Fraterno
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Boa leitura. :)
Fraterno
By Amanur
Capítulo 1
...
Sempre achei que os primeiros dias de uma revolução eram os mais difíceis. Conduzir um grupo de pessoas a aceitar, e também acreditar nos seus propósitos, acho que nunca foi uma tarefa fácil para ninguém. Por mais que a pessoa pudesse ter espírito de liderança! Por isso eu considerava a minha volta como o início de tudo, e não minha partida. Para mim foi fácil estar lá, naquela escola para freiras, e aceitar as mudanças que eram necessárias. O difícil mesmo foi encarar a família, e mostrar que algumas pessoas são capazes de mudar por si mesmo.
Claro que não foi bem por mim mesma. Mas a omissão, em certos casos, é essencial.
Um ano se passou, e as coisas permaneceram tão iguais quanto diferentes. Acho que eu nunca havia reparado com tanta precisão naquela sensação estranha que sentimos quando passamos muito tempo longe de casa. Eu sei que as coisas continuam as mesmas; os móveis e objetos estão no mesmo lugar, com exceção de um quadro e uma revista no chão, e, assim mesmo, parece que tudo mudou. Nada mais é o mesmo...
Ou, talvez, fosse apenas conseqüência da minha mudança que não me deixava mais me ver encaixada ali, dentro de minha própria casa. Quando me despedi do Itachi, no início do ano, ele me disse que ninguém é capaz de mudar completamente. Bom, até hoje não entendo o que ele quis dizer com aquilo, mas cá estou, para lhe provar o contrário. Dentro de um ano, consegui mudar completamente. Da cabeça aos pés. E não só superficialmente, como essencialmente. Me empenhei tanto dentro daquela escola, que sinto que não há resquício algum daquela velha Sakura, que costumava ser ligeiramente desbocada, despreocupada e desatenta.
Bom, posso não mais me sentir presente em minha casa, mas tenho a certeza de que melhorei. E desenvolvimento pessoal é sempre muito importante!, meu pai dizia.
Era véspera de Natal, e meus pais já haviam armado o pinheiro de plástico, com todos os enfeites natalinos na sala. É engraçado percebê-lo ali, por que, quando eu fui embora, em primeiro de Janeiro, a árvore estava no mesmo lugar. Era quase como se não tivesse sido desarmada depois. Até o velho e pequeno boneco do papai Noel sobre a lareira também estava lá, sem o braço esquerdo. No ano retrasado, mamãe o derrubou no chão, deixando papai uma fera por que foi presente da vovó. Mamãe diz que não, mas todos desconfiaram que ela tivesse feito isso de propósito, por não crer no propósito comemoração Natalina. Papai também não crê, mas o comemora para comer peru e ganhar presentes.
No entanto, apesar do clima acolhedor naquela sala, não parecia ter viva alma por perto.
Meu relógio de pulso marcava meio dia de quinta feira. Perguntei-me onde todos poderiam estar a essa hora. Eu estava ansiosa para vê-los, pois nem no meu aniversário permiti que fossem me visitar. Na verdade, eu pretendia voltar somente no dia primeiro de Janeiro, para deixar que um ano exato se passasse. Mas de manhã cedo recebi uma mensagem um tanto ameaçadora do Chi, no meu celular.
“Nem ouse pensar em passar o Natal, e ano novo longe de casa, Sakura! Caso contrário, prepare-se para ganhar um belo balde de água gelada na cara quando voltar.”
É muito gentil da parte dele se lembrar de mim assim.
Não respondi. Apenas vim.
Como eu estava exausta, fui deixar minhas malas em meu quarto, e me fui direto para um banho. Depois, fui até a cozinha para ver o que havia para preencher o vazio do meu estômago. Como era quase uma da tarde, e não havia nada na geladeira, resolvi preparar o almoço sem saber se alguém apareceria ou não.
Bom, eu tive momentos difíceis na escola interna, mas aprendi muita coisa útil por lá. Uma delas foi a cozinhar — coisa da qual nunca fui muito íntima. Portanto, não foi nenhum choque ver a cara de espanto que o Itachi fez, quando chegou silenciosamente na cozinha.
— Tenho três coisas a perguntar! — ele foi dizendo — Primeiro: Quem é você? Segundo: O que fez com a minha irmã? E terceiro: Desde quando sabe cozinhar?
Sorri de canto, desligando o liquidificador. Eu misturava os ingredientes para a massa da torta que estava planejando fazer. Limpei as mãos num pano de prato seco, e fui caminhando até ele para um abraço.
Na minha vida, é engraçado notar, tudo começa com um abraço. Não sei se isso é resultado dos carinhos e mimos que tive dos meus pais, por ser a menina de ouro da casa, ou se é apenas um costume meu. Nunca parei para pensar a fundo sobre isso. Mas sei que tenho essa necessidade de me sentir envolvida pelos braços da minha família. E acho que agora, com esse tempo de reclusão, essa necessidade apenas se intensificou. Pois não percebi o quanto senti falta do meu irmão, até tê-lo em meus braços. E eu até havia me esquecido do quanto gostava de abraçar o Itachi. Ele era alto e tinha os ombros largos, de modo que fazia-me sentir protegida. E ele ainda me deu aquele abraço super carinhoso, me erguendo do chão, e beijou minha testa. Mas em seguida se afastou de mim, me olhando estranho.
— Juro que só a reconheci por causa do rastro do seu perfume, que você sempre deixa pela casa quando toma banho. Pelo menos, isso, você não mudou. Mas quero ver a cara que o Sasuke vai fazer quando te vir assim. Papai, então, vai ficar fulo.
— Pois é... Acho que mudei um pouco... — comentei, meio insinuante.
— Pois veremos... — ele respondeu, indo até a geladeira para pegar um copo de suco.
Novamente, sorri de canto, sem entender muito o que ele quis dizer. Mas não dei muita bola, por que o Itachi sempre gostou de bancar o misterioso mesmo. Então, lhe dei as costas para voltar a cozinhar. Como eu desconhecia os planos deles para a noite, resolvi preparar apenas uma torta salgada de sardinha com tomates, cebolas, ovos, azeitonas e queijo. Minhas colegas de dormitório diziam que era a minha especialidade. Inconscientemente, acho que eu quis mostrar a eles o que sei fazer de melhor.
— Onde está todo mundo? — perguntei, enquanto despejava metade da massa numa travessa refratária de vidro que encontrei nos armários voadores.
Itachi puxou uma cadeira, e sentou ao meu lado, tomando o seu suco.
— Foram fazer compras no mercado, mas já devem estar voltando.
— E você, onde estava?
— Estava na casa da minha namorada.
Agora foi ele quem sorriu de canto, mas logo desviou o olhar.
Aquela resposta foi um tapa na minha cara. Um soco no meu estômago. Uma facada nas costas. E eu nem sei dizer por que! Sempre desejei o melhor para ele. Sempre o incentivei a olhar mais para as garotas do que para os livros. Sasuke até mesmo debochava dele, dizendo que ele estava se escondendo no armário. Ele já havia namorado uma menina, quando teve seus dezoito anos, mas não durou muito tempo por que ela era muito ciumenta e implicava até mesmo comigo. No entanto, lá estava eu, me sentindo estranha com relação àquela notícia.
— Por que nunca fiquei sabendo disso? — tentei sorrir para ele, mostrando alguma indiferença. Mas acho que mais aparentei estar nervosa do que qualquer outra coisa.
— Eu queria te contar pessoalmente, mas você nunca nos deixou ir visitá-la. E por falar nisso, aproveitando que estamos as sós, eu gostaria, e muito, de saber o que aconteceu para você querer se distanciar de nós, Saky...
Ele ia dizer mais alguma coisa, mas foi interrompido pelo som do carro do papai entrando na garagem.
Senti minhas pernas fraquejarem por alguns instantes. Nunca me senti tão nervosa por estar prestes a ver meus pais. Atribui essa ansiedade pelo fato de estarmos a tanto tempo sem nos vermos.
Suspirei.
— Nada aconteceu. — respondi. Ele revirou os olhos, levantando da cadeira.
— Nada aconteceu? Você sequer veio nos visitar nos nossos aniversários, Sakura! Eu te conheço como a palma da minha mão! Não pense que não percebi que você andava estranha, até mesmo antes de inventar essa idéia de se meter numa escola interna...
Eu diria que agia estranhamente há muito mais tempo, na verdade. E agia estranho somente na presença deles, principalmente do Sasuke. Mas suponho que eles nunca notaram isso, por que eram como estavam acostumados a me ver.
Para a minha sorte, não precisei responder nada por que mamãe logo entrou na cozinha, trazendo algumas sacolas nas mãos. Ela ficou tão surpresa com a minha nova aparência, que mal conseguiu sorrir para mim. E em seguida, papai e Sasuke entraram com mais sacolas nas mãos.
Bom, meu pai largou as compras no chão, e cruzou os braços bufando pelas narinas e fazendo careta. Mas a reação do Sasuke era a que eu mais temia. Infelizmente.
— Mas o que porra aconteceu com você? — ele perguntou.
— Olha os modos, Sasuke! — mamãe lhe disse.
— Modos, meu rabo! Já olhou para ela? Eu quero saber o que fizeram com a Sakura!? Te transformaram numa... Freira punk? Que diabos de cabelo rosa é esse? Eu sei que você gosta de rosa, mas não precisava exagerar! E por que do cabelo lambido e escorrido? Lá não tinham papel higiênico?
Revirei os olhos.
— Ela está linda, Sasuke. — Itachi tentou me defender, mas não teve resultados. Sasuke permaneceu me encarando como se eu fosse uma aberração.
Sasuke e Itachi, realmente, eram completamente diferentes. Nem pareciam irmãos.
— O cabelo foi apenas um capricho meu... — comentei.
— E a saia comprida? Falta de revistas de moda? — Sasuke indaga.
Ele ainda fitou meu pingente preso numa fina e delicada corrente dourada. Um pequeno crucifixo, que ganhei de uma das freiras da escola.
E agora fui eu quem ficou o encarando. Não podia acreditar que ele se revoltaria só por que deixei de lado a mini saia jeans que costumava usar, com blusas decotadas. Na escola, as meninas eram proibidas de usar saias que fossem um palmo a cima dos joelhos, e mini blusas. Shorts tinham que ser pela metade da coxa, mas calças eram perfeitamente aceitas. Bijuterias também eram permitidas, desde que fossem pequenas e discretas. Por vestir-me por um ano assim, acabei me acostumando e sentindo-me mais a vontade desta forma. Era natural que isso fosse acontecer! E agora, eu vestia uma saia de algodão, que batia acima do joelho, com uma blusa de botões fechados. Nada demais! Não havia motivo algum para esse estardalhaço todo! Mas não! Lá estava ele implicando comigo.
— Eu quero a minha irmã de volta! Aquela que rebolava enquanto vestia mini short mostrando a ponta da bunda, para ir à padaria comigo! Lembra dela?
— Eu nunca fiz isso! — protestei imediatamente.
— Ok, eu não preciso ouvir isso! — meu pai jogou os braços para o alto, como se rendesse àquela discussão indecente, e deu a meia volta para sair da cozinha. Minha mãe me olhou como se estivesse me reprovando por ter ido mal numa prova, e foi atrás de seu marido, suponho.
Papai e mamãe realmente não estavam nada contentes, mas acho que já era de se esperar isso deles. Então, eu não disse mais nada, e terminei de preparar a minha torta, enquanto Sasuke e Itachi arrumavam as compras na dispensa em silêncio. Mas a tensão ainda pairava no ar, e a sensação que, de repente eu tive, era de que não era mais bem vinda em meu próprio lar. Tive a impressão de que estiveram falando sobre mim pelas minhas costas e, agora, aquele assunto surgia silenciosamente entre a troca de olhares insinuantes.
Quis contar meus motivos, mas me calei no mesmo instante em que meus lábios esboçaram qualquer coisa. Como poderia eu, contar tal coisa?
Mas presumo que tudo isso tenha sido apenas neurose minha. Ou pelo menos comecei a torcer para que fosse. Assim que começamos a comer, voltamos a nos falar como antigamente. Papai ainda quis saber se eu tinha certeza do que estava fazendo, e lhe respondi que sim. Mas Sasuke sequer me olhava, enquanto comia. Permaneceu emburrado o tempo inteiro, olhando para o próprio prato como se fosse o único objeto no mundo a ser contemplado.
Depois da refeição, ainda fiquei na cozinha para lavar toda a louça, poupando mamãe do trabalho. Ela me olhou estranho, por que nunca tive interesse nos afazeres de casa, mas expliquei que na escola, além de aprender a cozinhar, as freiras ensinam a trabalhar em casa. Então, mamãe amenizou a tensão e me agradeceu sinceramente, enquanto o restante da família se dispersou pela casa para fazer seja lá que tinham a fazer, me deixando sozinha ali. Para me distrair um pouco, peguei o velho mini rádio de pilha sobre a bancada — que costumava ficar em meu quarto, mas acho que alguém resolveu mudá-lo de lugar. Sintonizei com a primeira rádio que consegui contato, e comecei a lavar o liquidificador. Quando eu estava lavando o último prato, comecei a ouvir um burburinho vindo de algum outro cômodo. Não era da sala, pois a entrada da cozinha ficava bem de frente. Era de algum dos dormitórios. Larguei o prato sobre a pia, e fui caminhando sorrateiramente até o quarto no final do corredor. Era o quarto dos meus pais, onde a coisa parecia estar acontecendo.
—... Não importa! Ela ainda é nossa filha, a irmã de vocês, e merece respeito. Seja lá o que ela escolher, devemos respeitá-la. — papai dizia — Ela não é mais uma criança! Pode muito bem fazer suas decisões...
— Eu não vou dar as mãos para rezar antes de comer, nem me ajoelhar do lado da cama antes de dormir! — Sasuke resmungou — Se ela quer acreditar em fadas, duendes, unicórnios, pôneis voadores, ou no diabo a quatro, o problema é dela! Só espero que ela não comece com fanatismo! Malditas freiras, que foram fazer lavagem cerebral nela!
— Só temo pela juventude dela. — mamãe, então, comentou — Ela deveria entrar na faculdade agora, e vivenciar a melhor fase da vida dela. Mas agora ela vai fazer o que? Se confinar num convento? Passar os dias trancada numa igreja rezando?
— Ela vai fugir da civilização, por que tecnologia é coisa do diabo! — Sasuke emendou, maldosamente, devo dizer. Por que essa era uma idéia completamente errônea — E a coitada ainda vai morrer virgem!
— Freiras fazem trabalhos voluntários para uma comunidade, mãe. — ouvi Itachi dizer, ignorando o comentário estúpido do Sasuke.
— Sim, eu sei... Isso é bonito, mas ela não foi criada para isso. Quero dizer... Não tenho nada contra ela querer isso para sua vida, mas acho que ela está se forçando. Não sei se uma pessoa consegue ser realmente feliz assim. Não hoje em dia...
— Acalmem-se! Aposto que na semana que vem ela vai voltar a ser o que era. Por justamente sequer ter sido batizada, ela não poderá levar essa idéia adiante. — meu pai, disse. E pude imaginar direitinho a cara de deboche que ele estaria fazendo, ao dizer aquilo.
— Ela ainda pode se batizar! — alguém disse. Não consegui mais prestar atenção naquela conversa, e me fui para o quarto.
Engraçado que ninguém se deu ao trabalho de me perguntar o que eu iria realmente querer fazer da minha vida, antes de saírem dando seus palpites às cegas. Pois em momento algum havia mencionado votos castidade, ou qualquer coisa parecida! Eles estavam exagerando!
Bom, eu até entendia a reação dos meus pais. Eles estavam preocupados com a minha educação, e sempre tiveram medo das influências. Mas a revolta de Sasuke era fútil e desnecessária. Eu sabia que, no fundo, ele só estava preocupado em perder a “parceira de festa” que sempre teve a sua disposição.
Joguei-me em minha cama, olhando para o teto. Na escola, adquiri o hábito de contar os fios dos meus cabelos para dispersar meus pensamentos negativos quando estes me perturbavam. Quando isso não funcionava, eu rezava pedindo proteção contra esses maus pensamentos.
Eu estava no fio cento e quinze, quando alguém bateu em minha porta para em instantes entrar no meu quarto.
— Você está bem? — Itachi perguntou.
— E por que não estaria? Tenho todos os motivos para estar feliz com a minha família que tanto amo. É ótimo estar de volta em casa, e ter essa recepção maravilhosa. — tentei forçar um sorriso, sem querer parecer sarcástica. Mas acho que a situação exigia isso de mim.
Ele entrou no quarto e fechou a porta. Suspirou, e veio caminhando até minha cama. Sentou no chão, apoiando o queixo sobre o colchão, bem de frente para o meu rosto, e ficou me olhando por alguns instantes.
— Eu vi uns pingos d’água no corredor. — comentou.
— Acho que agora sei como um gay deve se sentir dentro de sua própria família. Isso o que vocês estão fazendo é discriminação!
— E você é a favor do homossexualismo? Achei que a bíblia fosse contra.
— E é!... Mas em momento algum eu disse que viraria Cristã ortodoxa. Vocês estão me julgando por minhas mudanças, mas vocês também não são os mesmos! Eu esperava essa reação do papai, mas não da mamãe. E achava que ouviria apenas uma piadinha ou outra do Sasuke. Mas não essa reação de repulsão toda que ele demonstrou. Eu não me tornei num monstro... — cocei a cabeça, olhando para a lâmpada apagada no teto. Na verdade eu queria dizer que havia justamente invertido a situação. Eu era um monstro, e não sou mais. Ou tentava não ser.
— Talvez, você apenas esteja nos vendo diferente, por conta dos “novos olhos” que adquiriu.
— Não sei. Mas Sasuke me parecia muito menor e inofensivo, quando fui embora.
Itachi suspirou, e levantou-se do chão.
— Vou acabar me sentindo culpado por ter te trazido. Não era minha intenção deixar todo mundo para baixo justo no Natal.
— A culpa não é sua, Chi. As circunstâncias é que são culpadas. — as minhas circunstâncias, isto é.
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