Fraterno
13 Capítulo 12
Notas iniciais
Fraterno
By Amanur
Capítulo 12
...
Eu não sabia dizer o que melhor me definia, naquele momento em que encontrei o Sasuke saindo do banheiro apenas com uma toalha enrolada na cintura. Além de todo o meu dilema, eu ainda tinha que suportar esse tipo de situação embaraçosa. Ainda bem que, pelo menos, ele nunca fez idéia das coisas que se passava em minha mente quando isso acontecia. Mas alguém poderia dizer que sou fraca, ou muito forte, dependendo de como se direciona o olhar para aquela posição em que me encontrava. Alguém poderia dizer que sou facilmente influenciada pelos outros, sem opinião formada. Alguém poderia, também, dizer que enlouqueci de vez. Acho que é tudo uma questão de ponto de vista.
Só sei que alguma coisa queria explodir dentro de mim. De repente, me senti com as baterias renovadas. Acordei naquele dia me sentindo apta para entrar numa batalha. E como nunca estive antes! Eu sempre havia lido em livros, ouvido em letras de músicas, ou até mesmo meus pais dizerem que não há nada mais no mundo que valha tanto entrar em uma batalha, do que o amor.
Existe amor mais puro, mais sincero e verdadeiro do que o fraterno? — depois do materno, é claro. O que eu sentia pelo Sasuke era uma mistura de amor fraterno, com carnal. Era um sentimento estranho, que eu não conseguia distinguir. Às vezes, eu achava que havia algo de materno também, por que eu tinha vontade de segurá-lo em meus braços como uma mãe protetora. Talvez, justamente, por sermos irmãos; por convivermos vinte e quatro horas sob o mesmo teto. Não sei. Mas sei que não queria passar o resto da vida apenas o olhando de longe. Não queria ter que passar o resto da minha vida me segurando para segurar sua mão, num passeio ao cinema. E também não queria passar o resto da minha vida sonhando com o beijo que nunca aconteceu — o beijo em que ele retribuía a carícia.
Então, numa segunda-feira, olhei obstinada para o meu guarda roupa. A minha singela listinha de resoluções para aquele ano estava colada na porta, do lado interno. Parecia debochar de mim agora. Arranquei aquele papel dali. Fui até minha escrivaninha, peguei um bloquinho de papel da gaveta, e comecei a escrever.
— Fazer o Sasuke se apaixonar por mim. — aquilo parecia errado. — Fazer o Sasuke me notar. — ainda não soava correto — Fazer o Sasuke falar. — agora sim. Eu havia escrito a lista em ordem contrária.
Eu tinha que descobrir o que ele pensava, para fazê-lo me notar, e então conquistá-lo. Afinal, meus dilemas não se resumiam apenas aos meus sentimentos. Ainda faltava desvendar os pensamentos dele. E eu sabia que isso não iria me sair barato. Custaria minha moral, dignidade, orgulho e mais um monte de coisas que eu não conseguia nem pensar naquele momento. Seria uma batalha de sangue e suor, unhas e dentes, amor e ódio.
Já fazia um mês e meio desde o primeiro dia de aula, e a estação era quente. Peguei do fundo do armário minha blusa mais decotada, e a saia jeans mais curta que eu tinha.
Eu poderia ser chamada de covarde, se não tentasse aquilo, pelo menos uma vez na vida. Mesmo que tivesse muito a perder — minha familia inteira — talvez aquilo fosse a única coisa que eu poderia fazer por mim mesma, em toda a minha existência.
Como de costume, encontrei meu irmão esparramado numa cadeira, tomando seu café da manhã. De frente para a pia, estava a mamãe, com seu terninho grafite e uma toalha na cabeça. Ela havia acordado mais tarde, por que precisaria ir sair de seu escritório para resolver alguma coisa urgente. Ela terminava de lavar uma xícara quando me aproximei e, no instante seguinte, ela se virou para a mesa me notando.
O choque com o meu visual já havia passado, e ao me verem de calça jeans, eles aliviaram mais a tenção patetica inicial que sentiram. Por tanto, mamãe mal notou a minha mudança. Talvez, também, fosse por estar preocupada, pensando no trabalho. A única coisa que ela disse, foi um elogio.
— Fazia tempo que eu não te via com essa saia! — ela tinha uns detalhes em renda branca, na barra, que a tornava mais delicada — Se eu tivesse um corpinho desses, não vestiria outra coisa!
A observei encher sua xícara com o café que Sasuke fez. O cheiro tipicamente forte e revigorante da bebida inundou a cozinha. Ninguém dentro daquela casa fazia um café tão bom quanto Sasuke! Mamãe, então, nos deu um beijo antes de nos deixar a sós, carregando sua bebida quente de volta para o quarto. Puxei uma cadeira, ao lado dele. Sem dizer nada, fui preparando minha primeira refeição do dia. Enquanto pescava uma fatia de pão e queijo, ia reunindo forças para puxar o primeiro assunto com ele, depois de dias sem trocarmos palavras.
Ele estava despreocupado, esvaziando sua xícara, quando percebeu que eu o olhava. Ajeitou-se desconfortavelmente em sua cadeira, e pigarreou. Suspirei.
— Agente devia conversar, Sasuke.
— Não temos nada para conversar. — de repente, ele levantou da mesa.
— Você vai me ignorar até quando? O resto da vida?
Ele largou sua xícara e o pires que usava como apoio sobre a pia, para os encher de água. Depois, enxugou as mãos num pano de prato, e se virou para mim cruzando os braços.
— Não estou te ignorando. Só não tenho nada para conversar com você.
— Ok. Você não tem nada para me dizer. Eu entendo! Mas você pode sentar, e ouvir o que eu tenho a dizer? Deveríamos conversar sobre o que aconteceu aquela noite.
De repente, ele ficou inquieto, e começou a guardar as coisas sobre a mesa. A cesta de pães, os potes com condimentos, a garrafa térmica com o café...
— Por que não fazemos o seguinte: esquecemos o que aconteceu! Afinal , você estava bêbada. Não tem problema! Não estou bravo com você por aquilo. É sério. Eu já nem lembrava mais do que aconteceu! — ele deu de ombros e fungou o nariz, como se não fosse nada demais, mas estava visivelmente nervoso. Sasuke sempre teve aquele tique nervoso nos olhos, quando estava ansioso.
Calmamente, me levantei da cadeira. Não havia tocado em uma gota sequer da minha bebida, ou em migalha do pão.
— Por que você disse ao Naruto que sou lésbica?
— Por que você é lésbica, não é?
— Não sou lésbica, nunca fui, e não acho que vou ser.
— Oh! Bom... Não posso fazer nada! — e então, ele me deu as costas, saindo da cozinha. E eu fiquei ali, embasbacada, olhando para o espaço vago que ele deixou no chão.
Passei o dia todo me sentindo nervosa, tentando convencer a mim mesma que eu deveria conversar com o meu irmão. Mas do jeito como as coisas estava indo, já me sentia inclinada a desistir. Começando pelo caminho até a faculdade, que ele pôs uma muralha invisível entre nós, maior que a da China. Mas fiquei tão distraída com aquele assunto em mente, que não percebi quando o professor Asuma saiu ditando as duplas para o trabalho que ele estava solicitando, em sala de aula.
— Naruto e Kimimaru; Karin e Nagato, Utakata e Lee; Sasuke e Sakura. — só levantei os olhos quando ouvi nossos nomes.
Asuma nos havia posto juntos de propósito, e eu tinha certeza absoluta disso. Afinal, todos haviam percebido que Sasuke passava longe de mim pela faculdade.
— Por que não podemos escolher nossas duplas? — alguém perguntou.
— Por que eu gosto de ser chato! Que graça teria em não ser chato? — Asuma respondeu, sarcasticamente.
Ouvi os pés do Sasuke se arrastarem até a cadeira da minha frente. Ele forçou um sorriso, quando o olhei.
— Acho que vamos continuar fazendo trabalhos juntos, até na faculdade. — ele comentou, meio em escárnio, enquanto puxava seu caderno da mochila.
Não respondi. O deixei começar a escrever, até por que eu não fazia a menor idéia sobre o que se tratava. Por mais que eu tentava me concentrar em deixar meus dilemas de lado, a aula não capturava minha atenção. Depois de observá-lo escrever meia página, ele me passou a folha.
— Sua vez. — me disse.
“No final do século V a.C., filosofia e ciência começaram a se separar, e a filosofia passou a ocupar-se, principalmente, do homem e da ética humana. Surgiu a Escola Socrática, inspirada no pensamento de Sócrates, que foi um educador mais preocupado em conhecer o indivíduo do que os segredos do Universo. Foi também o criador da célebre frase: "só sei que nada sei".
Ele acreditava que o aprimoramento humano viria com a educação, baseada no uso crítico da razão. Mas dizendo a verdade e tornando público o que pensava, foi acusado de corromper a juventude e renegar os deuses. Sócrates acredita na imortalidade da alma e que teria recebido, em certo momento de sua vida, uma missão especial do deus Apolo Apologia, a defesa do logos apolíneo "conhece-te a ti mesmo". Sócrates dizia que sua sabedoria era limitada à sua própria ignorância ("Só sei que nada sei".). Ele acreditava que os erros são consequência da ignorância humana. Nunca proclamou ser sábio. A intenção de Sócrates era levar as pessoas a conhecerem seus desconhecimentos. Através da problematização de conceitos conhecidos, daquilo que se conhece, percebe-se os dogmas e preconceitos existentes. A maneira como Sócrates fazia as pessoas conhecerem-se a si mesmas também estava ligada à sua descoberta de que o homem, em sua essência, é a sua psique. Sendo filho de uma parteira, Sócrates costumava comparar a sua atividade com a de trazer ao mundo a verdade que há dentro de cada um. Ele nada ensinava, apenas ajudava as pessoas a tirarem de si mesmas opiniões próprias e limpas de falsos valores, pois o verdadeiro conhecimento tem de vir de dentro, de acordo com a consciência. Dizia que até mesmo na atividade de aprender uma disciplina qualquer, o professor nada mais pode fazer que orientar e esclarecer dúvidas, como um lapidador tira o excesso de entulho do diamante, não fazendo o próprio diamante. O processo de aprender é um processo interno, e tanto mais eficaz quanto maior for o interesse de aprender. Só o conhecimento que vem de dentro é capaz de revelar o verdadeiro discernimento. Como quando dizemos que uma pessoa "toma juízo", ela simplesmente traz à consciência algo muito claro que já estava "dentro" de si.“
Só sei que nada sei. O papel estava ali, na minha frente, com a caligrafia torta do meu irmão. Me desafiava a pensar em outra coisa, mas tudo o que eu conseguia ver na mente eram as palavras que eu tinha para lhe dizer. E eram tantas! Tantas que não conseguia ordená-las por coerência. Era tanta coisa a dizer, que elas se amontoavam na ponta da língua e impediam meu raciocínio. Mas disse a mim mesma que ainda era cedo para desistir.
Fiz algumas tentativas furtivas com o lápis na mão. Só que a mão tremia tanto, os dedos não firmavam em torno da madeira, e eu já nem sabia bem se era por fome ou nervosismo. O papel competia tanto com a imagem do meu irmão em meus olhos, que chegavam a arder. Vi quando Sasuke apoiou a cabeça na mão, olhando distraído para o resto da turma, que se espalhava pela sala. Vi que a outra metade do papel continuava em branco. Vi quando Sasuke acenou com um gesto de cabeça para a ruiva, que lhe abanou discretamente. Vi que a outra metade do papel continuava em branco. Vi que ele continuava olhando para ela. E vi que eu não iria conseguir preencher aquelas linhas em branco, de jeito algum.
— Eu te beijei de propósito. — despejei, sentindo meu estômago congelar.
Ele me olhou espantado, enquanto processava o que acabara de ouvir.
— Mas que porra, Sakura! — ele sussurrou, irritado. Então, levantou-se, me pegou pelo pulso, e foi me arrastando para fora da sala.
O professor nos viu sair, mas não disse nada. Fui atrás do meu irmão, até o final do corredor, próximo as escadas, longe de qualquer porta de sala. Além de nós dois, havia um segurança sentado num banco do outro lado, e mais uma garota passava às pressas, descendo as escadas.
— Você ficou louca?
— Talvez.
— Tsc! Talvez? — ele jogou os braços para o alto, como se rendesse àquela discussão. Deu duas voltas para lá e para cá, pensando no que dizer, e então parou em minha frente. — Você estava bêbada, Sakura! Eu já disse que não tem problema! Provavelmente você me confundiu com o Naruto! Agora esqueça esse assunto. — ele diz, entre os dentes, contendo o volume de sua voz.
— Você achou nojento?
— Hein? O que importa o que eu achei?
— Eu te amo, Sasuke.
Eu sabia que meu rosto denunciava meu constrangimento. Mas ele, acima de tudo, era o irmão a quem eu contava quase tudo. Tentei pensar naquilo como uma confissão qualquer, que já havia feito. Como da vez em que contei que um colega da nossa escola havia me pedido um beijo. Sasuke havia ficado tão fulo que quase socou o garoto, dizendo que só deixaria sua irmãzinha namorar quando fizesse setenta anos. E todos ficaram caçoando dele dizendo que era um irmão coruja.
Mas claro que eu sabia que aquela confissão não se assemelhava nem de longe, com qualquer outra que eu já tivesse feito. E agora ele estava ali, me olhando. Encarando-me. Parecia contar cada célula da minha pele, como se sua vida dependesse daquilo. Ele estava atônito, nervoso e pasmo. Começou a respirar profundamente, como se estivesse perdendo o fôlego. Ele costumava a ter crises de asma, quando pequeno, mas havia anos que não tinha mais. Assim mesmo, comecei a preocupar, por que eu não tinha como socorrê-lo ali.
— Eu também te amo... Maninha! — ele apenas disse.
— Não, Sasuke. Assim não!
— Merda, Sakura! Você está louca! Isso só pode ser alguma doença mental! Não é possível!
— Por que não?
— E você ainda pergunta o por quê? — ele indaga, incrédulo.
— Sim, me diga o porquê. Me diga qual o problema. Me dê, pelo menos, uma única chance a argumentar, a contestar o que quer que você pense que nos impeça, Sasuke.
— Sakura... — ele olhou para os lados, a fim de verificar se alguém se aproximava. O segurança ouvia alguma coisa em seu fone de ouvidos, mas, de vez em quando, ele nos olhava distraído. — Nós somos irmão, Sakura.
— Você acha que eu não notei isso?
Ele continuava a me olhar como se não acreditasse no que estava acontecendo. Senti-me um monstro de sete cabeças, de repente.
— Eu não consigo lidar com isso agora! — e então, ele foi se afastando de mim, até as escadas.
Às pressas, ele foi descendo de dois em dois degraus, como se precisasse se livrar de mim o quanto antes; caso contrário, contrairia a minha doença.
Notas finais
Aquele texto sobre Sócrates, etc, foram retirados daqui:
http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%B3crates
http://www.historiamais.com/filosofiagrega.htm
http://www.antroposmoderno.com/antro-articulo.php?id_articulo=587
Fale com o autor