Notas iniciais
Mais um. Boa leitura.

Fraterno

By Amanur

Capítulo 5

...

Acho que todos os primeiros dias de aula que tive, foram ensolarados. Mas aquele, não. Caia do céu grossas gotículas de água, que explodiam furiosamente ao colidir no chão. Mas mesmo que chovesse espinhos de rosas, acho que meu humor não se abalaria.

As aulas seriam no turno da manhã. E para não passarmos vergonha, chegando atrasados no primeiro dia de aula, me arranquei do sono um pouco mais cedo do que o combinado com o Sasuke. A faculdade ficava a vinte minutos de carro, mas como papai saía para trabalhar, iríamos de ônibus.

Tomei um banho gelado, para me despertar bem. A água fria acordava todos os meus sentidos. Depois, saí enrolada na toalha, com outra na cabeça para retirar o excesso de água dos fios, e fui acordar o Sasuke. O Itachi já tinha saído de casa, por que precisava cobrir uma matéria na cidade vizinha, e pegou carona com um colega de trabalho. Por isso não me importei da fazer barulho ao entrar. Abri a porta com força total, e acendi a luz. Ele resmungou, praguejando mil e uma coisas. E ainda tentou proteger os olhos contra a luz fosforescente da lâmpada com o travesseiro. Foi então que aproveitei os poucos segundos concedidos para observá-lo de cabelos embaraçados, dormindo de samba-canção, todo esperramado pelo colchão como uma criança. Eu sempre adimirei quem tinha a habilidade com lápis e pincel. Se eu soubesse desenhar, com certeza gravaria aquela cena na memória para reproduzi-la num papel, e guarda-la debaixo do travesseiro apenas para ficar enamorando-a antes de dormir.

Se eu tivesse algum direito à isso, é claro.

Como eu sabia que ele era um preguiçoso de primeira categoria, ainda abri as janelas para a luz do dia entra naquele quarto, que cheirava a chulé.

— Levante-se, Sasuke. Não podemos nos atrasar no primeiro dia. — lhe disse, arrancando o travesseiro de suas mãos, para jogá-lo na cama do Chi.

Ele se revirou no colchão, enquanto eu tirava uma camiseta qualquer do guarda-roupa dele, por que o Sah sempre foi lerdo demais pela manhã. Claro que me contive para não sentir a textura dos tecidos que entravam em contato com a pele dele, nem absorver o máximo que pudesse do cheiro impregnado em suas roupas. Os impulsos me tentavam.

Enquanto isso, ele continuou a resmungar coisas enquanto se sentava na cama, a parte de baixo do beliche que dividia com o Chi, coçando os olhos.

— Sakura... Estou vendo as suas coxas daqui. Tem certeza de que não é pecado mostrá-las? — ele perguntou.

Suspirei pesadamente. Eu estava de bom humor, e ansiosa pelo primeiro dia de aula da faculdade. Era um grande passo para nós dois, e por isso não iria deixá-lo me afetar com o seu veneno desnecessário. Apesar de ter ficado mais vermelha do que tomate maduro com sua insinuação...

— Tenho, Sasuke. — respondi, atirando suas roupas em cima dele.

— Hummmmm. Então por que não veste mais aquelas mini saias que você gostava?

— Por que você insiste em me perturbar com o que eu uso, ou deixo de usar? Que diferença isso vai fazer? — embora tivesse sido uma pergunta retórica, sem intenção de ouvir resposta alguma por que eu já imaginava que ele me diria alguma bobagem, Sasuke, no entanto, pareceu se irritar além do necessário. E julguei isso consequência do dispertar cedo, ao qual ele não estava acostumado. Talvez, ele tivesse posto primeiro o pé esquedo no chão.

— Por que SIM, Sakura! — esbravejou, entre os dentes. Percebi que havia muito fúria no modo como desabafava aquelas palavras — Eu tinha orgulho de andar com você, e ver que todos babavam pela garota gostosa que andava ao meu lado, e mais orgulho ainda em poder dizer que você era minha irmã! Eu tinha orgulho de ter a garota mais bonita de qualquer danceteria ao meu lado, e de saber que só por estar ao seu lado, babaca algum se aproximaria. Eu tinha orgulho de ter a garota mais desejada me acompanhando. E agora, sem mais nem menos, você está aí, se escondendo nesse monte de tecido que conseguiu, como se fosse uma puritana! Então não me peça para entender o que você está fazendo consigo mesma, por que eu me nego a isso. — ele me segurou pelos ombros, me empurrando para fora do quarto, e marchou até o banheiro para tomar banho.

De repente, aquele corredor parecia ter diminuido consideravelmente, e todos os móveis e quadros haviam desaparecido num suspiro. Aquelas palavras ficaram ecoando em meus tímpanos por um bom tempo.

Fui para o meu quarto, para me vestir. Pus uma calça jeans, e uma blusa de botões cor de creme. Desenrolei a toalha da minha cabeça, e a estendi num cabide atrás da porta junto com a outra. E então, fui até o banheiro para pegar minha escova de cabelos, que havia deixado à noite sobre a bancada da pia. Como não ouvi mais barulho do chuveiro, bati na porta.

— Posso entrar? Quero pegar minha escova de cabelo.

E então, ele mesmo abre a porta, com a boca cheia de espuma, escovando os dentes. Mas assim que notei que ele vestia apenas uma cueca boxer, me virei de costas.

— Eu perguntei se podia entrar! — resmunguei.

O ouvi cuspira na pia.

— E eu abri a porta para você entrar. Qual é o problema? Não é a primeira vez que você me vê de cueca, Sakura.

Fraquejei por breves momentos, ainda abalada por aqueles ecos em meus ouvidos, mas consegui me manter firme.

— Sim, mas isso não tem mais cabimento, Sasuke. Não somos mais crianças, e devíamos agir como tais... Você, principalmente. — resmunguei.

Ele bufou em desdém.

— Sou mais adulto do que você pensa... Pegue sua escova logo. Ainda quero fazer a barba.

Virei de frente para ele, meio relutante, mas olhei somente para a bancada, procurando pela minha escova de cabelos. Ela tinha o cabo de madeira, meio dourada. Como não parecia estar em lugar algum sobre a bancada, fui abrindo as gavetas, suspeitando que alguém pudesse tê-la guardado em algum outro lugar. Abri até a porta do armário voador, mas também não a encontrei.

— Onde será que ela está? — murmurei.

— Hummmm... Onde será que ela pode estar? — Sasuke disse, meio cantarolando.

Estranhando aquele novo tom de voz, o olhei brevemente apenas por impulso. Foi então que eu vi que o cretino havia enfiado minha escova dentro da cueca.

Cruzei os braços, o olhando furtivamente.

— Ah! Olha só onde ela veio parar! Sua escova safadinha! — o idiota ainda diz.

— Era para me fazer rir, Sasuke? — indaguei, sem o mínimo de humor.

— Claro que não. Era para ME fazer rir! Veja só: Hahahahahahaha!

Lhe dei um soco bem na boca do estômago, o fazendo recuar e bater a cabeça contra a parede atrás dele.

— Filha da puta! — ele esbravejou.

— Então, somos dois. E só para que você saiba!, eu não sou um troféu para que você saia por aí exibindo para todo mundo, como se eu não passasse de um objeto, ok? — rapidamente, arranquei minha escova dali, e saí correndo para o meu quarto.

Em seguida me joguei na cama, olhando para o teto, e comecei a inspirar e expirar mais profundamente, a fim de acalmar o retumbe do meu coração, que fazia até meus cabelos vibrar. Mais um pouco ali, e eu teria tido um colapso nervoso total.

Fiquei olhando para o cabo daquela escova, pensando em mil e uma coisas indecentes.

— Pai Nosso que estais no Céu, santificado seja o vosso Nome...

Apesar de tudo, me senti mais aliviada, por ver que ele parecia estar voltando ao normal. Sasuke não parecia estava mais bravo, apesar das piadas de mau gosto. Mas ele sempre foi assim. Só que eu não sabia se deveria mesmo me sentir melhor com isso. Poderia pôr todo o meu esforço a perder. Talvez, eu devesse fazê-lo me odiar.Ou talvez, eu devesse odiá-lo.

Mas como posso odiar meu próprio irmão?, me perguntei. Por mais que o amor estivesse separado do ódio por uma linha muito tênue, essa seria uma tarefa impossível. Em parte pelo laço fraterno que nos une, e em parte por que simplesmente não tenho a capacidade de odiá-lo. Ele não só era meu irmão, como meu amigo, meu companheiro, meu ajudante e meu conselheiro (mesmo que considerasse o Chi melhor nesse departamento). Ele era meu amigo de infância da qual jamais se distanciaria de mim.

Sequei rapidamente meu cabelo com meu secador, e prendi-os em um rabo de cavalo alto. Peguei minha mochila, que usava na escola, e enfiei um caderno usado.

Sasuke já estava pronto, na cozinha, se lambuzando com um pão que transbordava mel pelos dedos, e tomava café preto para quebrar o gosto açucarado do doce. Ele vestia a camiseta cinza pólo que lhe joguei, com uma calça caqui que não foi a que escolhi. Quando me viu entrar, seus olhos negros me acompanharam até a cadeira, como um corvo espreitando sua presa.

— Saiba que ainda está doendo! — ele resmungou, de boca cheia.

Apenas sorri para ele, e sentei com um copo de suco em mãos.

Ainda estava chovendo. Peguei meu guarda-chuva, e ele o dele. A parada de ônibus ficava à quatro quadras de casa, mas o vento não deixou Sasuke ir muito longe com seu guarda-chuva, que logo foi revirado, contorcido e desmantelado até quebrar as vigas de ferro. Ele preguejou, jogando a carcaça do guardachuva no chão, e correu para o meu amparo. Como o meu era pequeno demais para nós dois, fomos correndo até a parada de ônibus. Que, felizmente, não demorou para vir nos buscar.

Durante o trajeto, ouviamos o ronco do automóvel se dispersar entre as conversas parelelas do restante dos passageiros, e misturar com o som da chuva derramar sobre a lataria do ônibus. Me senti dentro de um desses filme em cena de câmera lenta, onde o tempo parece se arrastar. Eu olhava para as pessoas espalhadas pelos bancos, mas só enxergava a mão dele repousada sobre suas pernas. Era larga, com unhas levemente roídas, com poucas veias saltadas nos braços ressaltando sua masculidade. Lembrei da vez em que ele chorou por que roeu a unha demais, e acabou arrancando uma lasca maior da que pretendia. Aquilo sangrava sem parar, e acho que foi o que mais o assustou. Ele tinha uns sete ou oito anos, quando isso aconteceu. A primeira pessoa quem ele procurou fui eu.

Engraçado como dizem que o amor é o único sentimento capaz de superar qualquer coisa, mas tudo o que tenho recebido dele era aquela sensação suficante de solidão. Lembrar do amor, seja em qual forma ela esteja, traz sempre o ermo como companhia.

Chegando à faculdade, atulhada de gente para lá e para cá, procuramos pelo número de nossa sala num grande painel numa parede do corredor da entrada. Eu tirei meu caderno usado da mochila para anotar todas as salas e aulas que teríamos até o final da semana, para não precisarmos mais enfrentar a multidão que se reunia ali, fazendo o mesmo.

Eu já estava anotando as aulas de quarta feira, quando me dei conta de que Sasuke não estava mais ao meu lado. Ele estava mais afastado, perto da entrada, conversando com um loiro que nunca vi, segurando meu guarda-chuva. Quando voltei meus olhos para minhas anotações, no entanto, me deparei com um ruivo alto de cabelos que batiam sobre os ombros. Ele era bonito, mas o que realmente chamava atenção eram os piercings no rosto.

Ele delineou um sorriso para mim, com dentes perfeitamente alinhados e brancos.

— É impressão minha, ou você está mesmo anotando a carga horária das aulas de Filosofia I? — perguntou.

— Não é impressão sua. — respondi. Mas na verdade, não estava muito interessada em manter papo algum com ele. A aula começaria em cinco minutos, e ainda não havia terminado de anotar o que eu queria.

— Hum. Acho que seremos colegas então. Importa-se de eu copiar de você? Tem umas cabeças na minha frente, e não estou enxergando muito bem... — ele disse, tentando se espichar nas pontas dos pés para ver. Realmente tinha bastante gente na minha frente também e, de vez enquanto, eu precisava dar alguns pulinhos para conseguir ver alguma coisa.

— Ok, sem problemas. — respondi.

Então ele começou a copiar de mim, enquanto eu terminava minhas anotações. Quando terminei de anotar o último número da sala de aula de sexta feira, Sasuke reapareceu ao meu lado, com aquele loiro.

— Terminou, Ku? — senti o olhar do ruivo e do loiro sobre mim, segurando risadas.

Tive tanta vontade de lhe responder malcriadamente, que nem sei! Mas suspirei, ao invés disso. Meninas não devem dizer palavrões! Fechei meu caderno, e o enfiei de volta em minha mochila e fui marchando em direção às escadas, até o terceiro andar. Entrei na sala 316, sem nem olhar para trás. Essa falta de respeito dele estava começando a me incomodar.

A sala era ampla, com paredes brancas. Havia uma enorme lousa branca na frente, e uma mesa vazia de mogno. Já tinham uma dúzia de pessoas ali dentro, mas me senti completamente isolada. Eu já ouvira dizer que há certo estereótipo para alunos que estudam ciências humanas e sociais, mas sempre achei que fosse exagero. Mas aquela sala estava cheia de gente estranha. Tinha um cara de cabelos compridos, pintados de branco, vestindo chinelo de dedo nos pés. Havia um sobrancelhudo com roupas bem largadas, uma boina de tricô verde, amarelo e vermelho na cabeça, e estava com fones de ouvido. Havia também uma ruiva de quatro olhos, sentada bem ao fundo, sozinha, rabiscando algo em seu caderno. Vestia-se toda de preto, meio metida à punk, rocqueira, metaleira, ou qualquer coisa parecida. Mas percebi que era a única menina naquela sala, além de mim.

O cara dos piercings no rosto parece ter encontrado sua alma gêmea com o cabeludo dos cabelos brancos e tatuagem na testa. Pareciam pertencer ao mesmo fã-clube.

Eu me sentei bem no meio da sala, mas me senti o centro das atenções assim mesmo. Só por que aquele pingado de gente se espremia aos fundos. Assim que tomei meu acento, Sasuke entrou com o loiro. Meu irmão sentou atrás de mim, e seu amigo ao lado dele. Enquanto eu apanhava meus materiais da mochila, ouvi o rapaz cochichar algo, que chamou minha atenção, para o Sah.

— Você vai me apresentar a ela, ou vou ter que fazer isso sozinho?

— Cara, vai por mim. Por estudar em colégio de freira, onde só tinha calcinhas, ela virou lésbica!

Notas finais
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