Fraterno
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Fraterno
By Amanur
Capítulo 8
...
Eu não consegui aplacar as energias que corriam pelo meu sangue, me impedindo de apagar meus nervos, aquela noite. Eu só fechava os olhos por menos de um segundo, quando piscava as pálpebras para lubrificar meus olhos.
Eu fitava o teto branco, sem luz. Deixara a janela do quarto aberta para que a brisa fria inundasse o quarto e congelasse a carne e o espírito, para, quem sabe, só assim conseguir fechar os olhos e dormir — mesmo que fosse eternamente, para nunca mais despertar novamente. Até agradeceria se isso acontecesse, na verdade. Qualquer coisa seria melhor do que ter que olhar novamente para aquele homem sério e barbudo.
Decidi tomar uma xícara de chocolate quente. Eram três e quinze da manhã. Mas ao chegar à cozinha, desisti. Chocolate é energético, e só iria piorar meu sono. Ou a falta dele. Preparei, então, um chá de camomila. Era tranqüilizante e sonífero. Deveria servir bem ao meu propósito.
Com a xícara quente nas mãos, fui para a sala. A cozinha, de repente, parecia me comprimir. As paredes pareciam estar contra mim, se aproximado lentamente de mim. Só que a sala também não queria colaborar. E então, a casa inteira se preparava para me expulsar dali. E, por isso, saí às pressas pela porta da frente. O ar puro do jardim aliviou a pressão, embora a impressão ainda estivesse viva. Sentei-me na calçada, olhando a rua silenciosa, sem vida. Bebericava aos poucos, vendo o vapor subir até meio palmo de altura para se dissipar com o vento fresco do ambiente.
Assustei-me com uma mão em meu ombro.
— Não consegue dormir? — meu pai sentou ao meu lado, passando o braço pelos meus ombros, me aninhando a ele. Fiz que não com a cabeça.
— A mamãe está roncando de novo? — perguntei.
— Não, não... Apenas preocupações do dia-a-dia. E você?
— O que você teria feito se tivesse deixado que algo horrível acontecesse, mas não fosse capaz de mudar nada?
— Hum... Eu pediria ajuda para alguém. Provavelmente correria direto para o meu pai. — ele diz, insinuantemente. Sorri de canto, agradecida pela sugestão, mas tive que negar.
— Não posso contar a ninguém.
— Então deixe-me dar apenas um conselho. Não se torture tanto. Lembre-se que a perfeição não existe. Busque apenas o bom ou o melhor possível! Buscar perfeição pode levar ao hospício! A natureza evolui justamente porque é imperfeita. Chama-se mutação. Li isso em algum lugar...
— O senhor está me dizendo para mudar? Mas eu já fiz isso.
— Talvez você não tenha feito a mudança necessária para que houvesse a transformação desejada.
Bufei insatisfeita. Eu não sabia se aquele conselho realmente fazia algum sentido para mim, mas resolvi guardá-lo para outra ocasião. Eu ainda precisava testar a carta dourada, que eu tinha na manga, chamada Naruto, antes de partir para outra estratégia.
No dia seguinte, passei a aula do professor Azuma de cabeça baixa, o tempo inteiro. Em parte pelo sono da noite mal dormida, e outra pelo medo, constrangimento e ansiedade que me mordiam ao mesmo tempo. Pelo menos, fiquei assim até alguém perguntar se ele já havia corrigido os trabalhos e ele respondeu que não; só corrigiria no final de semana. Aí, senti, instantaneamente, uma onda fresca de alívio me banhar até os ossos.
Ao final da primeira semana de aula, descobri que filosofia é mais difícil do que parece. Não só pensamos sobre o mundo em todos — e quero dizer com isso absolutamente TODOS! — os aspectos da humanidade, desde o comportamento mais fútil de uma patricinha, às tomadas de decisões de políticos, como também damos a cara ao tapa fazendo críticas que ninguém quer ouvir.
A primeira semana se passou rápida demais, para o meu gosto. E então veio domingo; o dia da festa de boas vindas aos calouros. Sábado, eu e Sasuke havíamos saído para comprar nossas fantasias. Apesar do gelo que ele havia me dado durante a semana, me senti quase de volta no tempo. Rimos das pessoas que passavam por nós, cobiçamos coisas que víamos nas vitrines, e até paramos para tomar sorvete no meio do caminho.
Mas foi quase. Se não fosse as insinuações chatas que fazia.
— Esse vestido está decotado demais, Ku. Deus vai te castigar pelo pecado da luxúria! Você vai arder eternamente no mármore do inferno.
O único vestido que conseguimos encontrar em todas as lojas que fomos, relacionado a Shakespeare, era da Julieta. O único que eu não queria.
— Mas falando sério agora... Por que você não quer levá-lo? Ficou ótimo, Sakura! — ele me disse.
— Eu não gosto de Romeu e Julieta. A história é fraca demais.
— Romeu e Julieta, uma história fraca? Você está brincando?
— Romances impossíveis não existem. As pessoas são cômodas demais. E homem algum arriscaria o que Romeu arriscou só por uma mulher. — minha língua batia nos dentes, enquanto eu cuspia as palavras.
— Bom... Nisso, acho que não há o que argumentar. Mas talvez os homens daquela época fossem mesmo diferentes.
— Homens são todos iguais, não importa a época. Li isso num livro. — resmunguei, voltando para o provador da loja, para me livrar daquele vestido. Era uma réplica idêntica do vestido usado pela Olivia Hussey — a atriz que interpretou a personagem no segundo filme produzido da obra — na cena do primeiro beijo com Romeu. O vestido era de um forte tom de laranja, contrastando com detalhes em um verde escuro e dourado. A vestimenta ainda contava com uma espécie de quipá feminino adornando a cabeça, todo produzido em um tecido de fios dourados, e ainda levava uma fita também dourada que deveria ser enroscada numa trança.
Ao sair da cabine, encontrei Sasuke com uma sacola nas mãos.
— Que fantasia você escolheu? — perguntei.
— Não é óbvio? Romeu!
— ROMEU? POR QUE ROMEU? Por que não Benvolio, Páris, ou mesmo Teseu, Lisandro, Oberon, ou qualquer outro personagem!
— E qual o problema com Romeu? — ele cruzou os braços, me encarando. Ele realmente estava me encarando, me desafiando.
— Você é meu irmão! Não pode ser meu Romeu... — as palavras quase entalaram na garganta.
Ele soltou uma risada debochada, seguido de uma bufada em desdém.
— Tsc! Calma, Sakura, é só uma fantasia... Ou por acaso você esperava que outra pessoa fosse o seu Romeu? — indagou desconfiado, destacando propositalmente aquele pronome possessivo.
Mas aproveitei a deixa.
— Na verdade, eu esperava que Naruto fosse.
— Tsc! Não se deixe levar pelos olhos dele. Naruto é um idiota, que fuma maconha, e que só saiu da escola por que colava de todo mundo. — ele me diz, dando as costas.
Bom, essa notícia fez com que toda a minha animação para a festa escorregasse das minhas mãos, como sabonete cheio de espumas. Num piscar de olhos, já não estava mais ali.
No Domingo, já não tinha mais vontade nem de sair da cama. Afinal, aquela era a minha carta mais valiosa na manga. Eu poderia tentar algo com algum outro aluno, mas havia me simpatizado mais com o loiro. Claro, Naruto nem chegava à ponta do dedão dos pés de Sasuke, mas talvez por isso mesmo eu tivesse me agarrado à idéia de sair com ele. Eu precisava me aproximar de alguém que fosse completamente diferente do meu irmão, para assumir o controle dos meus pensamentos.
Mas foi Itachi quem me convenceu a ir. Ele entrou em meu quarto, trazendo uma taça de sorvete de creme, por que eu não quis almoçar. Atirou seus chinelos no meio do quarto, e sentou ao meu lado, na cama.
— Eu não larguei de lado o mistério que você está escondendo, Saky, mas vou descobrir. Já tenho algumas suspeitas, na verdade, mas só direi quando tiver mais convicção.
— Desista. Você não vai descobrir. — respondi, pegando meu sorvete. Quem sabe assim, eu conseguiria amenizar o gosto amargo da derrota que sentia na boca. Quem sabe o sorvete fosse capaz de fazer deslizar aquela pedra presa no fundo da garganta.
— Não me subestime! Mas estou preocupado... Vá à festa, sim. Vai te fazer bem se divertir um pouco. Você não desgrudou os olhos dos livros para passar no vestibular, e já começou o curso fazendo trabalhos; você merece um descanso. Além disso, é bom se socializar com gente da mesma área. Sem falar que o Sasuke ficaria insuportável, se você desse com o pé atrás agora.
Esse foi o conselho mais útil que alguém poderia ter me dado.
— Chi, como foi o comportamento do Sasuke durante minha ausência? — perguntei, enquanto me deliciava com o doce.
— Mais azedo, impossível! Nos primeiros dias, ele ainda chegava a entrar aqui no teu quarto te chamando. Bom, o pai também fez isso... Depois, começou a bater bola dentro de casa, impaciente, até que a mãe murchou aquela coisa, quando o idiota quebrou aquele jarro italiano que ganhou do Tio Madara no ano retrasado. E então, resolveu se empenhar nos desenhos. Fazia uns quinze desenhos por dia, tudo para se manter entretido com algo. — Chi, então, me tirou da cama me puxando — Venha ver os desenhos. Ele ficou bom nisso, de tanto praticar.
Fui arrastada pelo corredor, como um saco de batatas, até o quarto deles. Sasuke assistia a um filme de seção da tarde com papai na sala, enquanto a mamãe terminava de lavar a louça do almoço.
Itachi abriu a porta do guarda-roupa do Sah, e apontou para uma caixa de papelão aos fundos. A puxou cuidadosamente, a repousando sobre a cama de baixo do beliche. Estava cheia de folhas rabiscadas. Ele pegou um monte e foi espalhando pelo colchão, reclamando não acreditar que o Sasuke não tenha me mostrado ainda. Os desenhos estavam todos misturados; rabiscos bem elaborados entre rascunhos toscos. A maioria era rostos de celebridades, e alguns objetos, como cadeiras, mesas, o sofá da sala, a televisão, a estante de mogno da mamãe. Havia um retrato do papai também, mas ainda precisava de vários ajustes na expressão.
Estávamos comentando sobre a falta de cores nos desenhos, quando o próprio entrou no quarto.
— Não acredito que você ainda não mostrou a ela seus desenhos, Sah! — Chi lhe disse.
Sasuke pareceu ligeiramente irritado.
— Que diferença faz? — resmungou.
Ele foi até o armário, pegou a sacola com a fantasia, e saiu do quarto dizendo que mamãe faria a barra da calça. Ainda perguntou se eu não precisava fazer algum ajuste no meu vestido, insinuando que eu devesse cobrir todo o decote até o pescoço.
Comecei a me vesti quando o sol de pôs. O vestido dava um pouco de trabalho, com tanto tecido. Tive que contar com a ajuda da mamãe principalmente com a fita que prendiam o meu cabelo. Ela já estava terminando prender o quipá com pequenos e discretos alfinetes em minha cabeça, quando Sasuke entrou no quarto reclamando de sua roupa azul, que ficara um tanto quanto singular nele.
— Ainda bem que o pai vai nos levar de carro. Nem a pau que eu saio assim na rua! — ele resmungava, ajustando as mangas.
— Deixe de ser fresco, menino! — mamãe lhe disse — Eu iria adorar sair na rua vestida de Julieta! Você está tão linda! — disse para mim.
— Tenho certeza de que naquela época sequer havia tinta para cabelo. — meu irmão resmungou.
Assim que mamãe finalizou meu cabelo, foi socorrê-lo com a roupa. A calça de Romeu caia muito justa ao corpo do Sasuke. Quando ele viu que contive a risada, ele lançou aquele olhar furtivo, ameaçador. Então, dei as costas e me fui para frente do espelho do meu guarda-roupa, para pôr uma maquiagem leve no rosto.
— Não vai levar a namorada? — mamãe perguntou. Estremeci ao som daquela palavra, mas mantive-me calada e atenta à resposta.
— Não tenho namorada, mãe!
— E a Ino?
— Continua sendo nossa vizinha! — murmurou, meio emburrado.
— Ai, ai, ai! Não fazem mais romances como antigamente! — mamãe reclamou.
E eu contive o sorriso que se esforçava para se abrir no meu rosto. De repente, senti que poderia flutuar no ar. Quem sabe, até, eu conseguiria caminhar sobre a água, ou nadar nas nuvens. Mas em seguida me repreendi, descendo de volta na realidade, refrescando a memória sobre meus planos. Se Sasuke não caiu de joelhos por ela, eu deveria encontrar outra.
Eu passava cuidadosamente um rímel nos cílios quando percebi, através do reflexo do espelho, que os olhos dele queimavam minha pele num fogo diferente. Doce, talvez. Ele refletia-me em seus olhos atentos, enquanto mamãe mexia na barra de sua calça, aos seus pés. Ele me olhava sério, de um modo que me deixou encabulada, sugando meu oxigênio e me obrigando a desviar o olhar a todo custo.
Notas finais
ah, a roupa deles está no blog, para vocês terem uma idéia melhor do que eu estou falando aí!
http://amanur.blogspot.com/2011/11/fraterno.html
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