Fraterno

14 Capítulo 13


Notas iniciais
Mais um. Boa leitura.

Fraterno

By Amanur

Capítulo 13

...

Nossa conversa ficou se passando em minha cabeça, repetidas vezes. Eu deveria ter dito muito mais a ele, além daquelas meras palavras sem profundidade alguma. Eu deveria ter causado mais impacto. Eu deveria tê-lo convencido de que estava tudo bem em assumir que estava com medo, por que era como eu me sentia. E acima de tudo, eu deveria tê-lo feito perceber que, assim mesmo, eu estava disposta a enfrentar o mundo inteiro, se fosse preciso. Desde que ele estivesse ao meu lado, é claro.

De volta a sala, disse ao professor que meu irmão passou mal, e precisou sair às pressas. Mas acabei entregando apenas a parte do trabalho que ele escrevera.

No final da aula, Karin me abordou. Ela usava uma calça jeans preta, rasgada nos joelhos, com uma blusa tomara que caia, também preta. Apesar de toda a morbidez em suas veste, havia algo inegávelmente atraente sobre ela. Karin era cheia de confiança em si, e assim mesmo tinha um certo carisma. Seu busto farto parecia ser apenas um mero atrativo complementar, para todo o conjunto. E por um instante, desejei estar na pele dela por um dia.

— Eu fiquei de emprestar esse cd para o Sasuke.. mas como ele não voltou... — ela dizia, me entregando uma caixa de cd.

— Ok. Entregarei a ele... — resmunguei, jogando o cd dentro da minha mochila.

— Tem mais uma coisa que eu queria perguntar... — ela se aproximou de mim, roendo a unha pintada de preto — Você sabe se... Se o Sasuke tem namorada? Ou qualquer coisa parecida...?

— Ele tem.

Voltei para casa carregando a minha mochila e a do Sasuke. No ônibus, senti o peso da mochila dele, como se carregasse toda a podridão que havia despejado sobre ele. Sem mencionar que carregava a minha propria imundície em minhas costas. Mais uma vez, eu me meti nos assuntos particulares deles. E sem um único pingo de remorso. Ele poderia realmente estar apaixonado por ela, e eu não dei a mínima para os sentimentos deles. Quem eu era para fazer isso?

O que realmente me martelava era outra dúvida. Como foi que eu consegui dizer tudo aquilo para ele?, me perguntava. Tentei imaginar o que estaria se passando na cabeça dele, aquele momento, mas me calei no mesmo instante. Se eu repetisse o que eu sabia, iria acabar caindo num poço de arrependimento sem fundo, para nunca mais sair dele. E não era como se eu estivesse me sentindo a criatura mais afortunada do planeta, naquele momento. Me sentia a pessoa mais corrupta.

Mamãe, sempre dizia que era melhor se arrepender das coisas que fizemos, do que se arrepender do que não fizemos. Mas se fosse para nunca mais tê-lo sequer como irmão, eu preferiria ter me arrependido por não ter feito nada.

Sasuke não estava em casa quando cheguei. E Itachi estava em seu dia de folga, com Konan no sofá. Eles estavam se grudando feito cola quando abri a porta de entrada. Se assustaram com o estrondo e, rapidamente, sentaram comportados tentando disfarçar o inegável e o óbvio. Ela estava com o sutiã aberto, por baixo da blusa, e ele todo descabelado, com o botão da calça aberto.

— Chegou mais cedo, Saky. — ele resmungou puxando a almofada do sofá para o colo.

— O Sah está no quarto? — apenas quis saber.

— Ué! Ele não veio contigo?

Fui praguejando pelo corredor até o quarto deles. Joguei a mochila sobre sua cama, e voltei para o meu quarto. Fiquei esperando-o ansiosamente até o final do dia. Na verdade, eu estava roendo as unhas até sangrar, com um milhão de dúvidas e medo. Aonde ele foi? O que está fazendo? Com quem está falando? E o que dizia?, eram as principais indagações que me inquietavam.

Quando começou a escurecer, resolvi dar uma volta no lago, dando a desculpa que iria à padaria comprar algum doce. O céu estava tingido por um véu alaranjado, tristonho. É engraçado perceber que, quando o humor bate no chão, tudo parece se arrastar ao mesmo nível dele. É quase como se o mundo todo trabalhasse para que eu continuasse naquele estado de melancolia, me afundando cada vez mais naquela lama cinzenta. Era confortável continuar ali, sendo levada pela maré de tristeza, quando fazer mudar a direção dela parecia uma tarefa impossível. E ali estava a ponta do sol, sussurrando em meus ouvidos que o dia acabou, mas que minha tortura estava apenas começando.

Encontrei Hinata atravessando a ponte, de mãos dadas com seu primo. Ela sorriu para mim, acenando. Sorri inveja para ela.

Quando voltei para casa, a lua cheia já dominava o céu, como uma verdadeira rainha imperial, sobre seus pequenos soldadinhos cintilantes. Levei uma caixa cheia de brigadeiros e glicose para o meu quarto. Eu assistia a alguns vídeos no youtube, terminando de me intoxicar com o açúcar, quando ouvi a voz da mamãe discutindo em tom alto e irritadiço, de algum outro cômodo da casa.

— Posso saber aonde o senhor se meteu? Não dava para ter ligado para avisar que estava vivo?

Só fui dar uma volta! — respondeu a voz do Sasuke. Foi assim que soube que ele havia chegado. Foi assim que a ficha caiu.

Eu contei para ele. Disse que meu amor ia além da fraternidade. Que meu amor por ele era maior do que qualquer um poderia sentir por alguém. E apenas por que eu o queria como meu irmão, meu amigo, meu amante. Foi assim que senti a flecha lançada as cegas contra meu próprio peito. Afinal, fui estúpida o suficiente para não pensar antes de falar.

Papai bateu na minha porta, avisando que o jantar estava pronto. Resmunguei que estava sem fome, mesmo querendo engolir meu quarto inteiro. Estava com medo que o pânico que sentia transbordasse e meu pecado se tornasse visível para todos. Estava com medo de olhar para o Sasuke, e ele explodisse tudo no prato. Só saí do meu mundinho para atravessar o portal para a realidade depois da meia noite, quando todos já haviam se recolhido para seus dormitórios, se preparando para o dia seguinte. Comi qualquer coisa que encontrei pela frente, e tomei meu banho. E então voltei para tentar bloquear meus pensamentos com o sono. Estava tão exausta mentalmente, que não foi difícil mergulhar na escuridão do inconsciente.

Mas acordei no meio da madrugada, com alguém invadindo meu quarto.

Sasuke entrou as pressas. Acendi as luz do meu abajur para ver seus olhos ocultar os pensamentos; vi seus lábios dizer o que não diziam e vi seu rosto expressar o que sentia. Meu coração disparou mil sentimentos, incluindo a surpresa, quando ele se jogou em minha cama, se pôs por cima de mim, e me beijou. Com pressa, afoito, nervoso, desajeitado. Parecia estar dando o primeiro beijo numa menina. Penetrou a língua em minha boca, incerto de estar fazendo aquilo direito, e roçou seu corpo contra o meu. E então, passei a acreditar que estava sonhando, delirando, ou pensando alto demais. Automaticamente, minhas mãos se moveram em torno do seu pescoço, aceitando-o com todas as duas dúvidas e incertezas. Mas tão rápido quanto aquele sonho surgiu, ele se foi. Sasuke se esquivou sentando na cama, cobrindo o rosto, e pondo tudo no lixo.

— Merda! Merda! Merda! Eu não consigo, Sakura. Eu não consigo! Você é minha irmã! — sua voz transbordava tanta aflição que chegava a me sufocar.

Sem querer, um rio desabou dos meus olhos em um simples piscar de olhos.

— VOCÊ NÃO PRECISA ME AMAR AGORA! VOCÊ SEQUER PRECISA ME AMAR O TEMPO TODO! — acabei me deixando levar pelas emoções, falando mais alto do que deveria.

Shiiiii! Fale mais baixo! — ele olhou para a porta, preocupado — Isso é loucura!

— Loucura é relativa. Dê uma resposta mais exata. — supliquei.

— Reafirmar que você é minha irmã, é a única resposta sensata que consigo pensar.

Procurei desesperadamente, como se minha vida dependesse daquilo, algo coerente a dizer. Mas minha mente estava em confusões equivocadas a cerca do que eu realmente deveria fazer. Tive que cavar no fundo da minha consciência por algo, qualquer coisa que me desse alguma chance de contestar o absurdo que estávamos prestes a cometer.

— Me diga por que você acha que isso não poderia dar certo. Só não diga que é por que somos irmãos! Eu não quero ouvir isso! Me diga qualquer outra coisa, Sasuke! Se você não acredita em Deus, então o que mais o impede? — nunca me senti tão frágil, como uma taça de cristal. Meu corpo inteiro tremia, fazendo a alma chacoalhar na embalagem que o corpo servia. Eu tinha medo do que ele pudesse me dizer, mas acho que no fundo, eu ainda queria ouvir alguma resposta que fosse suficientemente forte para impedir meus impulsos sujos.

— Tsc! Não é tão simples assim...

— Somos nós que estamos dificultando.

Sasuke estava exausto, como se tivesse passado por uma longa jornada até o momento. Só Deus sabe o que se passava na cabeça dele, que os olhos batalhavam para esconder. Hesitante, ele tocou meu rosto com a mão, até repousar a testa sobre a minha. Ele ficou me olhando, contendo o grito de desespero que abafava na garganta. Estava tão, ou mais, transtornado do que eu. E eu não sabia o que fazer para lhe mostrar que as coisas não precisavam ser assim! Se eu consegui aceitar aquela idéia, por que ele não conseguiria?, me perguntava. O que seria necessário para ele entender?

— Isso não está certo, Sakura. É errado. — sussurrou.

— Isso é o que as pessoas nos faz pensar. Mas que diferença faz, Sasuke? O que mais te impede de ficar comigo? Não estamos cometendo crime algum! Você vai deixar que os outros te digam o que fazer?

— Tecnicamente, incesto é crime sim!

— Não pode ser quando os dois concordam.

Ele bufou, virando o rosto.

— E como você sabe o que eu quero? Quem disse que eu quero você? — nesse momento recebi um banho de água fria, um tapa na cara e mais uma apunhalada nas costas. Tudo ao mesmo tempo.

— Eu não sei... — resmunguei.

Ele me olhou, de canto. Olhou paras os pés, praguejando, mexendo com os dedos inquietos. Ele tentou pegar minha mão, mas não conseguiu. Havia uma barreira invisível entre nós. E então, suspirou.

— E se isso for apenas confusão da sua cabeça, hein? Você acha que me ama de outra maneira, quando na verdade não. Agente só passou tempo demais juntos.

— Sasuke, essa é a única verdade que eu sei. Eu te quero dentro das minhas calças, Sasuke.

— Argh! Por Deus, Sakura! — ele se levantou, esfregando as mãos no rosto cansado — Onde está o seu Deus, agora? Hein?

— Continua onde sempre esteve.

— Que merda é essa? O que isso quer dizer? Você não tem medo de ser punida?

— O amor não é o sentimento mais puro, benevolente, sadio? Eu não posso acreditar que Ele vá me punir por amar alguém.

O observei pacientemente dar algumas voltas pelo quarto, inquieto. Ele mexia nos cabelos, ajustava a camisa branca que usava, ou atava o cordão do short de algodão que prendia em sua cintura. Às vezes ele coçava a barba rala, mordia o polegar, a bochecha e os lábios. E então, parou diante da porta, com um suspiro.

— E o Itachi? Você sente algo por ele também?

— Não. Só você, só você!

— Hum... Sabe o que me dá raiva, Ku? É que só agora tudo faz sentido. Por que você me deu aquele gelo, por que você foi para aquela escola idiota, por que você ficava nervosa quando me via sem camisa, por que você disse para todo mundo que eu era gay, por que você me afastava de todas as meninas... Tudo faz sentido! — meu coração, numa só batida, saltou pela garganta. Achei que nunca sobreviveria no dia que ele descobrisse toda a sujeirada que joguei nas costas dele, mas lá estava ele citando toda a minha imundície na maior calma. E eu não entendia o porquê! — Não sou burro, Sakura.

— Eu nunca disse que você era. — murmurei, em voz rala, quase inaudível.

Ele soltou mais um suspiro.

— Eu preciso de um tempo... — e então fechou a porta atrás de si, num som aflito.

Não consegui dormir pelo resto da noite. Fiquei lembrando entre as batidas do coração que ele se jogou aos meus braços, por que a possibilidade de ficarmos juntos lhe ocorreu em mente.

Infelizmente, como todo ser humano, me agarrei àquela pequena fumaça como se fosse um sinal de pedido de socorro. Um sinal de vida, quando se está preso e sozinho numa ilha, desesperado para ser resgatado. Ele queria sair daquela nebulosidade que o envolvia e pedia, secretamente, ajuda para isso.

Na manhã seguinte, não lhe direcionei o olhar e acho que ele fez o mesmo. O estranhamento entre nós parecia o mesmo, em forma daquela grande muralha de concreto intangível, mas havia uma pequena rachadura nela. Sasuke não parecia mais tão distante. De alguma forma, eu conseguia senti-lo de volta ao meu lado, onde sempre fora seu lugar.

Na faculdade, no entanto, ele preferiu manter a distância entre as cadeiras, embora os olhares nos unissem. Ele continuou sentando ao lado da ruiva, enquanto tomei o seu lugar ao lado do Naruto. Conversamos bastante sobre coisas banais, entre outras não tão banais. Mas sempre que a oportunidade de uma espiada discreta surgia, eu olhava para trás. Sasuke parecia tão alheio ao que a garota lhe dizia quanto eu ao que o loiro comentava.

E assim, aquela semana se passou, sem que tocássemos naquele assunto, embora ele persistisse pairar sobre nossas cabeças vinte e quatro horas por dia. Notei que a cada dia que passava, Sasuke se limitava a se soltar um pouco mais. Começou com uma olhada, passou para um sorriso de canto, até uma troca de bom dia. No início eu achei que fosse um progresso, mas só então percebi que era regresso. Ele estava tentando voltar ao que éramos antes. E somente isso.

Achei que minha existência seria desmanchada pelo vento, e levada para bem longe, mas me mantive inteira. Mais calma do que eu gostaria de ter ficado, na verdade. Acho que o fato de ele continuar querer ser meu irmão era o que me tranqüilizava. Mas é claro que não pude deixar de chorar todas as noites, abafando os soluços no travesseiro, me sentindo estúpida, humilhada, desmoralizada. E, acima de tudo, me sentia sozinha. Por que ninguém sabe como é difícil manter os olhos erguidos, sem que a vergonha me desmascarasse. Ninguém sabia da raiva que sentia por estar numa sociedade de falsos moralistas, preocupados em julgar as pessoas, sem fazer nada de realmente útil para melhorar a qualidade de caráter das pessoas. Ninguém sabe o quanto é difícil ter de lidar com a ausência de alguém que está ao meu lado, que também sente o mesmo sufoco, a mesma angústia, a mesma falta... Mas também a mesma impotência diante da situação. Ninguém conhece o esforço que eu fazia para poder me manter dona de mim mesma, calando a vontade arrebatadora de estar presa a um compromisso do qual eu não podia simplesmente me ater. Porque existem muitos outros fatores a serem considerados e eu não podia ser tão egoísta e pensar somente no meu bem estar.

Era difícil tê-lo a um palmo de distância e, ao mesmo tempo, não poder ter ele ali comigo. E mais difícil ainda era sufocar isso tudo dentro do peito e ter de disfarçar, enganando a todos e a mim mesma de que está tudo bem, tudo certo... Quando na verdade não estava.

A partir do momento em que percebi o que estava acontecendo, não consegui mais olhar para ele. Eu estraguei tudo. Não tinha como voltar a ser o que éramos antes. Não tão cedo. Sasuke era o fruto proibido que eu não poderia ter, nem mesmo se eu quisesse arrancá-lo da árvore.

Notas finais
Algum comentário?
Essa parte final, contém algumas partes de um poema que encontrei, com algumas palavras alteradas. Se chama Amor Proibido - Que difícil! da Annelyse Siqueira. Ele está na integra no meu blog, na seção "poesias" :)