Fraterno
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Fraterno
By Amanur
Capítulo 2
...
Havia um lago a algumas quadras de casa. Todo ano, íamos fazer nossa ceia de Natal lá, num piquenique. Isso era uma espécie de tradição que meus pais criaram quando nos mudamos para aquela casa, quando eu fiz dois anos. Desde então, nunca celebramos o Natal dentro de casa. E isso era uma prática que eu apreciava muito, embora que não fosse algo exclusivo nosso; alguns de nossos vizinhos faziam o mesmo.
Quando chegamos, eram nove e meia da noite. Os Hyuuga, que moravam a duas casas de distância da nossa, já estavam indo embora quando estendemos a enorme toalha xadrez vermelho e verde que nossa mãe costurou especialmente para a ocasião. Hinata, a filha mais velha da família, veio correndo assim que me viu. Éramos muito amigas, mas não havia me despedido dela quando fui para a escola interna, por que tudo acontecera rápido demais.
— Feliz natal! — ela chegou dizendo a todos, para logo ir abraçando um por um, fazendo as felicitações. Quando chegou a vez de me abraçar, ela parou e cruzou os braços, me olhando furtivamente — Devo ficar brava contigo por não ter me dito nada, ou simplesmente esquecer de tudo?
— Posso escolher a segunda opção? — perguntei.
Ela revirou aqueles olhos estupidamente azuis, e foi me puxando para o lado, nos afastando do pessoal que se manteve entretido com a cesta. Fomos até um banco de madeira que meu pai e meu tio construíram para que todos pudessem desfrutar do conforto da nossa região residencial. Eles transformaram, dentro de três meses, toda aquela área em volta do lago em uma espécie de praça, espalhando bancos e pequenas esculturas de madeira, feitas pelo meu tio. Tudo com autorização da prefeitura, é claro. Alí, todos se conheciam, e era um lugar bastante calmo para se viver. Os vizinhos eram todos, ou quase todos, bastante sociáveis, e não havia por que não fazer algo por todos.
Ficamos por alguns instantes em silêncio, olhando para a lua refletida na água, ao som acústico dos grilos. A lua, embora silenciosa, parecia entonar alguma cantiga misteriosa sobre nós. Estava uma noite agradável, levemente fria, levemente mística, mas muito solitária.
— Eu só lhe dei a segunda opção, por que quero perguntar o que aconteceu com você! Mal a reconheci quanto te vi. — me disse.
Olhei de volta para onde minha família estava, quando um cabeludo se aproximou junto com o pai da Hinata e sua irmã mais nova para cumprimentar meus pais. Meu pai emprestava algumas ferramentas para o senhor Hyuuga, e eles formaram essa amizade forte com base nisso.
— Aquele é teu primo? — perguntei. O tinha visto apenas em umas fotografias que ela havia me mostrado.
— Aham. O Neji veio morar conosco, por que a faculdade que ele pretende entrar fica mais próxima. É a mesma que eu vou entrar, na verdade... — ela comentou.
Percebi o leve rubor que pintou no rosto dela, ao mencionar aquilo. Foi então que me lembrei que ela já havia comentado comigo, certa vez, o quanto o achava bonito e inteligente.
— Você não acha estranho, namorar um primo? — ousei perguntar. Ela me olhou estranho, surpresa pela pergunta repentina, mas logo deu de ombros.
— Um pouco. Talvez pela proximidade que temos... Mas não vejo problemas! Na verdade... Acho que já está rolando algo entre a gente. — ela confessou, sussurrando seu segredinho próximo ao meu ouvido.
Hinata me mostrou um sorriso tão autêntico, sincero e acolhedor, que não pude deixar de sentir uma leve pontada de inveja me pinicar, por mais que eu tentasse reprimir aquele sentimento errado.
— Mas você não acha que é sujo? — insisti — Sei lá... Vocês têm o mesmo sangue. Ele é filho do irmão do seu pai! Você teria mesmo coragem de beijar ele?
— Ele não tem exatamente o mesmo sangue que eu, por que a mãe dele não é da minha família... Além disso, casamento entre primos é totalmente legal e aceito. Desde que não nos machuquemos, não pratiquemos o mal contra o outro, acredito que o amor sempre é válido!
O que ela disse me pegou em cheio, como um balde de água. Mas logo caí de volta na realidade, ao lembrar que ela não fazia idéia do por que das minhas perguntas estúpidas. Era claro que eu sabia a diferença entre uma coisa e outra! Mas, de algum modo, eu precisava encontrar conforto na opinião dos outros. Só que, é claro, não foi o que aconteceu.
Ela ia me dizer mais alguma coisa, quando sua irmã veio correndo para me dar um abraço, e me desejar um feliz Natal. A menina ainda riu do meu cabelo, mas em seguida foi puxando a Hinata para irem embora, por que seu pai estava mancando por algum problema no pé. Fiz um leve gesto de aceno para o senhor Hyuuga, que abanou de longe para mim, enquanto Neji me olhava com um ar de curiosidade explícito no olhar. E então, fui arrastando os pés onde minha família se encontrava. O vento me abraçava, fazendo com que minha saia roçasse entre as pernas e os cabelos flutuassem ao meu redor.
Mamãe separava um pedaço da torta fria que ajudei a preparar de tarde, enquanto Sasuke abria uma bela taça de vinho para ir nos servindo. Quando chegou a minha vez, mais uma piadinha sem graça saiu pela sua boca.
— Aceita o sangue de Cristo?
— Não. — respondi, secamente. Mas ele fingiu surpresa.
— Não? Você vai negar a bebida sagrada? O sangue divino?
— Sasuke... Chega! — mamãe o repreendeu.
Mas ele continuou me encarando, como se me encurralasse contra uma parede.
— Você costumava beber e se divertir comigo. Isso vai mudar também?
— Sim. — disse, firmemente, lembrando a mim mesma que não poderia me deixar cair na tentação, na primeira aparição que surgisse a minha frente.
Mas por que, Deus, me colocas em teste?, me perguntei. E então, me lembrei de todo o mau que causei ao meu irmão e, por isso, talvez, eu estava sendo posta em prova. Talvez, sua rejeição seja parte do meu castigo. Talvez, só assim, poderei me livrar de todos os pensamentos e sonhos sórdidos que tive até então. E se assim fosse, eu aceitaria a punição de olhos vendados. Abraçaria aquela punição que me era dada, mais do que justamente. Pois não havia mais nada no mundo que eu desejasse tanto, quanto a absolvição, a libertação e o desapego àqueles pensamentos que sacrificavam a minha sanidade.
Fechei os olhos, para assimilar minha conclusão. Não havia nada mais difícil do que ter o Sasuke a centímetros de mim, e não poder fazer nada; não poder dizer nada. Não havia nada mais difícil do que estar ali, diante dele, ao lado dele, e com ele.
Mas por que ele tinha que ter amadurecido tanto, fisicamente, em um ano? Acho que não havia o olhado atentamente, quando o vi mais cedo. Só agora notei a barba que ele deixava crescer. Só agora percebi o quão másculo ele parecia. Ou o quão larga sua mandíbula era. Sem mencionar o quão amplas suas costas haviam ficado; perfeitas para ser exposta a mim, toda vez que fosse me rejeitar.
— Você está fazendo musculação, Sasuke? — achei meio absurdo, por que ele nunca foi magro ou gordo, para se deixar consumir pela vaidade. Mas fiz aquela pergunta estúpida meio que sem querer. Mas as palavras já haviam escapado dos lábios, e me repreendi por isso.
Ele me olhou de canto, e apenas deu de ombros. Um ano parece tão pouco tempo para tantas mudanças. Mas acho que nunca percebemos o que modifica, por estarmos sempre presente; levados juntos na onda do desenvolvimento do nosso dia-a-dia.
Daquela parte, onde estávamos, víamos as casas em volta, todas alegres, iluminadas com aquelas lâmpadas coloridas, piscantes. Confesso que o Natal nunca foi meu feriado favorito, por sempre me trazer a sensação de solidão. O Natal e o réveillon, representam o fim de um ano. Para mim, o fim de um ano representa todas as coisas que fiz e deixei de fazer, ficando para trás. São todas as chances e oportunidade que não agarrei, perdidas para sempre. Eu meio que me sentir na obrigação de me despedir de uma parte de mim, da minha vida, dos momentos que vivi e que jamais voltarão. Eu teria que me despedir do meu antigo eu, e da relação que tinha com meus irmãos. E isso foi um pouco complicado.
Havia mais duas famílias reunidas na beira do lago, do outro lado. Eu mastigava lentamente a minha torta, deixando seu forte sabor inundar meu paladar. Ao mesmo tempo, eu ia escorregando os olhos aqui e ali, quando, de repente, alguém se aproximou arfando.
— Oooi! Feliz Natal! Desculpem-me pelo atraso! — era uma moça alta, esbelta, bonita.
Ela tinha cabelos curtos e escuros, com um leve brilho azul sob a luz da lua e iluminação dos postes de luz. Eu nunca a tinha visto antes e, assim mesmo, ela sentou-se conosco, cheia de intimidade depois de abraçar meus pais.
— Minha mãe não me deixou sair sem antes provar o pudim que ela fez! — em seguida, ela beijou Itachi nos lábios.
Desviei o olhar, me sentindo uma intrusa por estar observando aquilo. Nunca tinha visto nenhum dos meus irmãos beijar alguém.
— Konan, essa é a minha irmã! — Chi comentou, apontando para mim. Tentei sorrir, mas acho que não consegui. E então, ela se aproximou para me cumprimentar.
— Feliz Natal. Espero que não se importe por eu ter trazido um presente. Itachi me avisou que você viria. — só então percebi que ela carregava uma sacola nas mãos.
A moça tirou um pequeno pacote embrulhado perfeitamente em um papel dourado, e me entregou em mãos. Eu não queria abri-lo ali, na frente de todo mundo, mas ela insistiu para que o fizesse. Havia uma pequena caixa prateada, toda ornamentada. Quando a abri, uma fadinha cor de rosa saltou de dentro, girando ao ritmo do som da suave melodia que começou a tocar.
— Esses dias estávamos vendo um filme, e em uma das cenas apareceu uma menina com uma caixinha de música. — Itachi dizia — Lembrei daquela sua caixa com a bailarina, que quebrou, e comentei com a Konan que eu costumava lhe cobrir quando você pegava no sono ouvindo a música.
— Na verdade, eu tinha outra coisa em mente para te dar. Mas quando passei em frente a uma loja, e vi essa caixinha, tive que comprar. Itachi me mostrou seu quarto todo rosa... Achei que combinaria. — ela disse.
Senti-me boba por ter um quarto todo rosa. Ela me fez me sentir uma criança, ou uma dessas garotas mimadas, filhinha de papai. Mas sorri, e me desculpei por não ter nada em mãos, pois Itachi não havia avisado que ela viria. Ela sorriu de volta, dizendo que não esperava nada em troca; havia comprado o presente por que quis. Senti-me um tanto estúpida, por ver que ela era simpática, e parecia agradar a todos.
E então comemos, enquanto todos conversavam entre si, amistosamente. Mas tudo o que eu conseguia ouvir, era o som dos grilos a nossa volta. Essa tal de Konan parecia ser o centro das atenções. Todas as perguntas eram dirigidas a ela, todos os elogios e comentários eram a respeito dela. Algo não parecia certo naquele cenário. Tudo parecia diferente de como costumava ser.
Konan começou a contar uma história sobre uma viagem que fez para a Europa, quando completou quinze anos. O modo como ela contava fazia parecer que não havia outro lugar no mundo tão impressionante quanto aquele. Eu nunca sequer saí da minha cidade, mas sabia que não era verdade. Assim mesmo, me senti diminuída como um hamster engaiolado, que nunca viu outro lugar. Não tive apetite para comer a torta doce que a mãe comprou no mercado, e, discretamente, me retirei do grupo para dar uma volta pelos arredores do lago. Ele tinha umas quinze quadras de extensão, e havia uma pequena ponte de concreto atravessada bem no meio. Caminhei até a metade dela e me encostei sobre o corrimão, observando as leves oscilações na água causada pelo vento. Às vezes, conseguíamos ver filhotes de tartarugas nadando. Lembrei que quando éramos pequenos, eu, Sasuke e Itachi vínhamos jogar migalhas de pão para elas nos finais de tarde, quando chegávamos da escola. Mas agora, como estava escuro, não tinha como enxergá-las, por mais que me inclinasse sobre o corrimão.
— Beba isso. — me assustei com aproximação repentina de Sasuke, oferecendo uma taça de vinho.
— Não, obrigada. — resmunguei.
— Beber vinho não é pecado, Sakura!
— Eu apenas não quero beber, Sasuke! — rebati.
Ele suspirou, como se estivesse muito inconformado.
— Beba por mim, vai! Me prove que você ainda é a minha irmã, e não uma estranha que apareceu em casa, de repente. Não sei se você se deu conta, mas aquele episódio em que você me excluiu completamente do seu campo de visão, doeu Sakura. Afinal, o que foi que eu fiz? Não acha que eu tenho o direito de saber?
Nada!, pensei, você não fez nada! A culpa era toda minha.
Mas eu não iria lhe dizer isso. Mantive meu pacto de silêncio, e continuei olhando para o lago a minha frente como se continuasse sozinha com as tartarugas. Até que o vejo, com o canto do olho, caminhar de um lado para o outro, impaciente, atrás de mim.
— Será que dá para você ao menos me informar se algum dia vou conseguir minha única irmã de volta?
— Eu ainda continuo sendo sua irmã...
— Não. Você não é minha irmã! Minha irmã era mil vezes mais divertida! Minha irmã bebia até cair no natal, e não sentava com as pernas fechadas!
— Eu ainda posso ser divertida.
— Então beba isso!
O olhei cheia de resignação. Por que ele insistia em me atormentar? Por que ele não conseguia simplesmente ver que eu não poderia mais me aproximar dele? Por que ele não via que as coisas haviam mudado, e que não poderiam mais ser as mesmas?
Minha mudança deveria indicar isso. Suspirei.
É só uma bebida, é só uma bebida!, repeti em minha mente. Uma taça iria, no máximo, me fazer sentir-me mais leve. Não havia mal nenhum em beber durante uma comemoração. Dentre todos da família, aliás, eu é quem deveria estar mais contente e comemorativa! Afinal, era aniversário de Jesus — o único que pode me salvar. Aquela estranha sensação de solidão que eu sentia, deveria ser extinta pelo espírito natalino. Afinal, estamos sempre em companhia de Deus, que nunca nos desampara.
Com mais um suspiro, tomei a taça de sua mão, e bebi tudo em um só gole para que aquela tortura acabasse logo.
Amém.
— Satisfeito? — perguntei, socando a taça contra o peito dele.
Ele amenizou a expressão, mas, assim mesmo, não parecia muito contente. Depois de um suspiro, ele se colocou na mesma posição em que eu estava, de frente para o lago, com os braços apoiados no corrimão de madeira da ponte. Vi de canto que o vento soprava seus cabelos, e só então me dei conta de que eles pareciam um pouco mais compridos do que ele costumava deixar.
— Eu só vim até aqui por que quando te vi aí, lembrei daquele natal, que você deixou seu prato pela metade para vir achar uma estrela cadente no céu. Lembra? De repente, você começou a gritar impressionada com uma estrela que voava de um lado para o outro... Mas quando o pai veio ver o que era, bateu com as costelas no corrimão por que não conseguia parar de rir da sua estrela vaga-lume.
— Eu me lembro... — sorri — Você e o Itachi ficaram me chamando de burra.
— Depois o pai ajudou o Chi a pegar o vaga-lume, e você o prendeu num frasco de vidro que a mãe te deu. Mas ficou chorando por que ele não voava, e nem brilhava mais.
— Itachi pôs muita pressão, quando o pegou com a mão...
— É...
Ficamos em silêncio por um tempo, depois dessa recordação. A ausência de som parecia falar por nós. A melancolia deslizava de um para o outro, em um loop infinito. Era como se nada tivesse mudado entre nós, e ao mesmo tempo era como se tudo mudou. Era uma sensação estranha. Na verdade, isso era uma das qualidades que mais apreciava no Sasuke. Ele poderia estar se sentindo o cara mais furioso do planeta, mas em seguida aflorava sua capacidade para esquecer tudo, e nos perdoar.
— Você não gostou da Konan, não foi? — ele me pergunta.
— Do que está falando? Claro que gostei. Ela parece ser uma boa moça. O Chi parece gostar dela.
— Tsc... Fala sério! Acho que ela força para que as pessoas gostem dela... Tenho a ligeira impressão que ela mente, sabe? Ela parece ser uma dessas pessoas que precisam estar sempre contando uma história, como se as pessoas devessem achá-la impressionante... Não sei o que o Itachi viu nela.
— Bom, não sei... Não tenho o direito de julgar ninguém. Deus é o único que...
— Puta merda! — resmungou — Bla-bla-bla! Corta o papo furado, tá, Ku? Não venha com esse papo para cima de mim. Isso é pura hipocrisia. Você até pode não dizer nada, mas com certeza pensou.
— Isso não vem ao caso... — respondi, apesar de saber que ele tinha razão.
— Claro. É muito conveniente mesmo... Você não é a minha irmã! — e então, lá estavam aquelas costas largas expostas para mim, se afastando a cada passo que dava.
Eu não ia dar muita bola para essa birra estúpida sem fundamentos, por que tinha certeza que, logo-logo, passaria! Como em todas as outras vezes em que brigamos. No fim, ele iria correr para mim, e me dar um beijo... No rosto, como sempre fez, pedindo desculpas.
Eu fiquei por mais um tempo ali, antes de resolver voltar. Aquele lago, de repente, me parecia convidativo. Os suaves movimentos me encavam, me chamando para um mergulho eterno.
Konan explicava para a mamãe como estava planejando seu novo trabalho de arquitetura, pois, aparentemente, era isso o que ela estudava na faculdade. Quando me viu, no entanto, ela encerrou o assunto para falar comigo.
— E você, Sakura? Já decidiu o que vai estudar? O Itachi não soube me dizer quando perguntei a ele...
— Ela vai estudar a bíblia! — Sasuke, então, se intrometeu na conversa.
Itachi pigarreou, cutucando Sasuke com o cotovelo, mas ele lhe mostrou o dedo do meio. Só que o Itachi poderia ser o mais gentil de todos, mas aprendeu a não engolir desaforos. Então, agarrou habilmente o dedo, torcendo-o para trás, fazendo Sasuke se contorcer e praguejar.
Depois dessa cena desnecessária, juntamos nossas coisas, enquanto víamos alguns fogos de artifício estourar ao longe. Papai resmungou, lamentando-se por não ter se lembrado de comprar as bombinhas, como sempre fazia, para jogarmos um no outro. Então, Sasuke respondeu que não éramos mais criança para isso. Papai pareceu meio desolado diante dessa resposta seca do filho. E no fundo, acho que senti a mesma coisa que ele sentiu — a falta do tempo que não volta; quando tudo era mais fácil.
Juntamos todos os nossos pertences, e voltamos para casa. Como estava tarde para Konan voltar, e o carro do papai não tinha combustível suficiente para o Itachi levá-la, a moça foi convidada a dormir em casa.
Depois de ajudar minha mãe na cozinha, limpando a louça suja, meus pais se retiraram para dormir. Itachi estava na sala com Sasuke e Konan, vendo um filme que passava pela milésima vez na televisão. De algum modo, me senti excluída e me aprisionei na solidão do meu quarto cor de rosa, sem dizer nada. Fiquei me revirando em minha cama, de um lado para o outro, ouvindo as risadinhas que vinham da sala. Risadas que feriam meus ouvidos. Antigamente, meus irmãos me obrigavam a sentar entre eles, para assistir a uma seção de filme de terror — coisa que detestava fazer. Quando uma cena aterrorizante aparecia na tela, eu me encolhia e puxava o braço de um deles, enquanto riam de mim. Eu gostava desses pequenos momentos que passávamos juntos, por que me sentia viva e amparada, com os pés firmes em algum lugar.
Mas cá estava eu, me sentindo numa maré em revolta dos meus lençóis que se enroscavam em minhas pernas, sozinha. Completamente sozinha, até cair no sono.
No entanto, não consegui uma boa noite. Revirava-me de um lado para o outro, agitada. O primeiro dia em casa não foi fácil, e já me martirizava pensando no que seria do resto da minha vida. Eu teria forças suficientes para reprimir toda aquela confusão emaranhada em minha mente?, me perguntei. Até quando minha sanidade conseguiria lutar contra minhas fraquezas? Não importa quanto tempo se passasse, o Sasuke estaria sempre ali, lembrando-me dos pensamentos insólitos e proibidos que um dia tive. Parecia não importar o esforço que eu fazia em trancar os pensamentos promíscuos, por que, para onde quer que eu vá, o encontraria a me ameaçar involuntariamente.
Naquela madrugada, acordei com a boca seca, e precisei ir até a cozinha para pegar um copo de leite. Mas ao passar pelo corredor, vi Sasuke dormindo no sofá — certamente para que Itachi pudesse dormir com a namorada no quarto que dividiam.
Ele estava sem camisa, com os cabelos jogados para o alto da cabeça, com alguns fios colados no pescoço suado. Estava com o rosto virado para o encosto do sofá, de barriga para baixo, vestindo uma bermuda de algodão, que ressaltava a bunda grande que tinha... Trazendo à tona todos os pensamentos que escondia.
Com o copo de leite nas mãos, fui até o interruptor para ligar o ventilador do teto. Sasuke reagiu ao vento, se virando de barriga para cima, mas não despertou. Fiquei por um tempo o aprimorando. Os lábios levemente entreabertos, os cabelos lisos, o pescoço largo, os ombros compridos, o peito subindo e descendo... A fina listra de pêlos que cortava o meio de seu abdômen a partir do umbigo, e que desaparecia dentro da bermuda...
Demônio tentador que me persegue.
Pai Nosso que estais no Céu, santificado seja o vosso Nome...
Se a curiosidade matasse, muito teria sido poupado. Quando tinha meus doze anos, costumava espiar meus irmãos trocar de roupa pela fechadura da porta. Talvez por serem as figuras masculinas mais próximas a mim. Dia após dia, eu os via se desenvolverem em ritmo acelerado. Talvez aquilo realmente fosse uma patologia. Eu estava doente de um mal terrível.
Havia um lençol de algodão, com listras azuis e brancas, dobrado sobre a poltrona de couro do papai. A peguei, desdobrei, e joguei por cima dele. Em seguida, apaguei a luz do abajur que ele havia deixado acesa e voltei para meu quarto orando pelo caminho até minha cama, pedindo salvação.
Notas finais
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Eu pus no blog as fotos dos personagens, e acrescentei um "antes e depois" da mudança da Sakura, que me pediram. Ta aí o link para quem quiser saber...
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http://amanur.blogspot.com/2011/11/fraterno.html
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