Notas iniciais
Gente, estou passando rapidinho aqui só para deixar mais um capítulo para vocês, mas prometo responder aos reviews anteriores assim que chegar em casa ainda hoje!
Boa leitura.

Fraterno

By Amanur

Capítulo 7

...

O céu mudou de cor, assim como mudei de humor. Eram uma e meia da tarde, quando chegamos em casa, e o sol já iluminava o véu cinzento da manhã. Eu me sentia bem, e atribuía isso ao céu azul e ao sorriso do Naruto. A primeira coisa que eu fiz, foi tomar um banho, enquanto o Sah ia esquentar o almoço que mamãe deixara pronto no congelador. Saí do chuveiro enrolada em minha toalha. Em meu quarto, vesti somente minhas roupas de baixo, pois a temperatura já subia novamente. Joguei-me em minha cama, com o panfleto de divulgação da festa a fantasia que um veterano me entregou, ao final do dia.


A festa seria somente para os alunos do curso de Filosofia. Cada curso teria sua festa com seu tema. O tema do nosso curso seria personagens de Shakespeare. Perguntei-me por que Shakespeare?, que apesar de ter sido um grande pensador, não chegava a ser um filósofo.


Mas isso não importava. O que importava é que eu estava prestes a concretizar um dos meus itens da lista de resoluções para o ano. E isso era motivo de sobra para me sentir leve como uma pluma, flutuando sobre as nuvens de algodão, completamente sonhadora. Eu tinha certeza de que o Naruto iria a essa festa, e tinha mais certeza ainda de que ele tentaria algo comigo.


Rolei sobre a cama como uma menina boba, devaneando com o papel ainda em minhas mãos. Ainda não tinha tido meu primeiro beijo. Não um que eu pudesse contar para alguém. E acho que agora já sei o porquê. Como o próprio Sasuke dissera antes, ninguém se aproximava de mim, por intimidação dele.


— Que merda você vê nessa maçã? — sem que eu percebesse, Sasuke entrou em meu quarto, sem bater na porta. E ainda teve a petulância de se jogar na minha cama.


Levantei num impulso mal calculado, cambaleante, puxando minha colcha para cobrir meu corpo. E então, veio aquela descarga energizante de raiva, nadando pelo sangue de minhas veias.


— MAS QUE DROGA, SASUKE! Bata na porta antes de entrar! Será que vou ter que começar a me trancar em meu próprio quarto?

— Qual é o problema agora, Sakura? — ele pergunta, revirando os olhos, como se realmente não soubesse.

— Eu não estou vestida! — resmunguei, abrindo a porta do quarto para que ele saísse.


Mas ele não arredou o pé.


— Eu já sei que você tem dois peitos, e uma vagina. Não é a primeira vez que eu te vejo de calcinha. Você realmente acha que Deus vai te punir por eu estar te vendo assim?


Suspirei pesadamente, tanto em frustração como por cansaço por ouvir aquelas insinuações.


— Por favor, Sasuke. Apenas saia do meu quarto.


Relutante, ele se levantou, com o caderno e a maçã que ele tinha em mãos. Ao passar por mim, ainda jogou, como um balde de água fria, um olhar cheio de desconfiança e mágoa.


— Eu realmente não te reconheço mais! Você está me tratando como se fosse um estranho! Vai mesmo deixar que Deus, ou o que for, interfira em nossa relação?


Sem dizer mais nada, ele saiu. Sem fazer a mínima idéia de que suas palavras corroíam como ácido em combustão desfigurando minha pele, deixando uma enorme cavidade obscura, horrível e fétida. Quando fechei a porta, me vi diante do espelho do meu guarda-roupa. Aquela figura refletida não era quem costumava a ser, e eu sabia muito bem disso. Por Deus, e como eu sabia disso! Como o próprio Shakespeare havia dito, a suspeita sempre persegue a consciência culpada; e o ladrão vê em cada sombra um policial. E era exatamente assim como me sentia. Qualquer deslize poderia me levar a um julgamento, com condenação à morte. Portanto, eu não podia me deixar levar por aquelas palavras tóxicas, que me asfixiavam.


Pus um vestido florido, de alça fina, por ser prático e leve. Ele batia nos tornozelos. Sasuke iria reclamar, mas eu não podia me dar ao luxo de me importar com todas as suas opiniões. Caso contrário, eu explodiria em mais de um milhão de partículas. E já estava sendo bem difícil de mantê-las unidas, suportando apenas os meus pensamentos insólitos.


Sasuke estava sentado na mesa da cozinha, com um prato de lasanha ao lado e com a maçã em sua frente, escrevendo algo em seu caderno. Nem levantou os olhos para me ver entrar. Peguei a minha parte da lasanha, e sentei-me de frente para ele, e comecei minha refeição, mesmo com a falta do apetite. Fiquei o estudando observar a maçã e fazer suas anotações, entre um garfo e outro. Pelo modo como seus olhos deslizavam sobre a fruta, por longo tempo sem anotar nada, suspeitei que estivesse com problemas para cumprir a tarefa. Quando ele se levantou, para pôr seu prato sobre a pia, puxei seu caderno para espiar o que havia anotado. Além de desenhar a maçã, tal qual ela era, em todos os seus detalhes, havia escrito apenas a descrição física da fruta.


— Você melhorou bastante no desenho. — comentei. Até onde me lembrava, seus desenhos eram apenas um pouco melhores que rabiscos de criança.

— Bom, era a única coisa que eu podia fazer sozinho em casa. — ele respondeu, tomando suas anotações de volta. Em seguida, saiu da cozinha, me deixando desconsolada em frente à mesa.


Nunca havia parado para pensar que ele pudesse ter se sentido sozinho durante a falta de minha presença. Quando nossos pais saiam para trabalhar, e o Chi se enfurnava no quarto para estudar, nós jogávamos vídeo game, saíamos para caminhar ou andar de bicicleta em volta do lago, ou até mesmo íamos ao cinema. Certa vez, estivemos tão entediados com o dia, que Sasuke resolveu invadir meu quarto, retirar todas as minhas roupas guardadas e tentou vesti-las apenas para me fazer rir. Até usei meu estojo de maquiagem nele, e tiramos fotos. Bem, as fotos foram apagadas imediatamente da câmera digital, mas assim mesmo foi divertido. Estávamos sempre juntos, um chutando a solidão do outro, para, de repente, eu não estar mais ali, ao lado dele. Seria esse o verdadeiro motivo de sua revolta?, me perguntei. Era por isso que estava com medo de minha mudança?


Deixei-me tomar pelo sentimento fraterno, que sabia que se escondia em algum lugarzinho, em algum cantinho, da mente ou do coração. E fui até ele com o intuito de lhe confortar. Ele estava deitado em sua cama, de bruços, com a cabeça apoiada sobre os braços, olhando para a maçã a sua frente. Sentei no chão, ao lado dele. Sasuke ainda queria me ignorar, e tudo o que eu queria era deitar ao lado dele.


Mas por mais que eu tentasse, não conseguia ver o meu irmão ali, deitado sem camisa, e emburrado por que não conseguia se concentrar. E ter consciência disto, me mastigava.


— Acho que a descrição da fruta, não é bem o que o professor quer. — comentei.

— Vá fazer o seu trabalho, que eu faço o meu. — me disse rispidamente, sem piscar os olhos da maçã.


Qualquer coisa que eu dissesse, iria piorar a situação. Levantei-me, afastei seus cabelos do rosto, e lhe dei um beijo no canto da testa. Mas sem querer, acabei me demorando demais com os lábios colados a sua pele, fazendo mais pressão do que necessário. Quando me afastei, ele me olhou de canto, com o cenho franzido, como se eu tivesse deixado escapar algo que ele não compreendia. Mas não consegui mais olhar para aquele par de olhos curiosos, que me observava sair.


Sentei em minha mesa de estudos para fazer o meu trabalho. Por que eu não existo?, era a tarefa a ser resolvida. Por que não me sinto viva?, seria a resposta? Ou quem sabe, por que há um buraco negro dentro de mim, sem areia para preencher-lhe? Talvez, por que fui castigada por não poder ter a única coisa que eu quero.


Eu sequer sabia quem era Sakura Haruno Uchiha. Além de alguém na reta final da adolescência, com um dos maiores dilemas da humanidade em mente para resolver, isto é. Eu só sabia que era alguém que não sabe o que fazer sem depender dos irmãos. E que também é alguém que precisa gritar para o mundo sua necessidade da liberdade, que seus sentimentos aprisionam. Por que por mais que eu tentasse, me sentia encurralada no canto, correndo o risco de ser pega por alguém. Uma vez, Itachi zombou de mim por eu ter ficado olhando por tempo demais o Sasuke dormir no tapete da sala, depois de uma sessão de mais de quatro horas vendo todos os filmes do Star Wars.


Não choveu no segundo dia de aula. Enquanto eu jogava meus pés para frente, caminhando um passo por vez pela calçada, indo bem atrás do Sasuke. Sem olhar para mim, ele resolveu falar.


— O que diabos não pode nem ser dito como um feito de Deus? — indagou — Digo... Tentei me pôr no seu santo lugar, mas não consegui pensar em nada que respondesse isso. É um feito de quem? Do diabo? Se importa em me dar uma ajudinha para entender isso?

— Como aspirante a filósofo, você deve continuar pensando. — acho que nem morta, eu diria algo a ele.


Pronunciar aquelas palavras era o que eu mais tinha medo.


A turma continuava pequena, com apenas nove alunos em sala de aula. Desta vez, era uma mulher a nos dar aula. De acordo com as minhas anotações, teríamos Lógica I. Senti-me um tanto ansiosa, achando que tivesse algo a ver com matemática, mas não. A aula com ela foi tranqüila. Ela anotava no quadro tudo o que dizia.


— Lógica, que vem do grego clássico logos, significa palavra, pensamento, idéia, argumento, relato, razão lógica ou princípio óbvio. A lógica, considerada uma ciência formal, é o estudo sistemático dos princípios da inferência válida e do pensamento correto. Já que o pensamento é a manifestação do conhecimento, e que o conhecimento busca a verdade, é preciso estabelecer algumas regras para que essa meta possa ser atingida. Portanto, a lógica é o ramo da filosofia que cuida das regras do pensar correto, sendo, portanto, um instrumento do pensamento. A aprendizagem da lógica, meus queridos, não constitui um fim em si. Ela só tem sentido enquanto for meio de garantir que nosso pensamento proceda corretamente a fim de chegar a conhecimentos verdadeiros. Podemos, então, dizer que a lógica trata dos ARGUMENTOS! Isto é, das CONCLUSÕES a que chegamos através da APRESENTAÇÃO de EVIDÊNCIAS que sustentam a sua idéia... — a voz forte dela trovejava pela sala, enquanto ela caminhava calmamente, fazendo seu discurso.


No intervalo, fomos para o restaurante universitário. Sasuke proferia sobre as lógicas apresentadas a respeito da sexualidade do professor de Filosofia Grega. Eu estava entediada, olhando para os estudantes que desfilavam por todos os lados, mas ao mesmo tempo ansiosa. Aquele barbudo havia prometido confidência, e eu estava muito tentada a mudar a resposta que havia escrito para lhe entregar. Havia algo nele, que inspirava confiança. E eu estava desesperada por algum conselho mais útil; eu queria algo mais concreto além daquilo que me foi dito pelo padre, quando resolvi me confessar na capela da escola. Eu precisava me confidenciar para mais alguém.


Assim que sentei de volta em meu lugar, arranquei a folha do meu caderno, e o amassei. Aproveitei o tempo que Sasuke e Naruto foram ao banheiro, para escrever. Mas minha mão direita não se aquietava. Tremia tanto quanto podia. E a mesma coisa havia acontecido enquanto estava dentro da caixa de madeira do confessionário, me sentindo uma prisioneira dos meus próprios pecados. Senti-me prestes a ser engolida por eles; pelos sonhos e pensamentos libidinosos que me condenavam.


Desisti. A primeira vez havia sido tortuosa o bastante para me deixar abalada pelo resto da vida.


Mas quem desiste sem tentar é fraco.

Tentei novamente.


As primeiras palavras começaram a sair trêmulas, denunciando todo o meu medo. Mas não me deixei intimidar. Eu não tinha lógica alguma para argumentar meus pensamentos, mas era justamente por isso que eu precisava escrever. Eu precisava de uma resposta.


Sasuke e Naruto entraram na sala, junto com o professor. Ouvi a ruiva perguntar ao cara dos piercings no rosto o nome dele. Azuma Sarutobi. Ele parecia um homem inteligente. Ou assim, esperei que fosse.


Minha mão ainda tremia quando estendi a folha de papel para ele. Ele percebeu, mas manteve seus olhos colados aos olhos verdes que não conseguiam espelhá-lo. Eu estava sufocando o grito que queria sair pela garganta, me dizendo que eu não deveria entregar aquilo. Mas já era tarde demais. Havia acabado de tomar uma das decisões mais importantes da minha vida, deliberadamente, e confiado o segredo mais obscuro que alguém poderia ter a um estranho.



Notas finais
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