Fraterno
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Fraterno
By Amanur
Capítulo 9
...
Os retumbes do meu coração faziam eco dentro do meu corpo. E as vibrações desse eco me faziam estremecer por completo. A vigor das emoções conseguiu me animar um pouco mais para a tal festa receptiva. Eram dez horas da noite, quando eu via a nossa casa encolher pelo espelho retrovisor do carro. Para contribuir com a minha tragédia, a noite estava plena. O céu estava perfeitamente enfeitado por um fio prateado, e salpicado com o que sempre me pareceu com gliter. E o vento vinha em pequenos sopros num abraço acolhedor, fazendo com que eu me sentisse leve. Esses eram os sinais de que eu precisava para saber que minha noite seria boa. Mas por que eu sentia aquele frio cretino na boca do estômago, como se houvesse um pequeno redemoinho fazendo uma reviravolta dentro de mim?
O automóvel parou em frente a um casarão. O lugar era utilizado somente para festas particulares, como formaturas e aniversários. Do lado de fora, já sentíamos o chão vibrar com a música perturbadoramente alta.
— Divirtam-se, crianças! — papai nos disse — E lembrem-se, não bebam demais! E se tiverem vontade de cheirar algo, peguem as meias.
Dei um longo beijo no meu pai e desci do carro, com Sasuke me seguindo logo atrás dos meus passos. Um rapaz alto, com uma fantasia não identificada, é quem fazia a recepção. Entregamos nossos ingressos a ele, e tivemos passe liberado para entrar, atravessando um enorme jardim florido.
O lugar estava belissimamente decorado. Somente velas davam iluminação ao ambiente, e havia cortinas em tecidos de camurça em tons escuros, cobrindo todas as janelas. No chão, tapetes turcos complementavam a decoração, com vasos de samambaias pendurados nas paredes. Havia poucos móveis espalhados; apenas sofás grandes, de couro, entre alguns bancos de madeira se via pela casa. A cozinha não tinha acesso liberado, mas de cinco em cinco minutos saia alguém em trajes típicos carregando bandejas com bebidas e petiscos. O lugar não estava tão cheio quanto eu havia imaginado. Deveria haver em torno de duzentas pessoas, no máximo, transitando naquele espaço todo. A sensação que tínhamos era de que a casa iria nos engolir ali dentro; estava só esperando o momento certo para dar o seu bote.
Mas era divertido ver todas aquelas pessoas fantasiadas. Quase me fez sentir dentro de um tempo passado mágico. Havia vários Romeus e Julietas, desfilando seus vestidos pelo salão, entre alguns Oberons, Hércules, Macbeths, Apolônios, Helenas, Hipólitas, entre outros personagens de Shakespeare. Até a música que tocava remetia aos bons costumes da época. Flautas, gaitas, sanfonas, oboés acompanhavam tamborins em um ritmo leve, descontraído.
— Acho que vou dormir em algum desses sofás. — Sasuke comentou — Isso aqui está mais tedioso do que ver o Itachi fazendo tranças.
Assim que passou um dos rapazes do serviço com bandeja, ele pegou duas taças com bebidas. Entregou-me uma delas. Hesitante, molhei os lábios apenas para provar o sabor daquele liquido vermelho. Tinha um forte gosto agridoce, com uma dose cavalar de álcool misturado a alguma fruta que não reconheci.
— Não vá tomar mais do que essa taça, hein? Faz um ano que você não bebe, e isso está muito forte... Não quero vômito nos meus pés! — Sah ainda me advertiu. Eu apenas consenti.
Com as taças nas mãos, caminhamos até o pátio da casa, onde as pessoas pareciam se aglomerar mais. E logo entendi o porquê. Havia uma bela piscina, com pequenas velas coloridas boiando sobre a água em pequenos frascos de plástico transparente. Do outro lado da piscina, vi a garota ruiva vestida de Ofélia. Era a primeira vez que a via vestida com algo que não fosse preto. Timidamente, ela acenou para mim. Respondi ao seu acendo, indo me encontrar com ela.
— Adorei o seu vestido. — comentei. Era longo, branco, com detalhes dourados nas pontas das mangas e na barra do vestido. Ela ainda usava os cabelos soltos, com uma espécie de coroa que ia presa atrás da cabeça, toda enfeitada com folhas verdes e rosas vermelhas. Ela não usava seus quase inseparáveis óculos de grau, o que nos permitia ver as cores dos seus olhos. Um castanho tão claro que, sob a luz, às vezes pareciam vermelhos.
— E você... Uma Julieta diferente. — respondeu, se referindo à cor dos meus cabelos. Sasuke me deu uma cotovelada discreta, concordando com o que ela disse. Eu apenas revirei os olhos.
— Por que esta festa parece mais vazia do que deveria ser? — indaguei, para ninguém em particular.
— Por que somos do curso dos excluídos da sociedade. — ela disse — São poucas as pessoas que se formam em filosofia. Por isso, também, que há pouca gente na nossa turma.
— Bom para nós! — Sasuke comentou — Quanto menos concorrência, melhor.
— A filosofia é a arte de contrariar tudo. Por isso, poucos se aventuram nela! — a ruiva ainda disse.
Não sei aquilo fazia algum sentido no geral, mas com certeza se aplicava a mim. Eu era, de certa forma, uma excluída. Talvez a única da categoria dos excluídos desmoralizados, contrariadores da moral.
Distrai-me olhando para o fogo que flutuava sob a água, esvaziando a minha taça enquanto Sasuke conversava sobre qualquer coisa com a ruiva. As conversas paralelas ecoavam por todos os lados, mas tudo o que eu conseguia pensar era que aquelas chamas deveriam estar carbonizando a mim.
De repente, uma música alegre, mais agitada, começou a tocar. Sentado, perto da porta, vi Naruto com uma taça vazia em mãos. Como Sasuke parecia entretido com a moça, me aproveitei para me distanciar. Sentei ao lado de um Hamlet loiro, bastante elegante em seus trajes escuros. Ele usava uma suave colônia madressilva, me convidando a sentar mais perto.
Olhando a nossa volta, as pessoas pareciam se agitar um pouco mais, ao som da nova música que tocava em algum aparelho de som. Já havia alguns casais ligeiramente alcoolizados se embalando pelo pátio.
Naruto sorriu, aparentemente por nada. E então me olhou.
— Acabei de me lembrar de uma frase que li esses dias... De ciúmes morreu Julieta, de amor morreu Romeu. De tanto gostar de ti, quem irá morrer sou eu!
Sorri para ele, completamente sem palavras para citar.
— O que Romeu disse para Julieta em mil palavras, você me demonstrou em apenas um sorriso. — ainda me disse.
— Temos alguém muito inspirado hoje por aqui, não? — comentei.
— Inspirado, alcoolizado... Que diferença faz, não é mesmo? — ele diz, dando de ombros — Eu te puxaria para uma dança, se essa droga de sapatos não me machucassem tanto.
— Então tire-os. Ou vai mesmo deixar que um sapato te vença? — desafiei.
Ele me olhou desconfiado. Sem dizer nada, meio resignado, foi retirando, portanto, o seu calçado. Se pôs de pé, e ofereceu a mão. Aceitei, e fomos caminhando mais para o centro daquele enorme pátio. O chão era todo de concreto, mas comecei a achar que estava pisando nas nuvens. Eu sabia que era o Naruto, segurando a minha mão e me conduzindo para os passos, mas eu apenas conseguia ver o Sasuke em seu lugar. O quão bom seria poder andar com ele assim, sem me preocupar com os olhares alheios, e os pensamentos tão ocultos quanto explícitos nas expressões?
Mais uma bandeja passou por nós, e apanhei mais uma taça. Quem sabe, com mais álcool no sangue, eu conseguiria afugentar o rosto do meu irmão da minha mente?
Ok, na verdade, no fundo, eu sabia que isso não iria acontecer. Eu sabia que a reação seria justamente a contrária. E no fundo, bem lá no fundo, eu não me importava com isso. No fundo, eu queria esquecer todo o princípio moral e religioso que havia metido na minha cabeça. Eu queria ser livre por alguns segundos de toda a moralidade que me prende, dizendo como devo agir ou não. Eu queria apenas ter uma noite com meu irmão, que eu pudesse levar para sempre sufocado na memória. Pelo menos, por um dia, eu poderia dizer fui completa. Será que eu seria mesmo castigada por querer desfrutar um pouco de felicidade? Será que valeria mesmo à pena sacrificar meu espírito?
E o que estou fazendo, com todas essas interrogações?, me perguntei. Dúvida e sinceridade caminham de mãos dadas na mente dos tolos. Um enganando ao outro. Mas eu deveria separá-los. E escolher com qual deles ficar.
Fiz minha escolha. Esvaziei a taça, antes que pudesse me arrepender ainda mais. Sasuke me olhava com aquele sorriso malicioso, que o vira exibir algumas vezes, quando víamos alguma cena de sexo em algum filme. Me forcei a ver o Naruto. Ele olhava para o outro lado da piscina, divertindo-se com o que não me interessava.
As pessoas ao meu redor pareciam todas mais animadas. Algumas meninas, as raras que se viam por ali — pois, infelizmente, filosofia afugenta as mulheres —, jogavam seus cabelos de um lado para o outro, ao som da música típica.
E então, de repente, o ritmo muda drasticamente. Uma música nada a ver com o tema da festa começa a tocar. Um rock mais melódico. Suspeitei que alguém tivesse trocado de cd, julgando a festa parada demais.
Vi o mundo aos meus pés girar cento e oitenta graus, quando Naruto me rodopiou segurando minha mão. Durante os quatro giros que dei, de relance, vi Sasuke misturado à multidão. Ele abraçava alguém. Depois, passou as mãos nos ombros de alguém. E então, a abraçou. E por fim, o vi beijar a ruiva.
Sasuke sempre que queria, conseguia cativar os outros com o charme implacável que eu só conseguia encontrar nos olhos do papai. Acho que o Sah puxou bastante a ele, enquanto eu e o Chi tínhamos a seriedade meio antipática da mamãe.
Se Naruto não estivesse me segurando pela mão, eu teria me desmanchado no chão. Na verdade, eu poderia ter evaporado ao calor das velas; por que desmanchada, eu já me sentia perfeitamente. Não consegui me manter de pé, tanto pelo abalo emocional, quanto pela bebida que fazia efeito. Sentia o copo pesado como rocha no fundo do mar, mas meu espírito parecia querer se desprender daquela carcaça pesada e inútil.
Naruto me envolveu em seus braços, sempre sorridente.
— É mesmo verdade que você é lésbica? — me perguntou.
Minha capacidade racional foi drasticamente reduzida a uma risada débil, meio nervosa, meio alegre. Ele, entendendo ou não minha resposta, deslizou a mão sobre meu rosto, contornando meus lábios com o polegar. Seus olhos azuis turquesa me levaram a um mergulho nas profundezas daquele mar. Fui tão fundo, que só enxerguei a escuridão assustadora dos olhos do Sasuke. E de repente, os fios dourados foram manchados por uma tinta ônix. E então, lentamente, Sasuke veio se aproximando cada vez mais do meu rosto. Senti o doce cheiro de sua respiração sobre a minha pele. Antes mesmo do encontro, nossos lábios já se procuravam no ar. Um afoito pelo toque macio do outro. Imediatamente, meus braços conseguiram as forças que lhe faltavam para agarrar os cabelos macios dele; para me fundir ainda mais a seu beijo molhado e quente. Sua língua me penetrou sedenta, ávida por minha saliva. Senti um desejo inexplicável, destruidor, avassalador, devorador e impiedoso de libertar da minha mente todas as ilusões e fantasias que havia acumulado, e trancafiado no fundo da consciência. Os pensamentos giravam incontroláveis dentro da minha mente, se debatendo contra a parede invisível que havia lá, os aprisionando. Tentei liberar o grito final de misericórdia, me rendendo àquele terrível pecado mortal que me arruinava, mas nada saiu. Nada saiu, por que no fundo eu sabia que não era o Sasuke ali. No fundo eu sabia que estava apenas enganando a mente enganada.
Dentre todos os desejos carnais, há algo mais errado do que isso?, me perguntei. Ao mesmo tempo, contudo, um par de mãos dividiu aquele beijo errado. Eu caí no chão, sentindo impossibilidade de sustentar meu peso sobre os pés. E então, também vi o loiro no chão. Comecei a rir, achando que ele tivesse se desequilibrado e caído de bunda no chão, mas ele estava deitado, com o nariz sangrando. Ainda assim, eu não conseguia parar de rir, em nervosismo, por não conseguir entender o que estava acontecendo ao meu redor.
As imagens a seguir vieram em borrões recheados com gritos e berros, inundando meus sentidos. E novamente fui tocada por um par de mãos, que me ergueu do chão. Quando me dei conta, já estava sendo arrastada para o jardim do casarão. Mas tudo o que eu via era aquela mão masculina com dedos entrelaçados aos meus.
Sasuke me levou até a esquina daquela rua. Eu via seus lábios se moverem freneticamente, mas eu não conseguia me focar em sua fala. E aquilo foi o máximo que consegui caminhar, sem expulsar tudo o que revira-voltava no estômago. Apoiei-me na mureta de uma casa, me agachei sobre a calçada, e vomitei aquele líquido vermelho.
— Mas que merda, Sakura! Eu te disse para não beber mais que uma taça! Por que você deixou aquele panaca te beijar? Você não ouviu minhas advertências?
Invadimos o jardim de uma casa, vendo uma torneira baixa. Ele me ajudou com o cabelo e as roupas, enquanto eu enxaguava a boca.
— Beba essa água. — me disse — Você vai vomitar mais, mas ajuda a limpar o estômago.
O álcool estava começando a perder seu efeito sobre mim, mas, por impulso, quis me aproveitar do que restou no meu sistema. Comecei a sorrir como uma criança boba, que recém ganhou seu presente de natal, lembrando do que aconteceu.
— Ele me beijou! Ele me beijou! E que doce, eram seus lábios. Que quente era sua língua. Que macias eram suas mãos. Que deliciosa a sensação de desejo proibido me afogou naquele momento! — cambaleante, fui até ele. Eu ainda dizia mais algumas asneiras meio shakespearianas quando enrosquei meus braços em volta do pescoço dele, e o beijei. Um beijo que começou leve como um suspiro, e rapidamente se tornando num grande vendaval. Mantive meus olhos abertos, não por querer. Sua expressão se transformou de um susto para espanto, quando pus minha língua dentro dele. E tão rápido quanto aquele meu impulso imprevisto, me dei conta de que aquele não era a ilusão que eu havia criado na beira da piscina. Aquele realmente era o Sasuke. Em carne osso e pavor.
E então, eu não estava mais lá. Meu coração disparou tão rápido quanto uma bala que sai pela culatra, levando todo o meu oxigênio. Se ele tivesse ganhado pernas, já estaria a quilômetros de distância. Só que esse disparo me pegou desprevenida, me causando aquela mal estar. Dissolvi-me em seus braços, para deixar meus olhos morrerem na escuridão do meu inconsciente.
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