Frankenstain

11 Verão de 1789


Notas iniciais
Existem relatos sobre o Grande Medo em que nobres se arrependeram amargamente de não terem pulado do alto de seus castelos quando as pessoas do Terceiro Estado os alcançara em suas torres mais altas e fortificadas. Boa leitura :)

Sabe qual a maior mentira da humanidade?

Vai ficar tudo bem.

¬ Tudo pronto Milo? – Dégel estava aflito.

¬ Mestre Kardia ainda está lá fora! – respondeu em desespero.

¬ Ele está com Klotsu! – saio correndo escadaria acima junto de Milo. – Ele sabe para onde vamos! Temos que acreditar nele!

Conseguia ouvir os choques violentos contra as portas da casa, que tinham sido reforçadas há apenas dois dias.

Como Milo era grato aos céus de ter decidido fazer um entrave maior para a porta principal da casa de última hora.

¬ Dégel! – Serafina estava apavorada. – O que está acontecendo?

¬ Estão tentando invadir a casa! – tomou muito cuidado ao pegá-la no colo. – Temos que ir embora agora!

¬ VAMOS LOGO!! – gritou Milo.

A porta começou a ceder. Uma lasca da madeira negra voou pela entrada da casa e rasgou o quadro do avô Krest com esposa e filhos.

¬ Por onde Milo?! – Dégel cobriu a esposa com uma capa.

¬ Porta detrás da cozinha! – agarrou o braço do outro o puxando. – Vamos logo! Já atrelei Boreal e Austral!

Os dois animais os esperavam agitados, temendo serem descobertos pelos invasores. Atrelados aos dois cavalos tinha a carruagem simplória que anos antes os trouxera para Paris.

¬ Dégel. – chamou Serafina tocando o ventre. – Está doendo.

¬ Calma. – a deitou com extremo cuidado no banco. – Logo estaremos em lugar seguro e isso non passara de uma lembrança. – deu um beijo rápido em sua testa.

O mais velho saio, fechando a porta e subiu com Milo nos bancos da frente, ambos disfarçados como qualquer sans-culottes.

Milo bateu as rédeas com força e os cavalos saíram correndo desesperados.

Vai ficar tudo bem.

¬ DÉGEL!! – estouraram o vidro da carruagem.

¬ SERAFINA!! – olhava para seus atacantes cheio de ódio.

¬ TOMA AS RÉDEAS!! – Milo lhe atirou a correia e subiu no teto da carruagem.

Não eram a única família que tentava escapar.

Muitas outras também tentavam e muitas vezes se cruzaram, mas todas eram engolidas pela fúria do povo.

Gritos marcavam suas últimas palavras.

Sangue manchava as calçadas e paredes de Paris. Chamas devoravam a cidade e a fumaça ocultava o horror dos olhos do céu.

Dobravam os sinos, Paris caia ao soar de Notre-Dame.

Eram perseguidos por cavaleiros e pessoas a pé, que atiravam com armas de caça e pedras, mas cortavam com facões e espadas tiradas de corpos moribundos.

¬ MILO!! DÉGEL!! – a jovem gritava desesperada quando um cavaleiro conseguiu agarrar seus cabelos.

Milo desprendeu um dos mosquetes que escondera no teto da carruagem e atirou contra o homem que ameaçava sua senhora.

O homem tombou levando consigo o cavalo.

Mais do que rapidamente pegou outro mosquete e atirou, derrubando mais um cavaleiro.

¬ MAIS RÁPIDO MESTRE DÉGEL!! – urrou por cima dos tiros e gritos.

Aproveitou o espaço existente entre os cavaleiros e a carruagem para recarregar as armas.

Vai ficar tudo bem.

Serafina gritava assustada dentro da carruagem que era jogada para os lados por carruagens tomadas.

Milo estava pendurado na parte de trás da carruagem sem conseguir subir por conta do braço ferido.

Levara um tiro e sangrava muito. Ah! Se seu criador estivesse ali para vê-lo sangrar como qualquer homem.

¬ MILO!! – Dégel olhava desesperado para trás, tentando a todo custo despistar seus perseguidores.

A carruagem se jogava por entre ruelas, avenidas e parques. De nada ajudava Milo, mas também não abria muitos espaços para os atacantes.

¬ CONTINUE ATIÇANDO OS CAVALOS!! – gritava em resposta.

Vai ficar tudo bem.

A carruagem tombou junto às margens do rio Sena.

¬ SERAFINA!! – Dégel tentava desesperadamente tirá-la de dentro da carruagem antes que esta se enchesse de água.

¬ Dégel... – o camisolão da jovem se manchava de sangue.

Milo continuava a atirar contra seus atacantes e se envolver em combates corpo a corpo, evitando usar o braço que queimava devido o tiro.

Austral estava gravemente ferido, sua respiração ofegante denunciava o desgaste e o gigantesco corpo caído denunciava seu fim. Boreal ainda tentava se levantar desesperada.

Vai ficar tudo bem.

¬ SAIAM DA FRENTE SEUS TOLOS!!

Kardia derrubara alguns homens com a ajuda de Klotsu e logo se uniu a Milo em sua defesa.

¬ Kardia! – nunca ficou tão feliz em ver o azulado.

O homem empunhava um mosquete, disparando sem dó contra os cavaleiros depois de conseguir recarregar e rasgando o ventre de outros com a baioneta.

¬ KLOTSU!! – urrou para o cavalo que se ergueu nas patas traseiras e acertou um homem. – Estou feliz em te ver vivo também! – respondeu o outro com um sorriso.

¬ Austral está ferido! – disse aflito, desviando de um ataque e atraindo o homem para que Kardia o atingisse com a baioneta. – Boreal ainda está atrelada! A carruagem tombou!

¬ Onde está Dégel e Serafina? – desviou de um ataque e atirou uma adaga para Milo bem a tempo de acertar o peito do atacante.

¬ KARDIA!! MILO!! – Dégel gritava em desespero.

O mais velho trazia Serafina nos braços.

A jovem gemia de dor e por suas pernas escorria muito sangue.

¬ Deus Pai... – Kardia estancou por tempo o bastante para ser ferido por uma baioneta na perna, fazendo-o cair de joelhos. – MERDA!!

Milo se colocou a frente de Kardia e acabou quebrando o pescoço do inimigo de tão forte que foi seu soco.

Vai ficar tudo bem.

¬ Mestre Dégel! Solte Boreal! – Milo se esforçava ao máximo para impedir que chegasse perto de Kardia e Serafina. – KLOTSU!!

O cavalo se agitava violentamente entre a população, ferindo-a com coices e pisadas.

Dégel correu para junto dos cavalos ainda atrelados.

Austral respirava com dificuldade, seu olhar era assustado e sofredor.

Boreal se agitava muito, da forma que tinha caído era um milagre não ter quebrado a pata. Tratou logo de soltá-la, vendo-a se juntar a Klotsu.

¬ Calma... – apiedo-se de Austral. – Calma... Pode ir meu amigo...

O cavalo o mirou e cerrou os olhos, parando de respirar pouco depois.

¬ Meu Deus! – a voz de Kardia se fez maior. – Lady Serafina você tem que fazer força! O bebê vai morrer assim!

¬ Eu non sinto nada além da dor do ferimento, Kardia! – respondeu a jovem tão aflita quanto.

Dégel voltou correndo para junto dos dois e de Milo, que levara mais um tiro.

Vai ficar tudo bem.

Dégel sempre foi um espadachim excepcional. Agora punha suas habilidades a prova e se quer era arranhado, apesar de estar cercado.

Milo, por outro lado, mesclava a esquiva ágil com a fúria bruta, chegando a lembrar um escorpião ameaçado.

¬ Salve o bebê, Kardia... – pediu a jovem se encolhendo de dor.

Kardia e Serafina estavam atrás dos dois, apoiados no que restou da carruagem.

A jovem sangrava muito, não sentia as contrações e sentia seu bebê chutar desesperado em seu ventre, estava morrendo. Ambos estavam morrendo.

¬ O quê?! – Kardia estava perdendo bastante sangue pelo ferimento na perna. – Não! Trate de empurrar essa criança!

¬ Eu non consigo Kardia... – respondeu gemendo pelo ferimento na lateral do corpo. – S’il vous plaît... Ao menos salve meu bebê, Kardia... – disse puxando a baioneta para junto do ventre. – S’il vous plaît...

O escorpiano engoliu seco e apanhou a mão da jovem com força.

¬ S’il vous plaît... – repetiu já com lágrimas escorrendo pelo rosto alvo.

Vai ficar tudo bem.

O sangue jorrava livremente, se misturando a chuva que caia impiedosa e tingindo o calçamento de rubro.

¬ É menino! – Kardia estava admirado com o bebê em seus braços.

O pequeno berrava com toda a força que tinha, chutando e socando o ar em protesto contra o frio.

¬ Zaphire...

Kardia se assustou com aquele último suspiro.

Serafina ainda mantinha sua expressão serena apesar da forma violenta com que perdera a vida.

Ela não respirava mais e o sangue continuava a jorrar no ventre cortado, os olhos cerrados derramavam suas últimas lágrimas.

Ela lhe confiou o filho.

¬ MESTRE KARDIA!! – Milo tentava se livrar desesperadamente do trio que o cercava. – VÁ EMBORA AGORA!! PEGUE KLOTSU E VÁ!!

Kardia receou por um tempo, assustado com tudo que o cercava.

O menino em seus braços continuava a chorar.

Cerrou os olhos com força, desiludido e abalado pelo horror de abandonar uma mãe e levar o filho que ela nunca conheceria.

Enrolou o menino em seu cachecol vermelho e com dificuldade por conta da perna ferida subiu na cela de Klotsu.

Bateu as rédeas com força e saio em disparada com o cavalo, só dava para ouvir os berros da criança se distanciando.

Vai ficar tudo bem.

Dégel e Milo enfim conseguiram escapar com Boreal.

O aquariano ainda relutou e não queria deixar o corpo de Serafina para trás, mas acabou por fazê-lo entre lágrimas.

Perdeu sua melhor amiga, a mãe de seu filho, e era obrigado a deixá-la. Seu coração pesava como chumbo quando montou no cavalo e viu que se afastava cada vez mais.

¬ Mestre Dégel! – Milo guiava o animal pelas ruas. – O senhor está bem?!

¬ Estou bem! – respondeu com a voz embargada. – Mas você está perdendo sangue!

¬ Eu sobrevivo! – respondeu. – Agora vamos! Temos de alcançar Kardia! Aquele ferimento na perna pode matá-lo!

Dégel soluçou.

Perdeu a casa, a melhor amiga e mãe de seu filho, e agora corria o risco de perder Kardia, a única pessoa que amava naquela vida.

Não conseguiria viver mais um segundo se tamanha desgraça lhe abatesse.

Vai ficar tudo bem.

Estavam cavalgando a noite inteira, ainda se encontravam nas terras de Luís XIV, mas já estavam bem distantes de Paris.

¬ Céus Kardia! – bradava Milo irritado. – Onde está você homem?!

Ainda correram um bom tempo, Boreal cada vez mais cansada.

Ouviram o choro de criança e mais do que velozmente se lançaram em sua direção.

Encontraram Klotsu trotando nervoso junto da estrada, Kardia não estava em nenhum lugar a vista, apesar do choro alto denunciar que não estava longe.

¬ KARDIA!! – Dégel gritava desesperado. – KARDIA!!

Milo procurava pelos cantos da estrada sem parar, mas sem encontrar rastro. O azulado só podia ter se embrenhado do bosque.

Quando o encontrou, Kardia estava desacordado, com um furo de bala no canto inferior esquerdo das costas e o ferimento na perna ainda expulsando sangue. Ele estava branco como nunca e respirava com dificuldade.

Preso protetoramente em seu abraço estava o bebê pelo qual Serafina dera a vida.

O menino berrava e chorava bastante alto ainda envolto no cachecol vermelho, os cabelos escuros se destacando contra o vermelho sangue do tecido.

¬ Kardia! – Dégel se lançou contra o corpo do mais novo, tomando o filho nos braços e trazendo o azulado para deitar em seu colo. – Por Deus! Kardia non morra! Kardia! – balançava os ombros do maior. – Kardia! Acorde Kardia!

¬ Vamos ter que fechar os ferimentos e retirar a bala, Mestre Dégel, do contrario ele não nunca vai parar de sangrar. – Milo tentava se manter calmo apesar de se sentir tão desesperado quanto. – Precisamos agir rápido. Ainda dá tempo de salvá-lo. – rasgou a calça do azulado e tirou duas velhas agulhas que usava para prender a gola da camisa. – Vamos!

Dégel ainda mantinha o filho no colo enquanto tentava conter o sangue de Kardia com o tecido rasgado de sua calça.

Milo acendia uma fogueira simples para esterilizar os materiais necessários e aquecê-los.

Chamara os cavalos para junto com um assobio, estes se deitaram ao lado de Dégel e Kardia, parecendo perceber a necessidade.

¬ Ajude-me a segurá-lo. – a agulha com a ponta incandescente brilhava na mão de Milo quando este começou a suturar o ferimento da melhor forma possível.

Dégel segurava o corpo de Kardia, que mesmo inconsciente, ainda reagia à dor.

¬ Ele vai sobreviver Milo? – as lágrimas marcavam o belo rosto.

Milo apenas tentou sorrir de forma acolhedora.

¬ Vai ficar tudo bem, Mestre Dégel.

Notas finais
Vocês que decidem se Kardia vai viver ou não, a vida dele está na mão de vocês. Espero que tenham gostado :) Bjs. L :3