Fredo, Meu Querido Fredo
6 Eu Sou O Lorde Bumbum Mole!
Notas iniciais
– Então, filha, como foi seu dia?
– Ah, tia Michele, você nem iria acreditar! – disse Fredo, todo animado.
– Foi legal, mãe. – Ágatha respondeu, tentando se concentrar no seu livro de cálculo.
– “Foi legal, mãe”. – ele repetiu, com um papagaio só que com uma voz enjoada.
Ágatha revirou os olhos. Não bastesse ter que passar por aquele estresse de procurar loucamente Gabbe, Godofredo tinha que fazê-la ficar mais irritada. No fim das contas, foi o próprio Gabbe quem achou sua irmã e Luíza. A primeira tentou perguntar aonde ele tinha indo, mas parece que o menino fez voto de silêncio, porque ele nem sequer dava atenção ao que Ágatha estava falando. Luíza decidiu que era melhor ir para casa, pois seus pais a esperariam para o almoço. Já Ágatha teria que providenciar o seu e o de Gabbe.
Chegando em casa, ela o deixou no cercado enquanto preparava o almoço. Antes de sair, sua mãe deixou claro que não queria que mexesse no fogão, então teve que preparar uma lasanha congelada para ela e encontrou a comida de Gabbe separada numa vasilha dentro da geladeira. Primeiro, alimentou seu irmão e só depois conseguiu um pouco de paz para almoçar e ter quinze minutos de estudo sobre matemática.
– O que você está fazendo, Tita? – indagou Godofredo, mostrando mais curiosidade do que provocação em sua pergunta.
– Não é da sua conta. – respondeu ela, mas logo em seguida se arrependeu. – Estou estudando.
– O que?
– Matemática.
– Por quê?
– Porque eu tenho prova amanhã.
– Por quê?
– Porque as escolas obrigam você a fazer provas.
– Por quê?
Ágatha deu um suspiro, deixando parte de sua raiva sair pelas narinas. Ela nivelou seu olhar com o de Fredo e, ao fazer isso, percebeu que ele a estava fazendo de boba. Aquele sorriso atrevido... Ele parecia se deliciar com aquilo, mas que tipo de mente perturbada gosta quando as pessoas ficam irritadas com você? Não querendo mais discussões, Ágatha voltou a se concentrar no seu livro e começou a meditar um mantra para aquele espírito a deixar em paz. Quando achou que Godofredo já tinha sumido, ela virou o rosto e sondou o quarto. Nada.
A campainha tocou.
No momento em que ela abriu a porta, preferiu cem milhões de vezes que seu amigo imaginário ainda estivesse com ela, distraindo-a. Talvez, assim, o destino mudasse de rumo e Arthur não estivesse bem na sua frente.
– Você! – ele exclamou, se lembrando da noite passada. Uma menina despencando em cima de uma árvore...
Ágatha arregalou os olhos. Seu sangue gelou e começou a achar que não seria capaz de emitir sequer um som. A reação imediata dela foi fechar a porta na cara dele, com um estrondo.
– Ufa! Ainda bem que existem portas! – falou, aliviado, Godofredo ao seu lado, mas ela nem notou.
O estrondo foi tão grande que acabou acordando Gabbe, que caíra no sono logo após ter almoçado. Então, só então, Ágatha entrou em pânico. O que fazer primeiro? Será que Arthur ainda estava parado em frente a sua porta?
– Anda, Tita! Faça algo rápido! – Godofredo a azucrinava.
De repente, a campainha tocou novamente. Ela ainda estava lá. Ágatha foi até a janela da sala para poder espiá-lo. Notou que Arthur segurava uma sacola plástica em uma das mãos, com coisas grandes dentro. Que diabos aquilo poderia ser? Ai meu Deus! Não... Mentira... Ele estava com a perna esquerda engessada! Por causa dela!
Gabbe deu um grito ensurdecedor, o que fez com que sua irmã despertasse do devaneio. Ela correu em direção ao cercado e o apanhou do colo, sacudindo-o.
– O que foi Gabbe?
– Eu fiz coco. – disse com aquela voz melosa.
– Não brinca...
– E agora, Tita, o que vai ser? – Fredo sorriu, desafiador. – Vai limpar o seu irmão ou vai deixar Arthur mancando na porta?
A campainha tocou de novo. Ágatha começou a suar de nervosismo. Será que teria condições de encarar o menino com a perna engessada, tentar explicar o que acontecera noite passada e convencê-lo de que Patrícia não era uma boa pessoa? Ela sabia que lá dentro preferia ter que limpar a bunda suja de Gabbe. Perdida e com a cabeça dando voltas, Ágatha acabou fazendo um pouco de cada coisa.
Tirou a frauda fedida, mas esqueceu de jogá-la no lixo e foi atender a porta.
– Ahn... Tita... Isso tá fedendo muito... – Fredo tentou alertá-la, mas parecia fora de si.
– Oi. – ela disse, morrendo de vergonha. – Desculpe ter batido a porta na sua cara, é que...
– Não. – Arthur a interrompeu. – Tudo bem, eu só vim entregar isso. – ele esticou o braço e entregou a sacola.
Como eu disse, Ágatha estava fora de si, por isso não sentiu nem um pingo de curiosidade para saber sobre o que se tratava o saco. Ao invés disso, ela disse:
– Você gostaria de entrar?
Meio desconfiado, Arthur aceitou o convite.
– Tita, eu não gosto dele. Você não deveria ter feito isso.
– Cala a boca. – ela sussurrou para Godofredo.
– O que disse?
– Ahn?
– O que?
– É... Você gostaria de um pouco de água?
– Pode ser.
Enquanto Ágatha ia para a cozinha, Arthur sentou-se no sofá de uma maneira que ficasse confortável para a sua perna engessada. Godofredo ficou no sofá em frente ao dele, encarando-o com o cenho franzido e os cílios cerrados. Se o convidado, por algum motivo, notasse a presença do menino imaginário, a situação poderia ser considera engraçada. Um estranho na casa de uma menina estranha te analisando com um olhar penetrante. Mas, por motivos superiores, ele não podia enxergar Godofredo.
– Aqui está sua água. – disse Ágatha, aparecendo em sua frente com o copo estendido.
– Obrigada. – agradeceu.
– Eu sou o lorde bumbum mole! – gritou Gabbe, de repente, brotando de não-sei-da-onde e correndo pela sala. Infelizmente, era uma cena que, além de constrangedora, era nojenta, porque o lado de trás estava meio... sujo.
Foi então que Ágatha notou a burrice que tinha feito e pensou: “A frauda!”. Ela se levantou num pulo e lançou um olhar certeiro em direção a frauda, mas outra pessoa já tinha feito isso. Sim, Gabbe. Ele estava de olho nela, como um leão vigiando sua presa.
– Um, dois, três... – contou Godofredo e no segundo seguinte, os dois irmãos saíram em disparada em direção a frauda, para ver quem chegava primeiro até ela.
Óbvio que Ágatha era mais rápida e, por causa disso, conseguiu pegá-la primeiro, o que não foi bem um grande feito, pois, na hora da euforia, não se deu conta de como tocou na frauda... Resumindo, sua mão ficou suja de coco.
– Que nojo! – exclamou Arthur, ainda sem triscar na sua água.
– Nossa, Tita, que cagada... Entendeu? “Cagada”...?
– Tita mão de coco! – Gabbe zombou da cara dela, dando-lhe um apelido bem idiota.
– Pois você vai ver, seu bostica! – ela explodiu.
Partiu atrás dele numa perseguição incessante. Ele soltava gritos agudos de pura adrenalina e gargalhadas de diversão. O único problema seria se ele melasse algum móvel, ai sim, ele iria pagar... Arthur permanecia imóvel, sentado no sofá, se questionando por que aceitara entrar numa casa cheia de malucos. Decidiu que estava na hora de dar um fora. Foi se levantando de mancinho até consegui ficar em pé.
– Aonde você pensa que vai? – perguntou Godofredo, notando seus movimentos lentos e calmos. – Não pense que vai conseguir sair assim. – e sem raciocinar direito, deu um chute em uma das muletas dele, fazendo-o perder o equilíbrio e cair.
O barulho da queda despertou a atenção de Ágatha e de seu irmão. Ambos se viraram para ver o que tinha acontecido. Chocada, ela arregalou os olhos e sentiu o chão desmoronar sob seus pés, na sua reação previsível. Arthur estava caído, novamente, com a barriga para baixo e o rosto... bom, o rosto... É o destino, sabe? Mas, o rosto estava... dentro da frauda.
– Bem feito! – resmungou Godofredo.
[...]
– Mãe, eu só acho que deveríamos acelerar com o processo de Gabbe em relação a largar as fraudas. Ele já tá ficando meio grandinho.
– Você nem pode falar nada, filha. – Michele riu – Só foi parar de fazer xixi na cama com cinco anos.
– Táaa, mãe! Não precisa ficar lembrando isso!
– Sério, Tita?! Cinco anos?
Ágatha revirou os olhos.
– Tudo bem. Você ganhou. É a mãe dele, não é? Faça o que bem entender. – ela se levantou do sofá e subiu direto para seu quarto.
– Nossa, Tita. – comentou Godofredo – Não precisava ser tão grossa.
No momento seguinte em que disse isso, ele recebeu um tapa em seu rosto.
– Você! – ela explodiu – Você é o culpado disso tudo! Minha vida estava uma merda quando você apareceu, e não sei como, você conseguiu piorar a situação! Eu te odeio, Godofredo. Te odeio com todo meu coração!
Seu amigo imaginário estava com uma face inexpressiva. Era impossível dizer o que ele sentia ou o que lhe passava pela cabeça. Parecia que nem o tapa tinha atingido-o. Ele se manteve em pé, ereto, encarando Ágatha como um zumbi, alguém morto.
Alguém que não existia.
– Até mais. – disse, antes de desaparecer, com uma voz de robô.
Mais tarde, enquanto nossa querida protagonista estava dormindo feito uma pedra, ela recebia uma visita. A noite estava no seu ápice. Era lua cheia e com sua magnitude, seu brilho invadia o quarto de Ágatha sem pedir licença, iluminando seu rosto. Seu corpo todo estava sendo observado por Fredo. Ele se perguntava como ela fazia aquilo, como ela conseguia ser. Simplesmente ser.
– Ah, Tita... – lamentou ele. Logo em seguida, estranhou o tom da sua voz. Ele nunca havia falado daquele jeito.
Levantou-se e foi direto para o atelier dela. Fez isso como se já tivesse feito um trilhão de vezes. Ficou a contemplar seus quadros. Ele não podia entendê-los, interpretá-los, então apenas os observou, ouvindo seus silêncios e vendo coisas que nunca compreenderia. Porém, um deles em especial chamou sua atenção. Parecia ter sido pintado recentemente. A obra era simples, muito simples. Não passava de uma forma oval, branca por dentro e preto por fora. Era um ovo com o fundo preto, disso eu tinha certeza, mas Fredo não enxergou aquilo. Ele enxergou um rosto, um rosto sem preenchimento. E lá ele ficou, em pé parado até o sol nascer, procurando qualquer traço, linha ou mancha que desse algum sinal de que aquilo futuramente poderia ser o rosto de alguém.
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