Fraterno
16 Capítulo 15
Notas iniciais
Boa leitura.
Fraterno
By Amanur
Capítulo 15
...
Os pássaros cantavam alegremente sobre a minha janela. O sol estava maravilhoso. Seus raios dourados batiam angelicalmente sobre a minha cama, me aquecendo com todo o seu resplendor. Aquele era o melhor dia seguinte da minha vida, e me sentia prestes a soltar fogos de artificios pelos poros.
Sasuke já estava sentado na cozinha, devorando uma fatia de bolo com geléia, quando entrei. Ele sorriu como nunca o vi fazer antes. Inclinei-me sobre a mesa para beijá-lo, simplesmente por que eu podia fazer aquilo. Simplesmente por que adquiri o direito e mérito por aquilo! Mas assim que meus lábios se aproximaram, ele empurrou uma fatia do seu bolo na minha boca.
— Bom dia, Chi! Como dormiu? Sonhou com os anjinhos? Caiu da cama e deu de cara no chão?
Chi parecia um zumbi, arrastando os pés pela cozinha com a trança toda bagunçada. Vestia uma regata cinza, e uma cueca samba canção. Estava com o rosto todo amassado, e nos olhou como se não nos reconhecesse.
— Fui dormir de madrugada... Preciso de café com bastante cafeína para entupir minhas veias, Sah. — preguiçosamente, ele puxou uma cadeira para si, e sentou. Esperou que fizéssemos tudo para ele.
No ônibus, fomos sentados um segurando a mão do outro. Aquele som irritante do motor nunca soou tão calmo em meus ouvidos, quanto fizera naquele momento único. Aquilo parecia um sonho e eu não conseguia pôr os pés de volta ao chão. Mas como todo sonho, havia um pesadelo a nos perceguir... Vimos um de nossos vizinhos passar pela rua. Por causa do trânsito louco, com todos saindo de casa para trabalhar e estudar, o automóvel ia de vagar pelo asfalto, e o vizinho nos viu. Acenou para nós, e respondemos da mesma forma, imediatamente nos desfazendo dos nossos dedos cruzados. Mesmo que ele não pudesse ver nossas mãos, estando do lado de fora, não quisemos nos arriscar. E Sasuke ainda passou a mão nos cabelos para disfarçar.
Quando descemos do ônibus, vimos um casal a nossa frente, se abraçar. Na faculdade, parecia ter brotado um monte de casais por todos os lados, em clima de romance. Parecia que o mundo inteiro havia reunido forças para nos testar.
Como haviamos chegado alguns minutos adiantados, havia somente o cara dos piercings no rosto, conversando com o sobrancelhudo, na sala. E Sasuke sentou em seu antigo lugar, atrás de mim.
— Não vai mais sentar com a Karin? — perguntei.
— Não tenho mais motivos para sentar longe. — ele deu de ombros.
— Achei que vocês estivesse de caso... — resmunguei.
— Eu e ela? Nem! Só falávamos sobre música, filmes, seriados... asneira desse tipo.
— Bom, ela não combinava mesmo com você, se me pergunte.
Ele sorriu de canto, meio sem humor, cerrando os olhos como se visse seu inimigo número um entrar. Foi então que me deparei com Naruto e aquele sorriso perfeito, todo e exclusivo para mim. Seu perfume inundou a sala inteira, exalando a forte fragrância da lavanda. Por algum motivo, ele ignorou a presença do Sasuke, se inclinando para me beijar. Como não retribui, o selo foi rápido, sem emoção. Pelo menos, para mim.
Senti a raiva do meu irmão ser absorvida pela minha pele, enquanto batucava, impacientemente, os dedos sobre sua mesa.
— Que tal, depois da prova, sairmos para ver um filme? — o loiro me perguntou. Mas foi Sasuke quem respondeu.
— Não vai dar, por que ela vai sair comigo.
— Oh... — Naruto mordiscou a ponta do lábio inferior, pensativo, encarando o Sah — Será que eu preciso mesmo pedir autorização a você, para sair coma sua irmã? Não achei que você fosse antiquado, cara. — senti uma pontada de provocação em suas palavras.
Desconfortavel, Sasuke se ajeitou na cadeira como se, de repente, estivesse sentado em um monte de espinhos. Imaginei a angustia borbulhando com a raiva por ter que ouvir que sou sua irmã sem poder se pôr no meio e lutar por mim, como eu sabia que ele queria fazer.
— Não... não precisa. Por que, de qualquer forma, eu não daria autorização alguma.
Naruto o olhou estranho, meio desconfiado, e, em seguida, se acomodou em seu lugar — retraído, encurralado contra a parede, sem saber como se defender da ameaça informal que acabara de receber gratuitamente.
Não demorou para que o restante da turma chegasse, e o professor ocupasse o vazio na frente da sala. Logo, folhas com questões deslizavam sobre as nossas mesas, ao mesmo tempo em que o silêncio abafavau o caso.
A turma, em média, levou em torno de uma hora e meia para responder apenas cinco questões dissertativas. Como terminei minha prova alguns minutos antes, esperei o Sasuke do lado de fora da sala. A ruiva já tinha acabado a prova, e estava escorada na parede como se esperasse por alguém também.
— Esperando o Sasuke? — perguntei. Ainda tentei sorrir, mas ela não ofereceu nenhum sinal de simpatia, o que me deixou um tanto apreensiva.
— Na última sexta, perguntei a ele o que achou do cd que eu havia emprestado. Ele me disse que não emprestei nada a ele... — segurei com mais firmeza a alça da minha mochila, lembrando que o cd ainda estava ali dentro — Por que você não deu o cd a ele? Já se passou meses desde aquela vez.
— Acho que ele caiu no fundo da minha mochila. E como mal encosto nela, devo ter me esquecido. — respondi, tentando não transparecer meu nervosismo — Você o quer de volta?
Ela me olhou desconfiada, mas não disse nada. Apenas estendeu a mão, solicitando de volta o seu pertence. Assim que o pus nas mãos dela, Sasuke apareceu ao lado do loiro. E então, ficamos os quatro nos encarando, com aquele clima estranho sobre nós. Os quatro pares de olhos deslizavam de um rosto para o outro. O nosso silêncio era reprimido pelo som de passos dos poucos alunos que passavam pelo corredor, e eu só me perguntava como o melhor dia do ano, talvez da minha vida, poderia ter sido esculhambado daquela maneira, tão drástica. Aquela reviravolta me encomodava. E tudo por que eu não poderia pegar em sua mão, e levá-lo para qualquer outro lugar, como qualquer namorada poderia fazer.
Namorada. Na-mo-ra-da! — cantarolei aquela palavra em minha mente.
— Por que está sorrindo? — Naruto me preguntou.
O bom daquele dia foi que passou rápido, contrariando todas as possibilidades. Ele tinha tudo para demorar uma eternidade para acabar, justamente por causa de nossas ansiedades acumuladas, para chegarmos em casa. Talvez fosse o milagre das provas.
— Fui mal, nas provas! Posso sentir isso nas veias. — Sasuke resmungava, no caminha de volta para casa — Tudo o que eu conseguia pensar era na cara emurrada daquele alemão idiota. Devo ter escrito isso em uma das questões.
Quando chegamos em nossa rua, nossos passos foram desacelerando cada vez mais. Enquanto atravessávamos a ponte, tentei entrelaçar meus dedos nos dele. Mas sasuke se esquivou.
— Todo cuidado é pouco. Alguém pode estar nos vendo por alguma janela...
Eu sabia que ele tinha razão, mas aquilo me cortou como uma folha de papel no dedo, que agente custa um pouco a perceber que está ferido, para, aos poucos, começar a sentir a dor. Pelo menos, eu não estava sozinha naquela angustia. Ele também sentia a mesma sensação revoltante nos dedos. E o melhor de tudo, era perceber que estava disposto a encontrar um cura para nós. Ou um anestésico, pelo menos.
— Vamos para outro lugar. — sugeriu.
Sasuke me levou para o outro lado da cidade, onde ninguém, muito possivelmente, nos reconheceria. Assim mesmo, nos mantivemos um pouco afastado da multidão. Mas andamos de mãos dadas o tempo todo. Ao final da tarde, fomos num parque, frequentado pelos moradores local. Deitamos-nos sobre a grama, sob a sombra de uma árvore. E o final daquele dia tornou-se tão belo quanto havia sido o amanhecer dele.
— Anjos são criaturas de Deus. E são espíritos sem distinção de sexo, cCerto? — perguntei.
— É o que diz a crença. — ele deu de ombros, enquanto observávamos as pessoas que passavam por nós — Apesar de todos os anjos terem nomes de homens. Acho que Deus é machista... — ignorei seu comentário sarcástico.
— Se eles realmente existem, não significa, então, que Deus não condena homossexuais, ou até mesmo o incesto? Por que quando morrermos, seremos apenas espíritos, sem distinção. — eu perguntava isso, por que, no fundo, ainda precisava de alguma confirmação de que não estávamos mesmo fazendo a coisa errada.
Ele me olhou de canto, e beijou o topo da minha cabeça.
— Eu não sei, e não me interessa saber, por que não vai fazer diferença para mim. Como você mesma disse, eu não posso escolher de quem eu gosto.
— Você realmente gosta de mim, ou apenas está se deixando influenciar por mim? Está com medo de magoar a sua mana?
Ele me olhou por mais alguns momentos, pensativo. Todo o som que nos rodeava de carros passando, pessoas conversando, o vento, buzinas, auto-falantes... Tudo se calou naquele instante. E então, apenas ouvi o seu suspiro.
— Eu sei que não quero que você fique com outro. Talvez seja algum ciúme excessivo de irmão, mas sei também que me sinto à vontade com você. Não existe ninguém no mundo que me conheça melhor do que você e o Chi. Mas como ele tem um pênis, prefiro você. Além disso, você é a única que me aceita com todos os meus defeitos e manias, a única que não me abandonaria, e justamente por termos esse laço fraternal. Não importa o que aconteça, eu, pelo menos, jamais lhe daria as costas. Eu posso ficar bravo com você por pegar uma meia minha sem pedir, mas... Você é minha família. Acho que não poderia amar mais ninguém, como amo você.
Acho não há sensação mais extraordinária, que a que sentimos quando choramos por felicidade.
— Você acha que, como não temos controle sobre por quem nos apaixonar, fomos destinados a ficarmos juntos? Cada casal foi destinado a ficar juntos?
— E os casais que se separam?
— Não sei... Talvez eles tivessem que ficar juntos por algum tempo, para que pudessem aprender algo um com o outro... Afinal, estamos sempre vivendo e aprendendo. E sempre dependemos de alguém ou algo para aprender alguma coisa...
— Faz sentindo, mas não acredito nisso.
— Por que não?
— Por que não gosto de pensar que meus atos são manipulados.
— Mas e se forem, e você apenas não percebe?
— Bom, se for assim, não posso fazer nada, não é mesmo? Se essa é a vontade de Deus, eu me rendo.
Ele me calou, jogando o corpo sobre o meu, cobrindo meus lábios sobre os dele. Meu coração acelerava, e eu me esquecia de respirar toda vez que ele me beijava. O fato de estarmos praticando um ato imoral, tornava tudo ainda mais excitante. Havia pessoas passando por nós, nos assistindo, sem fazer a menor idéia do nosso pecado criminal. Não havia como não me sentir única naquele mundinho. Não havia como não pensar que éramos os únicos sobreviventes daquela tormenta moral que nos cercava.
Talvez ele tivesse mesmo razão sobre a curiosidade. Mas eu sabia que havia algo muito maior do que o desejo de nos investigar, ultrapassando os limites. Eu sabia por que meu corpo inteiro reagia ao dele, além da mera ansiedade por uma descoberta.
Ele tinha lábios tão macios e quentes. Tão suaves e firmes. O cheiro de sua respiração se tornava meu novo vicio, e eu queria poder manter meus dedos mergulhados em seus cabelos para sempre. Mas o dia acabou, e a noite já afugentava o sol.
— Merda. Nove chamadas não atendidas. — Sasuke resmungou, olhando a tela do seu celular.
Por curiosidade, verifiquei o meu. Cinco chamadas não atendidas.
Chegamos em casa às oito e meia da noite. Papai, mamãe e o Chi estavam sentados na sala, nos encarando como se fôssemos dois suspeitos.
— Eu sei que você já estão crescidinhos para ficar nos dando satisfações como se fossem duas crianças, mas como chegamos em casa sem ter um único sinal de vida de vocês... Coisa incomum de acontecer, quero dizer... — mamãe dizia.
— Ela achava que vocês tinham morrido num acidente, que tinham sido sequestrados, assassinados, ou se perderam em algum lugar... — Chi comentou, em sarcasmo. Mamãe o ralhou em seguida, mandando-o ficar quieto.
Dizemos que tinhamos ido dar uma volta por aí, por que as provas foram estressantes, e amanhã ainda teríamos mais — o que, em parte, era verdade. Eu detestava mentir para os meus pais, principalmente por que a sensação de ser desmascarada ficava prensente o tempo todo nas costas. Sasuke sorria para eles, mas não consegui manter aquela calma, me perguntando sobre o dia em que teríamos que contar a verdade.
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