Capítulo 2



“Eu não acredito! Não acredito que meu pai me mandou para Birmingham!”,
eu pensava enquanto descia do avião, depois de nove horas sentada ao lado de
uma maquina mortífera de gases. O Bolinha, como eu apelidara o homem gordo e
fedido, descia um pouco atrás de mim, e eu ainda sentia seu cheiro.



Caminhei uns poucos minutos até a esteira de bagagens. Como
era de se esperar, a minha foi uma das últimas. Carreguei-a até a entrada do
Aeroporto Internacional de Birmingham, onde consegui um taxi que me levaria ao
hotel. Geralmente, os ‘intercâmbistas’ ficam em casas de alguém que mora no
país do intercâmbio, mas eu preferi ficar no hotel, sem ninguém para me encher.



Depois de meia hora consegui chegar no hotel. Resgatei
minhas malas do banco de trás do taxi, paguei o taxista de cara emburrada, que
apelidei de Palito, por causa de sua magreza e sua altura, e encaminhei-me até
a recepção do lindo hotel cujo nome simplesmente ignorei.



- Com licença, fiz uma reserva no nome de Anna James –
murmurei com meu inglês arranhado para o recepcionista.



Ele digitou meu nome lentamente no computador, e sorriu.
Levantou-se, pegou uma chave que estava perdurada na parede e me entregou.



- Aproveite sua estadia – disse ele.



- Obrigada – sorri e peguei as chaves de sua mão. Ele
aparentava ter uns cinquenta anos, e era simpático. – Qual é o seu nome?



- Vince.



- Obrigada, Vince.



Subi para o quarto, e com certa dificuldade abri a porta.
Larguei as malas no chão e pulei na cama, testando-a. Era macia. Fui até o
banheiro e me deparei com uma banheira enorme. Por fim, fui até o frigobar ao
lado da cama. Ao abrir, uma lata de cerveja caiu aos meus pés. Peguei-a, e
mesmo odiando o gosto amargo, decidi bebê-la. Tinha gosto de liberdade.



- Isso é muito ruim! – gritei enquanto pulava na cama com a
lata de cerveja. Coloquei um dos CDs que eu tinha trazido na mala no pequeno
aparelho de som que tinha ao lado da televisão, e aumentei ao máximo seu
volume. Quando me dei conta, estava pulando, bebendo e cantando. Às duas da
manhã num quarto de hotel. Em Birmingham.



Uma batida na porta. Saltei para o chão, caindo e sem
querer, derrubando a cerveja no carpete. Abaixei com dificuldade o som do
rádio, e fui abrir a porta. Vince me esperava, os braços cruzados, o olhar
reprovador.



- Sabe que horas são? – perguntou. Assenti, e
cambaleei. O movimento me deixou tonta.
– Vá dormir. Largue essa cerveja – ele murmurou, arrancando a lata dos meus
dedos e adentrando o quarto.



Abaixou-se na frente do frigobar, e pegou as latas de
cerveja que restavam. Jogou-as em uma sacola que apareceu do nada. Eu tentava
fazê-lo parar, mas ele era forte. Não muito mais do que eu, mas eu mal
conseguia parar em pé. Terminou de jogar minha liberdade na sacola misteriosa,
e recolheu as latinhas o chão. Tentei contá-las enquanto ele pegava, mas os
números fugiram da minha cabeça.



Vince saiu do quarto enquanto eu observava o espelho. Eu o
segui, mas tinha algo duro nos separando. Após alguns minutos examinado,
conclui que era a porta. Decidi que seria melhor eu dormir. Cai na cama, e
apaguei em pouco tempo.