Frankenstain
12 Primavera de 1790
Notas iniciais
Fazia quase um ano que tinha perdido o filho e desde então não conseguia passar um instante sem chorar.
A dor permeou aquelas terras com mais intensidade o dia que recebeu a noticia de como encontraram o corpo da jovem nora e sobrinha.
Mas sem sinal dos demais corpos.
A casa de Paris agora não passava de um amontoado de cinzas e escombros. Tudo o que restou foram as estatuas na entrada, que, segundo diziam, pareciam chorar.
Não sentia vontade e talvez nem tivesse forças para se levantar naquele dia.
As lembranças o atormentavam de forma cruel.
Seu filho o chamando de pai a primeira vez foi um dos dias mais felizes de sua vida. Agora nunca mais ouviria a voz do filho.
Se quer o vira crescer!
Deixara-o ainda menino sob os cuidados do avô e longe de casa. Não vira sua voz mudar. Não o vira se tornar tão alto. Não o vira deixar de ser menino e se tornar homem.
O pequeno criado lhe fazia falta. Era um encrenqueiro desde que abrira os olhos neste mundo, mas sempre trouxe risos para aquela casa e companhia ao seu filho.
Mandara-o com o filho, pensando que assim o menino seria mais feliz por manter o amigo. Não pode ver a amizade durar. Não pode ver a lealdade aumentar. Não pode ver o companheirismo nascer.
Até mesmo a criatura que trouxera a vida lhe fazia falta.
Quem diria que um dia se sentiria tão responsável por um ser maldito, mas que nunca lhe fez mal ou à sua família e que sempre esteve ali para proteger. Será que pereceu cumprindo a missão de defender?
Como o coração lhe pesava.
Mas era tarde demais para remorsos e dores.
Eles não iam voltar.
¬ OH DE CASA!! – o grito dado ao longe o fez jogar o corpo para frente.
Não era possível!
¬ Mestre! – Sasha entrou afoita. – Mestre! São eles! São eles!
¬ Me ajude a levantar mulher! – falara já se descobrindo e tentando sair da cama. – Quero vê-los!
Estavam descansando da longa viagem.
Kardia ainda estava deitado na carroça que conseguiram antes de chegar à Prússia. Dégel estava trocando o curativo em suas costas com descomunal carinho e cuidado.
Milo afagava o focinho de Boreal e Klotsu, deixando que ambos bebessem um pouco de água. Aqueles cavalos eram merecedores de loros.
Enrolado ao cachecol vermelho, Zaphire ressonava sereno sem querer soltar o dedo indicador de Kardia que sorria bobamente.
¬ Meu Deus... – Sasha tampou a boca deixando as lágrimas caírem.
Milo foi o primeiro a virar-se.
¬ Srta. Sasha! – sorriu abertamente.
Kardia olhou por cima do ombro, afinal estava de costas e Dégel sorriu para a mulher ao pé da porta e o homem de camisolão apoiado no batente.
¬ Mamãe! – um menino se agarrou às pernas de Sasha e os mirou curioso. – Quem são esses?
O menino era moreno e tinha cabelos castanhos, em seu nariz havia um charmoso curativo. Os olhos claros eram de Sasha.
¬ Mestre Dégel... – Sasha chorava de soluçar. – Kardia... Milo...
¬ Opa! – o menino brincou de tropeçar e tratou de se curvar respeitoso. – Bem-vindos ao lar!
¬ Kouga! – a voz de Tenma soou da frente da casa.
¬ Papai! Boas novas! Boas novas! – gritou o menino ao sair correndo.
Milo foi até a carroça e ajudou Kardia a se levantar sem grandes dores, o ferimento causado pela bala ainda ardia um pouco.
Em seu colo Zaphire continuava a dormir, desta vez segurando os fios azuis com força.
Dégel, por outro lado, se aproximava do velho pai, que teimava em segurar o choro.
¬ Meu pai. – disse o aquariano sorrindo.
¬ Meu filho! – puxou o mais novo para um abraço e se permitiu chorar junto do ombro fino. – Meu filho! Meu filho!
Dégel sorriu emocionado e correspondeu ao abraço.
¬ Meu filho! – o homem beijou sua testa e segurou seu rosto entre as mãos, sorrindo abertamente para o homem que já fora seu menino. – Meu filho! – chorava profundamente emocionado.
¬ Meu pai. – o mais novo também chorava.
Há quanto tempo não ouviam a voz um do outro? Há quanto não tempo não se abraçavam? Há quanto tempo não se viam?
Eram pai e filho! Tinham o direito de se emocionar.
A história de que homem não chora é uma mentira. A história de que homem não pode demonstrar carinho é uma mentia.
Os homens tem coração, muitas vezes um coração tão mole quanto o de uma mulher. Eles têm o direito de expressar saudade e amor.
Eles têm o direito de ser pai e filho!
¬ Meu Deus... – Tenma chegava com o filho no colo e mal conseguia acreditar no que via. – Que os anjos cantem e Deus seja louvado! Estão vivos!
Kardia acenou com um sorriso ladino e Milo sorriu fazendo uma pequena comemoração. Ah! Se o homem soubesse da missa metade.
Não queriam comemorar, só queriam a certeza de que estavam vivos depois de tudo o que passaram para chegar ali.
¬ Kardia! Milo! – Sasha os abraçou lhes dando a certeza de forma sufocante.
Retribuíram o abraço para aquela que lhes foi mãe apesar da pouca idade e inexperiência.
¬ Ei! – o azulado protestou tentando escapar dos braços finos um pouco depois. – Cuidado aqui! Eu levei um tiro e não sou o único que mal respira!
Sasha se afastou atônita e olhando para baixo, sorrindo logo depois.
Ao mesmo passo, Tenma se aproximava com o filho no colo e Dégel trazia o pai para perto.
¬ Um bebê! – cantarolou o pequeno Kouga com um sorriso.
Zaphire tinha aberto seus grandes olhos claros e brincava com o cabelo de Kardia, como se contasse quantos fios tinha em sua mão.
¬ Este é...? –estava bastante debilitado, mas se matinha firme.
¬ Seu neto. – Dégel fazia um leve carinho no filho que lhe agarrou o dedo. – Zaphire. – riu com a graça do menino.
O pequeno soltou um riso e balançou a mecha de Kardia.
Finalmente estavam em casa.
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