Fraterno

11 Capítulo 10


Notas iniciais
Gente, estou de saída, mas resolvi passar aqui rapidinho para deixar esse capítulo, se não só à noite poderia postá-lo. Acho que esse é um dos mais importantes da história. Eu respondi somente aos reviews mais rápidos, mas prometo responder à todos assim que voltar.
Boa leitura.

Fraterno

By Amanur

Capítulo 10

...



Uma vez, participamos de uma peça de teatro na escola. Em determinado momento, escorreguei no, infelizmente, muito bem encerado piso de madeira. Em pleno ato! No palco, uma camada de silêncio cobriu o salão de atos da escola, e ainda fui fuzilada pelos olhares dos nossos colegas, que não souberam o que fazer no palco. Para me dar apoio, Sasuke se meteu na cena, e fingiu escorregar também. E então, veio uma onda de risadas arrancada do público. Algo no modo como Sasuke despencou no chão, tinha sido cômico para os que nos assistam. Sei lá, quando o Chi não estava por perto, era o Sah quem me acobertava sempre.


Mas o que eu queria dizer é que eu não sabia mais se ele reagiria daquela forma para me socorrer. Afinal, o que poderia ser feito diante daquela situação tão peculiar?


Acho que por causa do cansaço mental, do alcoolismo e do sono, só acordei quando meu despertador tocou no dia seguinte. Não fazia a menor idéia de como havia ido parar de volta ao meu mundo de quatro paredes. Não sabia nem se Sasuke havia chamado um taxi, ou ligado para o papai. Só sabia que já era segunda-feira; início da segunda semana de aula. Não vi motivo algum para levantar da cama, no entanto. Eu queria que uma luz alienígena, que fosse, surgisse no meu quarto e me levasse para bem longe dali. Ou então, que eu tivesse o meu julgamento final de uma vez por todas. Qualquer coisa poderia acontecer comigo. Eu não me importava mais com o que acontecesse, desde que eu não precisasse mais encarar aquele dia.


E então, Sasuke bateu na minha porta. Pela primeira vez, desde que voltei para casa, ele bateu três vezes e ainda não entrou.


Anda, Sakura, levanta. — sua voz estava baixa, meio resignada, como se não quisesse falar. E em seguida, ouvi seus passos distanciar pelo corredor.


Silenciei meu monólogo interno, que discutia “ir ou não ir”. Não sei se acredito mesmo em destino, mas com certeza acredito que as coisas acontecem por algum motivo. Se acordei aquele dia, significa que eu deveria seguir a diante, ao invés de ficar murchando na cama. Por mais tentador que aquilo fosse, é claro.


Rapidamente, com o coração dando pauladas contra o peito, vesti uma calça jeans, com uma blusa regata vermelha. Pus nos pés o que encontrei de mais prático para calçar; uma sapatilha. Puxei minha mochila da cadeira da minha mesa de estudos, e fui voando até a cozinha. Vi o vulto do meu irmão zanzando entre a pia e a geladeira. Tentei me desviar dele, mas nos prendemos no meio do caminho em alguns passos de valsa não ensaiados, num vai e vem constrangedor. Até que, impaciente, ele me segurou pelos ombros, me fazendo parar, e desviou. Ele não teve palavra alguma para me dizer, assim como não tive olhos para vê-lo. O constrangimento conseguia ser maior do que aquela vez em que vimos uma cena de sexo num filme.


O caminho de ônibus até a faculdade não poderia ter sido mais taciturno e angustiante do que foi. Eu tinha certeza de que ele se lembrava de tudo tão bem quanto eu, e queria que ele dissesse algo a respeito. Qualquer coisa. Aquele silêncio me incomodava como uma agulha na ponta do dedo. Ele me punia com sua ausência de voz, e eu sabia que ele sabia disso.


Na sala de aula foi mais torturante ainda. A impressão que eu tinha era de que todo mundo olhava somente para mim; como se soubessem da calamidade que havia feito. O professor Asuma começou a aula falando sobre Tales de Mileto.


—... Foi o primeiro filósofo ocidental de que se tem notícia. Ele é o marco inicial da filosofia ocidental com sua teoria. "O mundo evoluiu da água por processos naturais", disse ele, aproximadamente 2460 anos antes de Charles Darwin. Sendo seguido por Empédocles de Agrigento na mesma linha de pensamento evolutivo: "Sobrevive aquele que está melhor capacitado". Tales foi matemático e astrônomo, além de filósofo, e aparece como o iniciador da filosofia, porque seu esforço em buscar o princípio único da explicação do mundo não só constituiu o ideal da filosofia, como também forneceu impulso para o próprio desenvolvimento dela. Tenham em mente que a tendência do filósofo é sempre buscar a verdade da vida na natureza! E foi isso o que ele fez.

— Dizer que ele acreditava que o princípio do mundo vindo da natureza, não implica na crença de uma divindade? — o sobrancelhudo meio largado perguntou.

— E qual o problema? — o professor perguntou — Muitos filósofos desenvolveram argumentos para a existência de Deus, tencionando combater as aparentes contradições implicadas por muitos destes atributos. Como, por exemplo, a tentativa absurda de querer comprovar que Deus exista, e sua relação com as criaturas. Como disse um pastor, Deus não existe. Ele é Ele mesmo pra além de toda essência e existência. Portanto, argüir acerca da existência de Deus é o mesmo que negá-Lo. Deus não existe. Ele é. Eu existo. Pois existir não é algo que seja pertinente ao que É. Existir é o que se deriva do que sendo, É de si e por si mesmo. Deus não existe. O que existe tem começo. Deus nunca começou. Deus nunca surgiu. Nunca houve algo dentro do que Deus tenha aparecido. Deus não existe. Se Deus existisse, Ele não seria Deus, mas apenas um ser na existência. Se Deus existisse, Ele teria que ter aparecido dentro de algo, de alguma coisa, e, portanto, essa coisa dentro da qual Deus teria surgido, seria a Coisa-Deus de deus.


“Existem apenas as coisas que antes não existiam. Existir surge da não existência. Deus, porém, nunca existiu, pois Ele é. Sim, dizer que Deus existe no sentido de que Ele é alguém a ser afirmado como existente, é a própria negação de Deus. Pois, se alguém diz que Deus existe, por tal afirmação, afirma Deus, e, por tal razão, o nega; posto que Deus não tem que ser afirmado, mas apenas crido. Deus É, e, portanto, não existe. Existe o Cosmos. Existem as galáxias. Existem todos os entes energéticos. Existem anjos. Existem animais e toda sorte de vida e animal vivente. Existem vegetais, peixes, e organismos de toda sorte. Existem as partículas atômicas e as subatômicas. Existe o homem. Etc. Mas Deus não existe. Posto que se Deus existisse dentro da Existência, Ele seria parte dela, e não o Seu Criador. Um Criador que existisse em Algo, seria apenas um engenheiro Universal e um mestre de obras cósmico. Nada, além disso. Com muito poder. Porém, nada além de um Zeus Maior.“


Enquanto discursava, eu percebi que o Asuma me lançava discretos olhares. Senti-me pressionada contra a parede, percebendo que aquela conversa tinha tudo a ver com o trabalho que entreguei a ele. Eu existo ou não?


Mas diante dessa longa explicação meio confusa, ninguém se atreveu a questionar nada. Eu virei o rosto, muito levemente para trás, a fim de ver a expressão do Sasuke sobre aquele assunto, mas desisti no meio do caminho quando meus olhos encontraram os do Naruto. Eu havia me esquecido dele completamente, até então. O loiro piscou um de seus olhos turquesa para mim, com um leve sorriso desenhado nos lábios cortados. Um sorriso torto, amarelado, resignado e hesitante. Era quase como se estivesse com medo de mim.


Supus que eu devesse ter ficado contente por ele nutrir algum interesse, seja lá qual fosse, mas não foi o que aconteceu. Detestei cada milímetro daquela manifestação benevolente, ou não, à minha pessoa. A minha mente estava apenas inclinada para o lado do meu irmão, apesar de não entender por que Naruto me olhava daquele jeito.


Quando o horário para o intervalo se aproximou, o professor tirou de sua pasta um monte de papéis. Quando ele começou a fazer a chamada, pedindo para que quem fosse anunciado fosse até a mesa, entendi o que aquilo significava.


Meu sangue gelou. Virou pedra, e não corria mais pelas minhas veias. E sem sangue correndo no organismo, não tive oxigênio bombeando o cérebro. E sem isso, eu não raciocinava direito. O professor teve que chamar meu nome três vezes, e o Sasuke ainda teve que me dar um beliscão no braço, para me tirar daquele transe nebuloso que passava por mim.


— Acorda, sua múmia! — ele resmungou.


Engoli a seco, e levantei do meu lugar, sem jeito. Atrapalhei-me com a minha mesa, na hora de afastá-la, e sai olhando para os meus passos desalinhados. O professor apenas passou a folha para mim, e pronto. Não disse nada. Quem eu era para argumentar contra isso?, me perguntei. Peguei meu trabalho, e fui correndo de volta para o meu lugar, enquanto Sasuke cruzava o meu caminho por ser o próximo da chamada.


Sentei em minha cadeira, com as mãos suadas. As enxuguei sobre a calça jeans que eu vestia. Minhas mãos tremiam tanto, que tive que as esconder debaixo da mesa. Discretamente, ou não, inspirei algumas vezes para me acalmar. E então, peguei a folha. Antes de ler o que ele havia escrito para mim, resolvi reler o que eu havia escrito, só para ter a certeza de que havia mesmo feito a loucura que pensava que tinha feito. Quem sabe, tudo não passava de ilusão da minha mente doentia! E me torturar ainda mais afundando minha cabeça num balde de vergonha, é claro.


“Os sentimentos não podem ser comprovados que existam no ser humano, mas ninguém nega que eles estejam lá, presente no caráter de todos nós. No entanto, meu corpo está aqui, e posso comprovar que existo através da minha certidão de nascimento. Mas e se eu realmente não estiver aqui? E se tudo for ao contrário? Por que às vezes não nos sentimos completos? por que sentimos que falta de uma parte nossa, quando não nos sentimos felizes? O que é esse sentimento de felicidade que sentimos? Por que os sentimentos são tão volúveis? Por que não temos controle sobre eles, se Deus nos deu o livre arbítrio? E se os sentimentos não forem mesmo nossos? E se eles forem controlados por alguém, talvez, Deus? Isso não significa que há, então, destino? Que a pessoa que você ama, está destinada a ser amada por você?, já que não escolhemos quem amar? Se assim for, eu não existo. Não existo por que os sentimentos não são verdadeiramente meus. O caráter não é verdadeiramente meu.


Mas se assim for, tenho mesmo permissão para amar qualquer pessoa? Amar um corrupto, enganador, um assassino, um estuprador ou... Até mesmo o meu irmão?”


Eu fiz isso!, disse a mim mesma. Eu disse o que não deveria ter insinuado. Por mais sutil que tivesse ficado, o professor era um homem inteligente e tenho certeza que ele captou a mensagem.


Asuma deixou uma anotação atrás da folha.


“Quais as coisas que definem o que a gente é?” — era tudo o que havia escrito.


Sasuke voltou para sua mesa, pegou suas coisas, e foi saindo da sala bem no instante em que a ruiva saia da sala também. Ele sequer olhou para trás.


— Posso te acompanhar até o restaurante. Tem uma coisa que eu queria te perguntar. — Naruto, de repente, apareceu ao meu lado, com as mãos nos bolsos da calça.

— Me espere lá. Preciso dar uma passada no banheiro. — respondi.


Ele não disse mais nada. Apenas virou-se e saiu da sala. Terminei de guardar meus materiais, e fui saindo junto com o cara dos piercings no rosto, quando o professor me chamou. Engoli a seco, sentindo minhas mãos suarem novamente.


— Sim?

— Me responda aquela perguntinha que deixei no seu trabalho, quando quiser... Mas gostaria que me respondesse, sem falta.


Olhei para os lados. Só faltava um cabeludo de cabelos brancos e tatuagens na testa sair. O esperei pacientemente até que restasse somente eu e o professor na sala.


— Eu pensei que fossem os sentimentos que define quem somos. — lhe disse.


Ele sentou sobre sua mesa, cruzando os braços, me olhando.


— Também... Mas há outra coisa que nos define ainda mais.


Agora fui eu quem cruzou os braços, pensativa.


— Bonito pingente, a propósito. — ele comentou, vendo minha pequena cruz dourada pendurada no pescoço. Meio sem jeito, a cobri com a mão, tentando adivinhar o que ele queria dizer com aquele comentário.

— O pensamento? — perguntei.

— Ah-rá! O princípio do caráter está, sem dúvidas, no pensamento. Por que são eles quem se refletem nas suas ações. E são suas ações que define quem você é.

— Tão óbvio... — resmunguei, me repreendendo.

— Talvez. Mas dizer que o sentimento te define, não está errado. Por que você pode perfeitamente agir de acordo com o que sente. E o que você sente, muitas vezes, domina o pensamento que, por sua vez, se reflete na ação.

— É como estar bêbada numa festa, e encontrar o cara que você ama, e cometer a bobagem de... — resolvi me calar, antes de falar demais — Sei lá... — dei de ombros.

— Hehe... É tipo isso.


Acho que ele havia dado aquela conversa por encerrada, pois desceu da mesa e voltou a arrumar suas coisas para ir embora. Mas eu estava sentindo centenas de alfinetadas pelo corpo, desesperada para me livrar delas com mais uma dúvida.


— Professor... O senhor acha mesmo que seria errado... — o restante da frase ficou engasgado. Mas não precisei sequer pensar em uma desculpa qualquer para me livrar dela, e ir embora sem precisar finalizar meu pensamento, pois o Asuma me interrompeu.

— Eu dou aula há vinte e sete anos, sabia? E devo confessar que, em toda a minha carreira docente, ou até mesmo na época em que fui estudante, nunca ouvi alguém mencionar mesmo que ligeiramente, a possibilidade sobre o incesto. Mas não me entenda mal! Não estou te julgando, ou fazendo acusações. É só uma observação boba que fiz... Mas voltando ao assunto, quero dizer... Claro, quando abordamos a religião — e ele olhou furtivamente para o meu pingente, de novo — o assunto sempre é tocado por que a bíblia diz algumas coisas... Peculiares a respeito. Mas fora desse contexto, nunca ouvi alguém mencionar. Isso me impressionou. Acho que isso significa que temos alguém em sala de aula pensando mais que os outros...

— E...? — perguntei, morrendo de medo do que ele pudesse me dizer. Até precisei me apoiar em sua mesa, sentindo minhas forças falharem.

— E nada. Estou apenas comentando. Eu gosto de poesia, sabia? E você, gosta? — fiz que sim com a cabeça, apesar de não ser meu tipo de leitura favorita, e sem entender o motivo da troca de assunto, tão fora de contexto — Que bom. Toda pessoa deveria ler poesia de vez em quando. Por que a poesia é a arte de sensibilizar. O que seria do mundo se o víssemos sempre com esses olhos crus, que só enxerga a dura realidade que nos cerca? A poesia te dá uma nova perspectiva de ver as coisas. Te ajuda a sentir o mundo de outra forma... Entende o que eu quero dizer? O sentimento é o que importa, Sakura. Do que adianta dizer uma coisa se você não sente o que você diz? Para que servem as palavras vazias? — mais uma vez, ele olhou para meu pingente — E se você for entrar no aspecto religioso, ainda poderia dizer que, para Deus, ser supremo que tudo sabe, que tudo vê, o que importa é o que você sente, o que você pensa e que você faz, e não o que você diz. Por que Ele sabe o que você pensa, Ele vê o que você faz, e compara com o que você diz.


Isso me veio como um choque, que corre pela espinha, de surpresa.


— Eu já estou condenada? — perguntei a mim mesma, e sem perceber que havia dito em voz alta.


Ele deu uma breve risada.


— Hehehe. Você realmente acha isso? — olhei para meu professor, me perguntando o que dizer — Bom, já falei demais. — ele finaliza.


O vi juntar todas as suas coisas, e se dirigir à porta da sala. Mas antes de atravessá-la, ele olhou mais uma vez para o meu pingente.


— Apenas se pergunte sobre isso: você acha mesmo que Deus condenaria alguém por amar? Seja lá quem fosse essa pessoa! O que significa o sangue, para quem vai passar o resto da eternidade em forma de espírito? Lembre-se que somos todos filhos de Deus; somos todos irmãos perante a Ele. Seu corpo é constituído da união de fluídos de um homem e uma mulher. Mas a sua essência, o seu espírito, é fruto de Deus. O meu, o seu, o de seus pais. Somos todos, essencialmente, irmãos. Você realmente acha que Deus condenaria algo, sendo a carne e o sangue algo tão banal; vital somente para a sobrevivência aqui, na Terra? Se quando formos para o reino Dele, seremos apenas espíritos, sem distinção de sexo e sem laço sanguíneo algum! — então, ele se foi, me deixando ali, completamente à deriva do turbilhão de pensamentos que chicoteavam minha cabeça.



Notas finais
Algum comentário?
As informações sobre Tales de Mileto foram retiradas daqui:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Tales_de_Mileto
E aquele texto sobre Deus não existir, daqui:
http://www.reflexoes.diarias.nom.br/COLABORADORES/ALVARO/AVISAODOSFILOSOFOSSOBREDEUS.pdf