Fraterno
19 Capítulo 18
Notas iniciais
Fraterno
By Amanur
Capítulo 18
...
Eu duvidava que pudesse me sentir mais à vontade estando com outra pessoa. Acho que esse era mais um ponto positivo para nós. Com ele, não havia nervosismo ou insegurança. Tudo era calmo, tranqüilo, seguro.
Sasuke me pôs deitada sobre o seu braço, enquanto mexia em meus cabelos com a mão. Eu também mexia numa pequena mecha de cabelos, enquanto via o teto do meu quarto ocilar pelo sono que queria me derrubar. Mentalmente, comecei a cantarolar a música da caixinha que havia ganhado da namorada do Chi, no Natal.
— Conseguimos! — ele repetiu.
— Uhum.
— Na segunda vez vai ser melhor, na terceira vai ser bom, e daí em diante vai ser incrível! — ele não desmanchava seus lábios arqueados. Mas, de repente, minha mente começou a alternar entre dois extremos com algo que me ocorreu.
— Você não era virgem! — afirmei.
E ele percebeu que não foi uma pergunta. Seu sorriso desalinhou-se, e ele pareceu congelar no tempo por alguns instantes. Mas em seguida voltou a acariciar meus cabelos, deixando que seu silêncio respondesse àquela não pergunta.
Senti-me estranha por um momento. O ciúme veio envenenado meu sangue no instante mais inoportuno. Nós conseguimos! Nós pecamos. Consumamos o ato proibido. Fugimos das leis morais. Havia um espontâneo sentimento de liberdade salpicado com culpa. E medo.
E agora?, me perguntei. Isso bastava para sermos livres? Ou nos tornaria condenados para sempre?
— Foi com a Ino? — indaguei.
Ele suspirou.
— Não. E não importa com quem foi. Por que nada poderá chegar sequer aos pés do que nós temos. Nada se compara a isso, Ku. Eu posso estar te amando mais do que qualquer um pode ser capaz. Eu me sinto melhor estando com você, do que com qualquer outra garota com quem já estive. Desejo por você no êxtase de minha mente. Te amo até o âmago da minha existência. E só você pode entender isso. Não é mesmo?
Por um lado, eu sabia que ele tinha razão. Eu sabia que ele jamais deixaria de me amar, graças ao laço fraterno que nos unia. No entanto...saberia ele diferenciar o sentimento fraterno da parte não fraterna? Será que nós dois estávamos mesmo distinguindo isso?
O sono venceu a batalha travada na minha mente. As emoções havia esgotado toda nossa energia. Adormeci por cima de seu corpo, tomando um pouco de seu calor, dividindo com o meu. Mas mergulhei num sono suave, sem sonhos, como se estivesse boiando sobre a superfície de um lago raso. Não sei por quanto tempo mantive as pálpebras descansando com o corpo relaxado. Só sei que ouvi o carro do papai entrando na garagem, e nós ali, ainda nus, com o lençol aos nossos pés.
Encostei suavemente meus lábios sobre a pele dele, e fechei meus olhos para os acontecimentos. Nós haviamos devorado aquele tabu, e talvez fosse o momento certo para lavar os pratos. Pensei que, como no filme “Os Sonhadores”, nossos pais pudessem nos ver, e simplesmente redessem-se diante a nós.
Mas talvez eu estivesse subestimando a reação de nossa família. Talvez aquilo tudo não passasse de efeito colateral do medo.
No último instante, fraquejei. Quando ouvi a porta da sala se abrir, pulei num salto da cama, e fechei a porta, passando o trinco na fechadura. Sasuke se levantou, assustado e afoito. Mas não precisei dizer nada para que entendesse que estávamos prestes a pagar nossa sentença de vida ou morte.
Nossa mãe chamou por nós da cozinha, supus. Berrei de volta um “estamos no quarto”, enquanto me vestia apressadamente. Ao ouvir os passos do sapato novo do papai ecoarem no corredor, suavemente, destranquei a porta. Sasuke havia vestido a camisa ao avesso, e acabou retirando-a bem no momento em que o pai abriu a porta.
— Madara mandou entregar isso a vocês! — ele dizia, estendendo a mão com uma sacola — O que estavam aprontando? — Sasuke estava com os cabelos completamente desalinhados, e acreditei que os meus não estivessem melhores. Sem mencionar minha falta de sutiã sob a blusa, e ele sem camisa. Em suma, eramos suspeitos em potencial.
— Vimos um filme no notebook dela, e acabamos pegando no sono. — Sasuke mentiu, naturalmente.
— Hum. Já comeram algo? — papai perguntou, deixando a sacola sobre a minha mesa de estudos — Trouxemos pizzas.
Fiz que não com a cabeça. Só me dei conta da rigidez do meu corpo, exalando culpa pura pelos poros da pele, quando ele saiu do quarto. Sasuke também pareceu relaxar imensamente, se jogando em minha cama. A troca silenciosa de olhar dizia mais do que qualquer palavra pudesse expressar. A consciência pesava sobre nós, assumindo a forma de culpa, e queríamos não precisar nos sentirmos assim.
Alguns instantes depois, recebi uma mensagem do Naruto no meu celular, perguntando se iria fazer algo especial nas férias, pois estava pensando em me levar para a fazenda dos pais dele. Sasuke leu a mensagem, e me olhou cheio de indagações não ditas. Dei de ombros.
— Vou recusar, é óbvio. — ele sorriu de canto.
O Chi chegou em casa assim que nos sentamos para comer na mesa da cozinha. Ele estava emburrado e mal nos cumprimentou. Simplesmente foi até o armário, pegou um prato, e puxou uma cadeira. Cortou uma fatia de pizza para si, sem dizer nada.
— Brigou com a namorada? — papai perguntou.
— Por que é tão difícil manter a fidelidade, para algumas pessoas? — Itachi questionou, de boca cheia.
— Konan o traiu? — papai indagou surpreso.
— Enquanto eu a esperava se vestir para jantarmos, peguei seu celular para passar o tempo com um jogo que ela tinha. Enquanto eu jogava, um idiota ligou. Nem esperou que eu dissesse “alô”, para sair falando asneiras, pensando que fosse ela no telefone.
Meu pai coçou a barba rala no queixo, franzindo o cenho. De repente, parecia solidário com a dor do filho mais velho. Mamãe parecia chateada também, enquanto distribuía fatias de pizza para nós, e Sasuke enchia os copos com refrigerante de cola. Eu apenas grudei meus olhos no Chi, sem saber o que dizer.
— Não há nada mais abominável do que traição e mentira! A traição é uma saída para quem não sabe se entregar por inteiro. E a mentira não é apenas o engano. É mais que isto! É ferir o sentimento alheio, corrompendo-o. E quando ela vem com a traição, é pior ainda. Traidores e mentirosos não merecem respeito. Seja quem for! Por que além de tudo, quem trai e mente está a ferir os próprios princípios, entende? E não há espécie humana pior do que esta! Porque a traição é cometida por eles, contra eles mesmos.
Sasuke escondeu o rosto atrás do copo de refrigerante que bebia, como um rato em fuga, mantendo os ouvidos bem atentos ao que papai dizia. Chi concordava com tudo, com a sua frustração bem marcada nos olhos. Ele parecia descontar toda sua raiva no pedaço de pizza que mastigava na boca há mais de dois minutos. Eu cortava lentamente um pedaço da minha pizza, pensando sobre o que acabara de ouvir.
Todas as indagações que surgiram em minha cabeça, desde quando compreendi o que sentia pelo Sasuke ia além do afeto fraternal, me deixaram, por inúmeras vezes, a ponto de querer fugir de casa para acabar com aquele sofrimento. Estou doente? Isso é pecado? Eu realmente sinto isso? Não estou depositando afeição sobre ele, somente por ser a figura masculina mais próxima a mim?, me perguntava sem parar. O pior de tudo era não ter a quem recorrer para que me esclarecesse todas essas dúvidas. Até por que ninguém poderia entender o que acontecia comigo, por ser algo tão particular.
Confessei meu pecado para um padre, num dia de missa, na capela da escola interna. O único esclarecimento que ele me deu foi um olhar, como papai disse, abominante. O velhinho parecia estar de frente a um monstro de sete cabeças, vindo diretamente do inferno. Como pagamento para minha penitência, tive que orar vinte Pai Nosso e quinze Ave Maria de joelhos sobre o milho. Punição arcaica, mas digna de um castigo para um crime tão hediondo!, ele me disse. Fiquei uma semana inteira sem conseguir tocar nem tecido em meus joelhos, e nada resolveu.
Achei que, até então, estivesse omitindo fatos. Omitir é deixar de fazer ou dizer alguma coisa; não mencionar, deixar no esquecimento, de propósito ou não. Mentir é distorcer fatos. Mas omitir, de certa forma, não seria também distorcer fatos? Não dizer o que aconteceu, é como se dissesse que nada aconteceu. O que seria uma grande mentira. E mentir é trair.
Acho que todos nós, os três filhos, compartilhamos desse mesmo repudio a traições.
— Eu beijei o Sasuke! — despejei de uma só vez.
Todos olharam atônitos para mim, incluindo o Sasuke. Vi minha mãe olhar para os pés, como se procurasse por alguma justificativa para o que acabara de ouvir.
— Todos nós já beijamos o Sah, querida. O que isso tem a ver com o que seu pai estava dizendo?
Sasuke trincava a mandíbula, me matando com os olhos, dilatando as narinas. Mas eu vivi com aquele pesadelo por tempo demais! Aquele tinha que ser o momento oportuno para desabafar.
Apesar que, ao mesmo tempo, logo em seguida, me senti péssima por estar ignorando o problema do Chi.
Suspirei. Os quatro pares de olhos ainda ardiam em mim.
— Eu o beijei nos lábios, mãe...
No mesmo instante, papai empurrou sua cadeira para trás, levantando-se. Seu rosto foi imediatamente mascarado por uma camada de bestialidade que jamais havia visto antes. Ele avançou num piscar de olhos no Sasuke, o fazendo levantar, puxando-o pela gola da camisa.
— QUE MERDA VOCÊ FEZ COM A SUA IRMÃ? VOCÊ ESTÁ ABUSANDO DELA, SEU MERDINHA?
Sasuke perdeu as cores, enquanto pulei da minha cadeira também. Acho que papai chegou logo a essa conclusão pelo modo como havia nos encontrado no quarto, instantes antes.
— EU O BEIJEI! FUI EU QUEM O BEIJOU! — e então, me vi com as pernas bambas como gelatina, tentando afastar o papai do Sah.
Ele me olhou, meio às cegas, como se me visse, ao mesmo tempo como se eu não estivesse ali.
Então, seus olhos voltaram-se para o Sasuke novamente, e o soltou. Mas seu olhar continuava a atravessar meu irmão, como duas lâminas afiadas com um único propósito.
Mamãe precisou sentar na cadeira, massageando as têmporas, suspirando algumas vezes. Itachi apenas apoiou a cabeça com o cotovelo sobre a mesa, me cortando com aquele olhar de reprovação e decepção.
— Sakura, o que deu em você? — mamãe perguntou.
— Eu o amo tanto, que enlouqueci, mãe...
— Todos nós amamos o Sah, querida.
— Você ama tanto o seu irmão, mamãe, a ponto de sentir necessidade de se masturbar pensando nele?
— Minha nossa! — papai exclamou — Preciso sentar! Não posso acreditar no que estou ouvindo!
Mamãe pigarreou, fingindo estar engasgada com algo, embora ela sequer tivesse tocado em seu prato ainda.
— Eu já disse! Devo ter enlouquecido. Mas creio que quase sempre é preciso um golpe de loucura para se construir um destino. Em loucas tentativas, renunciamos ao que somos pelo que esperamos ser.
— E o que você espera ser com isso, Sakura? A única coisa que você vai conseguir é ser apedrejada por qualquer um que vir vocês de mãos dadas! Já pensou nas conseqüências que isso vai trazer? O que os vizinhos vão pensar? Que o restante da família vai pensar? Que somos pais desnaturados, que não souberam educar seus filhos! Que somos a favor da pedofilia também! Que abusamos dos nossos filhos, e por isso eles saíram com esse distúrbio mental! Percebe o quão egoísta você está sendo, ao nos prejudicar também?
— NÓS estamos sendo, mãe. — Sasuke a corrigiu. De repente, o vi de pé, com as cores recobradas, tomando seu lugar ao meu lado. E então, sem medo, sem restrições, ele entrelaçou dedo mínimo ao meu, enfrentando seus medos. E como sempre fiz, entrelacei todos os nossos dedos, para lhe dar mais apoio.
Nossos pais viram aquela cena com incredulidade e horror no rosto.
Notas finais
/
Lembrando que a história vai até o cap 20, e o próximo será no ponto de vista do Sah! ;)
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