Frankenstain
39 Inverno de 1857
Notas iniciais
¬ Camus vai ficar furioso quando descobrir que partiu sem ele. – disse a anciã com um mínimo sorriso.
¬ Acho que ele vai ter que me perdoar desta vez. – respondeu gentil. – Deixei um bilhete antes de sair e me despedi adequadamente, ele não pode ficar bravo comigo.
¬ Diga isso ao coração jovem e apaixonado dele. – volveu a senhora.
Atualmente estava de passagem pela Hospedaria Eule para notificar Tohma da chegada de novos Descendentes e partir logo em seguida em busca dos mesmos nas Américas, mas também estava lá para se aconselhar com a “mãe” de coração.
¬ Srta. Sasha... – suspirou. – Queria que fosse mais fácil.
Era uma mulher centenária agora e também era muito respeitada dentro da família Stardust, sempre dava a última palavra dentro da família e não importava qual fosse o assunto, o que ela falava era lei.
¬ Deveria contar para ele então. – disse a senhora. – Minha família me contou quando eu ainda era muito pequena e eu consegui conviver normalmente com meu dever sagrado, assim como meu filho e minha neta, que no ventre leva o herdeiro de Stardust e Gladio Centturion.
¬ Eu tenho medo. – baixou a cabeça. – Sinto que meu coração vai se consumir se algo acontecer com ele! Sem contar que não é tão fácil assim! Como posso contar algo assim para ele?! Vai pensar que estou louco!
A família Stardust séculos antes tinha recebido uma missão muito importante de seu Senhor Pegasus, cuidar dos Descendentes restantes de Scopius e Aquarius.
A família Real então se responsabilizou e se dividiu para atender ao pedido de seu Senhor, uma parte continuou a cuidar da família inteira e a outra parte foi servir os Descendentes dos Santos banidos.
Ao contrario das famílias Dilitírio e Aquarion, a família Stardust continuou sabendo de sua origem, continuou ensinando seus filhos e continuou a cumprir com seu dever sagrado.
Isso até o dia em que um novo servo de Athena se pós a cargo de velar por aquelas famílias. Milo era o melhor e mais indicado para tal tarefa.
¬ Introduza-o aos poucos nesse mundo. – respondeu a senhora. – Não pode esconder isso para sempre, ele merece saber o que você faz quando longe e merece mais de sua confiança.
¬ Eu confio cegamente no Camus! – respondeu sentindo vontade de chorar. – Eu sei que não contar é como se eu não confiasse, mas eu não suportaria perdê-lo para está vida. Eu não suportaria vê-lo lutar e se ferir numa guerra que não é dele.
¬ Essa guerra não pertence a nenhum de nós. – disse a mais velha. – Mas cá estamos lutando nela. Camus é um Santos desonrado, é um Puros torto, é um Descendente sagrado. Não pode esconder para sempre. O que ele é não permitirá que esconda para sempre.
Milo desviou o rosto com a mandíbula travada. Odiava ficar entre a cruz e a espada, mas cá estava agora.
¬ Não sei o que é mais difícil. – comentou triste. – Mantê-lo vendado ou nos escondermos.
¬ Já sabe que aqui não teria problema com nenhum dos dois. – disse a senhora.
¬ Eu sei. – fechou os olhos para que as lágrimas não saíssem. – Mas eu tenho tanto medo...
Entre os Descendentes não existia preconceito algum.
Eles compreendiam que seus corpos eram passageiros, mas a alma era eterna. Eles compreendiam que a religião era a mesma, só mudava o nome e alguns detalhes. Eles compreendiam que a pele podia ser diferente, mas continuavam a serem iguais. Eles compreendiam que a língua podia ser diferente, mas os sentimentos eram os mesmos.
Os Descendentes também não viviam vinte e quatro horas em prol dos seus Senhores, eles tinham suas próprias vidas e suas próprias obrigações. Atendiam sim os seus Senhores e eram extremamente leais, mas nada comparável a uma freira ou frade.
Se pudesse viver com Camus em meio aos Descendentes, sua única dor de cabeça seria evitar conversar cujo assunto era o Santuário.
¬ Devia acreditar mais na força dele, Milo. – disse a senhora sorrindo. – Ele é muito mais do que você imagina.
¬ Eu sei. – respondeu num suspiro. – Mas eu só estou tentando pensar no bem dele.
¬ Eu sei que está. – volveu fazendo carinho em seu rosto.
Milo a fitou triste, perdido, desesperado. Amava o ruivo de uma forma que não sabia nem descrever e queria o melhor para ele, perdê-lo por descuido, por deixá-lo saber e se envolver naquele mundo de perigos, destruiria seu coração e queimaria sua alma.
¬ Eu morreria de tristeza se o perdesse... – dizia com as lágrimas de sangue escorrendo por seu rosto.
¬ Vou lhe dar um conselho, Milo. – disse a senhora secando suas lágrimas. – Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar. Ame-o Milo com todo seu coração, mas não minta para ele.
Milo sentia seu lábio tremer como se sofresse com o frio, seus olhos queimavam como se algo tivesse os acertado e o peito doía como se tivesse sido atravessado.
A senhora estava em sua cadeira de balanço, fazendo carinho nos fios loiros daquele que chorava em seu colo, perdido como uma criança.
¬ Por mais dolorosa e perigosa que possa ser a verdade, mostre-a e cuide dele. – disse beijando sua cabeça. – O amor de Camus não vai diminuir e muito menos aumentar por isso, no máximo ele vai ficar muito irritado pelo tempo que demorar para contar, mas ele nunca vai deixar de te amar.
Agora urrava entre lágrimas com escolha tão cruel, pois queria ser honesto com quem amava, porém tinha medo do que a honestidade podia trazer de mal para suas vidas.
¬ Quando o amor quer falar, a razão deve calar. – disse a senhora sem parar o carinho.
Pintam o amor como cego e com asas. Mas sabe o porquê?
Cego para não ver os obstáculos e com asas para transpô-los.
E ao amor de Milo faltava apenas a coragem.
A coragem de amar por completo, a coragem de permitir-se amar por completo, a coragem de deixar a pessoa amada lutar ao seu lado.
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