Fraterno
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Bom, nesse capítulo, o Sasuke faz comentários mais fortes; que estejam avisados! Lembrando que nem tudo o que ele diz, é realmente o que penso!!!
Boa leitura.
Fraterno
By Amanur
Capítulo 3
...
Depois do natal, a semana que se passou até o ano novo correu tranquilamente, sem grandes comoções. Continuei ajudando a mamãe com os afazeres de casa, enquanto ela e o papai saiam para trabalhar. E descobri que Itachi também estava trabalhando para o jornal local. Enquanto isso, eu ficava em casa com o Sasuke. Bem, não exatamente com ele. Sasuke saia de casa para ir jogar bola com os amigos. E quando resolvia ficar em casa, eu me confinava em meu quarto para ler um livro ou simplesmente navegar na internet.
No entanto, no meio dessa semana, houve apenas um episódio que acho válido comentar. O papai havia acabado de chegar do trabalho, quando eu estava no sofá da sala com o meu notebook no colo. Eu estava conversando com o Chi, sobre a minha matrícula para o vestibular, e comentei que havia me inscrito para o curso de teologia na mesma faculdade que ele cursava. Bom, papai se jogou em sua poltrona praguejando, cansado do trabalho. Ou pelo menos foi como eu preferir pensar.
Como o Sah estava na sala, quieto demais para o meu gosto, cometi a insensatez de perguntar a ele que curso faria. Bom, primeiro, ele pôs a mão sobre o queixo, pensativo.
— Me empresta o seu note, Ku. — ele, então, me disse.
Revirei os olhos, resmungando para ele parar com esse apelido chato, mas lhe entreguei meu notebook cor de rosa. Todos nós ficamos observando-o digitar alguma coisa no teclado, até ele começar a ler em voz alta as informações solicitadas no formulário de inscrições.
— Nome: Sasuke Haruno Uchiha. Pais: Fugaku Uchiha e Saori Haruno. Nascimento... panananam.... Endereço... panananam ... Sexo: Masculino, muito masculino!
— Tem certeza? — Itachi zombeteou.
— Tenho certeza de que não sou eu quem faz tranças nos cabelos. — ele rebateu.
O Itachi, realmente, às vezes, fazia tranças no cabelo. Mas como ele era alto, e tinha ombros largos, não ficava nem um pouco afeminado. Meio que combinava com as camisetas pretas que ele gostava de vestir, na verdade.
Enfim, Sasuke continuou com o seu showzinho, lendo e digitando o que via na tela.
— Escolaridade... Opções lingüísticas... E agora, o curso... Vamos ver, vamos ver, vamos ver... Te... Te... Te... Aqui! Teologia.
— TEOLOGIA??? — berrei, me exaltando demais, na verdade. Mas foi inevitável.
E ele me olhou de canto, como se eu não passasse de um mosquito irritante, zunindo em volta dele.
— Enviar. Enviado! Seu cadastro foi registrado com sucesso. Sua inscrição será confirmada no dia do pagamento. — ele lia. E então, estendeu a mão em direção ao papai, que o encarava estupefato — Pai, me dá dinheiro!
Papai virou uma fera.
— COMO ASSIM, TEOLOGIA?! Não me faça pagar isso para você também, menino! Já basta a Sakura! E não me entenda mal, filhinha do meu coração! Fico feliz por saber que vai entrar para uma faculdade, ao invés de se enfurnar num convento! Mas, Sasuke, pare de gracinhas! E aquele curso de medicina que você falava?
— Sabe o que eu acho? Acho que servir a Deus é mais importante do que salvar vidas! Afinal, se todo mundo vai morrer mesmo algum dia, para quê salvá-las? Se é vontade de Deus que elas adoeçam e morram, por que eu deveria interferir? — revirei os olhos — Quem sabe, estudando sobre o assunto, entendendo o que Deus quer dizer na bíblia; quem sabe eu encontre o Deus que se perdeu em minha alma sórdida e impura? Quem sabe estudando teologia eu entenda mais o que se passa com o mundo. Quem sabe eu encontre a verdade oculta por essa sociedade mesquinha e materialista? Não concorda comigo, Sakura?
— Não me meta nas suas infantilidades, Sasuke! — respondi, soltando fumaças pelos poros da pele.
— Não fique assim! Além disso, percebi uma coisa muito importante. Percebi que eu não posso viver sem a minha maninha! Não posso mesmo! Afinal, estudamos a vida inteira juntos! Ainda não estou preparado para a separação. Esse ano que você passou fora de casa só me fez ver o quanto ainda preciso do teu apoio. Nossa união é tão forte, tão profunda, que eu sinto lá dentro do meu saco que para onde você for, eu devo seguir atrás. Afinal, você carrega a palavra de Deus. E quem não segue Deus, vai para o inferno. Simples assim, né?! Sem nenhuma chance a uma segunda chance... Por que Deus é justiça! Aqui você faz, e depois paga sem nem poder se redimir, caso possa se arrepender. Digo... Lá na hora do julgamento final, quando estiver na filinha dos moribundos, é claro. Se houvesse reencarnação, aí era outra história. Eu poderia dizer a Deus que me arrependi, e ele chutaria minha bunda de volta para cá, para me redimir. E assim seria até aprender a lição... Mas a bíblia não crê em reencarnação, não é mesmo? Deus não dá uma segunda chance para as almas. Nesse ponto, podemos dizer que ele é meio impiedoso... Não?
— Por que você está dizendo isso, Sasuke? — perguntei. Mas só perguntei por perguntar, por que eu sabia que ele estava apenas querendo me provocar.
— Por nada. Só estou processando meu pensamento. Acho que vai ser realmente muito interessante estudar teologia! Mal posso esperar! — ele sorria, injetando sua dose de veneno nas palavras que transbordavam o sarcasmo.
— Você vai se arrepender do que está dizendo, Sasuke. — lamentei.
— Exatamente! Por isso mesmo devo estudar teologia, está vendo? Eu preciso entender como as coisas funcionam, e pôr nessa minha cabeçinha fútil que com Deus não se brinca! Ele é um homem sério. Afinal, nem deve ter tempo para humor mesmo! O cara vive eternamente, naquela meeeesma rotina, dia após dia, hora após hora, conduzindo as pessoas para lá e para cá, para o inferno e o paraíso. Ele não tem tempo para ouvir piadas de gente leviana como eu! Imagina! Psss! Não! Ele é sério, e devemos tratá-lo com seriedade. Devemos até mesmo temê-lo, por que, sabe como é, né? Quem pronuncia o nome Dele em vão, só por isso é eternamente castigado. Nós devemos andar sempre na linha, sem cometer um deslize sequer... Tipo, nós, meros, insignificantes e imperfeitos seres humanos mortais, não podemos cometer erros! Essa é uma verdade incontestável! Muito menos algo tão grave quanto fazer uma piada com Ele, né? Serei CONDENADO, por fazer uma piada... Mas fazer o que, se essa é a justiça de Deus? E Deus é justo, MUITO justo. E isso, eu realmente entendo.
— Chega, Sasuke. — papai finalmente disse — Já entendemos que você quer fazer teologia. — ainda resmungou.
— Quer saber de uma coisa? — digo, tomando meu note das mãos imundas dele — Não quero mais teologia.
Meu pai se esparramou pela poltrona, como se tivesse morrido, soltando uma bufada. Eu sabia que isso ainda poderia virar uma novela, mas não podia aceitar continuar a estudar com o Sasuke. Não com ele me tratando dessa forma. Nossa convivência se tornaria um inferno, e eu já conseguia prever as cenas constrangedoras que ele seria capaz de me fazer passar na frente da turma inteira. Por isso, entrei em meu cadastro, ainda podendo mudar meu curso. Mas fui pega de surpresa, vendo que eu não havia pensado em mais nada. Olhei apavorada para o Itachi, pedindo por um raio de luz, por mínimo que fosse. Mas ele não fazia a menor idéia do que eu queria. Então, rapidamente, escolhi um curso qualquer.
— Prontinho, pai. O Senhor não precisa mais se preocupar em ter dois filhos religiosos dentro de casa. Por que, aparentemente, vocês terão somente o Sasuke. — disse, encarando meu irmão — Vou fazer Filosofia.
— Isso é ótimo, filhinha...
Sasuke, de repente, tomou meu note das minhas mãos.
— Hum. Então acho que vou ter que fazer Filosofia também!
— Senhor, dai-me forças! — papai resmungou.
— Orando para quem, pai? — Sah perguntou.
— Não sei. O Senhor das Armas, talvez. Estou precisando de algumas aqui em casa, sabe? — ele respondeu insinuantemente, encarando Sasuke que apenas o ignorou voltando-se para o meu notebook.
Itachi, então, saiu da sala alegando estar cansado demais para aturar o Sasuke. Mamãe tinha aparecido no corredor, mas assim que viu que estávamos discutindo algo, voltou para o quarto. Quando olhei para o papai, suplicando por ajuda, o cretino fechou os olhos fazendo de conta que pegou no sono. Eu estava completamente sozinha naquela luta sem causa.
— Por quê? Por que você está fazendo isso comigo? — perguntei, me mordendo de raiva, fazendo todos os esforços possíveis para manter a calma e não pular no sagrado pescoço dele.
— Você não ouviu meu discurso? Há quanto tempo não limpa os ouvidos? As freiras não mandavam vocês fazerem fila para verificar se escovaram bem os dentes e limparam os ouvidos e as unhas? — ele indaga, fazendo careta como se realmente se importasse com qualquer coisa. Revirei os olhos.
— Estou falando sério, Sasuke!
— Eu também, eu também. Eu já disse! Esse ano que passamos sem estudarmos juntos, me fez perceber o quanto preciso de você! — eu poderia ter me derretido por aquelas palavras, se não fosse aquele sorriso cretino que ele modelou no rosto, entupido de sarcasmo e falsidade.
Não quis mais saber. Apenas suspirei, praguejando internamente. Tudo o que eu queria era manter distância dele, mas acho que eu não tinha esse direito. Eu não tinha o direito de querer escapar da minha punição, e percebi que eu realmente estava fazendo a coisa errada pensado que conseguiria isso. Talvez eu devesse aprender uma lição estando do lado dele. Talvez, fosse minha missão guiá-lo para o caminho da luz, quem sabe.
Bom, depois disso, Sasuke me deixou em paz e a semana passou rápido até o ano novo. Que também não foi o mesmo, eu diria. Itachi resolveu passar o réveillon com a namorada, restando apenas eu, o papai, a mamãe e o Sasuke naquela casa. A maioria dos nossos vizinhos havia viajado, e isso incluía os Hyuuga. Nós não viajamos por causa do trabalho do papai, da mamãe e do Chi. Então, fomos ver os fogos que os moradores que também ficaram presos na cidade soltaram perto do lago.
Os Yamanakas eram uma das famílias que faziam isso. Encontrei a Ino sentada num dos bancos de madeira, olhando emburrada para seu pai que acendia sorridentemente umas das bombinhas que havia comprado. Todo ano ele fazia isso.
Sentei-me ao lado dela, lhe desejando um feliz ano novo. Nós não éramos muito íntimas, mas nos dávamos relativamente bem. Principalmente por que ela tinha uma queda pelo Sasuke. E eu, com aquele meu instinto protetor incurável, fazia de tudo para passar distante dela. Mas agora, era diferente. Eu havia posto na cabeça que seria diferente! Que eu deveria deixar para trás aquela necessidade de isolar o Sasuke de todos. Convenci-me que ele não era meu pertence, simplesmente por que ele não era um objeto.
Foi então que tive aquela idéia. Para provar a mim mesma, e para provar a Deus que eu havia me desapegado àquele sentimento impuro, de posse, eu iria incentivá-la a ficar com o meu irmão!
E por que não?, pensei. Eu sabia que ela era uma boa moça, apesar de não sermos muito unidas.
— Ual! — ela me disse — A Hinata havia comentado que você tinha mudado, mas achei que ela estivesse exagerando sobre o cabelo. Eu adorei! Se eu tivesse coragem, faria o mesmo.
— Obrigada. O Sasuke odiou... — resmunguei.
— E desde quando homem tem bom gosto? — ela replicou, piscando um olho. Sorri para ela.
— Seu pai parece uma criança, brincando com fogos! — lhe disse.
— Argh! Nem me fale...
— Não estou vendo sua mãe... — comentei, olhando para os lados, procurando pela senhora Yamanaka.
— Ah, ela ficou em casa. Está gripada... — embora ela tenha me respondido de acordo, vi que ela se dispersou, olhando para algo atrás de mim.
Sasuke vinha com as mãos nos bolso da bermuda jeans. Estava de chinelos, com uma camiseta branca, e cabelos escondidos num boné vermelho com a aba virada para trás. Papai e mamãe vinham logo atrás dele, com garrafas de Champagne e uma sacola com taças. Papai não precisou nem de convite para se juntar ao senhor Yamanaka. Enquanto isso, Sasuke cumprimentou Ino, e sentou na grama ao nosso lado. Eu dei meu lugar para mamãe sentar, e me mantive de pé, atrás dela, observando os fogos explodirem no céu. Pareciam estrelas em ascensão, para se diluir em meia dúzia de cores, que deixavam o espelho do lago todo colorido. O som da explosão era meio ensurdecedor, mas isso não importava. O importante era que a noite estava linda, como tinha que ser. E que ter a família unida — embora que parcialmente — me dava forças para seguir adiante. Mamãe, papai e o Chi pareciam ter entendido e aceitado minha vocação para a teologia (que acabei tendo que mudar para filosofia), e isso me fazia sentir mais aliviada.
Depois de assistirmos a uma dúzia de explosões de cores, Sasuke começou a fazer a contagem regressiva.
— 10... 9... 8... 7... 6... 5... 4... 3... 2... 1!
E então, ouvimos mais um turbilhão de fogos que queimavam por todas as partes da cidade. Papai se aproximou da mamãe e a beijou, lhe desejando um feliz ano novo. Enquanto isso, o senhor Yamanaka resmungava algo sobre ir até sua senhora para cumprimentá-la também, por que não se sentia bem por tê-la deixado sozinha em casa.
— Cara... Como eu queria ter alguém para beijar também... — Ino resmungou, cruzando os braços, olhando para os meus pais.
— Pode me beijar, se quiser. — Sasuke disse, dando de ombros.
Mas eu congelei, instantaneamente.
— Hein? — Ino indagou, tão incrédula quanto eu fiquei.
— O que tem de mais? É só um beijinho de ano novo! Não faz mal a ninguém. — ele dizia, enquanto se levantava da grama — Vire de costas, Sakura. Não querermos corromper seu inocente coraçãozinho puro. — ainda me disse, sarcasticamente.
No entanto, isso foi exatamente o que eu fiz. Virei de costa para não ver minhas convicções desabar. Para não ver o quão fraca eu sou; para não assistir meu mundo desabar vagarosamente, como flocos de neve que caem do céu. Pois eu sabia que aquela cena iria perpetuar por tempo demais diante dos meus olhos, por mais rápidos que eles pudessem ser. Só de imaginar que ela estaria grudada nele, causou uma inundação quase que torrencial de lágrimas nos meus olhos, lavando aquela máscara de falsa felicidade que eu me obrigava a vestir. Tive que caminhar até a ponte, para que ninguém visse que eu estava me desmanchando aos pedaços. E para não obrigar ninguém ao fardo de ter que juntar os cacos de mim.
Por que ela podia tocar nele, e eu não? Por que eu tinha que ser irmã dele?, me perguntava. Havia tantos porquê’s, mas nenhuma resposta para elas. E ninguém por perto para me confortar. E nenhuma parede para quebrar minha cabeça. Mas supus que deveria encontrar esse amparo na fé; na crença de que estava fazendo a escolha certa. Eu não teria condições de encarar minha família, se assim não fosse.
Não sei quanto tempo fiquei ali na ponte, até ver meus pais se aproximar com taças nas mãos. Eles me cumprimentaram com um abraço, e mamãe me entregou uma taça de champagne. Quando voltamos para o banco, o senhor Yamanaka já estava de volta, e com a mãe da Ino. A mulher estava enrolada num cobertor, sentada no banco, observando os fogos. Ela me cumprimentou quando me viu, e eu sorri em resposta lhe desejando um feliz ano novo e melhoras na sua saúde.
Mas meu sorriso murchou assim que vi Sasuke se aproximar de mãos dadas com a Ino.
— Vamos ao Verde... Não sei que horas vamos chegar, tá?! — ele disse à nossa mãe.
O Verde era a danceteria mais badalada da cidade. Era também onde ele costumava me levar.
E assim, sem mais nem meio mais, ele a levou no meu lugar. Foi então que entendi que estava sendo substituída.
Sasuke já havia beijado outras meninas, mas nunca havia me sentido daquela forma. Eu sentia raiva, um pouco de solidão e talvez inveja. Mas achava que a inveja era por elas terem um namorado, e eu não. Talvez meus frangalhos sejam justamente por entender o que agora acontecia comigo. Quando entendemos algo, suponho que a coisa toma proporções maiores e, ou, diferentes.
É engraçado como, às vezes, podemos repudiar com todas as forças o que queremos que aconteça com todas as forças.
Perguntei a Deus onde poderia encontrar a virtude que eu necessitava para suportar aquela dor lacerante que senti no peito. Era como se mil agulhas espetassem meu coração, e a dor se espalhasse por todo o corpo, amolecendo os membros e incapacitando minha racionalidade. Quis me jogar no chão, me encolher em posição fetal, e entrar em processo de regressão. Quem sabe se eu pudesse voltar a ser um feto, eu poderia reescrever toda a minha história. Mas como Sasuke disse, eu não tinha a chance para essa segunda chance.
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