Frankenstain
28 Inverno de 1849
Notas iniciais
Dégel Depardieu Vouivre Aquarion Artorius Wyvern
1766-1848
“Pois os finais, pelo menos como são conhecidos, representam onde nós recomeçaremos.”
Milo cuidou do túmulo recente com o mesmo carinho e dedicação com que cuidava dos outros.
Estava feliz por ao menos Zaphire se lembrar de enterrar o pai no cemitério da família, junto com todos que um dia ele amou e, principalmente, ao lado de Kardia.
Saio do pequeno cemitério e seguiu até o cavalo que o trouxera até ali. Fez um carinho no animal e sorriu gentil.
¬ Vamos pra casa, Diamond? – fez mais um carinho e subiu no lombo do belo animal. – Camus está sozinho, então temos de nos apressar.
Zaphire não estava em casa.
Não estava lá para enterrar o pai, pois tinha viajado um dia antes com a esposa para ministrar negócios na Inglaterra. Krest ainda estava em Coimbra e talvez ainda nem soubesse da morte do avô.
Logo, os dois estavam sozinhos em casa e as coisas andavam meio preocupantes, então tinha que voltar logo para o lado de Camus.
Já fazia algum tempo que a Europa tinha sido tomada por rebeliões que desejavam a queda das monarquias e isso era perigoso para qualquer um que se metesse onde não era chamado.
Camus era muito ligado a Dégel, quando não estava com Milo ou Krest, ele estava com o avô e quando este se fora o menino sofreu muito, deixando para demonstrar seus sentimentos mais ocultos longe de todos.
E deixar um Camus de luto sozinho numa cidade que passava por transformações relativamente violentas era muito perigoso, então tinha que se apressar para chegar.
Tinha levado dois dias para ir e dois dias para voltar, portanto estava morrendo de medo do que encontraria quando entrasse em casa.
Havia deixado tudo pronto para que Camus pudesse se virar nos dias de distancia, mas ainda tinha medo do que podia acontecer, afinal o menino era vivo e tinha uma vontade própria um tanto perigosa.
¬ Camus! – a casa estava muito escura, já começou mal. – Camus! Onde você está? Camus!
Andou a casa inteira e não encontrou nenhum sinal do menor, o que estava deixando-o desesperado.
Foi então que viu o bilhete pregado na porta da casa.
Milo apenas suspirou após lê-lo e foi atrás do menor.
Camus acabou descobrindo e colocando em pratica a frase mais famosa de um bêbado. Beber te faz esquecer.
Uma mentira sem tamanho.
E uma dor de cabeça ainda maior para família.
¬ Estou procurando um rapaz ruivo com um anel de ametista na mão direita, herança do avô. – falou com uma das serventes.
A jovem apenas apontou para uma das mesas do fundo.
Milo desejava saber como aquele maldito vicio tinha começado.
Foi com as garrafas de vinho da casa ou com a cerveja que comprou para experimentar?
Talvez uma sequencia de fatos diversos o guiaram para aquele destino.
¬ Camus. – chamou o menor que estava com a cabeça deitada na mesa. – Vamos pra casa antes que alguém te veja e seu pai descubra.
¬ Me deixa em paz... – reclamou sem dar verdadeira atenção.
¬ Odeio lhe tratar como um menino. – suspirou.
O agarrou pela gola da camisa sem delicadeza, aquela história estava acabando com sua paciência, e o jogou sobre o ombro, saindo em direção à porta e deixando algumas notas com a jovem servente.
¬ Me solta! – o mais novo se debatia. – Me solta, Milo!
Camus não era mais criança, há muito tempo ele não era criança. Apesar de Milo querer ver o menino sempre para controlar o que sentia, o homem estava cada vez mais evidente.
¬ Camus, você tem quinze anos, para de se debater como criança! – repreendia sem muito sucesso.
O olhar frio que o ruivo lhe mandava ao jogá-lo dentro da banheira com água fria atiçava um outro lado seu, que preferia manter oculto.
¬ Eu te odeio Milo! – reclamava batendo na água, completamente bêbado. – Você non entende! Você non quer entender!
Não respondeu, apenas deu-lhe as costas.
O rapaz sabia que Milo estava bravo e triste, mas ele era um idiota, não entendia e não queria entender.
Tem coisas na vida que para aprender tinha de haver um professor, mas isso jamais aconteceria.
Camus nunca saberia dizer quando tudo começou, mas estava bravo com tudo e todos, até mesmo Milo, por não entender a confusão de sentimentos que se apoderavam de si.
Sentia uma profunda tristeza e solidão pela ausência cada vez mais frequente dos pais, a ausência já costumeira do irmão e a morte dos avôs. Mas esse sentimento sumia e era substituído por um novo, bastante diferente, quando estava junto de Milo.
Sentia-se confuso e triste, quando viu já estava bebendo do gargalo de garrafas, fossem elas de vinho, fossem elas de cerveja.
Ficava bêbado direto e era sempre Milo quem ia socorrê-lo.
Queria entender o que acontecia afinal.
¬ MERDE MILO!! – e começava a chorar, era sempre assim. – MERDE!! MERDE!! MERDE!!
Milo sempre o esperava do lado de fora, sempre junto à porta como um bom cão de guarda. Às vezes isso levava horas.
Quando o rapaz finalmente saia, lhe entregava roupas leves e se retirava para preparar-lhe uma refeição leve e um chá que aliviasse a ressaca.
¬ Pardon Milo... – pedia sempre antes de dormir.
O mais velho soltava mais um suspiro, afastava sua franja e depositava um leve beijo em sua testa.
¬ Está perdoado. – respondia antes de se retirar. – Bonne nuit, Camus.
E depois desse último episódio de alcoolismo, Milo procurou não sair mais do lado de Camus.
Mas ambos continuaram a não entender o que acontecia.
E o álcool continuava sendo o combustível da coragem.
Uma noite, simplesmente, Camus foi atrás de Milo em sua pequena cabana nos fundos do quintal.
¬ Não quero ficar sozinho em casa. – disse de cabeça baixa quando o mais velho atendeu a porta.
O loiro apenas lhe sorriu gentil e deixou que entrasse, vendo-o se apoderar de sua cama na mesma hora.
Camus não gostava de ficar sozinho de verdade.
Seu comportamento frio e distante sempre demonstrava que ele preferia ficar só a mal acompanhado, mas isso não queria dizer que ele gostava de estar só.
Isso se repetiu por mais três noites, até que na quinta noite Camus chegou bêbado.
¬ Camus! – não podia ser brando. – Onde arrumou álcool?! Escondeu alguma garrafa de mim?! Você não entende que me preoc-...?!
Milo acabou prendendo o ar.
Camus tinha praticamente se dependurado em si e unido os lábios num beijo sem pudor, que aos poucos foi findando seu autocontrole.
Quando se deu conta já tinha jogado o menor na pequena cama e o beijava sem cortesia alguma, tirando o raciocínio de ambos.
As línguas brigavam por espaço. Uma eterna busca pelo gosto um do outro, onde tentava se sorver ao máximo sem ceder nada.
Aos poucos foi sentindo o rapaz se render aos seus toques, caricias e beijos, mas sem deixar o espírito selvagem que surgia ser completamente dominado.
Rasgara as roupas do ruivo e atacou os mamilos do menor, mordendo, sugando e beijando, tirando suspiros e mais suspiros.
¬ Milo... – arfou ao senti-lo limpar a pequena gota de sangue que brotava do peito esquerdo. – Milo...
Apossou-se dos lábios, chupando e mordendo com vontade, arrancando leves gemidos e sentindo as mãos alvas marcarem-lhe os braços.
O ruivo desesperado inverteu as posições, ficando por cima do maior. Distribuindo beijos e mordidas por seu pescoço ao mesmo passo que movia o quadril de forma provocante.
¬ Sou seu... – sussurrou ao pé de sua orelha.
Aquela frase em francês, aquela única frase, foi o que bastou para Milo despertar e começar a lutar contra Camus e o desejo crescente.
¬ Para Camus... – sentiu uma fisgada no baixo ventre. – Para...
¬ Non quero... – respondeu começando a desabotoar sua camisa.
Milo agarrou suas mãos e tratou de afastá-las enquanto sentava-se com o menor entre suas pernas.
¬ Para Camus! – reforçou. – Para! Você está bêbado e é jovem, não sabe o que faz e nem o que quer!
¬ Sei... – respondeu tentando voltar a beijá-lo.
¬ Não! – o afastou novamente. – Não sabe! E mesmo que saiba, assim não! Está bêbado, não pensa claramente e ainda está de luto! Está confuso e pensa que assim vai melhorar, pois eu te digo que não! Assim você não vai ficar menos confuso, assim vai é se arrepender!
¬ Non vou... – teimava.
¬ Não, Camus! – sentia vontade de chorar. – Assim não!
¬ Enton como Milo? – o ruivo estava começando a ficar irritado. – Como enton? Como deixar de estar confuso? Como compreender o que se passa de outra forma que non seja pondo a prova?
¬ Sendo paciente. – respondeu. – Camus, sua dor e confusão é bem mais parecida com a minha do que pensas!
¬ Enton o que se passa Milo? – sua voz já estava ficando embargada. – O que é que eu sinto e que você também sente?
Milo ficou o mirando por algum tempo. Quando o menino virou homem?
¬ Culpa. – começou a afrouxar o aperto nas mãos do menor. – Culpa, Camus. Sentimos culpa.
¬ Culpa de que?! – revidou segurando o choro.
¬ Culpa de amar quando devíamos estar tristes. – emendou baixando o rosto, não conseguia mais mirá-lo. – Sentimos uma tristeza muito grande pela falta de quem amamos, mas quando juntos parece que isso some. Mas a culpa vai além disso, ao menos a minha, pois como sou capaz de desejar quem eu vi crescer? Como sou capaz de desejar alguém como você se não passo de um monstro que tenta se fingir de homem?
¬ Eu não sou mais um garotinho de cinco anos, Milo. – se recusava a chorar naquele momento. – E eu já disse que você não é demônio ou monstro algum!
¬ Eu sei. – respondeu soltando um riso triste. – Eu sei disso há muito tempo, só tento fingir que não sei. E eu sou um monstro sim, Camus, não importa o que diga para me fazer pensar o contrario.
¬ Non! – segurou seu rosto, trazendo-o para um novo beijo. – Você é um anjo Milo, nunca duvide do que digo. E sim, eu sinto culpa, pois estou aqui querendo te amar ao invés de chorar a perda. Mas onde isso é errado afinal?
Nem terapia, nem remédio, nem bebida, nem amigos, nem oração. A única coisa que ajuda a superar um menino é um homem.
¬ É errado a partir do momento que somos de mundos diferentes. – respondeu segurando suas mãos com carinho. – Eu sou de um mundo completamente diferente, vivo e faço coisas das quais não gosto de lembrar. Não vou lhe arrastar para essa guerra. Ainda te amo, neguei por muito tempo, mas eu te amo e não consigo ser egoísta a esse ponto mesmo que você peça e queira. – afastou as mãos finas com carinho, deixando-as pousadas em seu colo. – E você está bêbado, bêbados confundem amor e desejo com facilidade. Não vou fazer nada contigo, pois sei que não passara de uma noite da qual nos dois vamos nos arrepender.
¬ Idiot! – agora não segurava as lágrimas. – Bebi para ter coragem de vir aqui! E eu quero estar com você Milo, não vê isso?!
¬ Vejo que estou te machucando e isso já é errado. – respondeu. – Por favor, Camus, apenas durma está noite. Quem sabe, algum dia este sonho se torne real.
Assistiu as lágrimas escorrerem lentas, o rosto se contorcer em raiva e tristeza. O ruivo soluçava, secando suas dores cheio de raiva, mais perdido agora do que quando chegou.
Milo apenas o abraçou protetor.
Aprendeu a amá-lo como nunca amou nenhuma outra pessoa, mas tinha que pensar nele primeiro e não no que sentia.
¬ Descanse. – pediu ao beijar-lhe a têmpora.
Camus chorou e chorou em seus braços, deixando que todas as lágrimas se fossem. E aos poucos começou a relaxar naquele abraço.
Milo apenas o deitou da cama estreita com extremo carinho e o cobriu com cuidado, mirando as feições adormecidas com certa admiração.
Você só saberá realmente o que é amor, quando lhe perguntarem sobre ele e você não pensar em uma definição, mas em um nome.
¬ Bonne nuit, Camus. – depositou um suave beijo em seu rosto e deitou-se em seu tapete.
Não podia seguir assim.
Jamais suportaria ter que limpar uma lápide com o mesmo nome.
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