Notas iniciais
Tendo um início bem gradual, este capítulo funciona quase como um prólogo, complementando-se nos próximos capítulos iniciais. Quanto à periodicidade depois de um começo mais conturbado, confirmo que irá variar de 2 a 6 semanas para cada novo capítulo. De qualquer forma, agradeço pela leitura e não se esqueçam de comentar!


"Quando ao negro cemitério eu for,
Irmão, coloque sobre sua irmã,
Como uma última esperança,
Alguns 'cravos' rubros em flor.
Do Império nos últimos dias
Quando as pessoas acordavam,
Seus sorrisos eram rubros cravos
Nos dizendo que tudo renasceria.
Florescerão nas sombras
De negras e tristes prisões.
Vão e desabrochem junto ao preso sombrio
E lhe diga o quanto sinceramente o amamos.
Digam que, pelo tempo que é rápido,
Tudo pertence ao que está por vir
Que o dominador vil e pálido
Também pode morrer como o dominado."

— MICHEL, Louise — “Os Cravos Rubros”.

. . .

28 de julho de 1870, Paris.

Nove horas da manhã em ponto, um comum homem parisiense dobrava a Rivoli, ignorando alguns pedintes locais pela pressa, para adentrar o Hotel de Ville, sede não apenas da prefeitura, mas também do órgão público em que o tal trabalhador batia o ponto. Este era Maximilien Moreau Rousseau, um talentoso caçador em seus trinta e poucos anos. Seus objetos de caça, entretanto, não eram simples animais ou algo que se possa divulgar tão facilmente... O importante é que era muito bom no que fazia. Sua avantajada altura e porte físico não eram os únicos fatores a influenciar alguns funcionários da prefeitura a lhe cumprimentarem rapidamente e abrirem espaço para este passar, aliás, era considerado um prodígio dentre os famosos Treze de Paris e um respeitado "guarda civil" diante de seus feitos pela segurança pública. Não fazia nem um ano que havia sido mais uma vez elogiado nos jornais que diziam, segundo a imprensa, ter sozinho capturado um assassino em série no 7° arrondissement, tal qual era conhecido por rasgar os pescoços de suas vítimas durante a noite.

Por mais renomado que fosse, entretanto, Maximilien portava uma delicada humildade por trás de seu rosto sério, mas também grande amargura por um trauma recente. Retirava o chapéu de seus longos cabelos negros, levemente armados na altura dos ombros. Vestia-se com um terno e sobretudo preto, carregando uma maleta de igual cor. Afinal, estava de luto, evidente em seu rosto cansado, de barba malfeita e olheiras grandes, mesclando-se na larga cicatriz pelo olho esquerdo. Estava malcuidado e não tomava banho há quase quatro dias. Sequer poderíamos culpá-lo, se há três noites se descobriu talvez viúvo? Justo uma semana depois de pedi-la em casamento... Os policiais haviam encontrado o château da bela e afortunada Antoinette de La Fontaine, sua noiva, derrocado com as janelas quebradas, portas arrombadas, móveis bagunçados e sangue espalhado pelos azulejos de mármore. Mas o corpo da mulher? Misteriosamente não estava por lá. Segundo o jardineiro da mansão em Fontainebleau, conhecido de Maximilien, "parecia que a devoraram viva".

Subindo as escadarias que davam aos escritórios da Ordem, Maximilien se coloca rumo a uma das salas do terceiro andar a qual se encontraria para uma reunião. Pelas cartas que o enviaram, pareciam solicitar sua devida presença ao trabalho, visto que desde o desaparecimento de Antoinette, o caçador teria se recusado a atender os pedidos da Ordem para focar restritamente no caso de sua amada. Apesar dos empecilhos, estava pronto para quaisquer punições e tarefas, aliás, era um homem de nobre coração e costumava colocar seus deveres acima de suas vontades.

— Pelos casos mais recentes identificamos que os ataques das ameaças noturnas aumentaram nesta última semana e, com grande parte do nosso contingente se alistando para a guerra, estamos com uma significativa falta de pessoal — Valentin discursava para os três homens na mesa de reunião há alguns minutos. Maximilien já estava debruçado sobre a cadeira, suportando com todas as forças o sono acumulado das noites mal dormidas. Roger Valentin, também conhecido como "Valete", era mais um dos treze principais agentes da Ordem Croupier dos Caçadores de Paris e, em especial, um dos líderes do órgão de segurança pública. Era um homem de alta classe, notável pelo jeito ríspido de falar e agir, além da aparência frágil que detinha não apenas pela pouca massa muscular e altura pequena, mas também pela rara condição da falta de melanina no corpo, tendo a pele bem clara e os cabelos, mesmo tão jovem, igualmente brancos, característicos do albinismo. Enquanto o diretor geral da Ordem estava a trabalho em Versalhes, Valentin assumia a gerência como chefe-interino, estando muito mais rígido que o normal: — Monsieur Moreau? Está me ouvindo?

Maximilien havia se perdido da longa conversa nesse meio-tempo, de fato com dificuldades de prestar atenção naquela mesa redonda. Sua mente, tão emocionalmente abatida nos últimos dias, não conseguia parar de pensar em Antoinette. De prontidão, balançando a cabeça para voltar a si e fingindo que estava atento, o caçador responde:

— Claro, Monsieur Valentin. Estou ouvindo tudo.

Os outros na mesa se entreolham até que Valentin retoma:

— Como eu dizia, estamos com falta de pessoal para manter a proteção dos distritos. Lumiére e nossa equipe de censura estão num árduo trabalho para esconder tantos casos da imprensa. Nossos outros caçadores estão tão ocupados que nem puderam comparecer hoje aqui. Isso recai, portanto, ao tópico principal desta reunião... — Ao final da fala, todos se voltam para Maximilien enquanto o orador conclui: Monsieur Duchamp, contigo.

Passando a palavra para o mais velho ali, Valentin se senta. Lumiére Duchamp era um homem metódico em seus quarenta e oito anos, de aparência esguia e pálida, vestia um terno largo e os poucos cabelos da cabeça calva era penteados com óleo de macassar. Era um dos trabalhadores da Ordem, mas não atuava como caçador e sim secretário correspondente de ações burocráticas. Este retira algumas papeladas da maleta, colocando-as na mesa. Eram documentos do exército imperial.

— Monsieur Moreau... conhecemos de longa data o seu compromisso para com a Ordem, então foi uma surpresa o seu desaparecimento por três dias. Eu entendo vossa fragilidade num momento como este, mas o conselho em Versalhes adverte que não podemos nos dar ao luxo de descansar enquanto as bestas nunca dormem... — Maximilien permanece quieto lendo os documentos. Lumiére continua: — apenas sei que afirmaram isto: ou você faz seu trabalho direito ou seremos obrigados a colocar-lhe entre as tropas de Mac-Mahon. Já que não se voluntariou, seria uma ótima forma de colocar alguém tão habilidoso dentro do exército e não desperdiçar o teu talento.

Maximilien suspira pensativo antes de encarar Lumiére com certa apatia e responder-lhe singelamente lembrando-se de seu desgosto para com Napoleão III:

— Pardon, Sr. Duchamp... eu luto contra monstros, não contra homens.

— Bom, às vezes são a mesma coisa — interrompe Lumiére tamborilando os dedos — de qualquer forma, isso vai depender se retornará ao serviço ou não.

A mesa fica quieta por um breve instante esperando a resposta de Maximilien, que não demora:

— Sim, claro... retornarei de imediato. Mas não prometo deixar o caso de Fontainebleau em aberto.

Valentin olha para o homem sentado ao seu lado e assente a cabeça dando-lhe voz. Louis François era também um dos treze caçadores, um belo rapaz no auge dos seus vinte anos, de altura invejável, longos cabelos louros e um olhar frio adequado à sua postura sempre séria e quieta. Ele começa a ditar:

— Monsieur Moreau, estaremos mudando sua zona de trabalho para os arrondissements ao leste em que há muitos rumores de ameaças noturnas, mais precisamente no 11° Distrito onde Madame Catherine estava a serviço — de pé e com uma mão atrás das costas, Louis toma um dos papéis para ler: — Cemitério do Montparnasse. Túmulos abertos e saqueados durante as últimas noites. Segundo Catherine, "não encontramos nomes muito relevantes dentre as valas roubadas, mas ouviram-se rumores no 14° Distrito sobre movimentações estranhas no subterrâneo. Cerca de quatro vampiros são estimados, escondidos nas catacumbas do sul e convocando ainda mais para o contingente"... Doutor Simon também informou relatos de indigentes e massas do 20° Distrito se agrupando em protestos anarquistas recentes enquanto a criminalidade aumenta. Coincidência ou não, suspeitamos haver uma facção planejando algo perigoso e deve ser detida imediatamente. Incluindo a assinatura de Haussmann, nossos mandantes enviaram carta branca frisando o dever de eliminar qualquer um que encontrar nas catacumbas, pelo bem da segurança pública.

Maximilien disfarçava sua indignação ao darem-lhe uma missão de tal calibre justo enquanto ainda processava tudo o que acontecera com Antoinette, como se um trabalhador não tivesse tempo nem de resignar-se em luto. E como ele poderia, sendo que nem a confirmação da morte de sua noiva podia ser dada? Seu salário já teria sido descontado nos últimos dias de descumprimento, não podia ficar desempregado num momento como agora. Tudo o que restava-lhe era acatar o dever, mesmo sabendo que poderia morrer. A cabeça estava a mil, mas educadamente responde vestindo máscara de bom moço:

— Entendo, é realmente algo sério... mas quatro de uma vez? Enviarão-me a sós?

— É uma missão de reconhecimento por enquanto. E sem o "Rei" ou a "Dama" pela cidade, creio ser você o mais capacitado para a tarefa.

Lumiére ergue as sobrancelhas enquanto Louis encara Roger com frieza. Valentin finalmente conclui:

— Dito isso, encerrarei a reunião por agora. Com a aprovação de Maximilien nossos tópicos se concluem. Há muito trabalho a fazer e a Ordem não pode ficar parada em tempos como agora — Olha o relógio de bolso e se levanta: — Dispensados, cavalheiros.

. . .

1 de agosto de 1870, Paris.

Passando pela Praça da República, a carruagem que levava as bagagens de Maximilien chegava agora na Bulevar Voltaire, finalmente adentrando o 11° Distrito na rua onde seria o novo lar do caçador. O ânimo de Sr. Moreau, entretanto, diminuía ainda mais ao contemplar as visões afora da janela do transporte. A quantidade de indigentes nas ruas era assustadora. Homens, mulheres e crianças dispersos nas calçadas, vestindo trapos para esconder os corpos desnutridos. À esquerda da avenida, alguns moradores de rua viriam a tentar seguir a carruagem para pedir esmolas, mas incapazes de acompanhar a velocidade dos cavalos.

— Bom, Moreau... seja bem-vindo à 11° Distrito — dizia Jean-Jacques Bittencourt, amigo de longa data de Maximilien. Um jovem trabalhador das mercadorias fluviais do Rio Sena. Acostumado a descarregar caixotes de embarcações todo dia, Jean se oferecera para ajudar na mudança do velho amigo. Era um rapaz loiro nos seus vinte e cinco anos, de personalidade forte e encrenqueira, mas um doce coração: — Posso te visitar uma vez ou outra se precisar, não moro muito longe e sempre desço a Voltaire indo ao trabalho.

— Eu sabia que essa zona era peculiar... só não esperava encontrar tanta miséria — comenta Maximilien ainda observando os arredores, fitando um pequeno garoto no chão das calçadas procurando restos de comida das barracas dos feirantes.

— Vítimas da reforma urbana... e com a guerra, vem tudo piorando.

— Desde 52 diziam que era para tornar a cidade mais limpa... só não vejo resultado...

— Mais "limpa" de gente pobre. Demoliram mais de cem mil apartamentos para agradar os figurões! O resultado é isso aí que você vê... Meio milhão de pessoas sem casa.

Maximilien nota o rancor estampado na face de Jean. Sabia que ele sempre teve raiva da política, mas hoje em dia era ainda mais radicalizado. Claro, sua família tinha sido uma dentre as várias que perderam seus tetos há alguns anos.

— Sua mãe e seus irmãos estão bem? Nos últimos dias eu estava tão por dentro da minha cabeça que esqueci de enviar as doações — Maximilien pergunta com pena.

— Nah, não se preocupe... Está de luto, sou eu quem devo fazer minhas condolências... pela Antoinette. Você já fez muito por nós — Jean responde com um sorriso gentil, mas logo erguendo a cabeça para fora, notando que já haviam chegado ao destino: — E opa, é aqui!

Sem demora, o cocheiro estaciona a carruagem para Jean e Maximilien saltarem. O loiro fita a edificação da calçada até as janelas do alto, junto aos olhares do amigo, que acaba por observar com dificuldade um rosto desconhecido o observar do último andar. O rosto de um velho, que logo desaparece nas cortinas.

— É, camarada, é um lar bacana. — Jean comenta.

— ...Parece bom.

Ambos vão catar as sete malas atrás da carruagem assim que Maximilien paga o restante ao cocheiro. Mas antes de adentrarem o edifício, notam haver uma mala faltando, que ao olharem para trás estaria nas mãos de um moreno garoto ainda na pré-adolescência.

— Ei, devolve isso, moleque! — avança Jean enquanto Maximilien reconhece ser a mesma criança que tinha visto quando passaram de relance na feira. O menino carregava metade de uma maçã mordida na mão direita enquanto a outra segurava a mala com certa dificuldade. Suas roupas estavam sujas e não usava calçados. A franja de seus cabelos escuros tampava quase todo o rosto. Logo ele intervém:

— Oi moço! Quero ajudar. Levo todas as bolsas por um franco cada.

— Tá maluco?! Um por cada mala? É muito ousado, hein... — Jean expressa indignação, não recebia nem ao menos 4 francos por dia de trabalho. Maximilien, entretanto, apenas dá uma leve risada e responde:

— Feito, mas... você só está levando uma única mala. O resto está conosco.

— Poxa, puxa — O garoto percebe o mal negócio e fica pensando quieto até responder — está bem, um franco é melhor que nada.

Era um prédio de quatro andares, com dois apartamentos cada. Chegando ao terceiro andar, Maximilien abre a porta com a chave fornecida pela Ordem.

— É ótimo... A guarda civil paga bem, não? — Jean elogia o apartamento assim que vê o interior, surpreendendo-se junto do garoto:

— Poxa, puxa! Que casarão!

Eram 40 metros quadrados compostos de uma sala de estar, com um sofá grande e confortável, um largo tapete bordado, dois quadros pequenos e uma mesa de vidro no centro; uma cozinha de balcão aberto; um corredor dando lugar a um quarto, com cama, escritório e estante, e um banheiro no final deste. Era uma ótima residência, para os padrões do 11° Distrito.

— Realmente... — O novo dono concorda surpreso, colocando as malas ao lado do sofá, seguido por Jean e o menino.

— Está feito, moço — o pequeno já estava de saída, apenas esperando o pagamento.

— Aqui, faça bom uso — Remexendo nos bolsos de suas vestes, Maximilien retira sete francos, relativo ao número de malas que havia no total mesmo que o menino só tivesse levado uma.

— Poxa, puxa! Tudo isso mesmo?!

— Cortesia pelo bom serviço. Qual seu nome, jovem?

— É Denis... e o seu? O senhor deve ser rico, né?!

— Pode me chamar de Max — vendo-se ele próprio mais jovem nos olhos do garoto alegre, Maximilien faz um cafuné na cabeça deste enquanto responde com tom risonho: — E não, nenhum rico faria isso.

— Vou me lembrar. E se quiser me contratar de novo, tô sempre por perto! — Denis logo sai pela porta para descer as escadas correndo.

— He... o moleque vai espalhar que você tem dinheiro — comenta Jean-Jacques, encostado na quina da parede e de braços cruzados até que ajeitasse sua posição ereta ao perceber uma bonita mulher que surgia no hall de entrada do andar:

— Oh, foi muito gentil de sua parte... Pequeno Denis vai gostar de ti — O sorriso era encantador e gentil. Uma jovem em seus vinte e oito anos, de longos cabelos castanho-claros e olhos verdes, usando um vestido de professora. Estende a mão para cumprimentar: — Prazer, sou Amélie, do primeiro andar... então vocês são os novos moradores?

— Se quiser, sim, mademoiselle... Pode me chamar de Jean — o descarregador sorri para a mulher, a cumprimentando de volta enquanto arruma o cabelo. O outro segura o riso vendo o amigo e logo faz o mesmo:

— Apenas eu, prazer. Sou Maximilien.

— Se eu não me engano, já lhe vi nos jornais... Maximilien Moreau da guarda noturna, não? Oh, que benção ter alguém tão importante por aqui! — A mulher analisa o homem com um certo encanto nos olhos: — E pessoalmente é bem mais alto do que nas fotos.

Maximilien fica sem graça, não tanto quanto Jean. O primeiro tinha 1,90, o segundo um pouco mais de 1,70. Amélie continua:

— E ah, o pequeno Denis está sempre arranjando algum trabalho com os outros meninos de rua, queria que ele fosse para a escola. Quando eu posso, o ajudo... É muito bom ter mais pessoas assim no prédio. Você é o segundo a ocupar o terceiro andar vazio. Além de mim e minha filha no primeiro, há também a família dos Laurent’s. No segundo, o Augustin e o casal Duplay. No quarto andar tem só o velho Thomas. Bom, se já leu o nome do edifício, seja muito bem-vindo à família.

— Nome do edifício?

— Não viu, Moreau? — Corta Jean-Jeacques — "Fraternité".

— Ah sim, pelo o que vi parece ter sido fundado no começo do século, apenas reformado depois do Haussmann — Maximilien observa — mas espera, segundo a ocupar? Deve estar falando da...

— Sim, nos despedimos da Catherine há dois dias — A vizinha responde — ela também trabalha no seu setor, não? Era uma ótima companhia.

Enquanto conversam, uma figura alheia sobe as escadas como novidade no hall do 3° andar:

— Pois é, cara Amélie... eu sou.

Jean se assusta levemente com a presença da estranha, enquanto a experiente audição de Maximilien já havia a notado subindo as escadas. Era Catherine Desrosier, mais uma caçadora da Ordem e colega de trabalho de Maximilien. Uma mulher de curtos cabelos negros acima dos ombros, cuja face maquiada em tons escuros, quase escondida por seu largo chapéu casquete, possuía um sorriso e olhar cínico fitando a companhia. Ela tinha um sotaque estranho em sua fala, o qual Maximilien não conseguia saber de onde era. Vestia-se como uma viúva, coberta por vestes pretas, desde os saltos e meia-calça, até o longo vestido negro permeado por babados e mangas de sino aos braços, que escondiam as mãos completamente. Muito útil para portar suas armas ocultas.

— Oh, bonjour, Catherine... Não esperava encontra-la tão cedo. Então é aqui onde morava — Maximilien olha ao redor, relacionando a casa com a conhecida — deixou-a em excelente estado.

— Sim, espero que goste do lugar — responde Catherine já adentrando a casa, passando pelos dois rapazes de forma indiferente e arrumando um quadro que estava levemente torto na parede da sala, antes de se virar para ambos: — Vim para falar do trabalho... mas oh, querida Amélie, já que está aí, que tal eu pagar-lhes um café? Conheço um bom lugar.

— Comigo incluso? — indaga Jean-Jacques, sem resposta.

Dobrando algumas ruas próximas do bulevar principal, sendo recepcionados por alguns maus olhares de pessoas ao fundo, Maximilien, Jean e Catherine chegam ao estabelecimento local "Le Café de Belle", que servia cafés, bolos e pães nas mesas da calçada. Amélie não pôde vir por ocupações, mesmo com Jean-Jacques insistindo. Enquanto Maximilien observa os arredores, Catherine chama um dos garçons pelo nome para anotar os pedidos: “Augustin”, este que permanece com os olhos fixados no caçador até novamente ir para a cozinha. A conversa nasce de Jean enquanto esperam o café:

— Além de Monsieur René, nunca vi outros colegas de trabalho de Moreau... E convenhamos, companheiro, devia ter me apresentado a bela dama antes, não? — Jean-Jacques aproveita para deixar em aberto seu cortejo à mulher, enquanto arruma os suspensórios da calça folgada em cima da camisa social amassada. Sentia-se deveras desarrumado na presença de alguém tão elegante como Catherine.

— Não costumamos nos ver com frequência, só em reuniões da guarda noturna — responde Maximilien ainda observando o cardápio. Catherine assume a fala:

— Digamos que eu tenho uma vida muito ocupada para conhecer pessoas novas. Creio que entende, monsieur...?

— Jean-Jacques Bittencourt, madame. Ao vosso dispor — Jean faz um gesto mínimo de apresentação teatral com uma das mãos.

Maximilien deixa o cardápio e olha ao redor até observar Catherine acenar a uma moça da cafeteria, que trabalhava atrás do balcão, uma possível conhecida que então acena de volta com um sorriso. O caçador comenta:

— Já está aqui faz um tempo, não?

— Ah, sim. Se falas do estabelecimento, a Belle e eu já somos amigas há meses. Se é sobre o distrito, antes de te designarem cá, eu estava a cargo daqui. Pensei que com você, iria me aliviar a sobrecarga, mas o maldito do Valentin me botou a serviço de outros três distritos! ...Em contrapartida você pegou os mais trabalhosos no momento.

— Hm, você está cuidando do 14° arrondissement, não? O que sabe sobre os corpos desaparecidos?

— Uau... nem esperou o café chegar, Maxi... — Catherine usa um tom irônico no apelido, mas responde ao cruzar as pernas, adotando uma postura mais séria — adoraria dizer, mas algumas informações são um pouco restritas para discutirmos na presença do seu encantador amigo.

— Falas de mim? Ora, minha boca é um túmulo. E se estou interrompendo algo, não me importo de sair de fininho... mas também não pago a conta — responde Jean em pose folgada.

— Não precisa passar todos os detalhes. Já vi muito nas cartas — Maximilien comenta — só me pergunto o que a famosa “Viúva” investigou quando estava aqui.

O garçom de antes então chega ao lado da mesa com uma bandeja trazendo as xícaras de café, servindo os três clientes. Catherine agradece:

— Obrigada, Augustin. Aliás, conheça o seu mais novo vizinho! Maximilien Moreau, por trás dos músculos é um fofo.

— Oh, o grande Maximilien da guarda noturna! — O garçom parecia contente na presença deste — é um grande prazer conhecê-lo, você nem imagina o quanto sou grato pelo seu trabalho. Lembra-se de mim?

Maximilien analisa o rapaz brevemente. Possuía uma face angelical, de proporções simétricas e uma delicada pele bem cuidada. Tinha curtos cabelos castanhos, levemente cacheados, e olhos bem azuis. Por mais que seu sorriso fosse inesquecível e ligeiramente familiar, não conseguia reconhecê-lo:

— Hm, agradeço... mas não, infelizmente não lembro.

— No 7° Distrito, há alguns meses... você me salvou numa noite escura. Eu fui atacado... por uma coisa. Até hoje não sei dizer o que aconteceu, mas se não fosse por você eu certamente não estaria aqui para contar a história.

— Ah, sim...! — Maximilien finge se lembrar do homem enquanto passa a mão nos cabelos. Era péssimo de memorizar rostos, mas sabia que aquela experiência provavelmente havia acontecido e mentia só para soar gentil: — Nossa, que coincidência... espero que esteja bem depois daquilo.

— Estou, definitivamente estou... de qualquer forma, vou deixar aproveitarem o café. Seja bem-vindo à Fraternité, Monsieur Maximilien.

Com Augustin saindo de cena, Catherine vem a tomar o café, até retornar com o assunto:

— Bom, onde estávamos?

— Ia dizer sobre a investigação...? — Jean-Jacques vai bebendo o café no mesmo ritmo que a mulher.

— Bom, consegui certas informações a respeito do envolvimento de uma tal "associação" com o caso, inclusive de civis humanos envolvidos. Disseram-me que eles possuíam uma demarcada rota escondida... um mapa das Catacumbas de Paris, que os levava para o 14° Distrito.

— E conseguiu só isso? A informação? E que associação é essa? – Maximilien esperava mais.

— Não me subestime — Catherine retira de suas vestes um pedaço de papel amarelado, dobrado três vezes, e o joga para cima da mesa onde Maximilien o toma para abrir. Era de fato o mapa que ela havia mencionado, de grande tamanho e com os contornos de Paris desenhados originalmente e uns riscos improvisados de tinta, esboçando as rotas descobertas — quanto ao resto, creio estar por sua conta descobrir. Eu não entendi nada desse mapa.

— Bom, isso ajuda bastante... — reconhece o caçador surpreso, analisando o papel em mãos — mas é de fato complexo.

— Espera, do que estão falando? Tem ladrões roubando corpos do cemitério? E fazendo o quê? — Jean-Jacques estava realmente perdido na conversa.

— Guarda civil noturna, meu caro. Nem imagina os crimes que se passa na cidade enquanto estás a dormir. Mas não há muito o que possamos compartilhar contigo, me desculpe — Catherine bebe mais um gole da xícara.

Jean-Jacques aproveita para ver o mapa junto de Maximilien, que parecia não conseguir visualizar bem as rotas registradas.

— Hm, esta não é a Ponte de Sully? — Afirma Jean-Jacques, curiosamente surpreendendo os dois caçadores com o conhecimento preciso. Catherine chega a tossir um pouco do café que se engasga. O loiro continua mostrando a região do mapa pelo indicador: — mais precisamente, a rota seria por aqui no Porto de La Tournelle em sua margem debaixo da ponte, isto é, se o caminho for direto para o cemitério. Se eu estou certo, teria um atalho pelo Panthéon bem nessa parte.

Catherine deixa escapar um sorriso enquanto Maximilien elogia Jean:

— Sempre bom te ter por perto, não?

— Trabalho por aí, né chefia. Conheço o Sena como a palma da minha mão! — E orgulhoso, Jean bebe o restante do café virando a xícara.

— Bom, Maximilien, creio que agora tens o que procurava. Agora mescle isso com o fato de que provavelmente os "ladrões" se reunirão na noite de hoje por esta rota — Catherine vai terminando o seu café gradualmente, vendo Maximilien pensativo para logo o interromper antes de qualquer resposta: — mas estará por sua conta e risco se agir por agora. Como eu disse, é apenas uma probabilidade e estamos com falta de pessoal para enviar uma equipe inteira apenas por suposições... Mas nada o impede de ir sozinho se for só para investigar, não é?

Maximilien fica parado pensando a respeito.

— De qualquer modo, cavalheiros, estarei me despedindo por agora — Catherine descruza as pernas e se levanta calmamente após deixar o dinheiro do café em cima da mesa, já arrumando o vestido enquanto inclinava-se para os dois homens – até mais, Monsieur Maximilien. Encantada em conhecer-te, Monsieur Johan-Jacquin.

— Ah, que coincidência. Também estou de partida, mademoiselle. Se me permite acompanhá-la... — Jean se oferece, levantando-se rapidamente em seguida da moça e a corrigindo em tom mais baixo: — e é Jean-Jacques...

— Hm, se Maximilien aprova tua companhia, por que eu não iria...? Aliás, não gostaria de levar um croissant para a viagem? Eu adoraria dividir contigo, John-James — Catherine responde sarcasticamente, aproveitando-se da boa vontade de Jean que, concordando sem pensar duas vezes, vai para dentro do estabelecimento, deixando a mulher a sós com Maximilien.

— Ah... sabe de algo? — Catherine começa a instigar Maximilien com informações deveras importantes — eu também acabei por escutar dentre certos indivíduos pela calada da noite... que uma bela condessa, jovem e alta e de longos cabelos dourados, havia sido raptada por um vampiro visto pelo 11° Distrito...

— Antoinette? Você a viu?! — Maximilien a olha aflito e até um pouco alterado.

— Não. Nem mesmo posso confirmar se está viva, mas não é mistério que vais descobrir logo... Considerando os rumores, eu não duvido que haja uma relação entre os dois casos.

Com um longo suspiro, Maximilien permanece quieto, quase tremendo ao beber o último gole de café enquanto Catherine continua:

— Você foi treinado pelo próprio Rei de Copas. Sei que dá conta.

— ...Esta noite vais estar onde?

— Oh, você não está pensando em ir para as catacumbas, está? – A mulher finge surpresa.

— Foi só um devaneio.

— É mesmo? Ora... e se a tal "associação" não tiver ligação com Antoinette?

— O importante primeiramente é descobrir.

— Bom, vou confiar na sua força, Monsieur Maximilien. Deve saber se arriscar por devaneios... — Encerra Catherine, voltando a esboçar um sorriso falso ao ver Jean-Jacques retornando com o croissant. Maximilien se despede de ambos enquanto ainda fica na mesa, aproveitando para chamar Augustin mais uma vez. O croissant deve ter dado fome e o garçom ainda mantinha o sorriso caloroso. Por mais que a companhia de Jean fosse alegre, Maximilien não conseguia disfarçar o quão só se sentia naqueles dias... e as memórias que tinha sobre os cafés da tarde junto de Antoinette apenas tornavam o céu nublado mais cinza.

. . .

Acabava-se a tarde com o pôr do Sol proclamando o chamado da noite. Já fazia horas desde que Maximilien havia escutado as palavras de Catherine, mas ainda as remoía sentado no sofá de sua nova casa, parado quando estava prestes a vestir os pesados coturnos de couro do uniforme noturno. Contemplando o chão coberto pelo tapete da sala, o homem começaria seu turno de trabalho assim que o Sol se posse no horizonte. Mediante ao ar frio que gradualmente tomava conta do ambiente, Maximilien se lembra do mês que começava naquele dia. Agosto, quando este raramente sorria ao lembrar-se brevemente da noite que iniciou tudo isso...

Nas margens da província de Chartres, uma pequena casa no campo se encontrava cercada pela chuva. Agosto de 1848, em plena Primavera dos Povos, onde uma família teria fugido de Paris após a repressão governamental que pôs fim à Revolução de Junho. Eram um casal de socialistas, sobreviventes da perseguição de Cavaignac. Tinham dois filhos: o mais velho, Maximilien de 11 anos de idade; e a mais nova, Éléonore, dois anos a menos. Ambas crianças inocentes que presenciaram de perto o sangue derramado pelos reacionários. Naquela noite de agosto, entretanto, Éléonore estava a dormir mesmo sob o som dos trovões que atormentavam o céu escuro. Maximilien observava zelosamente a irmã em seu sono, cumprindo o papel de protegê-la, dado pelo pai.

As memórias eram claras na mente do caçador, mas algo passava batido. Maximilien se lembra de levantar-se do quarto ao ouvir sons estranhos vindos das janelas, indo até a sala para fazer uma pergunta ao pai... mas não se lembra o que era. Talvez sobre os barulhos? No fundo não importava mais. Pois mesmo antes de atravessar o corredor, o garoto presenciaria a tragédia que mudara sua vida para sempre... O evento que o aterrorizou para sempre na noite em que descobriu o que é um vampiro.

O caçador retorna ao presente. Não queria ter em mente as cenas de seu trauma, não era hora para isso. Já havia calçado o pé direito e estava com a outra bota em mãos. Não podeira deixar o tempo passar enquanto o dever chamava. Continua se arrumando, retirando os itens de suas malas e vestindo-se com o longo sobretudo preto, um cinto em volta do corpo carregando munições, o coldre junto ao revólver colocado ao quadril do lado direito e a bainha do sabre na esquerda. Talvez esta noite poderia ter as respostas sobre o desaparecimento de Antoinette, mas já não tinha relação alguma com o seu passado, seus pais ou sua irmã. Já fazia anos neste trabalho ceifando muitas vidas, dos ditos vampiros, licantropos, bruxas e tantas outras criaturas e nunca o fez por prazer. Era bom naquilo e recebia por isso, além de viver para honrar o nome do alemão que o salvou na fatídica noite de 48. Embora cultivasse demais razões, o real sentimento que o guiava era a vontade de proteger as pessoas e criar uma Paris na qual nenhuma criança passasse pelo que ele passou.

Colocando seu negro chapéu de aba longa sobre a cabeça e abrindo a porta, Maximilien se coloca para fora em mais uma longa noite de caçada.