Fraterno
15 Capítulo 14
Notas iniciais
Boa leitura.
Fraterno
By Amanur
Capítulo 14
...
Levar a vida adiante nunca foi tão difícil. Mas aquele era o preço que eu tinha que pagar pelas escolhas que havia feito. Foi difícil não poder assumir a minha verdadeira escolha e ter de
continuar a vida alienada até sabe-se lá quando... Mas por um lado, de certa forma, eu me sentia aliviada. Fiz a minha parte; dei o primeiro passo. É verdade incontestável que a ré que tive que dar era muito maior. Em compensação, poderia morrer sem precisar me sentir como um rato de esgoto, dizendo que nunca fiz algo que eu quis. E isso tinha que ser um ponto positivo em toda a minha tragédia, certo?
Os dias foram se arrastando num ritmo mais lento do que eu poderia acreditar. As semanas levaram o que parecia com uma eternidade até os dias das provas finais do primeiro semestre.
Era um Domingo ensolarado, e eu estava com a bunda colada na cadeira da minha escrivaninha, com livros e cadernos abertos a minha disposição. Pela janela, eu via Sasuke chutar bola para o Itachi no pátio, enquanto riam de alguma piada. Papai aparava a grama do jardim, enquanto mamãe preparava um bolo de cenoura e laranja. Era um dia normal, como outro qualquer. Da janela do meu quarto, eu também conseguia ver uma parte da rua. E foi enquanto me distraia vendo meus irmãos, que vi Naruto chegando. Corri pelo corredor, até a porta da frente para recebê-lo. Eu o havia convidado para estudarmos a matéria do Asuma, por que ele estava com algumas dificuldades em entender o que Sócrates dizia.
Quando abri a porta, vi os três encarando o loiro — Sasuke, Itachi e meu pai. Revirei os olhos, o chamando para dentro de casa. Com um sorriso cheio de alívio, ele passou correndo pelo jardim.
— Deve ser difícil ser filha única dentro de uma casa cheia de homens. — ele comentou.
— Somos duas, contra três. — dei de ombros — E você sabe!, uma mulher vale por dois homens. Pelo menos no que diz respeito às discussões. Acho que eles é quem estão com a desvantagem.
— Hehehe. Certo.
Levei uma cadeira da cozinha para o quarto, para que ele sentasse ao meu lado. Enquanto repassássemos o conteúdo, percebi que meus irmãos não paravam de espiar pela janela. Eu tentava ignorar aquilo, mas começou a ficar óbvio quando Sasuke chutou aquela bola pesada para dentro do meu quarto, acertando a cabeça do Naruto.
— Ah, foi mal. — meu irmão disse, se aproximando da janela, sem um pingo de remorso.
Joguei a bola em cima dele, tentando acertá-lo, mas o Sah conseguiu se esquivar. Então, apoiou os braços no parapeito da janela, nos observando com aqueles olhos demoníacos que tinha.
— Sakura, você pode vir aqui um instantinho? — perguntou.
Suspirei, simulando cansaço. Quando cheguei sobre a janela, ele me fez me inclinar sobre ela para que ele pudesse sussurrar em meu ouvido.
— Não acha que você está... Como eu posso dizer... Á VONTADE DEMAIS? — ele lançou um olhar bastante insinuante para o meu pequeno decote, que me fez sorrir. Por estar quente, eu vestia uma blusa de frente única, e um short jeans. Na demais, na verdade.
— Eu já tenho dezenove anos, Sah. Posso me vestir como eu quiser. — o olhei tão insinuante quanto ele.
Sasuke balançou a cabeça, negando o que pensava.
— Não faça isso.
— Por que não?
Ele deu uma rápida olhada no loiro, que se mantinha atento às minhas anotações, e viu Itachi fazendo careta, o aguardando para chutar a bola. E então sussurrou ainda mais baixo, quase sem mover os lábios.
— Você sabe o porquê.Voce está usando suas virtudes para me influenciar. Jogue mais limpo.
Eu sabia que ele tinha razão, mas não daria o braço a torcer. Foi ele quem me rejeitou, se deixando vencer pelo medo. E até então, não havíamos sequer remotamente mencionado meus sentimentos com relação a ele. Mas afinal, o que ele esperava que eu fizesse? Que ficasse sentada na sala, apenas o admirando pelo resto da vida, enquanto o tempo passava por nós? Não, muito obrigada! Eu preferia sofrer na companhia de alguém, mesmo que aquela dor jamais fosse compartilhada com mais alguém. Aquela seria uma ferida conhecida somente por nós dois, que se manteria eternamente aberta. Suportaríamos a dor sozinhos, e em silêncio. E por isso, apenas lhe dei as costas.
— Naruto, Sócrates dizia que todos já possuíam o conhecimento do que era correto dentro de si. Para trazer esse conhecimento à tona ele fazia perguntas bem dirigidas e questionava sistematicamente seus interlocutores a fim de que a sabedoria aflorasse. A suprema sabedoria seria, aparentemente, o conhecimento do bem, ou pelo menos o reconhecimento honesto da própria ignorância.
— O que isso quer dizer? — perguntou.
— Isso significa que cada um sabe de si. Cada um sabe o que realmente sente, e isso é o que importa. Significa que as pessoas não devem se deixar levar pela opinião externa. As pessoas não devem se deixar influenciar pelas críticas dos outros, quando estas não têm argumentos suficientemente satisfatórios para te fazer mudar de opinião. — respondi, olhando para o meu irmão, cujos olhos ardiam em mim.
Ao final do dia, acompanhei meu colega até a ponte do lago. O vento soprava vapor quente e, por isso, prendi meus cabelos num coque. Ele repetia tudo o que havíamos lido e discutido, quando me parou bem no meio da passarela, se pondo a minha frente.
— Vou receber outro soco se eu te der outro beijo? — perguntou. Sorri, mas sem humor.
— Sasuke não está por perto. — dei de ombros.
— Eu me referia a você.
— Ah! Não, eu... Você não receberia um soco. — mas também não podia garantir que fosse retribuir como ele esperava.
— Bom... É só um beijo para agradecer por não ficar brava comigo por eu ter sido esse filho da mãe que te ignorava, e assim mesmo se disposto a me ajudar. — ele dizia, enquanto se aproximava — Acho que você merece.
Foi inevitável. Assim que nossos lábios se tocaram, imaginei o Sasuke em seu lugar. Até quando isso iria durar? Quanto tempo eu levaria para me desfazer da imagem daquele vivia vinte e quatro horas ao meu lado, sem realmente estar ao meu lado? Ninguém sabe o quanto isso era difícil.
Retribui aos beijos cujos lábios não pertenciam a quem eu queria. Afundei meus dedos nos cabelos, cujo corte não se assemelhava nem um pouco aos que eu tinha em mente. Deixei meu olfato inundar-se com o perfume cuja fragrância era completamente diferente ao que eu tinha na memória. Quando nossos lábios se apartaram, Naruto continuou com os olhos fixos em mim, com um sorriso cheio de cumplicidade ao qual não retribui. Lentamente, ele deslizou o polegar sobre meu lábio inferior; tentava esboçar algo para me dizer, quando foi interrompido.
— Bem, se você fizer essa chata chorar, prepare-se para levar um belo chute no rabo, está ouvindo, Alemão? — nos assustamos com a voz travessa do Chi, que atravessava a ponte com uma sacola de pães na mão, enquanto Sasuke trazia uma garrafa de refrigerante — Acho que o pai não vai gostar de saber que a filhota dele está namorando antes dos setenta anos.
Naruto, imediatamente, se afastou pigarreando, enquanto Itachi passava batendo a sacola na minha bunda, brincalhão. E Sasuke olhava para os pés.
Vimos os dois se distanciar.
O loiro suspirou, aliviado.
— Sua família me dá medo. Setenta anos? Hehe... — ele comentou.
Dei de ombros, voltando para casa. Meus passos soavam o arrastar do meu chinelo pelo concreto da ponte. O vento quente fazia minha pele suar naquele entardecer estranho.
À noite, papai preparou uma lasanha com a assistência acirrada da mamãe. Mesmo sabendo que já éramos independentes na cozinha, ela insistiar em ficar na nossa cola, dando instruções. Essa mania era tão bonitinha quanto conseguia ser irritante.
— Sakura está namorando, Sakura está namorando!!! — Itachi cantarolava, só para me irritar, enquanto mastigava a lasanha.
Eu cortava uma fatia em meu prato, sem muito apetite.
— Eu não preciso saber disso! Minha filhinha vai morrer pura e imaculada! — papai resmungou.
— Não gosto de ver que meus filhos cresceram, mas também não posso fingir que não aconteceu. — mamãe, então, comentou — Use sempre camisinha, Sakura.
Nesse mesmo instante, Sasuke engasgou com a comida. Sem dizer nada, ele saiu da mesa e foi marchando para o quarto. Cada pisada que dava, parecia fazer aquele chão vibrar.
— Hehehe. Acho que o Sah levava a sério demais, quando a mãe dizia para ele tomar conta da irmãnzinha. Olha só para ele, se mordendo de ciúmes! — Itachi zombou.
— Era só o que me faltava! Não foi isso o que eu quis dizer. — mamãe disse — Não tem nada mais chato do que um irmão mala, pegando no nosso pé! — se sentindo solidária pela causa, ela ainda segurou minha mão como forma de apoio. Mas eu não sabia se ria ou se chorava com aquilo.
Depois de limpar a sujeira da pia, enquanto o Chi e o papai assistiam tv e mamãe tomava banho, fui para o meu quarto, vendo a porta dos meus irmãos fechada. Movi minhas mãos cansadas e hesitantes à maçaneta, mas desisti no caminho, ouvindo o som do chuveiro cessar.
Me atirei em minha cama com as pernas exauridas pelo estresse acumulado. Liguei meu notebook, deixando uma música instrumental tocar como plano de fundo, enquanto sentia o sopro suave do ventilador de teto balançar meus cabelos. Me distrai olhando para a tela do monitor que exibia uma sequência de imagens de paisagens, que havia selecionado como screensaver, quando alguém abre a porta do meu quarto, suave e lentamente.
Ao constar que eu estava acordada, Sasuke entrou sem cerimônias, fechado a porta. Encostou-se à parede ao lado, cruzando os braços, e fitou os pés descalços.
— Eu não quero que você fique com o Naruto. — me disse.
Precisei me levantar para ter aquela conversa. Precisava olhar ao mesmo nível do olhar dele, para compreender o que ele dizia.
— Eu também não quero ficar com ele, Sah.
— O problema é que... — meio inquieto, ele coçou o queixo, certificando de que a porta estava fechada —... É que eu não quero que você fique com mais ninguém.
— Que bonito, Sasuke! — revirei os olhos — E eu devo fazer o que?
Ele virou-se de costas para mim, encarando a parede, e bateu a testa contra ela algumas vezes com relativa força.
— Eu não sei! Eu não sei... Talvez...
— Talvez?
Ele hesitou por alguns segundos, antes de avançar me dando um beijo. Minhas pernas falharam e quase caí. Se não fosse por ter envolvido seu pescoço, eu teria desabado no chão. Seus lábios estavam mais calmos, mais certos do que faziam. Os movimentos eram precisos e firmes, sem hesitação. Penetrou sua língua dentro da minha boca, e sugou a minha. E então, lentamente, ele sugou meu lábio inferior até nos separarmos.
— Eu beijei a minha irmã. — ele resmungou, para si mesmo, tentando convencer-se daquilo. E então sorriu meio amarelo — Isso é loucura.
— De louco, todos temos um pouco.
— Você realmente pensava assim em mim? — fiz que sim com a cabeça.
— Você não acha nojento me beijar? — perguntei.
— O pior é que não acho. Você é minha irmã. Eu engoliria a sua saliva, se você cuspisse em mim.
De repente, se dando conta de algo muito importante, ele cobriu o rosto e voltou a bater a cabeça contra a parede. Senti-me angustiada por pensar que ele poderia mudar de idéia. Havíamos chegado tão perto de uma conclusão.
— Se o pai descobrir, ele me põe na rua, Sakura!
— Se ele fizer isso, eu vou com você. — ele bufou, e riu meio descrente.
— Quando vamos contar?
— Agora não. Nem amanhã, nem semana que vem, nem mês que vem... Uma coisa de cada vez.
— É... Você tem razão. De repente, até, agente descobre que isso não passava de... Sei lá!, curiosidade, talvez.
— Aham. Curiosidade...
— Sakura, nós vamos... Nós vamos transar?
— Não agora! Nem amanhã, e nem depois... mas... Eventualmente. — dei de ombros.
— Heheh. Você é louca! Como é que eu vou meter o pau em ti? E se você ficar grávida? O que vai acontecer?
— Putz! Calma, Sasuke! Lembre-se, uma coisa de cada vez. Não precisamos nos apressar! Eu estou com tanto medo quanto você. Mas acima de tudo, quero que isso de certo. — supliquei.
— Ok. Uma coisa de cada vez, uma coisa de cada vez! Sem pressa, com calma. — ele cerrou os olhos bem firmes, tentando controlar a própria confusão.
Inspirou e expirou algumas vezes, para que o oxigênio circulasse pelo cérebro e, assim, conseguisse raciocinar com mais calma. Eu cruzava os dedos, torcendo para que ele não voltasse atrás. Quanto mais o beijava, maior se tornava aquela chaga no peito. Quanto mais possibilidades víamos, maior era a dor da perda.
Mais tranqüilo, ele se aproximou, até roçar os lábios nos meus. E então, ouvimos o som da maçaneta da porta girar. Num piscar de olhos, ele se afastou, todo desengonçado. Quando a mamãe nos viu, desconfiou que estivessemos fazendo alguma traquinagem, como faziamos quando pequenos.
— Eu hein... Eu vou fazer um leite quente para mim, vocês querem?
Eu disse que sim, Sasuke disse que não. Ao se dar conta de que as respostas saíram automáticas demais, ele mudou de ideia.
— Ok, eu aceito...
— Ok... — ela respondeu, ainda desconfiada — Eu quero saber o que estão aprontando... Vocês parecem suspeitos demais... já volto.
E então, ela desapareceu.
— Ela não fechou a porta. — Sasuke observou.
Em passos de gato, espiei o corredor. Papai e Chi ainda estavam na sala, e mamãe já se pusera na cozinha. Suavemente, fechei a porta. Assim que me virei, dei de cara com o meu irmão, que me atacou com mais um beijo quente, apressado e cheio de calor. Eu sentia um leve choque percorrer pelo corpo quando ele me tocava. Talvez fosse o efeito da proibição, nos repelindo. Mas o fogo nos unia, firmes e fortes. Um atraindo o outro, para um encontro físico cada vez mais necessitado. Sasuke apertava minha pele em sua mão quente e grande, afirmando o quanto me queria. Eu já estava perdendo todo o meu oxigênio e não reclamaria por ele, até alguem chutar a porta.
— Não tenho como abrir a porta com três xícaras nas mãos, meus queridos! — mamãe resmungou.
Sasuke fez a gentileza.
— O que vocês estão fazendo? Ainda faltam três meses para o meu aniversário! Não fiquem até tarde de farra, hein! Não esqueçam que amanhã tem prova. E você, seu Sasuke? Não te vi pegar uma vez sequer nos livros!
— Por que eu sou um gênio.
— Uhum. Bom, gênio, você esqueceu a cueca no chuveiro, e não baixou a tampa do vaso sanitário. — ela lhe deu um beijo, e assoprou outro para mim — Vou me deitar, boa noite.
— Boa noite. — respondemos em conjunto.
Ele tornou a fechar a porta, e suspirou.
— Isso vai ser complicado.
— Ou divertido! — tentei fazê-lo ver pelo lado positivo, para que não desanimasse. Mas a verdade era que eu estava tão preocupada quanto ele.
— Vou dormir...
— Espere... — larguei minha xícara na mesa — Isso significar o que? Que nos vamos tentar?
— É... Vamos tentar...
Notas finais
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A parte sobre sócrates foi retirada daqui:
http://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0307
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Eu postei no meu blog um "artigo" sobre dicas de como escrever bem! Acho que é interessante que todos que têm interesse na escrita, ou os que pretendem se aventurar nisso, leiam! Ele ficou meio longo, mas acho que valerá à pena para muitos! :)E não se acanhem em me dizer o que acharam! ;)
http://amanur.blogspot.com/2011/12/dicas-para-escrever-bem.html
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