Frankenstain

38 Verão de 1856


Notas iniciais
Eu pretendia fazer um romance a mais entre os Descendentes, mas ele não encaixava de jeito nenhum, fiquei batendo a cabeça por muito tempo e acabou que eu desisti :( Sorry!! Boa leitura :)

A primeira coisa que pensou quando descobriu foi apenas uma palavra.

Mentira.

Quase não reconheceu o terreno quando o avistou.

A casa agora era uma estalagem gigante, que ocupava boa parte do terreno e os estábulos eram o dobro de seu tamanho original. Um pequeno bebedouro para cavalos os recebia com certo charme, em seu topo uma coruja de asas abertas parecia uma mãe que os aguardava.

¬ Hospedaria Eule. – disse Camus praticando seu alemão. – Essa non é a casa dos meus avôs...

¬ Ah... É sim. – disse Milo descendo do cavalo.

O mais novo imitou seu gesto e desceu do animal, fazendo-lhe carinho enquanto este aproveitava a água fresca do bebedouro.

¬ Non parece ser muito movimentada. – comentou ao mirar a imponente construção de três andares.

¬ É muito movimentada. – remendou Milo pegando as bolsas presas em seu cavalo. – As paredes e portas da casa sempre foram grossas, justamente para evitar o frio e manter o calor das lareiras, por isso não ouvimos a movimentação. Mas a maçaneta está gasta demais, precisa trocar. – uma das coisas que melhor aprendeu com Virgo foi ser observador. – Na verdade ela já foi trocada antes. Essa maçaneta não combina com a idade da porta e nem com o material das dobradiças.

Quem disse que Milo não podia ser tão perspicaz quanto Camus?

Aliais Camus também notara algo importante enquanto ouvia o mais velho falar, ser observador já era algo de sua natureza.

¬ Tem casas na parte de trás do terreno. – colocou-se ao lado do loiro. – O cheiro que o vento trás é de um prato normal do dia a dia, non de uma hospedaria.

¬ Carne de bode com pão e arroz. – disse Milo com um sorriso. – Mas também sinto cheiro de dango.

¬ Dango? – não conhecia.

¬ Um doce do Oriente. – respondeu o abraçando discretamente pela cintura, por baixo da roupa.

¬ Li Yang. – disse o ruivo sorrindo de leve pelo toque. – Faz sentido.

¬ Vamos entrar? – perguntou Milo. – Aqui temos que pedir permissão antes de seguir pro meu quarto no celeiro.

¬ Se ele ainda estiver inteiro. – brincou o mais novo.

A casa não mudara praticamente nada por dentro, apenas a disposição dos móveis e quadros, pois ainda tinha as paredes da mesma cor e a decoração no mesmo padrão. Talvez os quartos tivessem sido divididos em outros dois, afinal todos eram gigantes.

A porta não tinha nenhum sino para anunciá-los, mas havia um sobre uma escrivaninha alta que ficava frente à escada. Aquela era a escrivaninha de seu criador.

Camus seguiu para lareira, onde se encontrava os quadros da família, um pendurado na chaminé e os outros dois o ladeando.

O quadro central era de seus avôs. Dégel estava sentado na grandiosa poltrona da casa com o pequeno Zaphire no colo, de pé logo atrás da poltrona estava Kardia em sua melhor roupa e com ar servil, mas ainda alegre.

O quadro da esquerda era de seu bisavô. Radamanthys estava de pé, com a mão apoiada do ombro da esposa Pandora. Nos braços da moça estava um bebê de cabelos escuros, Dégel, e aos seus pés estava uma garotinha loira com um gatinho dos braços, Natassha.

O quadro da direita era de sua família. Seus pais estavam sentados em um pequeno divã com as mãos unidas em um gesto de carinho e respeito. No colo de Zaphire estava Krest com seus três anos e no de Serena estava Camus ainda bebê.

Sentiu-se um pouco triste com os quadros. Porque Milo não mereceu estar em nenhum deles?

E Milo, por outro lado, seguiu direto para a escrivaninha, onde tocou a sineta e esperou ser atendido.

¬ Estou chegando. – anunciou uma voz conhecida.

Os cabelos castalhos continuavam na altura dos ombros e a postura mudara um pouco devido a idade e o ventre inchado por uma nova vida.

Sorriu assim que concluiu quem era de fato, mas espantou-se um pouco por encontrá-la.

¬ Como vai Seika Stardust? – disse risonho.

A jovem deu um pulo, não falara o nome em momento algum. Mirou o recém-chegado com mais atenção e pousou a mão no peito ao reconhecê-lo.

¬ Milo? – a jovem ainda estava espantada. – É você mesmo?

¬ Quem devia perguntar isso sou eu. – disse risonho.

¬ MILO!! – a moça deu a volta na mesa e o abraçou.

Mal conseguia respirar de tão apertado que estava o abraço, dava para sentir o bebê chutar contra a barriga da mãe, como se compartilhasse da mesma animação.

A moça dava pulinhos dentro do abraço, ria e enchia o rosto do loiro de beijos. Não mudou nada, continuava a mesma criança em corpo de gente grande.

¬ MESTRE CAMUS!! – só assim para lhe soltar.

A moça fez com o ruivo o mesmo que fez com Milo, a diferença é que Camus era mais travado justamente por ter um pouco de dificuldade em expressar o que sentia, mas estava tão feliz quanto.

¬ Seika! Tudo bem ai? – um rapaz apareceu preocupado. – Mulher o que está fazendo com os clientes?!

¬ Olha para parede que você vai entender! – disse a moça toda feliz, balançando de um lado para o outro sem soltar o ruivo.

O rapaz lançou os olhos para a parede rapidamente e entendeu no mesmo instante. Aqueles eram os verdadeiros donos da casa. Aqueles dois eram as pessoas que lhes deram uma morada e vida digna perante a sociedade atual.

¬ Desculpe. – disse Milo. – Mas você seria...?

¬ Tohma Li Yang. – respondeu. – E você?

¬ Milo Dilitírio. – sorriu gentil.

¬ E o que vem tratar? – volveu o mais educado possível. – Não vieram tomar as terras que nos foram confiadas, certo?

Milo lançou um olhar rápido para Camus, este bastante ocupado dando atenção para Seika quando ela o soltara um pouco. Estava distraído e isso era bom naquele momento.

¬ Podemos nos afastar um pouco? – pediu. – Sobre que venho tratar não é algo que desejo que ele saiba.

¬ Tudo bem. – o chamou para junto da escrivaninha e assim poderia ir os cadastrando enquanto falavam. – Agora diga, o que é tão perigoso assim para que ele não possa saber?

¬ Have vos umquam senserit mundus? – Você já sentiu o Cosmo?

O rapaz se assustou com a frase solta simplesmente do nada e em tom baixa, realmente não estava esperando por aquilo, mas recobrou a postura em pouco tempo.

¬ Quod lux sapientiae dirigendos pedes nostros. – Que a luz da sabedoria nos guie. – O que você quer conosco? O Santuário te enviou?

¬ Sim, o Santuário me mandou e eu preciso falar com os Wánax. E já sei que você é um, seu cosmo é grande demais para ser alguém normal. – olhou-o no fundo dos olhos e depois mirou o ruivo mais uma vez. – Mas falaremos em outro momento se não for incomodo.

¬ Tudo bem. Reunirei os demais e amanhã cedo conversaremos, acredito que o sono bastará para distraí-lo. – respondeu o mais novo após mirar Camus com mais atenção e terminar o cadastro. – Mas não pode esconder pra sempre, ele está prestando mais atenção do que imagina.

¬ Vou me atentar neste caso.

Aquilo era uma promessa, não uma resposta.

Era noite quando chegaram e precisavam descansar, deixaria a conversa com os Wánax para o dia seguinte, até porque sabia que estes estariam jantando com suas famílias e não queria incomodá-los, sem contar que ainda tinha Camus para lidar.

¬ Seika non estava brincando afinal. – disse Camus risonho.

¬ Meu quarto... – choramingou Milo.

O quarto de Milo na parte de cima do celeiro tinha sido expandido e transformado em uma cabine de telegrafo por ficar mais próxima dos postes. O telegrafo ocupava boa parte do lugar e os moveis que um dia pertenceram à Milo estavam todos empilhados num canto e cobertos por uma lona.

¬ Meu quarto... – continuava a choramingar.

¬ Ora vamos! – disse Camus tentando animá-lo. – Arrumamos as coisas do melhor jeito possível e dormimos. Non precisamos de luxos, tanto que dormimos ao relento por dois dias e ainda quisermos ficar no seu velho quarto. – puxou-lhe pela orelha e depositou um beijo em seu rosto. – Somos sobreviventes e non almofadinhas.

¬ Mas não precisavam fazer isso... – emendou ainda em choramingo. – Se aumentaram o espaço, era só dividir os cômodos.

Camus apenas pegou todas as bolsas e as deixou num canto junto a entrada, trancou a porta que levava para o lugar e empurrou Milo.

¬ Camus! – brigou quando recuperou o equilíbrio.

¬ Vamos! – respondeu com um sorriso, lhe dando mais um empurrão. – Me ajude a arrumar a cama, quero ter tempo de dormir!

¬ O que pode te privar do sono? – começou tirando a mesa de cima da cama.

Camus não respondeu de imediato, ajudou Milo com os móveis e bateram no colchão para tirar o pó antes de estenderem os lençóis.

Com tudo pronto para dormir foram trocar as roupas do dia por roupas mais apropriadas, um de costas para o outro por uma questão de respeito, mas o jovem Camus estava cansado daquele respeito.

¬ Camus! – claro que se assustou ao ser derrubado na cama.

¬ Cansei de você ficar me guardando. – realmente gostava de ficar sobre o mais velho, ainda mais quando ele estava sem camisa. – Três meses sem nada mata qualquer um, sabia?

¬ Você estava de luto. – rebateu tentando se soltar.

O mais novo apenas foi deitando sobre seu corpo, apoiando as mãos em seu peito e deitando a cabeça nelas, o olhar que lhe dirigia mostrava que era um ser completamente diferente entre quatro paredes.

¬ Uma hora o luto acaba e seguimos em frente. Vou sofrer por muito tempo pela falta de meus pais e de meu irmão, mas isso non me dá o direito de negar-lhe. – o beijou e sorriu ladino. – Vamos Milo... Non te custa nada me deixar mais feliz... E assim até parece que está fugindo de mim...

¬ Se você tivesse a mínima ideia do quanto eu te amo e desejo nas horas mais inadequadas, não estaria falando isso. – respondeu o mirando mais intensamente.

Puxou o mais velho de encontro a si, invertendo as posições sem grandes dificuldades e puxando a barra de sua calça como se brincasse com o tecido e não como quem quer tirá-lo, talvez fosse isso mesmo, uma provocação.

¬ Enton porque non tratamos de aplacar um pouco desse fogo? – puxou-lhe para um novo beijo. – E se ficar enrolando já sabe o que eu faço... – mordiscou-lhe o lábio.

Milo se afastou um pouco, nos olhos havia uma mistura de fúria e desejo, e Camus até que gostava daquele olhar; sentindo uma de suas mãos ser presa com firmeza ao mesmo passo que sua calça era retirada com certa urgência.

¬ Não ouse me atiçar e fugir! – respondeu a ameaça em igual nível, colando os quadris e fazendo-o sentir seu desejo. – Agora que pediu vai ter e não queira saber o que acontece se tentar escapar.

O ruivo gemeu em resposta, chegando a arquear o corpo com o estimulo, e soltou um pequeno riso ao envolver os ombros do loiro com a mão solta.

¬ Eu gosto quando perde a razão. – esfregar-se no corpo acima.

¬ E quem será que me tira a razão?! – o calou com um beijo.

Quase viraram a noite dessa forma, aplacando a saudade entre os corpos, acabando com o desejo latente dos instintos e trabalhando o amor com os pequenos gestos de carinho.

Dormia profundamente com os cabelos rubros espalhados pela cama, chegando a sair dela, e a pele clara reluzindo pela pouca luz que entrava.

Apenas fazendo amor para ele se privar do sono como fizera aquela noite, certamente acordaria tarde por conta disso.

Milo apenas beijou-lhe a face e ficou fazendo um leve carinho com a ponta do nariz por um tempo.

¬ Eu te amo. – sussurrou bem próximo de seu rosto.

Camus se remexeu com um pequeno sorriso, talvez tivesse ouvido, e voltou a dormir sereno.

O mais velho apenas terminou de se vestir e saio para falar com os Wánax, combinaram de se encontrarem cedo afinal de contas.

Os quatro homens já o esperavam na frente da lareira principal, onde residiam os quadros da família, e um deles fazia uma cara de sono que dava muita pena.

¬ Desculpem meu atraso. – pediu um tanto constrangido.

¬ Não, imagine. – disse Tohma com um sorriso gentil. – Chegamos praticamente agora, não precisa se sentir mal.

¬ Seika fez café para nós. – comentara o mais velho deles lhe oferecendo uma xícara. – Por favor, sirva-se.

¬ Obrigado. – aceitou com um sorriso. – Desculpe tê-los tirado da cama tão cedo, mas realmente precisamos conversar.

¬ Então, por favor, não nos mate de curiosidade. – brincou um dos mais jovens.

Milo sorriu com aqueles pequenos gestos de hospitalidade e logo se colocou a falar tudo o que era necessário e perguntar tudo o que lhe intrigava, isso naturalmente levou algumas horas.

¬ Me deixou sozinho. – sentiu um peso em suas costas.

Já era perto do horário do almoço e estava sentado em um banquinho, esculpindo um cavalinho de madeira para o bebê de Seika.

¬ Ficar sentado nas minhas costas não vai mudar nada. – respondeu risonho, sentindo o mais novo se afastar. – Acordou quando?

¬ Já faz um bom tempo. – respondeu se abaixando para ver o que fazia. – O que faremos agora que encontramos seus amigos?

¬ Eu gostaria de ficar aqui mais um pouco. – parou o que fazia para mirá-lo. – Não quer ficar mais um pouquinho antes de voltar?

Camus apenas sorriu e sentou-se ao seu lado, querendo ver como ficaria o cavalinho de madeira que o mais velho esculpia.

Tinha sido apresentado formalmente aos quatro Wánax aquela manhã.

Sisífo Gladio Centturion era o Wánax de Sagittarius.

Regulos Gladio Centturion era o Wánax de Leo.

Tenma Stardust era o Wánax de Pegasus.

Tohma Li Yang era o Wánax de Aquila.

Os quatro estavam envolvidos, ou melhor, interligados de alguma forma, fosse por motivos de sangue ou motivos matrimoniais.

Juntos, eles formavam a mais forte família de Descendentes que Milo conhecera até então, chegando a ser, em sua opinião, a personificação da frase “A união faz a força”.

¬ Eu gostaria de viver aqui novamente. – disse o loiro começando a esculpir a crina. – Você não?

¬ Non me falta a vontade. – disse deitando a cabeça em seu ombro. – Me sinto em paz aqui. Podemos morar aqui um dia?

¬ Longe de preconceitos. Longe da opinião de estranhos. Longe de uma vida de aparências. Longe do que nos deixa infelizes. – listou encostando a cabeça na do menor. – Parece uma excelente ideia.

Ali não tinha preconceito, ali as pessoas davam valor à voz do coração. Então não precisavam se preocupar em esconder essas demonstrações de carinho, pois ali era aceito e até mesmo admirado em certo nível.

¬ Enton quando eu acabar meu serviço militar, vamos nos instalar e viver por aqui. – beijou-lhe o ombro com carinho. – Estou ansioso.

¬ Eu também. – sorriu com carinho.

As famílias não seriam mais reunidas em torno de Paris, agora elas ficariam instaladas ali, aguardando serem chamados por seus senhores.

Aquele lugar viraria uma espécie de posto avançado e por isso os Wánax já estavam se organizando para a chegada de novas pessoas.

Quando chegasse a hora, estariam todos prontos e unidos para enfrentar as dificuldades do amanhã, mas por hora preferiam aproveitar a paz momentânea.

Milo apenas torcia para que o futuro fosse bom e lhe deixasse viver em paz com quem amava.

¬ IDIOTA!!

Regulos e Tenma passaram pelos dois brigando, Seika ia logo atrás tentando apartar a discussão iniciada por razões tolas. Camus deu risada ao ver aquela cena.

¬ Gostei deles. – comentou sorrindo. – Eu definitivamente quero viver num lugar como esse.

Notas finais
Agora mimir porque eu sou de ferro, mas também quebro XP Espero que tenham gostado :) Bjs. L ;3