Frankenstain
29 Primavera de 1849
Notas iniciais
No dia seguinte, primeiro dia de Primavera, Camus acordou com a pior ressaca que teria em toda sua vida, chegando a jurar que nunca mais iria ingerir uma única gota de álcool na vida.
¬ Por favor.— estendia-lhe papel e carvão – Escreva. Quero ter argumentos contra você mais tarde.
¬ Ahhh!— o rapaz rosnava e choramingava contra seu travesseiro. – Non enche o saco, Milo!
O loiro apenas deu risada para o desespero do mais novo, que sofria com uma terrível enxaqueca.
Acabou sentando-se na borda da cama e ficou fazendo carinho nos fios rubros, algo que fazia desde que o mais novo era criança.
¬ Camus.— chamou depois de algum tempo. – Lembra-se de como veio parar aqui?
¬ Eu ia te perguntar isso...— respondeu ainda agarrado ao travesseiro. – Eu vim sozinho?
¬ Veio.— respondeu controlando a vontade de beijar a nuca do menor. – E veio bêbado como já deve ter concluído.
¬ E você, como sempre, cuidou de mim...— respondeu virando-se para mirar o mais velho. – Eu non lembro nada, Milo... Eu te dei trabalho? Fiz errado eu sei... Eu... Pardon, Milo...
Milo sorriu para o rapaz.
Sentia-se aliviado, mas ao mesmo tempo se sentia um tanto triste.
¬ Você nunca me dá trabalho, Camus.— levantou a franja do rapaz e beijou sua testa.
O rapaz apenas grunhiu irritado com sua própria burrice e voltou a esconder o rosto no travesseiro, irritado e envergonhado – envergonhado por sua condição e falha para com a confiança de Milo, afinal, prometeu que não beberia novamente.
Se bem que bebeu para tomar coragem e seguir atrás de Milo. Então, conseguiu falar o que queria ou falhou em seu objetivo?
Milo estava o tratando normalmente, portanto deve ter falhado miseravelmente, nem se quer começando a falar o que sentia.
Grunhiu mais uma vez. Como podia ser tão tolo?
¬ Vou fazer café, afinal chá não vai te ajudar mais.— disse Milo se levantando. – Só que não tem em casa, vou ter que sair e comprar. Deseja que eu traga algo mais?
¬ Veneno de rato para me matar...— chiou irritado.
¬ Dramático você, não?— revidou soltando um riso.
Milo apenas viu o rapaz devolver-lhe o comentário com um gesto obsceno e não conseguiu ficar sem perguntar-se onde ele aprendera aquilo.
Não discutiria por hora, tinha que comprar o café para Camus, do contrario, tinha certeza que o rapaz lhe mataria só com o olhar.
Tocam os sinos, Paris despertou ao soar de Notre-Dame.
Já tem peixe fresco e o pão já assou ao soar de Notre-Dame.
Sinos grandes com sons trovejantes e pequenos com sons de oração. Pareciam divinos os sons dos seus sinos. Os sons de Notre-Dame.
Milo soltou um pequeno riso, Camus devia estar querendo morrer com o badalar dos sinos. Em contra partida, Shun devia estar se divertindo.
Seguia seu trajeto com um pequeno sorriso, pois adorava aquele ar fresco da manhã que ainda deixava sua respiração tomar a forma de fumaça. Era divertido e relativamente bom.
¬ Tenha um bom dia senhor e que Deus o abençoe.— desejou-lhe o mercador.
Sorriu com os grãos por moer em mãos. Camus gostava que as sementes fossem moídas na hora, pois assim o café ficava muito mais gostoso e fresco em sua opinião.
Era trabalhoso para qualquer pessoa, mas Milo o fazia sempre que um bom café era quisto. O que não fazia para ver o sorriso do ruivo?
¬ E que Ele esteja sempre com o senhor.— desejou antes de tomar o rumo de casa.
Enquanto seguia de volta, avistara algo que lhe chamou, e muito, a atenção. Uma coruja branca repousava em uma árvore ali perto e, pelo que sabia, corujas daquele tipo não ficam fora do ninho durante o dia e se quer existem nas cidades.
Parou para admirar a formosa criatura de peito estufado e olhos que refletiam o céu da noite. Certamente um lindo animal para se disfarçar.
¬ Bom juor, Lady Nike.— desejou com um sorriso.
Nike era uma Deusa e vivia junto de Athena, sua irmã mais velha. A Deusa preferia a forma de coruja por achar aquela criação magnífica e bela, mas assumiria sua forma real se preciso.
Mas era anormal Nike se distanciar de Athena. Algo estava errado.
A coruja então abriu as gigantescas asas e alçou voo na direção em que Milo até então seguia, fazendo-o suspirar. O que podia ser agora?
Sempre parava para esperá-lo nos galhos de outras árvores ou então na fachada das casas.
Logo se encontravam no velho pombal da cidade, onde uma pequena andorinha limpava suas penas com cuidado e maestria, em sua pata residia uma pequena pedra-carta.
¬ Ai céus...— murmurou vendo a coruja alçar voo, dessa vez estava indo embora. – Odeio quando a pedra é escura.
Antes da invenção da escrita, os Deuses e Santos mantinham contato com os Descendentes através de pedra-carta.
A pedra era a forma que encontravam de expressar seus sentimentos e desejos. Quem recebia a pedra podia ler os sentimentos e desejos de seus senhores apenas pelo peso e textura.
Por exemplo, uma pedra lisa era sinal de corações serenos, felizes e satisfeitos. Uma pedra áspera, de que havia dificuldades.
A pequena pedra que Milo segurava era nem uma e nem a outra. Era uma pedra porosa e avermelhada, como se tivesse sido pintada com sangue seco.
Perigo. Abra os olhos. Alguns escaparam. Eles estão vindo.
Imediatamente largou a pedra e saio correndo na direção de casa, tinha que garantir a proteção de Camus.
Seu cosmo estava impregnado na casa e no próprio ruivo, tinha que erguer uma proteção o mais depressa possível.
¬ CAMUS!!— chegou quase derrubando a porta de casa. – CAMUS!!
Nenhuma resposta.
¬ MERDA!!— saio correndo na direção de sua pequena cabana.
Camus podia estar dormindo para não lhe falar mal ou alguém não lhe deixava falar mal.
¬ CAMUS!!— dessa vez derrubara a porta.
A cena que presenciara foi o bastante para sentir o sangue ferver.
Camus tinha lutado bastante para seu estado.
O cinzel ainda estava manchado com cinzas e brasas incandescentes, assim como seu chão e a armadura negra que o inimigo usava.
Os olhos rubros como sangue miravam com ódio um Camus arfante, que tentava a todo custo fazer aquela mão gigante soltar seu pescoço e deixá-lo tocar o chão.
¬ Mau... dilt...— cuspiu no rosto do inimigo desconhecido.
O rosto foi limpo com indignação e raiva ainda mais palpável.
¬ Moleque...— a entonação era de pura ameaça.
Milo não esperou mais, voando na direção do inimigo com a armadura cobrindo o braço e o dedo em riste.
No olhar apenas a fúria desmedida da ira. Os olhos faiscavam em azul relâmpago.
¬ ANTARES!!— urrou a plenos pulmões.
Camus caíra tossindo, segurando o pescoço como se tivesse medo que ele fosse quebrar. A parede de madeira ao seu lado agora tinha um enorme buraco.
¬ Merde...— chiou apanhando o cinzel não tão distante. – Milo...
Sentiu uma forte rajada de vento atrás de si e um estrondo. O vento trouxe poeira, o que lhe fez tossir ainda mais.
Quando se levantou as pernas ainda estavam meio bambas pela falta de ar, mas insistiu em andar para ver o desenrolar do que acontecia.
Milo tinha sua cabeça enterrada contra o chão, formando uma pequena cratera no local.
O inimigo veio com tudo para cima de Camus, soltando um urro ensurdecedor.
O rapaz apenas colocou os braços na frente do corpo e posicionou o cinzel de forma que ao menos um ferimento fosse infligido, mas o que esperava não veio.
Milo agarrou seu adversário pelas pernas, o puxando de volta e enterrando sua cabeça no chão com um soco.
Aproveitou que estava meio atordoado e sentou-se no inimigo para desferir-lhe mais e mais socos. Incessantemente o acertava e sua raiva em nada diminuía.
¬ MILO!!— o grito do menor o fez parar.
A contra gosto parou para mirá-lo e encontrou o que não queria.
Um segundo inimigo de armadura negra segurava Camus junto a si, posicionando o que parecia ser uma lamina contra o pescoço do rapaz, que não se intimidava e o olhava com desprezo.
¬ Crapule.— Camus já tinha cravado o cinzel no ombro do adversário e este nada sentiu, então só lhe restava falar mal. – Faux. Canaille. Monocelha damner!
¬ Calado.— um filete de sangue escorreu do pescoço alvo. – Solte Harpia e eu solto o garoto.
¬ Non o escute!— disse Camus em um rosnado. – Mate esse maudit de uma vez!
Milo assistiu horrorizado e perdido o menor ser chacoalhado com violência por aquele ser de olhos rubros.
¬ Cortarei sua língua se continuar.— disse já enfiando um dedo em sua boca. – Agora solte Harpia e eu solto o moleque Aquarius. Dou minha palavra.
Milo estava tentando não se desesperar, mas era Camus ali, não conseguia ser racional o bastante para ver outra solução que não fosse a proposta pelo Espectro.
Então saio de cima de seu inimigo anterior, que mais do que imediatamente foi correndo para o lado do atual.
¬ Você é um idiota.— declarou mirando o companheiro ferido. – Eu disse que não era a hora.
¬ Devolva-me o Camus.— exigiu tentando controlar sua fúria.
O inimigo apenas o mirou e empurrou o rapaz, que foi aparado de imediato por Milo.
¬ Eu espero que isso, você me desobedecer, não se repita em outro momento.— disse ao companheiro.
¬ Não senhor.— respondeu de cabeça baixa.
Milo assistiu os dois se desfazerem em fumaça negra e sair voando pelos céus da cidade, o cinzel fez um baque surdo ao cair.
¬ Milo... — o ruivo se encontrava numa especie de choque.
¬ Camus!— começou a procurar os machucados. – Merda! Eu não devia ter te deixado sozinho, não devia!— desviou o rosto envergonhado e apertou a mão do menor.
¬ Milo.— chamou despertando. – Quem eram aqueles homens? Porque nos atacaram? Porque usavam armaduras? Céus! Eles viraram fumaça, Milo! O que está acontecendo? Quem é Aquarius? E porque me chamaram de Aquarius?
Milo se quer prestou atenção as perguntas desesperadas do menor e seu olhar confuso.
Levantou-se junto dele, cortou o dedo médio e o indicador com os dentes e saio desenhando símbolos por toda propriedade.
¬ Milo!— tentava se soltar de sua mão. – Milo me responda! O que está acontecendo? Que símbolo é esse que insiste em desenhar? Milo!
Não o ouvia, prendia sua mão com força, tinha medo de soltá-lo.
Tinha medo de se afastar e algo acontecer novamente. Tinha medo de deixá-lo e não encontrar mais quando voltasse. Tinha medo, muito medo.
Já tinha marcado a casa inteira com o símbolo da deusa, agora tinha que garantir a proteção do próprio Camus.
¬ Milo!— travou seu passo, fazendo o maior também travar. – Para! Eu quero saber! Eu tenho o direito de saber!
¬ Não posso envolvê-lo nisso.— disse sem olhá-lo. – Não posso envolvê-lo nessa guerra. Eu jamais me perdoaria.
¬ Que guerra?!— perguntou segurando sua mão com mais força, estava ficando irritado. – Céus, Milo! Confie mais em mim e me diga o que está acontecendo!
Milo apenas tocou-lhe a testa com delicadeza, forçando o mais novo através do cosmo, e o vira revirar os olhos depois de perder a consciência.
Novamente amparara o menor e agora estava sentado com ele nos braços, dormindo sereno.
¬ Perdão Camus.— pediu fazendo um leve carinho em seu rosto. – Mas eu não posso. Eu não suportaria te perder, iria enlouquecer.
Desenhou o símbolo da deusa na testa, peito e costas do rapaz, vendo o sangue ser simplesmente absorvido e não deixar um único resquício na pele de alabastro.
Cuidou dos machucados e o deixou dormindo em sua cama, pensaria que aquilo não passou de um sonho. Enquanto isso se apressava em limpar a sujeira e tampar o buraco da parede.
Encontrou os grãos de café e os deixou guardados com carinho.
¬ Milo...
Correu para o lado da cama, tentando disfarçar sua aflição pelo que passara anteriormente.
¬ Machucou-se quando?— olhava para os dedos do maior. – Estava mexendo com a madeira novamente?
Tratou de sorrir, tinha que sorrir.
¬ Você estava dormindo quando cheguei, não queria te acordar.— odiava mentir, era horrível, mas naquele caso necessário. – E nesse meu cuidado estremo acabei me machucando. Pura tolice de minha parte, não?
¬ Um pouco.— o menor lhe sorriu e sentou com as mãos na cabeça. – Eu tive um sonho muito estranho e você estava nele, acredita?
¬ Jura? Depois me conte então, agora me deixou curioso.— sentou-se ao seu lado na cama e fez carinho nos fios rubros. – Vai querer café? Afinal ainda está de ressaca.
¬ Já non está tão forte.— respondeu sorrindo bem de leve. – Mas aceito o café sim, se non for dar trabalho.
¬ Você nunca me dá trabalho, Camus.— teve a impressão de um déjà vu.
Logo estava tomando um maravilhoso café, quentinho e forte, exatamente como gostava. Milo sempre sabia como lhe agradar, era incrível.
¬ Merci, Milo.— sorriu. – Porque non pega um pouco?
¬ Não gosto de café.— respondeu limpando a pouca louça que sujara. – Amargo demais para mim.
¬ Non sabe o que está perdendo.— respondeu rindo enquanto olhava os cantos da pequena cabana, avistando algo que não queria.
A pequena trouxinha de Milo estava encostada ao guarda-roupa, sendo que geralmente ela ficava pendurada atrás da porta de entrada, e ela ainda estava feita.
¬ Você vai embora?— sentia um nó de raiva e tristeza na garganta. – Porque vai embora?
Milo apenas suspirou, esqueceu-se de esconder a trouxa feita.
¬ Eu não vou embora, é apenas uma viagem.— respondeu guardando as coisas.
¬ Uma viagem de quanto tempo?— perguntou com o nó cada vez maior. – Sua última viagem levou dois anos e isso logo após a morte de vovô Kardia!
Milo passou o dedo no anel de água-marinha com carinho, como sentia a falta dos sorrisos do escorpiano.
¬ Prometo que essa vai ser rápida, eu só quero acertar uns problemas pendentes.— caçar aquele maldito que te atacou até no fim do mundo. – Eu vou voltar pra casa, eu juro.
Sentiu braços pequenos envolverem sua cintura e uma cabeça ser deitada em suas costas.
¬ Eu non quero que vá.— disse com a voz triste. – Você vai demorar, eu te conheço. E se eu não estiver mais aqui quando voltar? E se você nunca voltar?
Sentiu o coração apertar de maneira horrível, segurando a mão do menor o guiou para fora da casa, mas não sem antes ceder-lhe o casaco por conta do frio da noite.
Camus não falou nada durante todo o trajeto que cruzava a propriedade, apenas continuou a mirar as costas largas com medo.
O loiro então se agachou num ponto que ficava abaixo da janela do quarto de Camus e começou a cavar um pequeno buraco, de lá tirou um pequeno saquinho.
¬ Aqui.— estendeu-lhe.
O ruivo apanhou o saquinho e abriu para ver o que era.
Uma pedra azul, pesada e macia, gostosa de tocar, caio em sua mão.
¬ O que é isso?— perguntou curioso.
¬ Uma pedra-carta.— respondeu jogando a terra de volta.
¬ O que é pedra-carta?— como nunca ouviu falar?
¬ Os antigos, antes da invenção da escrita, procuravam uma pedra que expressasse seus sentimentos e a davam aos seus entes queridos.— explicou. – Quem recebia a pedra podia ler os sentimentos do outro pelo peso e textura. Uma pedra lisa, por exemplo, era sinal de um coração sereno. Uma pedra áspera de que a pessoa estava com dificuldade.
Camus mirou a pedra e aproximou-a do peito. Passou longos minutos em silencio até que um sorriso adornara seu rosto.
¬ É lindo Milo.— disse mirando o mais velho.
¬ Vamos trocar uma pedra-carta todos os anos.— disse com um sorriso. – Assim nunca vamos nos afastar de fato.
O menor assentiu e deitou a cabeça em seu ombro.
Estar perto um do outro lhes fazia tão bem, mas um dia teriam que se separar e seguir seus respectivos caminhos.
E essa era a incerteza que mais lhes assustava.
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