Notas iniciais
Mais um. Boa leitura.

Fraterno

By Amanur

Capítulo 4

...

Para provar que eu estava, pelo menos, empenhada, decidida e determinada a limpar minha mente dos pensamentos impuros e conflitantes que rodeavam minha mente, tomei mais uma decisão. Na verdade, mais precisamente, eu fiz uma listinha de resoluções para o ano novo. Dessas, que nem a metade é realizada. Mas como a minha lista era pequena, eu botava fé que ela seria completamente realizada, sim!

Bom, o primeiro item era passar no vestibular. O segundo era perder cinco quilos. O terceiro era me apaixonar por alguém. E o quarto, era fazer com que o Sasuke se apaixonasse por alguém.

Eu sabia que não eram itens fáceis de concretizar, no entanto.

Claro!, milagres não acontecem para quem não merece. E eu tinha plena consciência de que não era merecedora de tal grandiosidade. Por isso, me botei para estudar até perder o tato das mãos e cotovelos, de tanto escrever, resolver exercícios e apoiar a cabeça. Passei o mês de Janeiro inteiro estudando, lendo e calculando para estar preparada para o dia das provas do vestibular, que ocorreriam no início de Fevereiro. Às vezes eu ainda pedia ajuda ao Chi com algumas matérias, e ele prontamente me auxiliava quando podia, enquanto eu via o Sah andar por aí bem despreocupado com a vida.

E então, o relógio começou a tiquetaquear mais alto. Eu não tinha me dado conta que iria estudar com o Sasuke. Quero dizer... Eu sabia, tinha ouvido a notícia, mas a ficha não tinha caído. Quero dizer... Eu não tinha compreendido o que aquilo significava. Que além de morar sob o mesmo teto que ele, eu ainda o teria que me castigar por mais quatro anos, confinados em uma sala de aula com ele até que eu pudesse juntar dinheiro suficiente para me manter independente da minha família. Esperava me ver livre dele por pelo menos algumas horas do dia, enquanto estivesse estudando, mas acho que essa idéia foi totalmente pelos ares como folhas secas de primavera.

Isso, se ele levar essa palhaçada adiante, é claro. Pois a probabilidade disso acontecer era tão mínima, que chegava a ser ridículo que eu me preocupasse com isso.

No dia das provas, o Chi nos levou no carro do papai até a faculdade. Pelo caminho, eu ia me perguntando como seria esse ano novo. Que tipo de pessoas eu iria conhecer, o que aconteceria de significativo comigo. O ano novo sempre vem cheio de espectativas e medos. E, ironicamente, me lembrei de algo que Sasuke me disse, certa vez.

— Pessoas negativas sofrem menos, por que não carregam expectativas. Logo, não sofrem decepções. — infelizmente, eu acho, sempre mantive o pensamento positivo para tudo. O contrário do próprio Sasuke, que puxou mais ao papai, eu suponho.

Quando percebi, Chi parou o carro em frente à instituição. Havia carros e pessoas para todos os lados, do lado de fora. O murmurinho conínuo, e o som do vento lamuriante parecia ser o som principal a embalar aquela tarde nublada, em que a chuva prarecia prestes a castigar o solo. Aquele tom cinzendo do céu parecia querer transmitir alguma notícia ruim. Mas preferi me manter no encalço da luz branca que batia brandamente contra o chão, lembrando-me que ainda havia luz sobre a terra e nada de ruim ou indesejado aconteceria.

— Boa sorte, Saky! — Itachi disse, me dando um suave beijo na testa.

— Brigado! — Sasuke disse, já sabendo que o Chi não lhe diria nada. E ainda se inclinou para frente, e puxou o Itachi para dar um beijo no rosto — E que Deus te ilumine também, Ku!

Às vezes, eu achava que o Sasuke era igual a uma criança implorando por atenção. E talvez por isso mesmo conseguia me afeiçoar mais a ele que ao Chi, que sempre pareceu maduro demais. Sasuke era mais próximo a mim, não só pela idade, como pela forma de pensar. Na maioria das vezes, quero dizer.

Descemos do carro, e fomos caminhando para dentro do prédio principal, onde a multidão se concentrava.

Sasuke tinha uma mania que sempre apreciei. Quando ele se sentia inseguro de algo, ele prendia o dedo mínimo ao meu, discretamente. A primeira vez em que ele fez isso, estávamos no lago, e ele se preparava para pular nele para pegar a sua bola que havia ultrapassado os limites. Nós dois ficamos ali, parados na beira do lago, observando aquela bola flutuar na água se afastando cada vez mais de nós. Aquela bola caia pesada sobre nossos pés, mas ela boiava como um barquinho de papel. Sentimos medo, por que isso mostrava o quão poderoso e imperial era aquele lago. A água refletindo a luz do sol resplandescia uma força tranquila e inimaginável para aquelas duas crianças. O lago pareceu tão manso quanto feroz, naquele dia.

E agora ele estava ali, ao meu lado, enlaçando seu dedo mínimo ao meu. Ele nem precisou dizer o que temia. Seu toque já transmitia todas as palavras que ele não precisava dizer. Por que o medo dele, se transformou em meu medo.

As provas não eram o problema. A multidão, menos ainda. O problema simplesmente era o fator comum à todos. O futuro. Estávamos diante dele, encarando e enfrentando-o frente à frente. E isso dava um medo danado. Um pequeno deslize em falso no chão, e arruinaríamos todo o processo que deveria ser desenlinhado. Eu poderia passar nas provas, e o Sah não. E me dar conta disso, fez com que meu coração se reduzisse ao tamanho de uma migalha de pão. Eu não queria enfrentar aquilo sozinha, apesar de tudo.

Sasuke pôs mais um pouco de pressão em seu enlace, esperando pela minha resposta. Até então eu não havia correspondido. Foi nesse momento que percebi que não importa quanto tempo se passe, o quanto brigamos, quantas agressões foram diferidas e atingidas. Por baixo de toda aquela peçonha tóxica havia alguém carinhoso, que realmente se importava com a família e amigos, e sempre se desculpava pelas coisas erradas que fazia. E ainda tinha a capacidade esplêndida de perdoar os erros dos outros, e esquecê-las no mesmo instante. Não importa o que aconteça, meu irmão sempre estará ao meu lado.

Desfiz daquele simplório nó, para entrelaçar minha mão inteira à dele. Mas sempre olhando para frente, encarando o futuro, de queixo erguido. Sasuke me olhou de canto, meio surpreso, mas não disse nada. E então, mergulhamos no tumultuo. Começamos as provas às duas da tarde, e terminamos às cinco e meia. Isso se repetiu por mais dois exaustivos dias.

Duas semanas depois, então, vieram os resultados. Na página do site da faculdade, vimos o meu nome na lista de aprovados, logo acima do nome do Sasuke. Ele não só não estudou para as provas, como ainda tirou notas melhores do que eu.

— Mas vejam só que ironia! Acho que Deus iluminou mais a minha cabeça do que a sua. Qual foi o que seu pecado, Sakura?

Apesar de ele ter dito isso levianamente, senti meus ossos chacoalhar por baixo da pele. Em seguida, uma leve corrente de frio fez com que os pêlos dos meus braços se erguessem como se quisessem se desprender do meu corpo. Sem pensar em como eu poderia estar parecendo, saí correndo para o meu quarto. Assim que fechei a porta, no entanto, eu soube instantaneamente que eles estariam debochando de mim, sem a menor idéia do que se passava comigo.

Atirei-me na cama, como se estivesse pulando do alto de um penhasco, e cobri minha cabeça com o travesseiro. Só para me livrar de todo aquele oxigênio poluído do pulmão, para renová-lo com um ar mais puro, livre daquela sensação de imundície.

Mas alguém, de repente, arrancou minha válvula.

— Mas o que raios você está fazendo? Vai se sufocar assim! — Itachi disse, parecendo assustado, ou incrédulo. Talvez, um pouco dos dois.

— Nada! Não se bate mais na porta antes de entrar, hoje em dia, não?

— Por que você saiu daquele jeito? — ele perguntou, ignorando a minha pergunta.

— Por nada, já falei!

Ele cruzou os braços, descrente de minhas respostas. Ponderou por alguns breves segundos. Depois suspirou, passando as mãos nos cabelos, e sentou ao meu lado, na cama.

— Você ainda não nos contou como foi sua experiência naquela escola. — ele comentou.

— Ninguém perguntou...

— Estou te perguntando agora.

Revirei os olhos.

— Eu sei o que você está pensando... Nada de mais aconteceu lá, ok?

— Fico feliz por sua capacidade extraordinária de ler mentes, mas infelizmente eu não adquiri isso ainda. Mas como nada de mais aconteceu, imagino que não tem por que você não me contar como foi, ou tem?

Acomodei-me melhor sobre o colchão, e sentei com as costas encostada na cabeceira da cama. Puxei meu travesseiro das mãos dele, e o pus sobre meu colo. Pensei sobre como eu poderia começar a contar a ele, até que resolvi ir pelo óbvio.

— Tínhamos aula das 7 da manhã, ao meio dia. As aulas iam desde as matérias curriculares que toda escola tem, até aulas de culinária e costura. Tínhamos uma hora de almoço, mais uma de descanso, e depois a turma era dividida em três grandes grupos, que se revezavam semanalmente. Um para limpar os dormitórios, outro para cuidar do jardim, enquanto o terceiro grupo ia para a capela estudar práticas religiosas. — e isso era basicamente tudo.

— Só isso? Não há mais nada que você queira me contar? Alguma coisa em particular que tenha acontecido, talvez?

— Não, Chi... Os dias eram todos iguais.

Eu menti. E teria de pagar por isso com nove Pai nosso, e cinco Ave Maria.

— Então por que você se apavorou quando o Sasuke falou em pecados?

Estremeci novamente. Eu queria contar a ele, realmente queria. Mas como eu poderia fazer isso, evitando o repúdio? Ele contaria para toda a família, e eu seria linchada para fora de casa. Eles me repugnariam para sempre. No entanto, assim mesmo, meus lábios começaram a se mover. Talvez eu estivesse desesperada para desabafar com mais alguém. Talvez eu estivesse desesperada pelo o apoio de alguém; talvez eu apenas quisesse que me dissessem que tudo iria ficar bem...

— O que você faria, se tivesse feito algo totalmente inadmissível? Quero dizer... Mesmo que tenha sido sem querer. Algo impossível de prever e se prevenir. Simplesmente acontece algo que ninguém te perdoaria por isso...

Ele ficou me olhando meio incrédulo, meio pensativo. E então, beliscou a ponte do nariz com o polegar e o indicador, fechando os olhos. Parecia resignado, como se não quisesse acreditar no próprio pensamento que lhe ocorreu. E pensar que ele pudesse ter adivinhando, fez imediatamente arrepender-me de ter dito qualquer coisa para ele.

— Você matou alguém, Sakura?

Deixei todo o oxigênio, que involuntariamente prendi no peito, escapar numa só golfada. Não sabia se ria ou se chorava. Mas o fato de ele sequer cogitar a possibilidade do que realmente poderia ser só mostrava o quão monstruosa eu era.

— Não, Itachi. Não matei ninguém. Mas na verdade... Nem sei o que é pior! — disse mais para mim mesma.

— Ual... Pior do que matar alguém?

— Não sei... Talvez...

Depois disso, não consegui dizer mais nada para o meu irmão, que também não conseguiu me dar uma resposta. Mas não pude mais olhar na cara dele. Senti-me a pessoa mais amoral do mundo. Mesmo reprimindo tudo aquilo, quero dizer... Mas a lembrança do que já tive em mente ainda me assolava como sombras que me perseguem até o anoitecer. Elas ficavam sempre ali, nas minhas costas, prontas para que quando eu me virasse, as encarassem. E passei aquela noite inteira me revirando de um lado para o outro, sem conseguir limpar a mente. Talvez eu precisasse de uma lavagem cerebral mesmo, para tirar todas as minhocas que se embaralhavam em minha cabeça.

Eu realmente tinha esperanças de que tudo pudesse dar certo para mim, a partir daquele ano. Eu me sentia uma pessoa nova, diferente. Encontrei o conforto nas palavras divinas, e achava que isso me bastaria para aliviar o sofrimento. Mas como eu disse, aquelas sombras continuavam em minhas costas, me atormentando. Elas tinham um peso, que se sobrecarregava em meus ombros. E o fato de morar sob o mesmo teto que ele não ajudava em nada. Afinal, como eu poderia esquecer os sentimentos, se para todo o lado que olho o vejo? Para cada canto da casa que vou, lá está meu irmão; na sala, vendo um filme ou um daqueles programas que só mostram mulheres de biquíni; na cozinha, preparando um copo de leite com Nescau; no banheiro, penteando os cabelos ou escovando os dentes; no quarto, ouvindo música ou conversando com alguém no MSN; no jardim, chutando a bola contra a parede ou brincando com o gato do vizinho... Como posso esquecer alguém que vive vinte e quatro horas sob o mesmo teto que eu?

Notas finais
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