
– O que tem de errado em passar um sábado de manhã num parque? – ela perguntou enquanto segurava a mão de Gabbe para ele andar.
– Não tem nada de errado em ir ao parque. O estranho é Ágatha Savin, a minha amiga, sair de casa para levar seu irmãozinho ao parque.
– Você vai ficar me estranhando ou vai me ajudar a por a toalha do piquenique? – perguntou.
– Como?! Eu acho que não ouvi direito. Você trouxe uma toalha de piquenique?
Ágatha suspirou, estressada.
– Olha, se não quer me ajudar, fique olhando Gabbe pelo menos.
– Ok.
Debaixo de uma árvore bem grande, que proporcionava uma deliciosa sombra, Ágatha estendeu a toalha e colocou a cesta no meio, como um aparador. Depois, se sentou, cansada. Ela também não sabia como tinha ido parar no parque. Se lembrava de ter colocado Gabbe no carrinho, pegado uma garrafa de água e frutas, uma cesta e ai já estava ligando para sua amiga e, de repente, o parque.
– Esse seu irmão é uma peste mesmo. Não para quieto! – Luíza comentou, percebendo a agitação dele.
– Você está surpresa porque não sabe de onde toda essa animação vem. – disse, observando Godofredo instigar o garoto a ficar inquieto.
Luíza a olhou de um jeito estranho.
– Que cara é essa? Tá com fome? – brincou sua amiga.
– É... Talvez a falta de glicose no meu sangue esteja me fazendo ter alucinações. – explicou. – O que você em ai na cesta?
– Água e frutas. – respondeu.
– Pronto! É agora! O mundo vai se acabar!
– Você é uma sortuda por não ter uma criaturinha dentro de casa que dita a dieta da casa.
Luíza riu.
– Pelo menos seu senso de humor negro ainda continua ai.
– Venha, Tita! – Fredo a chamou. – Vamos brincar!
Ágatha olhou para ele tipo você-acha-que-eu-tenho-quantos-anos?
– Que cara feia é essa, amiga? É fome, é?
– Idiota. – as duas riram.
– Mas é sério. Eu estou mesmo com fome. – disse Luíza.
– Uma banana saindo... – mas ao invés de uma banana, Ágatha encontrou sua máquina fotográfica.
Imediatamente, olhou para Godofredo, que tentava ensinar a Gabbe como se dava cambalhota. Percebendo o seu olhar, ele lhe lançou uma piscada de olhos e um sorriso malandro. Não teve como resistir, ela também sorriu de volta.
– Tá sorrindo para o nada, é amiga?
– Lu, eu preciso te contar o que aconteceu ontem. – ela começou, se virando para Luíza.
– É mesmo! Eu tinha me esquecido! Como foi?! Conta, conta!
Depois de narrar todo aquele episódio constrangedor e assustador, tendo que enfrentar a cara de assustada/horrorizada de sua amiga, alterando a parte em que Godofredo a faz perder o equilíbrio, Ágatha voltou a sentir toda aquela humilhação e o seu bom humor evaporou.
– Meu Deus! Mentira! E agora?! Meu Deus! – essa foi a reação de Luíza.
Sem saber o que falar, ela começou a bulir na sua câmera e, sem querer, a ligou. Estava surpresa por não tê-la danificado durante a queda. Mas, o que a surpreendeu mais ainda foi uma foto que foi tirada, sabe-lá-como, enquanto ela caia.
– Não acredito! Não pode ser!
Era uma foto, tremida, mais uma foto, tirada de um ângulo muito doido, com o flash dando um efeito especial, de Patrícia e Arthur se beijando.
– Luíza, veja isso!
– O que?! – perguntou a amiga, curiosa.
– Eu consegui!
– Conseguiu o que?
– Eu consegui a prova!
– Essa foto toda tremida?
Ágatha lançou-lhe um olhar de serial-killer.
– Quer dizer... – gaguejou — Nossa! Que bom! Digo... Você não é uma fotografa profissional, mas dá pro gasto.
– Você não entende o quanto isso é importante?! – Átagha perguntou, se sentindo a pessoa mais feliz por antecipação do mundo – Com essa foto, eu posso provar que Patrícia traiu Susana, então elas vão terminar o namoro ,e assim, elas finalmente vão parar de me abusar porque vão estar muito ocupadas sentindo raiva uma da outra!
– Realmente... – Luíza meditou um pouco – Não tinha pensado por esse lado...
Ágatha se sentia tão feliz que se esqueceu por um minuto... Não... Por dez minutos que ela não estava somente num bate-papo de vingança com Luíza. Ela estava ali como babá e, no momento em que ela recobrou a consciência sobre isso, o chão desmoronou sob seus pés.
– Tita... Ahn... Eu não queria te preocupar agora, especialmente que você descobriu isso e tals, mas seu irmão sumiu. – Godofredo apareceu do seu lado, dez minutos depois de Ágatha se sentir realizada.
– Ai meu Deus! Gabbe!!
– O que foi, Ágatha? – Luíza perguntou, preocupada.
– Eu pensei que você estivesse olhando ele!
– Desculpe, amiga.... Eu não queria...
– Eu não estou falando com... Esqueça. Só me ajude a procurar Gabbe. – disse e logo depois lançou um olhar de serial-killer de sétima temporada para Godofredo.
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