Frankenstain

61 Cripta de 1875


Notas iniciais
Falei que tinha esse capítulo quase pronto XD E pode não parecer, mas ele é importante, pois depois dele o Milo dará um verdadeiro salto. Tenham uma boa leitura =)

Não devia se afastar de seu caminho em tempos tão incertos, mas para si havia a necessidade. Sem contar que passar por aquele trajeto também havia sido ordenado, logo, um pequeno desvio se tornou inevitável.

Principalmente naquele dia frio com chuva de montanha.

Viajou por uma semana inteira, tomando cuidado com as fronteiras ainda muito instáveis e pessoas desconfiadas. Os ferimentos causados pelas guerras, transformações e revoluções ainda estavam abertos e ardiam na alma das pessoas e cidades.

Cautela nunca era demais afinal.

Escalou as pedras da pequena montanha na cadeia de Voges, sentindo suas pontas afiadas esfolarem suas mãos enfaixadas e tentarem destruir as solas de suas botas. Era um terreno bastante acidentado e devia tomar muito cuidado com cada passo que dava.

Entretanto, queria alcançar o ponto mais alto e praticamente inalcançável em que residia um tesouro tão valioso quantos os dos antigos faraós ou então os do templo em ruínas de Salomão. Ao menos para si este era o valor do tesouro.

Levou horas para chegar ao ponto almejado, os raios solares despontavam fracos no horizonte e ainda muito distantes daquela entrada rochosa.

Soltou um suspiro profundo e se agachou para acender sua lamparina que trouxera com muito esforço, erguendo-a na altura do rosto e se embrenhado na escuridão da pequena caverna escondida. Não oferecia uma visão tão ampla do lugar, mas estava de bom tamanho.

Com a lamparina para mostras o caminho, conseguiu desviar de pedras e buracos perigosos, e depois de alguns minutos andando começou a encontrar pedras focas com partes brilhantes por lapidar, todas das mais variadas cores e tamanhos ao seu redor.

Sentou-se na única rocha pura e assoprou a lamparina, ficando apenas na companhia das sombras.

¬ Quando está suficientemente escuro, você consegue ver as estrelas.

Logo um brilho cálido começou a se manifestar e pouco mais ele se espalhava como brasa ao vento, revelando a grandiosidade e beleza do lugar em que estava.

As paredes eram feitas de cristais ocultos no fundo da caverna, suas cores abrangiam todo o espectro de cor em sua maior intensidade e brilho.

A caverna era iluminada por tons de vermelho, azul, verde e amarelo; em seu interior uma essência se misturava e agitava, raramente se acalmava, às vezes escapava e gerava uma película fina de gelo entorno das belas pedras.

O teto era coberto por fungos bioluminescentes, parecia o céu de um mundo distante e, certamente, mais belo do que aquele em que vivia agora. Olhava para cima em busca das constelações, mas apenas poucas se mostravam e brilhavam com intensidade.

¬ Eu realmente encontrei um lugar lindo, mas é uma pena que tenha se tornado uma prisão.

Viu o ar quente de seus pulmões virar fumaça frente o majestoso esquife de gelo, este cada vez mais irregular e sólido, parecia um enorme cristal. Conseguia ver através do gelo com perfeição.

A farda azul possuía mínimas manchas vermelhas, mal eram notadas direito. As medalhas reluziam mesmo no escuro, dando elegância e importância ao dono. O quepe estava pousado abaixo das mãos, seu tom escuro dava destaque ao anel de ametista na mão direita – devia ter tomado aquele anel antes do gelo simplesmente se formar.

A pele tão pálida quanto o próprio gelo, continuava perfeita e não duvidava de sua delicadeza por debaixo daquele frágil escudo. Os fios escarlates caindo sutilmente pelos ombros, era bem possível que se quebrasse ao toque. O rosto sereno com o sono eterno, mas não podendo esquecer que o gelo também é destrutivo.

Tocar destruiria aquele tempo congelado.

¬ Hoje é meu aniversário, 9 de novembro, lembra? – questionou sem realmente esperar uma resposta. – Hoje completo 100 anos.

E ainda trocaria cada ano para tê-lo de volta.

O gelo estalou e um pouco de essência vazou, formando mais uma fina película sobre a rachadura.

Era sempre assim.

A alma tentava escapar, mas o cosmo em que se misturara no momento da morte não permitia sua escapada, formando camadas e mais camadas de gelo eterno para deter seu avanço.

Entretanto, o pouco que escapava sempre parecia murmurar palavras sem sentido ou brilhar com memórias perdidas no tempo.

¬ Admito que não me sinto tão feliz quanto devia.— comentou com seu eco brincando nas poucas paredes rochosas. – Esses anos têm sido bem difíceis, não vejo razões para sorrir de forma alguma, afinal só tenho visto dor e morte. Bem difícil achar motivos para sorrir. Amigos se vão, a guerra gasta, a vida maltrata e você nem mesmo pode me ouvir, ou ouve e não pode responder.

O gelo estalou com mais força, parecia que alguém tentava rompê-lo. Logo depois ouviu o que pareceu um murmúrio do vento e avistou um pequeno brilho a se extinguir, lembrando da vez em que leu um livro de contos para o menino antes do homem.

Os olhos castanhos brilhavam em fascínio pela obra e as aventuras incríveis de seus protagonistas, motivado pelas lutas de espadas e objetivos heróicos. O menino quis ser um soldado por aquilo, quis ser um herói anônimo em sua farda, mas que ainda praticava a justiça e bondade.

Existem homens e homens no mundo, mas poucos vestem sonhos e símbolos como realmente devem ser vestidos.

¬ Mesmo assim continuo a falar.— seu sorriso era um tanto tristonho, talvez mais conformado. – Sou um tagarela irremediável mesmo, não tenho cura. Se bem que você até parecia gostar de me ouvir falar, não tenho certeza, mas eu gostava muito de te ouvir falar. Nada me agradava mais do que ouvir suas histórias sobre o trabalho ou algum acontecimento estranho. Na verdade, me agradava bem mais te ouvir rir, sua risada era tão bonita que eu chegava a ficar bravo porque você quase não ria. Haja seriedade, não? — uma eterna caixa de surpresas. – Adorava os dias em que perdíamos a noção do tempo enquanto conversávamos, os melhores eram os dias frios em que mal saiamos da cama, apenas conversávamos por horas e horas a fio.

Um estalo maior ecoou, parecia o gelo caindo de seu lugar e explodindo contra o chão. Ouviu um chiado seguido do som de congelamento.

Sorriu com a memória de um dia frio em que foi acordar o mais novo, mas este o puxou para a cama e ficou brincando consigo até que desistisse de “acordá-lo”, se fingir de adormecido e fingir abraçá-lo como se fosse um travesseiro eram as mais comuns em seus momentos infantis.

Sempre se juntava ao menor naquele amontoado de cobertores quentinhos e ficaram conversando sobre viagens que fariam muito em breve, a primeira da lista era uma visita ao irmão mais velho do ruivo.

¬ Não foi fácil contar para Krest o que aconteceu.— coçou a testa com um suspiro. – Ele ficou muito mal e eu não conseguia nem olhar para ele direito. Eu acho que aquela foi a primeira vez que o vimos chorar. Eu fiquei tão mal que se Krest quisesse me matar eu deixava, talvez trouxesse alguma paz para ele. — se calou por um tempo, apenas refletindo a vida. – Por que eu fui tão idiota e não te contei tudo de uma vez? Aliás, qual era o seu problema pra gostar de mim? Eu sou o ser vivo mais torto do mundo!

O gelo estalou com mais força e numa seqüência quase rítmica, pareciam batidas em uma porta de vidro. O lugar estava impregnado de cosmo, era normal esse tipo de “reação” por parte do ambiente.

Era uma quase briga de casal, no entanto, com o gelo. Se bem que não tinha muitas diferenças de quando era com a pessoa em si, o olhar gélido era pior que a mais terrível nevasca. O ruivo sempre soube pegar no âmago das pessoas.

¬ Mas o que posso fazer? Não controlo o tempo e também não sou muito inteligente, ao menos não o quanto gostaria.— suspirou cansado. – Sinto tanto a sua falta. É drama da minha parte, eu sei, mas não tenho ideia de como arrumo forças para viver um dia de cada vez. E devo admitir que no começo eu tinha perdido a fé em mim, eu já não era capaz de nada. Eu queria uma luz, pois temia me perder na escuridão, às vezes sentia que nada tinha me restado no mundo. Era e sou um soldado ferido demais para seguir. Trágico, não?

Soltou um riso anasalado enquanto mais gelo estourava, um pedaço chegou a estourar bem perto de seu pé. Isso lembrava os momentos de birra do ruivo, quando ele queria falar, mas não falava. Então ele fazia alguma birra e o loiro sempre saia com algum machucado, a velha cicatriz de navalha em sua mão que o diga.

Mas isso também lhe fazia lembrar que, por mais doloroso que fosse, era bom ter memórias assim.

Entretanto, eu vivo lembrando-me de você.— comentou sorrindo com verdadeiro carinho. – Você nunca esqueceu quem era. Sempre buscava coragem, retomava a fé e seguia em frente. E isso me ajudou a voltar ao “normal”, se é que algum dia eu fui. Também tive uma ajudinha extra do Santuário, mas no final eu me vi pronto para lutar mais uma vez. Sou um soldado afinal, assim como você. Me pergunto se você se alegra em ver que eu lembro e sei quem sou. Estou pronto para lutar.

O gelo não estalou, os sons se silenciaram.

Talvez fosse loucura de sua parte, mas jurava sentir um abraço apertado e um calor familiar em suas costas. A impossibilidade o fez soltar uma breve risada, seu coração e mente adoravam lhe pregar peças, afinal estaria o enxergando se fosse o caso.

No fundo sentia um pequeno orgulho, um pequeno carinho. Sentia apoio. Talvez tivesse mesmo uma boa estrela.

Apanhou a lamparina e voltou a acendê-la, não podia ficar muito mais, pois tinha um longo caminho para fazer ainda. O fim de Midgard e começo de Asgard ainda estava longe e ele precisava chegar o quanto antes.

Suspirou antes de se aprumar e dar uma conclusão ao que falava.

¬ Eu vim não apenas para te ver e nem apenas para comemorar meu aniversário. Eu também vim para aceitar logo de uma vez que você não vai voltar.— sua voz embargou, mas engoliu aquele peso em seu peito, não era hora para isso. – Vim dizer adeus e enfim fechar a entrada desta caverna. Mas também vim contar que, por mais que a saudade seja dolorosa e assassina, eu vou ficar bem, eu vou continuar lutando. A única coisa que te peço, é que fique ao meu lado, mesmo estando longe.— tirou uma última pedra-carta de sua bolsa, depositando-a aos pés do esquife; encostou suavemente no gelo e estranhamente não sentia o seu frio. – Você é meu sol e minhas estrelas, a lua em minha vida. Mesmo que todo mundo se inverta e o sol nasça no oeste para se por no leste, mesmo que tudo entre em ruína, eu ainda te amarei e sempre vou amar.

Respirou bem fundo e por fim se levantou, tomando o caminho da saída e coragem que lhe faltava. Não podia olhar para trás, se não de nada valeria o que tinha dito e as decisões que havia tomado.

Légua, meia légua, meia légua em frente.

Pedras rolaram, algumas seguiram montanha abaixo, mas o importante é que agora ninguém mais veria ou encontraria seu tesouro sagrado.

Notas finais
Tchau Camus!! T_T Pode não parecer, mas tenho coração, ok? T_T O que acham de uma "Saga de Asgard"? Calma, não teremos personagens chatos, eu prometo u.u Mas vamos a curiosidade da vez: ~ Eu cogitei certa vez em fazer um senhor flashback sobre a vida de Scorpius e Aquarius, praticamente intercalando com os capítulos normais. Porém, a ideia está engavetada... Quem sabe eu não a use em uma data importante? =) ~ Espero que tenham gostado =) Até a próxima. Bjs. L ♥ P.S. O número de combates vai aumentar, então se eu demorar é porque tenham certeza que é escrevendo uma luta XP