— Ouvi dizer que os canhões deles são melhores que os nossos...

— Hmpf, balela! Como se bávaros soubessem fazer algo além de cevada!

Dois velhos companheiros gargalhavam em meio à viagem para a Alsácia, enquanto limpavam seus fuzis, não deixando outros dormirem em meio às risadas. Eram ambos civis de Nancy, com pouco treinamento, mas que se voluntariaram para os primeiros regimentos. As carruagens e cavalos transportavam vários soldados de infantaria naquela primeira noite de agosto, que iriam compor as divisões do Exército do Reno, já praticamente todo preparado com a chegada das últimas tropas. Os dois homens eram Ricardo e Paul, sendo o primeiro soldado, um caolho que não usava o casaco militar por conta de seu corpo gordo e alto, enquanto o segundo era um careca magricela de poucos dentes.

— Mas não vá se render, hein bastardo! Você sabe, aliás, o que os prussianos fazem com os prisioneiros de guerra? — Diz Ricardo esperando assustar o colega.

— Hm? Sei não.

— Abrem a sua garganta com você ainda vivo! E bebem o sangue até o corpo secar... Tradição celta dos Hohenzollern.

— Ora! Inventando coisas de novo. Sabe o que faço? Meto um tiro antes que encostem no pescoço. Imagine! Não conseguem nem superar um Chassepot, irão superar as mãos dum francês! — Responde Paul com confiança, ainda erguendo seu braço direito na intenção de parecer forte com os músculos que mal apareciam no membro esquelético, até que uma voz alheia aos dois soldados viesse de uma misteriosa figura encapuzada na mesma carroça, sentada na frente deles:

— Não subestime o inimigo... São mais fortes do que parecem.

Ambos Ricardo e Paul fitam-na em silêncio, surpresos. Era uma pessoa de curtos cabelos loiros bem claros, de estatura baixa e aparência franzina, tendo alguns anos a menos que os dois soldados na meia-idade. Não dava para ver direito o seu rosto pelo capuz.

— Hmpf, ficou quieto a viagem inteira para dar palpite agora... E por acaso acredita em germânicos chupadores de sangue? — Ironiza Paul.

— Me refiro às armas. E aos exércitos. A expectativa é que estejam em maior número e mais preparados.

— Somos os homens de maior bravura e temos Napoleão ao nosso lado! Consigo ouvir-nos marchando sobre Könisberg... — Vangloria Ricardo com o olho brilhando.

— Estás a consumir muita fantasia militar, se me permite. Desde a queda do império nossas forças decaíram apesar das inovações. Nossos generais são fracos e muitos deles covardes. Nem mesmo em Paris conseguem treinar suficientemente bons caçadores, quem dirá tropas de infantaria. E para falar a verdade, esse terceiro está bem longe do original... — Comenta a figura encapuzada, referindo-se a Luís Bonaparte, e continua com seu ar indiferente: — Mas enfim, me avisem se avistarem por aí algum "chupador de sangue". Não nego o interesse.

Ricardo e Paul ficam quietos, com o careca planejando alguma resposta enfatizada até que um dos outros soldados no transporte intervém:

— Essa gentinha do Departamento do Sena... sempre acham que sabem demais... — Era Ethan, um jovem soldado experiente, diferente dos voluntários. Possuía nervosos olhos azuis e uma grande cicatriz no canto dos lábios, cortando seu bonito rosto fino ao meio.

— Informação é a base de toda batalha. — Responde o encapuzado.

— A determinação dos soldados também, oras. Não me venha com bajulação prussiana e depreciação nacional.

— Calem a boca, vocês... — Comenta Maurice, soldado ao lado de Ethan, ainda de olhos fechados, querendo dormir. Era um jovem mulato que usava óculos, cujos braços cruzados demonstravam os músculos definidos de um soldado experiente.

O grupo permanece em silêncio por alguns segundos. Além de Maurice, ainda havia um outro voluntário a dormir que, no caso, não teria sido acordado pelas conversas avulsas.

— E você é de onde? — Pergunta Ricardo a Ethan, quebrando o gelo.

— Maurice e eu somos de Metz, maior fortaleza de toda Europa, se não sabe. É lá que são feitos homens de verdade...

— E o Monsieur Sabichão é de Paris, não...? Vai servir qual divisão? — Ricardo direciona-se para o encapuzado, que logo responde erguendo o rosto, mostrando sua feição feminina:

— Manquer, se me permite. Manquer Leona, prazer. Esse que estás a dormir é Elliot, também de Paris e subordinado a mim. Junto a vocês, estarei servindo o 3° Corpo do Exército sob as ordens do Marechal Banzaine. Serei vossa capitã na 1° Brigada da 4° Divisão de Infantaria. Espero que possamos nos dar bem.

Enquanto estende a mão para cumprimentar, Leona é alvo dos olhares surpresos dos soldados que descobriam ser subordinados de uma mulher, conhecida ainda por seus feitos surpreendentes na "guarda-noturna" de Paris. Até mesmo Maurice abre os olhos.

. . .

Maximilien não sabia ao certo por quanto tempo tinha caminhado naqueles túneis escuros e empoeirados. Dizia talvez uma hora e meia desde que adentrara a passagem secreta embaixo da Ponte de Sully. Se movendo pelas laterais de calcário no meio da escuridão, apenas clareada pela pequena lamparina que carregava em sua mão esquerda, ele não havia encontrado grandes adversidades além dos animais e insetos peçonhentos pelo caminho e da falta de ar presente nas catacumbas. Porém, mantinha-se preparado com o revólver na outra mão, pronto para atirar a qualquer sinal de ameaça que se deparasse. Estava atento aos sons, visto que não era possível ver mais que quatro palmos à sua frente mesmo com a lamparina erguida em sua reta. Entre barulhos de ratos correndo pelo subsolo e ecos da sua própria respiração e passos, o caçador permanece calado por todo o trajeto, sabendo que a chance de encontrar algum perigo por lá era alta. Ainda que mantendo o sangue frio, Maximilien não podia negar o tormento psicológico que aquela situação lhe trazia. Afinal, não estava nem em seu cem porcento dado o desaparecimento de sua noiva e as lembranças do passado que, por algum motivo, não saíam de sua cabeça.

. . .

— Certamente vem me surpreendendo, François. — Dizia Roger sentado em sua mesa, inspecionando os relatórios de Louis, já perto de fechar o escritório. — Num momento de alta dos inimigos internos, seus números chegam ser de grande ajuda.

— Apenas meu dever, Valete. — Louis permanece de pé, analisando alguns livros das estantes de Roger ao passar curioso pela sala. Seus olhos cinzentos dificilmente faziam contato visual quando conversava, talvez por indícios de asperger. — Tenho mobilizado assistentes e feito acordos com alguns figurões locais. Manter um trabalho de inteligência sobre os distritos é o mínimo.

— Ha, mantendo a área nobre limpa assim quase me obriga a lhe dar um aumento... — O albino se levanta já guardando a papelada nas gavetas e esticando os braços para que Louis viesse logo atrás pegar o casaco de Roger do cabideiro e vesti-lo no seu superior. Indiferente em sua face, o loiro com cuidado passa as mangas pelos braços finos de seu chefe, tocando levemente em suas mãos no final, que recuam.

— Tem se esforçado bastante desde que assumi o cargo de gerência enquanto Nikola está fora... — continua Valentin, ainda de costas para o homem: — Bajulação ou...

— Outra coisa? — Louis comenta quase sussurrando, ainda com seriedade no rosto, próximo ao ouvido de Valentin, necessitando abaixar um pouco sua cabeça para nivelar a altura enquanto ajeitava o rabo de cavalo do companheiro. Louis era pelo menos uns vinte centímetros maior que Valentin e seus 1,60.

O albino se vira, afastando-se um pouco de Louis ao tomar a frente para a porta, antes apanhando a maleta em mãos:

— Se almejas alguma promoção, é melhor que tentes convencer o Monsieur Nikola. Não tenho tanto poder de decisão quanto imaginas.

— Não é isso que quero dizer... e para falar a verdade, creio que tens poder o suficiente quando quer. — Louis abre um dos livros da estante de Roger enquanto que, de nariz empinado e demonstrando classe, arruma seus longos cabelos dourados no leve flerte subentendido, tentando a sexualidade já conhecida do superior.

— Poupe-me de ludíbrio, Monsieur Louis. — Valentin se coloca para perto da porta num tom risonhamente desconfiado. — Sabemos muito bem que não se interessas nem por uns e nem por outras... Conhecendo-lhe por anos, mesmo sendo tão desejado, nunca o vi acompanhado.

— Certamente faz parte de nossa política omitir assuntos pessoais... Não sou o único com segredos dentro da Ordem, aliás. Mas não cabe a mim manter sigilo para com a gerência, não? Afinal... O poder de descobrir é somente teu.

As palavras bem escolhidas de Louis, proferidas enquanto fechava o livro de modo ríspido para finalmente fazer contato visual com Roger, viriam imbuídas de uma certa tensão que arrepiava a espinha de Valentin. Os olhos de Louis François eram carregados de uma frieza que se mesclava com a graça de seu singelo sorriso curto, como uma cobra a encarar a presa. Com as mãos hesitantes já na maçaneta da porta e prestes a abri-la, Roger acabava rendido às fantasias que Louis parecia manter subjetivas em suas falas. E, fitando as feições doces e delicadas do alto rapaz, de forma tão bem esculpida e andrógena, Valentin move as mãos para próximo da fechadura e, com um giro na chave, tranca rapidamente a porta.

. . .

Por mais alguns minutos, ele caminha, até encontrar um fim do túnel onde estava, que continuava através de uma abertura bem estreita entre as rochas, levando para uma escuridão de destino duvidoso. "Será que isso tudo realmente vale a pena?", Maximilien pensa. Questionava a razão de estar ali caso não houvesse nada a encontrar além do risco de se perder. Por um breve intervalo, para na frente da abertura e coloca a lamparina em uma das fivelas de seu cinto. De suas vestes, tomaria o mapa que Catherine lhe dera e, abrindo-o para se localizar, nota estar surpreendentemente no caminho certo. Suspirando com certa antipatia e guardando o mapa novamente, Maximilien se arma com o sabre em sua mão esquerda e o revólver na direita para adentrar de lado a passagem estreita, de modo que a arma de fogo lhe fizesse a frente e a espada protegesse sua retaguarda. A lamparina permanece na cintura, próxima à perna direita, sendo o suficiente para iluminar aquele espaço apertado. E se infiltrando de lado como se rastejasse nas laterais de uma caverna, o caçador continua...

. . .

— Deves já ter ouvido falar. Filha do Visconde de Aboville. Tem a minha altura, cabelos bem loiros e olhos da minha cor. Étinnie-Antoinette de La Fontaine d'Aboville. Atende por Antoinette, está sumida já faz dias. Por favor, mantenham os arrondissements do sul na busca.

Um moço vestindo um uniforme marrom de guarda civil estava a alertar dois policiais do 13° Distrito. Dotado de aparência forte, com músculos e mãos de trabalhador, mas com um rosto sutil pelos olhos e cabelos claros, René Ernest de La Fontaine era mais um dos treze caçadores e também primo de Antoinette. Estava a conversar com guardas locais enquanto trabalhava na sua ronda, que respeitosamente acatavam ao pedido do rapaz, saindo de cena para fazer os registros. Não era de conhecimento público as ações da Ordem Croupier, mas o distintivo já impunha superioridade por ser um órgão que respondia diretamente à guarda imperial.

René era quem tinha apresentado Maximilien a Antoinette há cerca de 3 anos. Tinha uma boa amizade para com seu colega de trabalho, mas agora era quem mais se pesava pelo desaparecimento da mulher. Culpava-se por não ter notado indícios antes e agora do que seria talvez uma obra de perseguidores. Já tinha ouvido a prima reclamar por muitas vezes de certas inimizades e questões pessoais sobre outros homens com quem se deitara, mas nunca havia considerado relevante. Fora isso, havia muita discussão que não sabia como falar para Maximilien. Tentar resolver o caso era um dos seus objetivos, mas assim como o outro caçador, não tinha tempo para isso devido às obrigações do trabalho. A Ordem dos Caçadores de Paris focava-se apenas nos casos do Departamento do Sena que, ou tivessem alta suspeita de ameaças noturnas, ou fossem comissões diretas dos engravatados de Versalhes. Tal caso de Fontainebleau, no máximo, seria direcionado a caçadores de outras províncias, se fosse ao menos considerado relevante.

— Monsieur René? De La Fontaine?

Interrompendo os pensamentos de René após os policiais deixarem o local, uma jovem vestida com um longo casaco escondendo as roupas de enfermeira aparecia na rua em que o caçador se encontrava. Uma moça parda de dezessete anos, de cabelos presos num coque. Permanecia com as mãos nos bolsos, mantendo uma postura um pouco tímida.

— Eu mesmo... A que deve a senhorita? — Responde René, um pouco desconfiado da aparição repentina da mulher desacompanhada àquela hora da noite.

— Vim entregar isto. — A menina retira uma carta de seus bolsos, dando-a para o homem: — É uma mensagem de Doutor Simon. Ele está de plantão, não pôde vir pessoalmente.

— Ah... — René diminui a tensão nos ombros emitindo um riso sem graça, tomando o papel para ler. — É de certa urgência, creio eu, para ele enviar a senhorita até aqui por um bilhete, não?

A garota permanece quieta, apenas ainda parada esperando o caçador ler a carta. Não demorando muito, pelo tamanho curto do texto, mas ainda com dificuldade para entender a letra do médico, René termina com a respiração um tanto presa, mas encarando a responsabilidade dada com postura séria e sem dizer muito. Fita a enfermeira, sabendo de seu envolvimento, e a chama enquanto vira-se para seguir caminho:

— Venha, vamos para os bosques de Vincennes.

. . .

Por mais alguns minutos ele caminha. E de fato, agora a claustrofobia começava a afetar-lhe, com a passagem ficando cada vez mais apertada e seu corpo tendo de se mover de forma bem peculiar. O tecido do sobretudo começava a estirar-se ao passar das rochas. Não era a primeira vez de Maximilien nas catacumbas, mas nunca foi tão a fundo em túneis e passagens tão fechadas e não exploradas. A partir daquele ponto, Maximilien sente um solo bem mais estilhaçado e barulhento pelo qual suas botas pisam. Eram ossos, de todos os tipos e tamanhos, muitos já quebrados em várias partes e que compunham o chão do longo corredor. Baratas abaixo e nas paredes se movimentavam para longe a medida que Maximilien passava por seus territórios. O fétido odor já comum das catacumbas parecia mais concentrado ali e, mesmo com a máscara de pano cobrindo seu nariz e boca, Maximilien sente o cheiro impregnar em suas narinas. Entretanto, suportava. As palavras de Catherine voltavam à sua mente repetidamente como um sino: "Deve saber arriscar-se por devaneios".

. . .

— Ah, então ele disse "não sei se gosto muito desse tipo de coisa". Como se nunca tivesse feito parecido!

Junto de mais duas companhias, Catherine contava mais uma de suas histórias pessoais, sentada em um sofá de uma sala de estar. Ao lado dela estava Belle, a mesma moça da cafeteria. Uma mulher em seus quarenta anos, de longos cabelos escuros e óculos redondos, que apesar da idade, esbanjava vigor e jovialidade na postura. Mais atrás, de pé e caminhando ao sofá, vinha André, trazendo um pouco de chá para os três e sentando-se numa poltrona próxima. Um jovem garçom de aparência esbelta, com pernas longas e um sedoso cabelo castanho escuro, de tamanho beirando os ombros num corte borboleta. Era amigo e funcionário de Belle. Estavam os três numa espécie de "happy hour".

— Pensei que estaria a serviço esta noite, Catherine. Nem tive tempo de preparar o chá que você gosta... — Diz André servindo a xícara da viúva.

— Bom, já fiz minha parte no caminho até aqui, cobrindo o perímetro pelo sul do Sena... Agora se Valentin ou os burocratas da Ordem vierem me cobrar, vou mandá-los à merda. Estão pedindo por muito enquanto diminuem o salário, sinceramente... E convenhamos, do jeito que as coisas estão, vou acabar me juntando aos grevistas do 10° Distrito! Uma pena saber que os outros não iriam aderir...

— Falando nisso, querida, dentre os caçadores que conhece, realmente são tão caretas como pintas? — Indaga Belle já tomando o chá. — Digo, além de executar ordens, o que mais sabem fazer? Já foram tantos casos absurdos que deixaram passar em branco que me pergunto para que servem nossos impostos! No fundo, são só mais uns soldados alienados do Haussmann, não?

— A maioria certamente. Mas temos casos como a Leona, que embora pouco faça, tem meu respeito... Alguns outros em contrapartida nem se fala... Fora os Trois Royaux, nem o pobre Maximilien se salva da ingenuidade.

— Falando nele, como anda o grande prodígio? Realmente foi para onde você disse? — André pergunta acerca do caçador, já cruzando as pernas: — Augustin me contou sobre.

— Sem sombra de dúvida. Denis disse que o viu cruzando a Ponte Sully não faz muito tempo... — Catherine toma um gole. — Só me resta o receio de como ele vai sair de lá.

. . .

Maximilien finalmente chega ao término do corredor estreito, adentrando uma câmara bem aberta onde a escuridão predominava do chão ao teto, não dando para ver suas extremidades. A tensão, entretanto, continua no ar a medida que o caçador sente sua pressão cair. Não sabendo se era real ou não, os ossos os quais pisava no chão pareciam ganhar vida, agarrando suas pernas e puxando o homem para baixo. Maximilien não lembra de ter sentido algo parecido antes, nem mesmo nas vezes em que enfrentou bruxas nos pântanos da Normandia, mas parecia ser algo tão... familiar. Pensava estar tendo um déjà-vu naquele lugar, começando a ouvir vozes enquanto cambaleia para as paredes, agarrando-se nas laterais encravadas com crânios humanos: "Assassino!"; "Traidor!"; "Tirano!". Com o fogo dançante da lamparina bagunçando as sombras na visão do homem, Maximilien pensava ver mãos de cadáveres escalando seu corpo, com as cabeças gritando horrores. Rostos irreconhecíveis se misturavam entre as faces já vistas de criaturas as quais já havia matado antes. Vampiros, licantropos e bruxas pareciam voltar para amaldiçoá-lo junto de vozes amigas que ecoavam em seus ouvidos, como a doce voz de Éléonore pedindo ajuda, as risadas de Jean-Jacques, René parabenizando-o pela promoção, a respiração ofegante de Antoinette em promiscuidade e finalmente o alerta de Nikola durante os treinamentos parecer soar mais alto que as outras vozes: "Em guarda!".

Voltando a si no espaço escuro, Maximilien percebe toda a confusão desaparecer ao piscar e balançar a cabeça, retomando a sanidade talvez graças a uma memória muscular que o mexia toda vez que ouvia seu mentor. Com o silêncio que se fazia sem os gritos, o caçador consegue escutar dois nítidos sons no local: Seu coração batendo acelerado e... uma estranha respiração pausada de uma boca aberta logo atrás de sua nuca.

O sangue jorra. Num rápido movimento com o sabre já na retaguarda, Maximilien executa um corte profundo na diagonal entre ele e a coisa que se esgueirava bem atrás, antes que o inimigo pudesse fazer qualquer movimento. Um rasgo da barriga até a clavícula do vampiro era aberto, obrigando a criatura a recuar com suas tripas para fora enquanto o caçador faz o mesmo. Sentindo passos se aproximarem de suas costas, consegue perceber que havia mais de um único vampiro. Outros cinco estavam escondidos naquele recinto. Atento aos sons com sua experiência, escuta barulhos de língua, suspiros, passos e até metal se arrastando no chão da grande câmara. Não estavam apenas em maior número, mas também armados.

— É ele! É ele, sim! — Vem um grito estridente no escuro, já acompanhado da risada macabra dos outros companheiros, que se aproximavam do caçador prontos a cercá-lo. Maximilien não estava preparado para isso. Segundo as informações que lhe passaram, deviam haver apenas quatro, não seis deles. As chances de sair vivo da emboscada... eram extremamente baixas.

Maximilien carrega o revólver enquanto controla rapidamente sua respiração, diminuindo a pulsação para melhor focar-se. Não era um caçador qualquer, mas sim o pupilo de Nikola Ludwig Ossenfelder. Adotando pose de combate, fica de frente aos vampiros e relembra os ensinamentos do "Rei".

O primeiro deles avança. Era o mesmo de antes, com o corte feito pela espada. Possuía corpo desnutrido e de aparência faminta, sendo possível ver seus ossos sobressaindo-se da pele, não muito diferente dos mendigos que Maximilien já encontrara no 11° Distrito. Numa investida procurando cravar os dentes afiados e tortos na jugular do homem, o faminto não prevê o caçador esquivando-se facilmente com um único passo, ao mesmo tempo retribuindo com a lâmina do sabre em movimento um golpe no abdômen e nas costas do inimigo, que caía ensanguentado ao solo. O caçador usava um estilo de esgrima único, ensinado por Nikola, consistindo na "Arte do Contra-Ataque". Como o mentor dizia, "não importa a situação, deve-se sempre retribuir o golpe". Observando os outros hesitarem com a morte tão rápida do companheiro, Maximilien apenas os atiça:

— Quem é o próximo?

. . .

Quatro cavalheiros encerraram a noite com uma última partida de pôquer num dos terraços do Château-Neuf de Meudon. Sendo uma disputa entre um aparente militar de renome, dois membros da nobreza e um burguês de alta classe, o vencedor teria levado grande fortuna, incluindo grandes propriedades pelos Altos do Sena. E agora que todos se levantavam no fim do jogo, o vitorioso pede para o mordomo local abrir o bourbon guardado para a ocasião, enquanto se despede:

— Foi um prazer jogar convosco, senhores. Espero que possamos repetir o encontro no futuro. — Era o militar, um senhor que aparentava estar em seus cinquenta ou sessenta anos, mas ainda muito bem conservado. Os cabelos grisalhos eram volumosos, penteados de forma jovial. Sua postura, perfeitamente ereta, esbanjava saúde e um corpo atlético. Possuía um bigode muito bem alinhado, o qual combinava com seu ar pomposo e elegante, como se podia ver no traje formal de seda. Usava um monóculo no olho esquerdo e já havia apanhado sua bengala ornamentada e seu cardigar de cauda do cabideiro, ambos vermelhos.

— Já vais embora, Ossenfelder? Há bastante espaço aqui, muitos quartos de seu agrado. — Comenta o dono da mansão, Napoleón-Jérôme, primo de Luís Bonaparte e conhecido como Conde de Meudon, um pouco mais novo que o restante: — E devo admitir que foi impressionante. Como sabia que eu estava blefando? Bem que podia me ensinar seus truques.

— Tenho de estar em Paris amanhã de manhã. Ossos do ofício. — Responde só a primeira pergunta do jovem enquanto bebe a taça de bourbon.

— A Ordem não sobrevive sem você, não? — Comenta o Marquês Victor de Rochechouart, um nobre de idade equivalente ao ganhador da mesa: — É melhor que tomes cuidado ao viajar de carruagem a noite. Há muitas histórias sobre os bosques daqui... Falam de criaturas que bebem sangue. Como chamam mesmo na sua terra?

Nachzehrer. Mas tem suas diferenças com outros folclores do tipo. — Ossenfelder responde com a primeira palavra em alemão, sua língua nativa. Era um prussiano de cidadania francesa.

— Bah... Em tempos de guerra, é melhor que evite esse sotaque. Me surpreende Napoleão III confiar tanto num germânico para cercá-lo de prestígios e boa companhia. — Ironizando dessa vez, era Jorge-Baptiste de Mortemart, um rico dono de terras das regiões de Poitou e da Alsácia. Sorria com falsidade, tentando disfarçar o aborrecimento pela derrota no jogo: — Mas vamos ser francos, você subornou o mordomo antes dele embaralhar, não? Um Royal Flush de primeira? Nunca vi acontecer... E você tinha justamente a carta que eu precisava para a minha quadra de reis!

— Ah, o Rei de Copas... Bom, a vida costuma agraciar a sorte de poucos. Sabem bem disso. — Responde o velho, já fitando o relógio de bolso para demarcar sua saída. — Bom, por aqui eu termino, cavalheiros. O bourbon está ótimo, aliás. Apreciem-no um pouco para tirar o gosto da derrota. Aguardarei ansioso para nossa próxima partida.

Au revoir, Monsieur Nikola... — Responde o príncipe com leve desgosto na fala, enquanto seu mordomo acompanha o convidado para fora.

. . .

Cinco cortes de garra no braço esquerdo, um tiro de raspão no quadril e uma parte da jugular mordida, ainda vazando sangue. Havia acabado. Deitado e encharcado de sangue, tanto próprio quanto alheio, Maximilien aprecia o silêncio das catacumbas depois da chacina, mesmo que a adrenalina do momento fizesse sua cabeça pulsar em dor. Custava acreditar que havia sobrevivido. Porém, permanecia extremamente cansado, ferido e na escuridão, uma vez que sua lamparina jazia quebrada no chão. Maximilien pensa se aquilo teria valido de algo. Afinal, tentando sobreviver, teria matado todos os seis vampiros sem conseguir nenhuma informação, muito menos sobre Antoinette. Um banho de sangue desnecessário. Deitado em meio aos cadáveres, sentia-se parte daquela enorme tumba abaixo da cidade das luzes. Mais um dos milhões de esqueletos deixados para apodrecer naquelas catacumbas. E por bastante tempo, sem mais saber o que fazer num momento como aquele, perdido em breu total e com tanto sono atrasado das noites mal dormidas, o caçador permanece imóvel como em leito de morte... até singelos braços o levarem.

Gradualmente voltando a si, abrindo lentamente os olhos amargurados pela exaustão, Maximilien demora a perceber que estava sendo carregado nos braços por alguém, de mãos estranhamente familiares. Este o levava ainda pelas catacumbas e o caçador ainda nada conseguia enxergar. Sentia, porém, um certo frescor que indicava uma saída próxima para a superfície. Até lá, Moreau não sentia perigo e até chega a pensar ser um dos caçadores da Ordem que havia o encontrado.

Não demorando muito, ambos chegam a um grande salão iluminado. Havia centenas de velas acesas espalhadas pelas extremidades do recinto, de pé sobre o próprio chão ou em buracos nas paredes, que convergiam ao ponto central da câmara, onde um grande caixão negro e fechado, adornado por cravos vermelhos, jazia sobre um altar elevado de rocha sedimentar. Pelo atordoamento ainda presente na cabeça, a visão de Maximilien continua ainda turva, chegando a ver no seu "salvador" a figura de Nikola.

— Obrigado...

Sem resposta, todavia, o caçador é deixado no chão carinhosamente pelo desconhecido, que o faz sentar-se colado ao altar enquanto permanece de pé abrindo o caixão. Tendo tempo de respirar com calma e recuperar as energias, Maximilien voltava a si, vendo logo em seguida que o seu salvador não era Nikola e nem ninguém que pensava que fosse... Mas antes que Moreau pudesse ter qualquer reação, o desconhecido retira uma adaga de suas vestes e, rapidamente tomando a mão do caçador ao puxar seu braço com força, faz um corte severo no pulso deste, deixando o sangue derramar em grande vazão sobre o caixão aberto.

— Que um sangue incorrupto lhe erga deste solo, irmã do povo. — Proferia solenemente o homem de forma poética, enquanto Moreau não perde tempo com a dor e logo faz força para sair, não conseguindo vencê-lo mesmo usando seus músculos contra o magrelo, já indicando que não se tratava de um humano.

Não demora muito para o inimigo soltá-lo e focar-se no caixão ao murmurar palavras desentendidas em tom de ritual, permitindo Maximilien recuar e finalmente se levantar. Estava desarmado, visto que seus itens ficaram no local em que desmaiou. Não havia muito que pudesse fazer contra o homem que estava de costas para ele. De lá, porém, conseguia ver a coisa dentro do caixão. Um corpo seco, ainda imóvel, quase mumificado e irreconhecível, com vestes em trapos ainda do início do século. O sangue derramado do pulso de Maximilien jazia no rosto enrugado e cadavérico. Seja lá que criatura aquilo fosse, a situação já era clara e o caçador não podia deixar o aparente ritual se concretizar.

Maximilien avança contra o desconhecido pelas costas, usando somente seu próprio corpo para obriga-lo a cair pelo impacto. Porém, não seria forte o bastante para movê-lo e, apenas cambaleando, o magrelo realiza um tapa que joga o caçador para três metros longe do altar. Se machucando ainda mais no processo, este ainda se levanta, finalmente observando a face do inimigo, que se virava para ele com um sorriso cínico, mostrando as presas de vampiro.

— Soberba demais de sua parte, Monsieur Maximilien... — Era Augustin, o garçom sorridente do 11° Distrito e também seu vizinho. — Sou um grande fã seu, esqueceu? Sei de todos os seus truques... inclusive sem o sabre, sei que não podes fazer muito.

De fato, Augustin havia minado o maior artifício que Maximilien costumava usar em momentos críticos como agora. Porém, não havia notado que o caçador se armava com a adaga que sorrateiramente tomou do vampiro quando tentou derrubá-lo.

— Então você nunca foi uma das vítimas do 7° Distrito... — Maximilien confirma ligeiramente irritado e com decepção, tentando ainda conseguir mais tempo para se preparar: — O que tá querendo com isso?

— Ah, não a conheces? — Augustin olha para o caixão, um pouco risonho: — Que ironia... É alguém que carrega o sangue do terror nas veias...

E aproximando-se de Maximilien, Augustin morde o próprio palmo esquerdo para, semelhante a bruxaria, fazer seu sangue escorrido aglutinar-se rapidamente em queda como estalactite, até formar uma sólida lâmina de um metro de comprimento em sua mão. Moreau fica abismado. Jamais avistara algo parecido, mesmo com tantos anos de experiência.

— O que você é?!

E sem resposta, Maximilien é alvo do golpe de Augustin num piscar de olhos, conseguindo se defender por um triz ao usar a adaga para bloquear rapidamente a lâmina inimiga, utilizando as duas mãos para aguentar a força do vampiro, que seria demais até mesmo para ele. Maximilien cede à colisão e esquiva-se para o lado. Seu braço esquerdo estava muito fraco devido aos ferimentos de antes e, portanto, usava a adaga na direita.

— Eu sinceramente esperava por mais. Mal lhe dei as boas vindas à Fraternité! — Zomba Augustin, ainda mantendo classe pela postura formal de esgrima. Entretanto, nota em seu pescoço um corte superficial relativamente extenso, causado por Maximilien durante a esquiva, sem o vampiro perceber. Augustin emite um suspiro risonho e, abanando a lâmina de sangue na diagonal com o chão, faria metade das chamas das velas se apagarem em contato com o vento da movimentação. Deixando o lugar mais escuro para dificultar a visão de Maximilien, Augustin faz novamente sua investida contra o oponente, que agora fica em completa defensiva, recuando enquanto coloca a adaga para bloquear sucessivamente os vários golpes que o vampiro causava, mas não achando brecha para contra-atacar devido à grande diferença de velocidade e força. Durante os ataques, alguns furavam a defesa do caçador, inevitavelmente deixando rasgos em sua pele, principalmente nos braços.

— Você não era mais inflexível...? Não era muito melhor do que isso?!

Augustin retorna a intimar, com pesar em algumas palavras, deixando uma janela de tempo apenas esperando que Maximilien o golpeasse, sabendo que poderia facilmente contornar o ataque pela superioridade física. Maximilien, em silêncio, de fato efetua uma estocada contra o vampiro, mas de forma branda e falsa, quase já sabendo a estratégia do inimigo enquanto abre a perna esquerda para colocá-la bem a frente. Assim que Augustin se move para sair da reta da perfuração, havendo a parede de um lado e a perna do oponente na outra, este acaba tropeçando sobre o pé esquerdo do caçador, inevitavelmente indo ao chão.

Maximilien tenta finalizar o vampiro com a adaga mirando o pescoço, mas antes que pudesse chegar perto, Augustin o chuta contra a parede, danificando seu estômago a evidenciar pelo sangue vomitado. Moreau grita de dor enquanto não se recupera a tempo o suficiente de reagir ao próximo ataque de Augustin, que se levanta e perfura a coxa direita dele, ainda segurando o braço que portava a adaga, imobilizando-o. Ao som de mais gritos, o vampiro continua a falar enquanto aproxima a boca ao pescoço do oponente:

— Agora sem fugir... Deixe-me acabar com este solene duelo e descanse nesta tumba novamente.

Com sua mão esquerda ainda livre, Maximilien a coloca rente a algumas velas ainda acesas e bastante derretidas que estavam no buraco próximo da parede e, flexionando os músculos machucados com grande avidez, com sua mão queimando ao envolver-se de cera quente, rapidamente a usa para apertar os olhos do inimigo com os dedos, na tentativa de realmente feri-los com a pressão imposta, ainda aumentando potência de dor pela cera derretida que se instaura nas pálpebras do vampiro.

— Bastardo! — Grita Augustin se afastando e soltando o adversário, com seus irritados olhos azuis afetados pela queimação, que inevitavelmente choravam junto de palavras desconexas: — Isso dói! Como dói, Maximilien! Onde está sua honra, a paz que sonhamos...? Não posso vê-lo de novo? Por quê?!

Utilizando de seus últimos esforços para ir mancando até o altar, aproveitando-se do momento oportuno, Maximilien coloca a lâmina da adaga apontada sobre o corpo no caixão, sabendo que não conseguiria vencer Augustin de maneira convencional. Estranhamente, o defunto parecia menos cinza do que antes.

— Você podia ao menos fazer papel de mártir de novo... — Levanta-se o vampiro, já com o rosto queimado limpo da cera, falando com certa ousadia até que enxergasse, com dificuldade, o caçador usando o corpo do caixão como refém. Augustin se volta sério, obrigado a tomar demasiada rispidez, estampada no rosto coberto de intenção assassina: — Afaste-se dela agora ou eu corto sua cabeça.

— Você vai me deixar ir... e vou levar o caixão comigo.

— Não faz ideia do quão importante ela é... para todos nós!

— Talvez eu tenha uma noção quando levá-la para a Ordem.

E nos próximos instantes, Augustin perde a paciência ao simplesmente imaginar o que o destino poderia reservar à criatura ainda no leito.

— Sempre um "tirano", não...? Me desculpe, Charlotte. — Após o comentário aflito, num rápido movimento abusando de suas forças, Augustin tenta executar Maximilien antes que este pudesse sequer mover a adaga... Porém, diferente da cabeça quente do vampiro, o caçador usa de sua frieza para contra-atacar, com seus planos desde o início sendo focar Augustin e não o corpo no caixão. "Quando o inimigo ataca, é quando ficará mais vulnerável e exposto, sendo esta portanto, a hora certa de atingi-lo". Seguindo os passos de Nikola como se as visões de treinamento passassem diante dos olhos, Maximilien aproveita a vantagem do solo alto que o altar fornecia e consegue acertar Augustin antes que a lâmina de sangue encostasse em sua cabeça, para então contorcionar bastante seu corpo na esquiva e deslizar o gume de trinta centímetros da adaga contra o tórax do inimigo em movimento, provocando um enorme corte que se estendia do peito até a virilha. Se Augustin não mirasse na cabeça pela impulsão, talvez teria vencido.

Augustin cambaleia todo torto tentando segurar o corpo aberto, até tropeçar num degrau do altar para cair no chão próximo, onde se ajoelharia numa enorme poça de sangue próprio, carregando desmedida angústia pela falha. Com a bela face suja de vermelho, ele fita o caçador, não improvável se havia ainda esperança nos olhos cansados, e sussurra em tom rouco e melancólico:

— Marque minhas palavras, Maximilien... Você ainda está... entre os amaldiçoados.

Sem perder mais tempo, por temor que o vampiro tivesse outros truques como o de antes, Maximilien efetua, com suas últimas energias, um corte no pescoço carregado de tanta força que seria capaz de decepar metade da cabeça de Augustin, ficando pendurada ainda no corpo pela outra metade, jorrando pus e sangue incessantemente, como se não encontrasse descanso mesmo na morte. As vestes de Maximilien são pintadas de vermelho, mesmo que estivesse muito escuro para notar.

Augustin era derrotado, completando-se sete vampiros mortos naquela mesma noite, ceifados pelas mãos do mesmo caçador. Mas não era orgulho que este sentia, mas sim dores tremendas assim que a adrenalina abaixasse, sendo obrigado a ajoelhar-se de frente ao altar, esforçando-se para não perder a consciência. Agora, de fato, era incapaz de enfrentar qualquer outra ameaça, até mesmo humana. Completamente debilitado, se assemelhava a um porco esperando o abate.

Entretanto... mesmo rezando para que nada lhe acontecesse, Maximilien abre os olhos de novo, fitando uma nova aparição em sua frente. O desespero toma-lhe conta brevemente mesmo que não conseguisse esboçar qualquer reação facial. No fundo, via-se aceitando morrer ali, se tornando parte das dunas de ossos, como punição alicerçada por todas as criaturas que já matara no passado, com todos eles buscando vingança... uma vingança justa e válida. Fitando o que seria para ele um anjo da morte, todavia, o caçador se depara com algo que certamente não esperava encontrar... uma fraca e feminina figura de olhar amedrontado, com seu vestido branco tornando-a uma imagem fantasmagórica. Parecia uma moça no começo de seus vinte anos, tão jovem e de pele pálida como a lua. Possuía encantadores olhos azuis como os de Augustin e uma face fina e delicada como de boneca. Os cabelos castanhos cobriam-lhe o rosto sujo de sangue através das franjas bagunçadas. Com um ar de curiosidade, permanece fitando Maximilien, mas ainda afastada e com medo. O caçador não entendia. Qualquer vampiro, por mais fraco que fosse, seria capaz de matá-lo naquele momento, principalmente um faminto que acabara de acordar de um longo sono.

E, vendo que a vampira não se atrevia a tocá-lo, Moreau já impaciente e angustiado, tenta dizer qualquer coisa ao abrir a boca, mas não tendo capacidade mental e nem física de formular palavras nas condições que estava, emitindo apenas um som ofegante de ar. E só isso, combinado com a visão daquele cenário sangrento e mórbido, já seria o suficiente para fazer a moça, tão inocentemente alheia, rapidamente usar suas finas pernas desnutridas para correr no escuro, como um animal acanhado fugindo do caçador.

Maximilien é deixado sozinho. O primeiro pensamento que viria, entretanto, não era quando ia se mover novamente ou qual era o caminho para a saída, mas sim uma singela e retórica reflexão sobre a estranha vampira que acabara de ver: "Como ela lembrava Éléonore".