Frankenstain
27 Verão de 1848
Notas iniciais
Incrível como a morte de um ente querido pode abalar por completo as estruturas de uma família.
A casa em que viviam na Prússia agora pertencia à Sasha e sua família por direito e agradecimento a todos os anos de servidão.
Deixar Dégel na mesma casa que passara a vida com Kardia não lhe faria bem, então a solução que encontraram foi afastá-lo de tais lembranças.
Viviam em Paris desde a morte de Kardia, mais especificamente, na mesma casa em que Zaphire vivia com mulher e filhos.
O medo da família era justificável, pois, no primeiro dia sem o azulado, Dégel tentou cometer suicídio por envenenamento.
Milo agora vivia sempre atento para que o aquariano tomasse seus remédios corretamente e não ficasse sozinho com nenhuma arma em potencial.
Ele sofria com uma tristeza aguda e crônica misturada com uma amargura sem tamanha.
Uma tal de depressão.
Quando Dégel estava calmo, dormindo ou com Zaphire, Milo costumava tirar esse tempo livre para visitar Notre-Dame e seus moradores.
¬ MIO!! – gritava o pequeno.
Milo geralmente mal entrava no campanário da catedral e já tinha que estender os braços para cima com um grande sorriso apenas para apanhar o menino que pulava lá do alto.
¬ Raposinha! – pegava o menino no colo e saia girando aos risos com o pequeno.
¬ Milo! Shun! – e Phoenix sempre preocupado. – Para de girar que vocês vão cair assim!
O Santos geralmente não desgrudava no menino, o levando para todos os lados consigo e entrando em pânico e posteriormente em estado de violência total frente qualquer coisa que representasse perigo para sua pequena faísca.
¬ Você é muito desesperado. – dizia Cygnus aos risos.
¬ E você despreocupado! – rosnou indo atrás daqueles dois.
Era quase sempre a mesma história.
Phoenix era super protetor e Cygnus liberal, mas isso não fazia grande diferença quando o pequeno Shun era a graça e luz particular daquele lugar, nem mesmo Athena resistia aos olhinhos pidões do menino.
Tanto que uma vez a deusa alterou o clima do mundo apenas para que o menino pudesse ver as andorinhas-azuis migrarem passando pela França.
Shun também fez todos assumirem nomes mortais já que tinha dificuldades de pronunciar seus verdadeiros nomes.
Um exemplo era seu amado irmão Phoenix, o qual só conseguia pronunciar o Ix. Mas por conta de suas dificuldades com a língua, natural de toda criança, acabou que Ix virou:
¬ Ikki... – chamava o menino. – Já é hola?
¬ Não, ainda não. – respondia paciente.
Estavam na biblioteca com Milo, que vivia enfurnado ali tentando descobrir mais sobre si mesmo, além de abrandar outras curiosidades.
¬ Hora de que? – perguntou sem tirar os olhos do livro que lia.
¬ Shun gosta de tocar os sinos pra chamar os fiéis e pra anunciar a mudança de horas e dias. – explicou o moreno dando de ombros. – Acho que vou deixá-lo como sineiro quando mais velho.
Milo apenas deu risada ao mirar o menino chacoalhando um guizo.
¬ Acho que ele vai ser um maravilhoso sineiro. – comentou risonho.
E quando não estava em Notre-Dame em seu tempo livre, estava gastando seu tempo com Camus.
¬ Que livro é esse Milo? – estava sentado ao seu lado. – E quem é Aquarius?
Tinha o péssimo habito de levar alguns livros do Santuário para casa a fim de estudá-los melhor e Camus, curioso, sempre lhe questionava sobre aqueles livros estranhos.
Aprendera que Deuses e Santos podiam ler e falar qualquer língua, era um atributo natural deles. Milo mantivera tal atributo, só que agora procurava entender como Camus também o tinha.
O menino, na verdade, vinha se mostrando cada dia mais parecido com Milo em suas diferenças e isso estava começando a despertar ideias.
¬ Ninguém importante. – respondeu fechando o livro.
¬ Seu chato. – disse o mais novo dando-lhe a língua.
Krest agora estava estudando em Coimbra, Portugal, logo Camus estava bem ocioso e vivia dependurado em Milo.
O menino poderia muito bem estar em Coimbra com o irmão, mas queria seguir carreira militar, então estudar Direito não lhe fazia muito sentido quando queria entrar na Escola Militar de Paris.
O mais velho não achava ruim a presença constante do mais novo, muito pelo contrario, amava a companhia de Camus, mas tinha hora que precisava de espaço para estudar e isso o obrigava a subir no telhado para poder ler os livros que pegava do Santuário em paz.
Seu medo era que Camus descobrisse e tentasse subir no telhado também, então tentava evitar ao máximo.
Dessa vez se viu obrigado a subir no telhado, pois achou duas partes muito interessantes.
A primeira falava das marcas celestiais ou Caelestis, o nome mais bonito e certo.
As marcas celestes citadas por Cygnus eram uma marca concedida aos Deuses e Santos por Théos para que seus corpos adquirissem vida e suas existências possuam dons como o amor, a tristeza, a alegria e outros mais.
As marcas seriam, numa comparação, o sopro de vida dado por Deus descrito na Bíblia.
Os Filhos de Théos também tinham essas marcas, mas elas eram bem mais discretas e os homens costumam defini-las como marcas de nascença.
¬ Que marcas são essas nas suas costas? – perguntou Milo passando a mão nas duas marcas.
Desde o episódio dos piolhos, Camus só confiava no mais velho para cuidar de seu cabelo. E esse era um dos momentos em que o menor tinha o cabelo lavado por Milo.
¬ São marcas de nascença. – respondeu dando de ombros.
¬ Exatamente no mesmo lugar que as de Aquarius... – pensou alto.
¬ O que?
¬ Nada não! – tratou de disfarçar. – Vamos passear no Arco do Triunfo depois?
O menino apenas sorriu com o convite e voltou a ficar brincando com a água enquanto Milo continuava a cuidar do lindo cabelo rubro.
A segunda parte interessante falava do dom que os Santos tinham de ver mais coisas que os Filhos de Théos.
Milo também manteve esse atributo e, mais uma vez levantando teses, Camus também.
¬ Milo... – chamava preocupado. – Eu vi de novo...
O mais velho apenas suspirou, também tinha visto.
¬ Eu também vi, Camus. Não se preocupe, deve ser um anjo que nos protege e que assume aquela forma para não assustar. – respondeu bagunçando os cabelos do menor. – Mas ele ao menos podia evitar acenar pra não matar ninguém do coração. – comentou consigo mesmo.
¬ Verdade? – perguntou desconfiado.
¬ E porque eu mentiria para você? – apenas omitiria.
Costumavam ver Kardia andando de vez em quando pela casa, mas não em qualquer lugar da casa, ele sempre estava com Dégel ou Zaphire, quando não os dois.
O escorpiano manteve sua promessa de que cuidaria do amado até o dia de buscá-lo e eventualmente se deixava ser visto por Milo e Camus, que estava cada dia mais preocupado com sua saúde mental.
Kardia aparecia com o rosto e corpo jovem, um sorriso radiante e uma evidente alegria infantil, as roupas eram sempre brancas, menos o cachecol, o cachecol era vermelho.
Ele sempre acenava para os dois quando percebia que estava sendo observado e isso assustava Camus, que nunca se contentou com as explicações das várias religiões.
Em suma, os dois viam bem mais que qualquer outro morador daquela casa e isso podia ser útil algumas vezes porque facilitava para Milo identificar ameaças e afastá-las.
¬ Camus. – chamou. – Vá para dentro.
Estavam treinando esgrima no quintal dos fundos da casa quando Milo notara uma movimentação junto à única árvore do local e parara com o treino de forma abrupta.
¬ Mas non tem nem nuvens, Milo. – volveu olhando para os lados. – E nem está ficando escuro.
¬ Para dentro Camus. – ditou firme.
O menor de assustou com a repentina seriedade de Milo sendo que estavam rindo a pouco de suas mazelas com o manuseio da arma, mas o obedeceu e seguiu para casa.
¬ Achou mesmo que ia se esconder? – aproximou-se da árvore e apontou o dedo em riste. – Antares.
A armadura cobriu seu braço em frações de segundo e disparou o ataque contra a ameaça oculta ali antes de voltar a sumir tão rápido quanto surgiu.
Ouviu um ganido e um choro semelhante a um chiado. Muitos sentiriam compaixão, mas ele não podia se dar a esse luxo, ainda mais quando se aproximou da criatura ferida.
¬ Basilisco. – apanhou o ser ferido e prendeu sua cabeça com força, cobrindo-lhe os olhos. – Queria que Camus mirasse seus olhos é? – e estouro a cabeça do ser com a força aplicada. – Pena que isso só me deixou irritado.
Limpou as mãos ao atirar o corpo da criatura ao fogo, tinha que limpar bem por conta do veneno mínimo contido nas veias do animal.
Entrou em casa e encontrou um Camus curioso a sua espera.
¬ O que você estava queimando? – perguntou esticando o pescoço para continuar vendo o fogo.
¬ Nada importante. – pegou o menor pelos ombros e o girou para o interior da casa. – Agora vamos que está na hora de estudar história.
¬ Agora? – não queria ir. – Você vai sumir de novo?
¬ Eu não sumo Camus. Eu realizo minhas tarefas. – respondeu.
¬ Mas quando termino de estudar todos dizem que você sai. – rebateu. – Aonde você vai que ninguém pode saber?
¬ Céus, Camus. – riu minimamente. – Quando ficou tão controlador?
Para si Camus estava apenas querendo atenção, como toda criança, mas não podia negar que ficava minimamente feliz quando o mais novo queria saber de sua rotina.
Mas jamais contaria ou mostraria, jamais envolveria Camus naquela guerra secreta.
¬ Mentira. – reclamou.
¬ O que é mentira? – perguntou sorridente.
¬ Eu duvido que passe o dia aqui mexendo com madeira! – reclamou apontando para a cadeira que o loiro esculpia.
Milo apenas deu risada, voltando para seu trabalho logo depois.
¬ É uma pena. – respondeu. – Pois este é meu passa tempo.
O ouviu reclamar de novo e bufar irritado olhando para o teto da pequena cabana no fundo do jardim, onde Milo também morava.
Levantou-se e puxou o menino para junto de si, o fazendo se sentar ao seu lado e apanhar o martelo e cinzel de madeira.
Unindo os corpos apenas o bastante para que pudesse manipular as mãos finas do menor como era necessário, mas sem perceber que as respirações chegavam a se misturar e que a sua batia na orelha do ruivo.
¬ Aqui. – disse segurando suas mãos com cuidado e mostrando como fazer. – A madeira já foi viva, Camus. Ela tem sua própria forma, suas próprias linhas. Devemos respeitá-la. Por isso trabalhamos a favor das linhas naturais da madeira, é uma forma de respeitar sua origem e a vida que um dia teve.
¬ M-Milo... – chamou da cor do próprio cabelo após um tempo. – Você está meio perto...
¬ Oh! – percebeu a distancia ínfima e tratou de se afastar. – Perdão. Mas aprendeu agora?
¬ Aprendi. – respondeu num miado de voz.
Milo sorriu e ergueu o rosto do mais novo.
¬ Cadê seu rosto? – brincou com cara de assustado. – Só vejo cabelo! Senhor! Seu rosto! Cadê?!
Camus soltava altas gargalhadas pelas cócegas que o mais velho fazia na esperança de deixá-lo mais a vontade.
¬ Para Milo! – tentava afastá-lo sem sucesso.
¬ Só quando eu achar seu rosto! – respondeu risonho.
¬ Para! – e ria sem parar.
Camus estava cada vez mais ligado à Milo, e Milo estava cada vez mais ligado à Camus. Parecia que nada e nem mesmo ninguém seria capaz de romper aquele laço que surgia entre os dois.
Era uma relação deveras bela a que os dois tinham, uma amizade tão forte que beirava uma forma de amor que seria a irmandade e às vezes, de forma inocente, ultrapassando até mesmo esse limiar.
Era uma ligação tão forte, que a segurança de um podia ser confiada cegamente ao outro, pois tinha-se a certeza de que nenhum dos dois falharia em tal missão.
¬ Milo. – chamou o homem mais velho.
¬ Diga Mestre Dégel. – disse ao pé da porta.
Era quem sempre ajudava Dégel na hora de dormir. O aquariano preferia fazer as coisas sozinho, mas não gostava de deixar Milo preocupado e deixava-o ajudar algumas vezes.
¬ Cuide do meu neto. – disse o mais velho.
Milo apenas ergueu a sobrancelha completamente confuso.
Então se atentou mais, abrindo os olhos de verdade, e acabou sorrindo triste com a conclusão que tirou. Kardia estava sentado na cama de Dégel, fazendo carinho em seus cabelos e segurando sua mão.
Antes Kardia que Tanathos.
¬ Cuidarei. – respondeu. – Mas apenas se me promete uma coisa também?
¬ Claro. – disse o mais velho. – E o que seria?
¬ Viva sem medo ou vergonha com Mestre Kardia. – disse sorrindo.
O homem se assustou com as palavras do outro, mas acabou por soltar uma longa gargalhada e terminá-la elegantemente com um sorriso.
¬ Juro que o farei. – respondeu.
Milo então sorriu e fechou a porta do quarto, sentindo uma lágrima de sangue escorrer por seu rosto.
¬ Adeus Dégel...
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