Frankenstain
30 Anotações de 1850
Notas iniciais
Província do Vêneto, 18 de Março de 1850
Este diário foi um presente de despedida do Camus, ele quis porque quis deixar o diário dele comigo.
Tomei a liberdade, apesar de me sentir errado, de ler o conteúdo escrito por Camus e encontrei coisas que me fizeram pensar.
Por isso estou escrevendo. Preciso colocar as ideias no lugar.
Camus dizia ter sonhos, sonhos com lembranças de uma vida que não lhe pertencia, mas nunca me falou de nenhum.
Agora eu entendo tudo e sou capaz de criar minha própria linha de raciocínio através do que aprendi nos livros e do que li neste diário.
Passei anos de minha vida sem entender o porquê de existir, pelo que eu existia e, principalmente, o que eu era.
Continuo sem entender o porquê de existir e pelo que existo, mas acredito já ter entendido o que sou.
Quando perguntei para Lady Athena o que era um Nephelim, ela não soube me explicar ao certo.
Mas, com tudo o que consegui encontrar e descobrir, agora acredito saber.
Não sei ao certo como colocar os pensamentos no lugar, mas a ordem cronológica me parece ser a melhor alternativa.
Os Santos e Deuses também são Filhos de Théos, mas eles não se consideram assim por alguma razão.
Talvez não se achem merecedores ou então acreditam que eles foram criados apenas para proteger os verdadeiros filhos e por isso não passam de guardas e protetores.
Porém, pelo que eu saiba, um filho é uma parte de seu pai.
Todos os Santos e Deos são uma parte de Théos, uma parte que Ele quis que nascesse e crescesse que aprendesse e vivesse.
O que são os Santos e Deuses para Théos além de seus primogênitos?
Ele os criou e cuidou como um pai antes de deixar que andassem sozinhos. Ensinou-lhes e deu-lhes tantos dons belos. Porque eles não seriam seus filhos?
Não sei.
Talvez a falta do dom de amar por completo os faça pensar assim ou, quem sabe, eles se sintam incompletos e por isso não veem que são tão amados por seu pai quanto qualquer homem.
E talvez seja essa última opção mesmo, se não, porque Aquarios e Scorpius caíram?
Existe uma lei entre os Santos e Deuses que dizia: “Caso a inveja de um Santos ou Deos recaia sobre os Filhos de Théos, sua punição é a queda”.
Eles se sentem incompletos quando estão frente aos Filhos de Théos e para não sucumbirem ao pecado da inveja eles impõem uma punição, algo que os lembre de que eles são o que são e não um Filho de Théos.
Mas eles são tão parecidos entre si, é incrível que não sejam capazes de perceber tamanha semelhança.
A comparação perfeita para mim é Sagittarius, Leo, Aquila e Pegasus. Eles são uma família – família para mim sempre foi a união de pessoas, a irmandade e o amor entre as pessoas – e uma família tão parecida com as famílias dos homens que me pergunto sempre qual a diferença entre eles.
Mas eles se vêm diferentes, se vêm mais responsáveis pelo mundo que os homens e se vêm responsáveis pelos homens e não iguais a eles.
Por isso Sacorpius e Aquarius caíram, porque eles conseguiram ver essa igualdade e foram julgados como invejosos.
Inveja.
Um dos pecados de Lux-Fero.
Talvez por isso Lord Zeus não pensou duas vezes antes de atirá-los do Santuário Maior, ele tinha medo que os dois fossem novos Lux-Fero, de quem Zeus, descobri recentemente, era um grande amigo.
Acredito que Lord Zeus não tenha feito o que fez por mal, ele fez o que fez pensando no bem dos demais Deuses e Santos.
No fim, Lord Zeus não é culpado de nenhum crime, ele é apenas mais uma vitima das circunstancias em que os dois Santos se tornaram mártires.
A intenção era que suas almas fossem desfeitas, dispersas pelo mundo. Não duvido nada que isso tenha acontecido, mas eles logo voltaram a se formar, talvez tenham pegado um pouco uma da outra, e passaram a buscar corpos para habitar.
E assim surge um Nephelim, um corpo de Homem com alma de Santos ou Deos.
Nephelim é, basicamente, um Filho de Theós inacabado, um elo perdido entre os homens e os seres celestes.
A alma de Scorpius. A minha alma. Eu.
Eu encontrei um corpo falso, criado por um homem louco e desesperado. Coloquei-me naquele corpo e esperei que ele atendesse aos estímulos recebidos, logo eu estava vivo e confuso.
O que aconteceu depois é história, são setenta e cinco anos de história em que não envelheci um único dia.
Hoje sei que isso deve à minha alma de Santos, mas também vivo e sou o que sou pelo meu coração de homem.
Camus também é assim, mas ele é diferente da forma dele.
Ele é mais homem que Nephelim, mas ainda sim ele é igual a mim.
Ele tem sonhos de uma vida que não lhe pertence e eu visões da mesma vida. As vidas de Scorpius e Aquarius.
Foi assim que pensei uma das coisas mais loucas do mundo e que fazem sentido por mais louca que seja.
Eu sou Scorpius. Camus é Aquarius.
Que melhor teoria eu arranjaria para explicar o que ele é, o que ele sente e o que ele representa, não só para mim, mas para todos ao seu redor?
Eu me preocupo demais com Camus, pois ele não pode se defender de um Espectro se atacado. Ele é muito mais humano que Santos e isso me deixa muito preocupado com sua segurança.
Pergunto-me se Camus é um Nephelim como eu, ou outra coisa. Uma prova de como um Santos é igual a um homem talvez.
Não sei.
Camus, ao mesmo tempo em que é como eu, é diferente.
Essa diferença me preocupa e ao menos tempo me deixa feliz. Estranho eu sei.
Mas também é essa diferença que me dá cada vez mais força para lutar.
Eu quero proteger Lady Athena, quero proteger meus amigos do Santuário, quero proteger as pessoas desse mundo e quero proteger Camus.
Essa vontade de proteger é que me dá força. É essa vontade de proteger que me motiva a lutar com todas as minhas forças.
Já me diz Aquila durante nossos exaustivos treinos:
“Podemos nos tornar o quão fortes quisermos se isso significa proteger os mais fracos ou, simplesmente, a quem temos carinho”.
É para proteger que eu luto.
Por isso passei este ano caçando Espectros, mas está difícil encontrá-los. O último que encontrei se escondia entre os criados de uma família influente e isso não me facilitou em nada.
Continuarei com minha caçada, mas agora estou voltando para França, afinal tenho que entregar minha pedra-carta para Camus.
Aliais, estou muito orgulhoso de Camus, ele parou com o álcool e entrou com louvor na Escola Militar de Paris.
Milo Dilitírio
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