Frankenstain

60 Verão de 1872


Notas iniciais
FOI UM PARTO FAZER ESSA LUTA, SENHOR!! Escrevi a mesma cena quinze vezes! Mas finalmente saiu! Senhor, tava quase arregando! Por isso aqui " eu não separei esse capitulo em dois ou postei outra coisa no lugar! Mas finalmente saiu! Tá respirando até! Voltando. Eu prometi pra uma leitora que ia avisar quando tivesse Minos, então: ATENÇÃO! ESTE CAPÍTULO CONTEM MENÇÕES E PRESENÇA DE MINOS DE GRIFFON, RECOMENDA-SE CAUTELA! MEDICAMENTO CONTRA INDICADO EM CASO DE SUSPEITA DE DENGUE! (Carlos Alberto! Tô te vendo!) Pronto, notificados U_U Tenham uma boa leitura =)

Já estava cansado.

Pegou a faca e a mirou por um tempo. Estudando o objeto com atenção anormal para qualquer pessoa, uma fascinação digna de um suicida.

Admitia.

Já tinha cogitado a morte várias vezes.

Porém, esta não era uma dessas lúgubres vezes.

Era um momento em que só apanhava mecha por mecha de cabelo, contava três dedos a partir da raiz e passava a faca com cuidado, ouvindo o barulho do fio se partindo.

Riph... Riph... Riph...

Caindo... Caindo... Caindo...

Bagunçou o cabelo para tirar os fios restantes e então se olhou no pequeno espelho que comprou há muito tempo no mercado de Budapeste, não estava tão mal quanto podia ficar.

Ver-se com o cabelo curto e uma barba rala era estranho, mas nada que não pudesse se acostumar; não tinha vontade e nem disposição para continuar com um cabelo longo e um rosto liso. Pra que perderia tempo com isso afinal?

Bom.

O importante é que agora estava apresentável para visitar os túmulos, cuja localização foi gentilmente cedida pela família enlutada.

Deu um longo suspiro, vestiu uma roupa mais adequada e encheu os bolsos de dinheiro para emergências e para comprar suas passagens de trem, um luxo ao qual só se permitiria aquela vez.

¬ Milo.

¬ Phoenix.

O moreno parecia mais cansado e triste do que nunca, acumulava tarefas e não saia da porta de entrada, indo de um lado para o outro como um leão enjaulado.

Talvez esperasse um milagre.

¬ Eu também.— serrou os olhos conformado.

Andou tranquilamente pelos corredores familiares, os tinha na palma da mão. Cumprimentou todos em seu caminho e todos o cumprimentaram de volta, olhares carregados de tristezas e dores próprias foram trocados.

Aqueles pareciam ser os piores dias que enfrentavam em muito tempo, e parecia que a tendência era ficarem cada vez piores.

Balançou a cabeça tentando afastar os maus pensamentos, eles não ajudariam em nada naquele momento tão delicado.

Abriu a pesada porta com algum esforço e caminhou calmamente entre as armas, elas tinham aumentado significativamente em quantidade. Todas estavam bem cuidadas, algumas não se envolviam no calor da batalha há muito tempo e outras estavam saturadas da atmosfera sanguinária. Amassadas, manchadas, desgastadas e com laminas cegas, seu uso “abusivo” e constante era aparente.

O armário do meio ainda estava aberto, ainda não tinham terminado de guardar todas as armas com mestres perdidos. A que mais se destacava sobre o fundo vermelho era a algibeira branca com bordados em fio de ouro e fundo infinito, a maioria de suas laminas estavam guardadas em seu interior e apenas três estavam para fora.

Duas laminas, a vermelho sangue e a branca neve, já estavam devidamente arrumadas sobre o fundo vermelho de tecido junto à algibeira.

Só restava a lamina negra como a morte para ser posta em seu lugar.

Sabia que ia doer bastante depois, mas devia aquilo ao amigo de longa data. Por isso, apanhou a lamina restante, sentindo o veneno fazer seu efeito dilacerante, e enrolou uma rosa em seu cabo.

Logo mais estava admirando o armário recém-fechado, com as três laminas ordenadas acima da algibeira com a rosa azul em seu centro e enrolada na lamina negra.

¬ Estar ao lado de Theós deve ser maravilhoso.— segurava o braço esquerdo dormente e dolorido. – Mas espero que não se demore muito por ai, você faz falta Piscis. Faz tanta falta quanto todos os nosso amigos que se foram antes, não são palavras soltas por conta da guerra que digo isso, é pela falta como amigo e irmão que vocês fazem. Voltem logo, está bem?

¬ Tenho certeza de que ele concordou.

¬ Cancer.— cumprimentou o amigo que se punha ao seu lado.

¬ Eles estão longe, mas eles nos ouvem.— tinha um sorriso triste nos lábios. – Uma vez eu já voltei para Theós e ouvia tudo o que me falavam daqui, voltei por pedidos como o seu e pela fé que eu ainda tenho.

¬ Eu temi muito por você.— disse ao mais velho. – Devia estar descansando, o ferimento pode voltar a abrir.

¬ O ferimento iria abrir de tédio se eu continuasse descansando.— remendou com sua típica má criação. – Eu vim arrumar as coisas de Piscis, mas você foi mais rápido e não estou te dando uma bronca, agradeço. E também foi bom, pude te encontrar e agora estamos conversando.

¬ Conversa com aquele que te faça melhor do que és?— arriscou risonho.

¬ Eu diria: Conversa com aquele que te faça esquecer os problemas.— riu anasalado. – Ou, nesse caso: Conversa com aquele que te ouça. Eu sei que quer falar com alguém, Milo. Mesmo que seja a parede.

Soltou um longo suspiro, era um livro aberto afinal.

¬ Enterramos Ibirajá debaixo de uma Árvore Escudo.— contou. – Não era uma Árvore Brasil como manda a tradição deles, mas fiz o melhor que pude com um Carvalho e os irmãos. Falhei com o pai deles e não levarei todos os filhos para casa.

O imortal permaneceu em silencio, estava atento até aos seus suspiros.

Câncer não era a melhor pessoa para se puxar uma conversa, digamos assim, também não era o melhor ouvinte justamente por não ter paciência. Porém, parecia bastante decidido em mostrar que tinha um lado mais indulgente.

¬ Tenho, exatamente, trinta e sete famílias sob minha responsabilidade direta e outras vinte se resolvendo para então juntar-se a nós.— deu continuidade ao pequeno desabafo. – São cinqüenta e sete lideres esperando as minhas ordens com grande expectativa, eu sou a única ponte que eles possuem com vocês. Parece que o mundo está nos meus ombros e a qualquer momento eu posso falhar, tenho medo de não suportar o peso, seja no sucesso ou fracasso.

Sabia muito bem que a sua dor, nesse sentido pelo menos, era bem menor que a deles. Eles eram responsáveis por um sétimo do mundo, o peso que levavam era estratosfericamente maior que o seu.

Mas o mais velho não parecia incomodado, ele apenas ouvia.

¬ A contagem de feridos é alta e a de mortos crescente.— estava tão cansado de entregar amigos ao abraço frio da terra. – Fui eu quem pedi para eles se arriscarem, pedi uma coisa e não tenho nada para dar em troca. Eles sorriem e dizem estar tudo bem, mas eu sei que não está. Vidas e vidas se esvaem porque nossa força está baixa e nem se quer uma vida e morte descente podemos oferecer, nem mais consigo encarar as mães que perderam seus filhos e nem as crianças que perderam seus pais.

O silencio do outro estava começando a lhe perturbar, ele não era de ficar calado. Cancer era extremamente sério em seus atos e palavras, por vezes bastante desagradável em suas opiniões, mas ainda era bastante barulhento no geral.

Queria muito que ele interferisse e falasse alguma coisa, qualquer coisa que afastasse aqueles pensamentos.

¬ Atirei Albafica e Manigold na cova dos leões e ao contrario do conto bíblico eles não tiveram a mesma sorte de Daniel.— suspirou sentindo um peso ainda maior sobre os ombros. – Vou visitar seus túmulos hoje, um na Província do Veneto e o outro em Heidelberg. Fui tolo de pensar que eles não se envolveriam em nenhum combate enquanto estivessem apenas observando, agora eles estão mortos por culpa de minhas incapacidades.

Permanecia o silencio, mesmo que o assunto fosse o descendente do imortal ao seu lado. Não sabia dizer se ele estava sendo bondoso ou cruel, apenas deixava que o loiro ouvisse o som da própria respiração e as batidas lentas do coração cansado, ele lhe deixava falar tudo o que queria e precisava.

Preso e pesado.

Machucava e lacerava.

¬ Camus está morto.— os sentimentos desabaram sobre o peso dos ombros, escondendo o rosto para as lagrimas não rolarem. – Camus está morto e a culpa é minha. Camus está morto e eu sou tão incapaz que matei outros. Camus está morto e eu sou fraco. Camus está morto e eu estou vivo. Camus está morto e queria ser eu em seu lugar...

Apertava os olhos e rezava para que o amigo não fosse uma estatua.

Já tinha falado, não precisava do silencio, precisava do barulho.

¬ Eu não tenho o direito de falar do Camus.— manifestou-se o outro. – Me arrependo amargamente de não ter defendido Aquarius e Scorpius quando foram condenados. Se eu falar algo agora, estarei sendo hipócrita. O máximo que posso falar sobre Camus é: Ele morreu pelo que acreditava e nos braços de quem amava, nada mais importa.

Soltou um riso involuntário pelo comentário do amigo.

Era difícil definir o que sentia e se nem ele entendia, quem poderia entender e o ajudar?

No final, de certa forma, o amigo estava certo em seu argumento.

Mas não importa o quão certo ele estivesse, parecia que nada no mundo conseguia mudar aquele amontoado de sentimentos ruins que carregava no peito.

¬ E não se julgue culpado pela morte de outros, Milo. Se fosse assim, ninguém neste Santuário seria capaz de se reerguer. Ninguém, nem mesmo nós que podemos voltar, morremos e sentidos as dores antecedentes a morte por nada.— suas palavras eram duras como rocha, até quando ele queria ser bom, ele era grosseiro. – Sabe por que tem tanta gente disposto a morrer quando você pede? É porque você oferece um mundo melhor, Milo. Você oferece um amanhã melhor e eles querem isso não para eles mesmos, mas para quem virá depois deles. Não importa o sacrifício, eles querem isso para quem virá depois. Um sentimento altruísta, eu sei, mas não é isso que fazemos também? Quando um Filho de Theós e nós, os Deos e Santos, encontram um motivo bom o bastante para se dizer “por isso eu morreria”, por aquilo vamos morrer!

A floresta de sonhos do coração era sufocante.

O silencio passou a reinar sobre os dois após aquela “bronca”. Sabia que o outro queria ajudar, só que seus métodos eram mais violentos que o convencional.

Piscis também era assim com seu sorriso gentil e aparência bonita, mas palavras duras e afiadas como navalhas.

Era o jeito deles afinal.

Era.

Estava tão cansado de tratar pessoas queridas no passado.

¬ Mordur.— disse em súbito. – Essa palavra me assombra e acusa.

O imortal virou-se para ele de forma ainda mais súbita. Não conseguia engolir que ele estava dizendo e cogitando um absurdo daquele!

¬ Mordur?!— a própria palavra causava ranço em sua boca. – Por Theós, Milo! Onde está com a cabeça?! Você não é isso!

Permaneceu em silencio.

Não queria um alento, queria apenas se torturar com a verdade que assombrava sua mente.

Matou mais pessoas do que qualquer outro homem no mundo, fosse diretamente ou indiretamente. Seu corpo pesava por sangue e não por anos.

¬ Olha aqui!— estalou os dedos na frente de seu rosto. – Eu não posso falar nada por Camus e nem devo, já disse isso! Mas posso dizer que todos os demais se arriscaram pelo que acreditavam e amavam! Eles não se feriram e morreram em vão, Milo!— voltou a desviar o rosto, mas este foi puxado com alguma violência. – Acorda Milo! Ganhamos mais um dia de luta e eles perderam um aliado poderoso!

Não podia desviar o rosto, então desviou os olhos.

O maior grunhiu um tanto irritado e então tirou o que pareceu duas bolinhas de vidro do bolso, elas brilhavam suavemente e quando se encostavam brilhavam com mais força ainda.

¬ Olha aqui.— estalou os dedos na sua frente mais uma vez.

Quando obteve a atenção do loiro mais uma vez, mostrou as bolinhas e então as atirou ao chão com força, fazendo com que se quebrassem em milhões de pedaços e uma luz azul muito forte os envolvesse.

Assustou-se e tentou até se proteger em primeiro, só que logo esse sentimento de autoconservação foi substituído pela mais pura confusão.

Aquela luz azul se assemelhava às chamas e crepitava a imagem de um cenário totalmente diferente ao seu redor, não consumia ou feria nada, apenas queimava uma imagem.

¬ Você viu o esforço da maioria, mas não viu o esforço desses dois e eu posso te mostrar isso.— disse Cancer apontando mais para frente. – Posso te mostrar que a Morte não veio em vão.

As duas figuras indicadas à frente, assim como todo o resto, eram feitas de chamas azuis e interagiam entre si sem jamais notá-los ali.

¬ Ei, Al.— chamou a figura mais alta. – Não acha que devemos comunicar o Milo primeiro?

¬ Eu já mandei a mensagem, devemos apenas torcer para que chegue nele o quanto antes.— respondeu sem desviar o olhar da planície azulada logo abaixo.

Permaneceram em silencio, sabiam muito bem quem eram aquelas figuras e o loiro parecia amedrontado frente à visão que tinham, preferindo o silencio enquanto apenas assistia o desenrolar.

O cenário então se transformou rapidamente, revelando uma espécie de fortaleza cada vez mais próxima e uma guarda armada em claros sinais de alerta.

As ameias estavam cheias de armas e almas.

Flocos de neve azul rodopiavam em um vento cortante.

Uma flecha azul passou por sobre seus ombros, sendo seguida pelo olhar igualmente azul; a potente seta golpeou o ombro direito do belo rapaz atrás de si.

¬ AL!!— gritou o outro ao vê-lo cambalear.

O ferido puxou a hastes da flecha com uma careta de dor, a pele e músculo tinham sido perfurados, mas não podia se abalar. Quebrou a haste ao meio e a jogou para o lado ao mesmo tempo em que lançava algo parecido com um dardo em seu atirador.

O italiano mais atrás usou uma rocha como trampolim, fazendo um esplêndido uso de sua perna mecanizada para lhe dar mais altura e potencia. Passou com os pés milímetros acima do companheiro e caiu sobre um soldado com um porrete, ficando uma adaga em cada ombro do mesmo.

Rolou duas vezes antes de parar e se atirar sobre o próximo inimigo com as armas posicionadas, o urro ensurdecedor e os caninos amostra como os de uma fera.

Atrás de si, o solitário rapaz girou o ombro ferido para se acostumar com a dor e sacou mais alguns dardos envenenados da algibeira presa em seu braço.

¬ Você é muito exagerado, foi só uma flecha.— deu de ombros indo atrás do amigo.

¬ Os descendentes de Piscis são casca grossa igual ele.— comentou Cancer com um leve sorriso.

O cenário se transformou mais uma vez, estavam nas ameias agora.

O rapaz de beleza incomparável mostrava naquele momento que de delicado só tinha a sua aparência.

Viu um soldado erguer a arma em sua direção, entretanto não teve medo algum no momento que a segurou pelo cano e empurrou a mira para o chão.

A explosão contra a pedra assustou o atirador, que teve a coronha da própria arma empurrada com tudo contra seu rosto. O tempo de confusão foi mais do que o suficiente para o rapaz inverter a arma e atirar contra seu antigo dono a queima roupa.

Outros dois tentaram pegá-lo pelas costas e tiveram os rostos também atingidos pela coronha da arma, dessa vez com tanta força que alguns dentes voaram longe.

Olhou por sobre a beirada da ameia e viu o que não queria.

¬ Droga...— o moreno estava cercado.

Saltou para parte mais baixa na ameia, contornando o interior azul da fortaleza em passos rápidos.

Mais três inimigos vieram correndo em sua direção, foi fácil atordoar e desarmar o primeiro com um soco no rosto. E como eles vinham correndo enfileiradinhos foi só disparar contra os dois restantes, vendo a bala cravar nas paredes de pedras manchadas de vermelho.

¬ MANI!!— pulou na direção dos inimigos que cercavam o amigo.

O italiano olhou rapidamente para cima, se lançou contra o guarda mais próximo e o usou de escudo vivo.

Vários dardos acertaram os homens que cercavam o moreno, ficavam fundo na carne de pescoços, braços e pernas. Eles caíram como um monte de cartas com bocas espumando e olhos saltados pelo potente veneno.

¬ Você podia ter me avisado antes!— brigou o italiano empurrando seu escudo para o lado.

¬ Quando?— rebateu o outro se aproximando calmamente enquanto recolhia os dardos. – Quando você já estivesse morto? Ou quando você tivesse parado para me ouvir?

¬ Engraçadinho.— respondeu sacando uma arma e atirando no homem que se aproximava pelas costas do amigo.

Novamente o cenário mudou, aparentemente estavam dentro da fortaleza.

¬ Mais alguém?— perguntou o moreno.

¬ Pela minha contagem agora só resta o Iudice e alguns criados vivos.— respondeu recolhendo seus dardos.

¬ Um Iudice.— reclamou. – Ainda acho que devíamos ter esperado o Milo ou pelo menos o Rodrigo, talvez ele trouxesse alguém consigo.

¬ Eles estão no meio da comuna, Mani.— volveu. – E essa é a única vez que vimos este Iudice tão desprotegido, não teríamos outra chance assim nem em um milhão de anos.

¬ E ainda sim foram tolos de vir aqui.

Olharam todos para cima ao mesmo tempo.

O homem que se apresentava no alto da escada tinha a postura de um Barão de Armas, um homem soberbo e de grande riqueza material demonstrado por sua postura e roupas.

Era um homem bonito, tinha que admitir; mas os olhos dele, mesmo em meio àquelas chamas azuis que o representavam, eram vermelho sangue.

¬ Ele não é humano.— concluiu.

¬ Nunca foi.— volveu o imortal.

Olhou para os homens de pé ao seu lado, os dois estavam nervosos pelo encontro, mas nem por isso recuaram ou mudavam a expressão severa.

¬ Mani...

¬ Eu sei...

O homem desceu alguns degraus com a expressão bastante desgostosa, passou por cima de um dos homens mortos e parou no quinto degrau da escada.

¬ Vocês são tolos...— disse com um sorriso se formando. – Não passam de joguetes.

O homem foi andando calmamente até uma cadeira disposta junto de uma mesa, nela havia um conjunto de chá intocado e ele se sentou para degustar do liquido ainda quente.

O rapaz estava cauteloso, a postura tensa frente à calmaria do inimigo; o italiano por outro lado estava com uma careta desacreditada.

¬ Isso é uma brinc...

O homem ergueu um dedo e a postura do moreno enrijeceu, ele tremia os membros de um jeito travado, como se tivesse com cordas o prendendo e as tentasse romper.

Segurava uma arma roubada de um inimigo caído e essa arma foi disparada contra o amigo quando seu anfitrião voltou a abaixar o dedo.

¬ AL!!— se desesperou no momento que viu o sangue pingar.

A sorte do mais novo foi que ainda estava tenso o bastante para desviar de reações anormais, conseguiu escapar de um tiro mortal por sorte. Entretanto, de sua cintura cortada vertia sangue o bastante para fazer um homem adulto desmaiar.

¬ Suas vidas são tão insignificantes que consigo controlar o destino delas com apenas um dedo.— vanglorio-se com mais um gole de chá.

O homem fez mais um gesto simples e um combate mortal deu-se inicio entre os amigos de longa data.

¬ NÃO ME TOQUE!! — bradou preocupado.

¬ NÃO SOU EU!!— respondeu em fúria.

Atirou-se contra uma janela de vitral, o vidro caindo em cascata como as chuvas de verão e cortando a pele fina com delicadeza. Logo atrás vinha um Manigold ainda travado e resistente, a pele também sendo cortada pelo vidro colorido.

Caíram junto aos estábulos, os animais se debatendo em desespero pelo susto. Precisou correr para longe do amigo o mais depressa possível, não podia se deixar tocar e também não podia contra atacar nenhuma investida.

O inimigo se debruçou na janela quebrada, era como se assistisse uma magnífica ópera de algum camarim alto.

Estava tão preocupado que quase esqueceu que só não podiam tocar em sua pele e roupas finas, não tinha mal algum relar peças grossas ou outros objetos por ele tocado.

Apanhou um balde de comida largado e correu na direção da parede, a tomando por impulso aos pés e acertando o amigo com o balde preso na mão esquerda. Ambos rolaram pelo chão, porém, o menor foi mais veloz ao se levantar e deferir mais um golpe de balde contra o rosto do outro.

Cambaleou um pouco para trás e foi atingido mais uma vez, mal se recuperava e sentiu o forte impacto da grossa bota de couro contra seu peito, fazendo-o voar para trás. Derrubou uma fina parede de madeira com o impacto e por lá queria ficar se recuperando da dor.

¬ LUTE COMO UM HOMEM SEU MALDITO!! — estourou o balde que tinha em mãos ao bradar contra o Iudice. – COVARDE!! MALDITO!! DESÇA E LUTE COMIGO E NÃO FAÇA DOS OUTROS OS SEUS PEÕES!! VAMOS BASTARDO IMUNDO!! NÃO É HOMEM O BASTANTE GRIFFON?!!

A fúria na voz do menor era sentida e ouvida com intensidade, mas sua postura e olhar mudavam para algo inesperado aquele momento. Ele desafiava o inimigo como um rebelde desafia um império apenas pelo olhar, ele não se curvaria tão fácil quanto o outro acreditava.

¬ Para que escândalo?— perguntou sorridente. – Quero apenas ver que marionete vale mais a pena. Mas devo dizer que esse olhar de agora me é bastante inquietante. Seria você uma marionete tão boa quanto aparenta Albafica Jaeger?

Mais um movimento desleixado de mãos e o italiano voltava para o combate.

¬ Deixe-me acelerar um pouco.— disse Cancer. – Imagino que não queira ver o enfrentamento de dois amigos.

Não se pronunciou a respeito, apenas deixou que o outro fizesse como bem entendesse. Quando viu, Manigold estava caído com um forcado prendendo sua perna mecânica ao chão e Albafica de pé com evidente cansaço segurando o cabo do forcado.

¬ Rezo para que minha alma se torne o grilhão, rezo para que minha lábia se torne o peão, rezo para que minha determinação se torne o cheque, rezo para que a coragem se torne vantagem.— disse o italiano arfante.

¬ Rezo para que meu sangue se torne veneno, rezo para que minha força se torne espada, rezo para que meu coração se torne a prisão, rezo para que minha coragem se torne lápide.— respondeu o belo homem.

O moreno deixou a cabeça cair e, aparentemente, foi tomado pela inconsciência. Notou assim o quão feridos estavam.

Hematomas negros, cortes sangrentos, buracos profundos, sujeira pelo corpo, ossos trincados e coragem devastada.

O rapaz se afastou no amigo e secou o sangue antes que pingasse sobre o amigo, estava inconsciente mas ainda sim estava vivo e assim deveria permanecer. Custasse o que custasse, só dois podiam morrer naquela batalha.

¬ Me corta o coração ver uma criatura tão bela quanto você coberto de sangue e lama.— manifestou-se o anfitrião com um sorriso. – Pode ir embora Albafica Jaeger, eu permito. Não vale a pena ferir um rosto tão belo e espírito tão nobre, me apiedei de você e me admirei de sua beleza. Deve ir antes que eu o queira manter por aqui.

Os dentes trincaram na mandíbula fina, os olhos se inflamaram e o peito estufou em ódio contido.

¬ Você não sabe nada sobre mim!— cuspiu as palavras com profundo ódio. – Não tem o direito de me julgar ou tachar por minha aparência! Lute comigo de igual para igual e veremos quem realmente é digno de pena ou clemência!

O inimigo sorriu, um sorriso diferente dos outros.

O homem subiu em sua janela e pulou de braços abertos como quem vai abraçar um velho conhecido, pousando elegantemente com uma armadura negra abraçada ao corpo. As asas da peça se abriram lentamente, parecia um animal que queria se mostrar maior do que realmente era.

¬ Pois bem.— declarou com o mesmo sorriso diferenciado. – Vejamos que diversão tem para me oferecer.

Assumiu a postura de luta sem medo algum no olhar, iria com aquilo até o fim e se necessário até depois dele.

Albafica observava o Iudice com cuidado, atento a cada ato e expressão, notou que a certeza de uma vitória fácil iluminava o rosto de seu adversário e compreendia seu ponto de vista.

Diferentemente do rapaz, ele não estava exausto pela batalha. Usava uma armadura completa, ao passo que o menor vestia apenas um manto. Ele não sofreu os cortes e as pancadas que Albafica recebera nas lutas para chegar ali. Ele também sabia disso.

Além do que, Albafica era um mero humano.

O Iudice sabia que tinha todo tipo de vantagem.

Uma lamina negra surgiu em suas mãos, devia ser muito pesada, mas o dono a manuseava com facilidade e habilidade. Ergueu-a para mostrar quem cortaria a cabeça do rapaz a sua frente.

Em resposta, o menor sacou duas adagas anteriormente presas em suas costas, posicionando-as em defesa na altura do peito.

Os dois permaneceram parados, o Iudice com o peso apoiado sobre o pé recuado, evidentemente esperava que o humano avançasse primeiro. O rapaz, porém, impôs a primeira surpresa do duelo, permaneceu imóvel, apenas esperando o ataque.

¬ As aparências enganam.— disse ele.

¬ Verdade. Verdade.— concordou o inimigo com um sorriso irônico e, exatamente no segundo seguinte, atacou.

Albafica bloqueou o golpe da melhor maneira possível. A força do ataque quase arrancou as adagas de suas mãos, sentiu alguns ossos racharem e causarem uma dor devastadora, isso no quesito físico. Ainda conseguia sentir uma grande dormência tentar seu corpo ao mesmo tempo em que sentia algo como fios tentando laçá-lo, além de que o temor no peito crescia exponencialmente.

Mas ainda sim, aparou o ataque com alguma destreza e o desviou para o lado, tentando encontrar um espaço na guarda quase impenetrável do Iudice.

O sombrio adversário tinha inúmeras vantagens, principalmente a força física. A maior e única vantagem de Albafica era negá-las a ele.

¬ Quando isto acabar, o Santuário cairá.— murmurou.

A poderosa lâmina passou tão perto que o rapaz ouviu-a zunir em seu ouvido. Somente o ar cortado pela espada já era capaz de abrir ferimentos em sua pele, imaginava o que a arma em si podia fazer.

¬ Eles são mais fortes do que imagina.— rebateu.

O aço se chocou novamente com o metal negro.

Cambaleou um pouco devido a força do outro, quase tropeçando nos próprios pés por conta da pressa para se reequilibrar e voltar ao combate. Defendia e aparava e desviava, dançava o cortejo da guerra sem nunca baixar o olhar.

¬ Saberemos a verdade disso muito em breve.— o empurrou com muito mais força.

Tentou retomar o equilíbrio, mas dessa vez sua queda foi inevitável. Com grande medo viu o sorriso se formar no rosto do inimigo, que, num piscar de olhos, o tinha agarrado pelo pescoço e erguido acima do chão.

Sentiu-se uma criança frágil e indefesa. Seu olhar ainda desafiador possuía esse mínimo resquício de medo.

Debateu-se e descobriu que mal conseguia se mexer, era contido com facilidade absurda. A mão apertava sua garganta e ele se viu ofegando em busca de ar, uma veia em sua testa latejava.

¬ Interessante.— comentou o outro. – Sinto meu braço dormente. Será que isso tem alguma relação com a sua maldição?

¬ Pro inferno, Griffon!...— rosnou.

O menor torceu o rosto em raiva e cuspiu no rosto do inimigo, que apenas sorriu e devolveu o insulto na mesma medida.

Sufocou e tossiu, enquanto os cantos de sua visão começavam a desaparecer. Lutava contra a inconsciência quando foi virado com a mesma facilidade com que se manuseia um recém-nascido e então foi atirado contra a parede de pedra.

Albafica bateu com um grande estrondo por entre as pedras e caiu do outro lado, onde permaneceu aturdido por alguns momentos, ouvindo vigas caírem e colunas de pedra se despedaçarem.

O loiro avançou em meio à visão querendo ajudar o amigo, mas foi detido pelo imortal de olhar compreensivo.

¬ Este é o passado, Milo.— o lembrou com alguma tristeza. – Não há como ajudar.

Assistiu o Iudice avançar tranquilamente na direção do rapaz, ele não tinha pressa alguma de matá-lo, queria apenas se divertir o quanto fosse possível antes que o brinquedo novo quebrasse.

Quando este passou por cima de um dos vários corpos, o braço deste se torceu num ângulo muito estranho e prendeu seu pé com força anormal. Conseguiu ver a armadura rachando no lugar do aperto.

Uma forma difusa foi escalando o inimigo até se prender em seu pescoço e tentar ferir todas as áreas que suas mãos alcançavam. Mais e mais formas difusas foram se agarrando o homem a partir de corpos mortos que estavam por ali.

¬ Não pense que já ganhou...— arfou cansado.

¬ Você não estava com a perna presa?— rebateu sem dar importância às formas que o prendiam. – Como pretende lutar se está coxo?

A aparência do italiano era decadente e justificável aos argumentos do Iudice, com os ferimentos recentes e o ferimento antigo na perna esquerda, sua queda era quase certa.

Estava com o forcado em mãos, os roxos se destacavam e os cortes fundos secavam. O sangue escorria por seu rosto e comprometia a visão do olho direito, a perna mecânica tinha sido estourada para se livrar do que a prendia e parte da carne tinha sido rasgada para o mesmo efeito.

Ele ergueu o braço e apontou o dedo em riste com um sorriso bem grande e alegre, parecia se divertir com aquilo tudo.

¬ Hoje não, volte amanhã.— ditou apontando pro chão com violência.

As formas difusas puxaram o Iudice para o chão com igual violência, o pondo de joelhos com o olhar confuso e enraivecido. O moreno ia movendo o dedo em riste mais e mais para baixo, enquanto o outro braço se erguia para lançar o forcado.

Do outro lado, o belo rapaz se erguia com dificuldade e grande dor. Seu braço estava forçadamente torcido para trás de sua omoplata e sangue escorria por um corte causado quando o osso tentou sair. Puxou o braço para sua posição natural com um grito mudo e se ergueu para voltar ao combate.

As formas difusas já tinham arrancado o elmo do inimigo, uma de suas ombreiras estava quebrada e muitas partes da armadura estavam rachando.

¬ Vocês realmente acham que almas de mortos podem me segurar?— desdenhou forçando-se para levantar.

Manigold fez um esforço ainda maior para que os mortos tivessem força o bastante para mantê-lo subjugado, mas não adiantou muita coisa, as formas esfumaçadas das almas iam sumindo aos poucos com gritos horríveis e logo não valia mais a pena o esforço.

¬ Vamos fazer assim então.— disse o italiano com um rosnado. – Primeiro eu bato em você e no inferno a gente conversar.

Não havia tempo para pensar.

Avançaram os dois ao menos tempo contra o inimigo que se erguia imponente, fechando o cerco de forma mais opressiva, estavam tão assustados quanto furiosos.

Choveram golpes de ambos os lados, demais para serem rechaçados. Lutavam arduamente, caindo e se reerguendo, jamais derrubando. Combatiam uma hidra de mil cabeças, um dragão de mil batalhas, um grifo de mil anos.

Precisavam privar o inimigo de suas vantagens sem deixar que este se aproveitasse de suas desvantagens.

Os dois estavam no chão numa relativa distancia do inimigo quando trocaram olhares, aquela troca foi a confirmação que precisavam.

¬ Légua, meia légua, meia légua em frente.— disse o mais velho com um sorriso.

¬ Ao vale da morte foram os trezentos.— respondeu o mais novo assentindo.

Os dois se ergueram rapidamente e voltaram ao ataque antes que o Iudice os fizesse de marionete mais uma vez.

¬ Por favor.— pediu o loiro. – Eu quero ver o basta disso. Não aguento mais vê-los assim, eu quero o fim disso. Por favor, Cancer.

¬ Certo.— assentiu enquanto avançava com a visão.

Engoliu seco com o novo cenário, devia ter pedido para pararem e não para avançarem. Onde estava com a cabeça quando pediu isso?

Estavam caídos no chão.

Os três tombaram em batalha.

Albafica tinha perdido seu braço, o sangue gorgolejava pela rota decepada. O outro braço segurava a nuca do Iudice com força, o prendendo junto ao seu corpo num abraço funesto, o sangue que escorria entrava no corpo do inimigo. Morreria para seu sangue e toque.

Manigold teve suas pernas destruídas, se não fosse a calça para segurar o estrago, nem mesmo ossos haveria ali. Segurava com força o cabo do forcado que atravessou o corpo do amigo e o do inimigo acima deste por várias vezes, misturando sangue e cinzas. O sangue que tingia sua pele e cabelo com tatuagens grotescas.

O Griffon não estava melhor que nenhum dos dois, ossos quebrados, sangue jorrando, órgãos destroçados e vida se esvaindo. Um sorriso largo adornava o rosto bonito, como se aquele tivesse sido o momento mais interessante de sua vida.

¬ Quem sabe em outro momento...— disse começando a se desfazer.

Sua figura foi descascando, sendo levada pelo vento inexistente com calma e por fim se desfez por completo numa nuvem de cinzas que seguiu para bem longe dali enquanto os dardos envenenados caiam um a um no chão de terra.

O italiano juntou a força que lhe restava e arrancou o forcado do corpo do rapaz, caindo sobre o mesmo já sem forças.

¬ Mani...— tentou empurrá-lo sem sucesso.

¬ Calado...— respondeu tentando erguer o corpo. – Já estamos mortos mesmo...

Cuspiu uma quantidade imensa de sangue, o “toque” do amigo já estava fazendo efeito em si. Mudou a posição do corpo com algum esforço e conseguiu deitar ao lado do menor, o puxando e colando suas testas com carinho.

¬ Lembra?...— questionou fraco. – Fazíamos isso... Quando bem pequenos...

¬ Sempre...— respondeu o outro quase fechando os olhos. – Mani... Estou com medo...

¬ Não tenha...— respondeu firmando a mão na nuca do outro. – Eu estou aqui... E vou estar do outro lado... E na próxima vida... E na outra... E na outra... E na outra...

¬ Mani...— tocou o rosto do outro. – Prometa-me... Prometa-me... Sempre lutaremos juntos... Protegeremos um ao outro... Aconteça o que acontecer...

¬ Nós iremos sobreviver juntos... Ou morrer juntos...— disse o outro. – Eu prometo... Prometo... Feche os olhos Al... Feche os olhos e durma... Vou estar logo atrás... Eu prometo... Durma...

¬ Mani...— sentiu a testa ser beijada com ternura. – Vou te esperar... O barqueiro... Sem você não vou... Prometo... Prometo... Prometo...

O menor foi fechando os olhos aos poucos, mas não deixou de falar “prometo” em nenhum instante. Apenas em seu último suspiro a palavra mudou para uma declaração fraterna pouco dita em sua vida.

¬ Amo...

¬ Eu também te amo, Al...— disse o outro cuspindo sangue.

O italiano resistiu por muito tempo, a morte parecia se recusar à levá-lo daquele mundo. Resistiu por tanto tempo que a noite virava dia e o reforço por fim chegara.

¬ MANIGOLD!! ALBAFICA!!— era o espanhol. – ONDE VOCÊS ESTÃO?!!

¬ Rodrigo... El Cid...— tossiu mais sangue, mal se mantinha lúcido, precisava de muita força agora. – RODRIGO!!

¬ Légua, meia légua, meia légua em frente. Ao vale da morte foram os trezentos.— disse Cancer ao vislumbrar o espanhol se aproximar com o cavalo. – Essa é a história dos trezentos de Esparta. Guerreiros poderosos de tempos quase esquecidos que sacrificaram suas vidas pela vida de seu povo e a de outros. Homens que se muniram de sua coragem e de sua honra para lutar contra um inimigo muito mais poderoso.

O espanhol surgiu com o cavalo bufando por ar, atrás dele vinha mais um cavaleiro. Não esperava que Sísifos fosse criar uma amizade tão forte com o descendente de Capricornus, mas dizem que guerras unem as pessoas então não tinha mais do que duvidar.

O moreno desceu de seu cavalo e se jogou ao lado do italiano, nem sabendo por onde começava a conter o sangue ou por onde começar a fazer suturas e ataduras. Apoiou o amigo nos braços e ficou negando totalmente perdido, nem sabia como pedir perdão por sua incapacidade.

¬ Rodrigo...— chamou com força finita. – Cuida do Pefco e da Gioca... Pefco é menino... Precisa aprender a liderar... E cuidar das rosas do primo...— riu tentando não se afogar no próprio sangue. – Gioca tem que parar de roubar riquinhos no Carnavalle... Ela é uma moça linda... Minha irmã precisa crescer... Virar uma Wánax... E deixar a vida de vadiagem... Cuida dos dois...

¬ Callate!— brigou o espanhol. – Você ficará bem, pare de dizer asneiras!

¬ Toquei em Al...— sorriu. – Só tenho a lápide...

¬ Seu...! — queria brigar mais para que assim as lágrimas não corressem. – Não ouse morrer Manigold! Eu te proíbo! Já perdemos Al...! N-Não podemos perder você também! Aguenta Mani!

O italiano riu com a força que restava e olhou para cima com os olhos lacrimejando.

¬ Hoje sim... Meu velho amigo...

¬ Mani.— chamou sem resposta. – Mani! Manigold Auditore! Mani!

¬ Rodrigo!— chamou o arqueiro. – Deixe-o descansar. Ele já se foi.

O espanhol trincou os dentes e voltou a deitar o amigo no chão, se levantando e indo abraçar o homem que desceu do cavalo. Aquela era uma das poucas vezes que se permitia o choro, precisava lamentar pelos amigos perdidos.

¬ Porque me mostrou isso?— perguntou o loiro com igual vontade de chorar.

¬ Não importa ao guerreiro se o líder a quem segue é certeiro, todos erram em algum momento. Mas é importante o líder ter coragem e honra. É importante o líder ser capaz de avançar mesmo com medo. É importante o líder oferecer luz em meio as trevas.— continuou Cancer. – O importante para os trezentos era morrer tentando fazer mais por seu povo, provando de sua honra e coragem para que a esperança reinasse no coração dos homens. Eles rezaram para que seu líder, o poderoso Leônidas, tivesse tanta honra e coragem quanto eles tiveram para tornar o amanhã melhor aos que ficaram em casa. Ninguém morre por culpa de alguém e sim por alguém, conhecido ou não, todos morremos para defender o amanhã de alguém. Você é o Leônidas deles, Milo, o líder que dá esperança. E eles são os seus trezentos, dispostos a morrer por tão maravilhosa esperança.

Notas finais
"Prometa-me Ned... Prometa-me..." Fãs de GoT já se ligaram que eu sei. Gente! O que que foi aquele episódio da Torre da Alegria?! Quase pari um OVNI de alegria! Tá bom que de alegria tinha nada, mas eu tava alegre XD Ah! Vocês perceberam que todo capitulo que tem o Manigold e o Albafica sempre passa do tamanho normal? Eu reparei nisso quando estava editando XD Curiosidade do dia! "Eu tava pensando em fazer o Albafica beijar o Minos. Tipo, uma forma de fazer o Minos engolir o veneno que milagrosamente seria mandado pelo Piscis e por isso ele morreu. Sem contar que também ia ser uma homenagem à quem shippa esses dois, eu shippo bem de levinho. Fiquei matutando a ideia, mas acabei jogando fora. Também cogitei um beijo com o Manigold, mas ia estragar aquela visão que eu quis criar deles como irmãos, então vamos ficar com o que ficou". Capítulo que vem vocês vão ficar tristes ou felizes ou os dois, não sei, veremos. E ele vai sair rápido, afinal, metade dele já tá pronto XD Espero que tenham gostado. Bjs. L ;3