Frankenstain
62 Sonhos de XXXX
Notas iniciais
No fundo do oceano, morto e rejeitado.
Olhos lacrimejantes com água rubra e densa escorriam. O desejo pelo gosto amargo de sangue nos lábios, cortado.
A pequena figura a dar voltas e cantar sob as águas turvas. Chamando por um nome que não ouvia, entendia.
A explosão fria queimava o braço segurado pela destra. Congelado até os ossos, estava.
O som de explosões de ferro não sai da cabeça. O estrondo de tambores conduz o ritmo de sua queda, à frente.
Uma caminhada solitária sem conhecer o caminho. Do início dos tempos ao fim dos dias teria que lutar, de novo.
Seus joelhos bateram contra o chão dolorosamente. O cansaço tomava o corpo debilitado e ferido, reinava.
As mãos finas e gentis puxavam seu rosto com carinho. Não lembrava dos olhos amados, nem rosto.
¬ Ca...! — correu os olhos rapidamente pelo lugar verdejante de flores coloridas e vibrantes. — Um sonho?...
¬ Scorpius? — o carinho que recebia no cabelo parou tão sutilmente quanto começou. — Você parece assustado com algo. Tudo bem?
Correu o olhar cobalto para cima e encontrou as iris vermelhas e curiosas do fiel companheiro. Finalmente o olhar flamejante se desviou do pergaminho pousado na canhota, devorado avidamente pela cede de conhecimento e a curiosidade natural de seu ser.
¬ Aquarius... — estava aliviado ao chamar o nome tão agradável aos ouvidos. — Eu... Acho que sonhei...
A seriedade no olhar alheio foi substituído por repentina confusão e diversão infantil, não demorando nada para ser seguido por um riso contido. O sorriso permaneceu nos lábios finos enquanto o carinho voltava para os fios dourados.
¬ Impossível, meu amado irmão. — disse com a paciência de quem falava com uma criança. — Não podemos sonhar, apenas temos visões do mundo e mesmo elas são raras. Sonhos são um dom dos Filhos, que ainda estão por vir. Você talvez não estivesse dormindo tão profundamente assim e sua imaginação resolveu trabalhar um pouco para lhe distrair.
¬ Com suas mãos leves no meu cabelo? — volveu sem tirar a cabeça do colo alheio. — Acho difícil não dormir com um toque tão leve e agradável... E o que quis dizer com "resolveu trabalhar"?
O ruivo mais velho apenas deu risada de sua careta de desgosto e desceu a mão até seu rosto, afagando a bochecha com carinho. O olhar dizia tudo que palavra alguma poderia dizer ou expressar melhor, simplesmente haviam coisas que não precisavam falar. Sorrisos e olhares eram mais do que suficiente.
¬ Mestre Aquarius! Mestre Scorpius!
Travaram por breve momento devido a surpresa. Não faziam nada de errado, mas nenhum dos dois gostava de ser pego expressando carinho ou admiração, sentiam uma estranha vergonha quando acontecia.
O ruivo apenas afastou as mãos e olhar de maneira um tanto rude, voltando a atenção para o bendito pergaminho.
¬ É a sua vez. — desmanchou até mesmo o sorriso.
¬ Cignus e seu dom do Atrapalho... — suspirou desanimado ao ter que levantar para dar atenção ao recém-chegado. — Ainda sim eu amo muito e vou ouvir. Pode falar, minha criança. Ao contrario do papa-letras aqui, sou todo ouvidos.
Levou um cascudo do ruivo e ouviu o riso contido do loiro menor. O garoto estava bastante agitado fazia algum tempo, afinal, não demoraria muito para chegar o dia em que iriam cuidar pessoalmente dos Filhos de Théos.
¬ O irmão Andrômeda finalmente tomou forma! — disse sorridente. — Ele é tão bonito, Mestre! Nem mesmo o irmão Piscis acreditou na beleza dele!
¬ Ora, veja! — sorriu contente pela notícia. — Saudemos nosso novo irmão! Saudemos sua boa vida! E saudemos a promessa de paz que ele carrega!... Mas me diga, Cignus, quem ficará com ele?
¬ Phoenix, Mestre. — respondeu como se fosse óbvio. — E ele está encantado! Nunca vi ele tão carinhoso e bondoso como agora! Só que ele não sabe o que fazer e quer ajuda!
Entendeu as intenções do mais novo na mesma hora. Olhou para o companheiro, que sorriu disfarçadamente ao mirá-lo de volta, e somente então voltou a atenção para o jovem a sua frente dando risada.
O loirinho pareceu se ofender um pouco apesar de não entender a razão do riso, mesmo assim permaneceu em silencio e esperou o mais velho terminar sua graça.
¬ Já entendi suas intenções! Você quer ficar pajeando o pequeno Andrômeda! — disse sorrindo ao passo que o mais novo corava. — Pois bem, o dispenso de seu treinamento de hoje para ajudar Phoenix e adular Andrômeda. Mas nem pense em me enganar para passar o dia de barriga para cima, pois se eu descobrir as coisas vão ficar muito feias para você! Entendeu?
¬ Sim, Mestre! E obrigado Mestres! — disse todo feliz antes de sair correndo.
¬ Não esqueceu nada? — inqueriu o silencioso ruivo.
Na mesma hora o rapaz travou e girou sobre os calcanhares para voltar em passos largos, pela cara que fazia ele quase tinha cometido um crime ou pecado. Os mais velhos apenas aguardaram pacientemente o seu retorno.
O pequeno ajoelhou na frente de ambos e cada um deu um beijo em seus olhos e testa, logo ele levantava sorridente e disparava atrás dos irmãos.
Era assim mesmo, quanto mais velho ficava mais esquecia de coisas tão simples e corriqueiras quanto uma benção.
¬ Daqui a pouco ele nos trata por TU e não por VÓS. — comentou o ruivo enrolando o pergaminho.
¬ Ele está crescendo. Queria o que? — respondeu voltando a deitar a cabeça no colo alheio. — Estou incomodando?
¬ Eu teria te jogado no chão se fosse o caso. — respondeu se reclinando um pouco.
¬ Mas já estamos no chão. — deu risada.
¬ Gramado. — corrigiu voltando uma das mãos para o cabelo claro. — Mas me diga, o que você supostamente sonhou? Agora me deixou curioso.
¬ Com o que sonhei? — perguntou-se aproveitando o carinho e dando um enorme sorriso. — Eu sonhei com você.
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