Frankenstain

22 Verão de 1841


Notas iniciais
E o Camus crescendo hihihi Boa leitura :)

Só existem duas coisas que deixavam Milo louco.

A primeira era ouvir o monologo de Serena sobre como devia cuidar de Krest e Camus, como se ele nunca tivesse visto uma criança antes.

A segunda era ouvir o monologo de Serena quando realmente falhava em cuidar de Krest e Camus, ai sim ela se achava no direito de dizer diretamente que ele nunca tinha visto uma criança na vida e que não sabia cuidar de uma.

¬ O que eu faço com vocês dois, hã?! – sua voz era pura irritação.

Zaphire estavam fazendo mais uma viagem desgastante e deixara os meninos na casa do pai.

Até ai tudo bem.

O problema era outro.

Estava do lado de fora com os dois meninos, mais especificamente, junto ao rio que cortava a propriedade.

A bacia de madeira estava cheia de água e do lado dela estavam os mais variados frascos de remédios, além de alguns baldes cheios.

Os meninos estavam usando apenas as calças e permaneciam de cabeça baixa, sabiam que tinham feito errado.

¬ A mãe dos dois vai me matar! – continuava a reclamar. – E ela não vai apenas me matar! Ela vai me matar com requintes de crueldade!

Tinha prendido o cabelo com um pano e esfregava a cabeça de Krest igual louco enquanto Camus esperava sua vez enrolado numa toalha.

O que estava fazendo pesava o coração.

Podia estar furioso com os meninos por terem lhe desobedecido, mas isso não queria dizer que estava gostando do que fazia, aquilo não era uma vingança afinal, aquilo era um castigo.

E um senhor castigo, ainda mais para meninos como eles que tinham um padrão de vida alto. Iam ser motivo de risos!

¬ Vocês podem falar o que quiser para mãe de vocês! – continuava a esfregar o coro cabeludo do mais velho com força. – Mestre Dégel pode falar o que quiser também! Mas quem vai ouvir vai ser EU!!

Estava muito irritado, muito irritado mesmo.

Só não sabia dizer ainda se sua raiva era com os meninos ou com o que tinha que fazer com eles.

¬ Está machucando Milo... – choramingou Krest.

¬ Quieto e tampa os ouvidos! – jogou a água de um dos baldes na cabeça do menino. – Agora evita se mexer.

Apanhou a tesoura e começou a cortar os cabelos do menino. Mecha por mecha os fios iam caindo na água da bacia ou no chão mesmo.

Começou a ouvir o menino chorar, aquele característico som de quem está chorando, mas quer ser forte até o fim.

Claro que seu peito pesou, só que não podia parar.

Quando os fios escuros já estavam bem curtos, apanhou a navalha, esfregou algum sabão na cabeça do menino e passou a raspá-la.

Ouviu um soluço e por pouco não começou a chorar junto do menino.

Krest e Camus tinham cabelos lindos.

O cabelo de Krest era da cor do carvalho trabalhado e Camus tinha cabelos cor de sangue, eram cabelos lindos e bem cuidados.

Doía ter que raspar a cabeça dos meninos, mas era um mal necessário.

Milo os tinha levado na cidade, como costumava fazer com o pai deles. A diferença era que o pai dos dois ouvia quando Milo falava.

Ele fora bem claro. Não mexam com os cães da cidade, porque doenças e parasitas para eles carregarem não faltam.

E agora os meninos experimentavam a amarga consequência de sua desobediência. Eles estavam com piolho, sorte que era só piolho.

E ter piolho, ter a cabeça raspada, era coisa de crianças pobres, de crianças que não sabiam se portar e muito menos interagir com a sociedade. Ter piolho era a maior vergonha possível para os meninos de classe abastada, pois viravam motivo de piada das outras crianças e fofoca para os adultos.

Krest só saio com a cabeça raspada e cheia de remédios pra matar o parasita.

¬ Seque-se. Troque a calça molhada. E vai perguntar para Mestre Dégel qual o castigo por não me ouvir. – apontava na direção da casa.

O menino o obedeceu e seguiu para casa coçando a cabeça e choramingando baixo.

¬ Próximo. – chamou.

Camus mantinha a expressão fria e dura, o menino era inabalável, mesmo frente a vergonha social.

Deixou a toalha no ombro de Milo e entrou na bacia com os braços cruzados e uma expressão de raiva.

¬ Não faça essa cara. – brigou o maior. – Eu disse que não era para mexerem com os cachorros da cidade.

O menino não lhe respondeu, apenas empinou o nariz e desviou o rosto de forma esnobe.

Milo apenas suspirou. Orgulho não é algo fácil de lidar.

Repetia o mesmo processo com o mais novo, esfregando o coro cabeludo pra tirar a sujeira e alguns dos parasitas no processo.

Suspirou triste quando jogou água nos cabelos ruivos e lisos do menino, vendo-a escorrer lentamente, dando a impressão de que realmente o cabelo do mais novo era feito de sangue.

¬ Um cabelo tão lindo. – pegou a tesoura com certo nível de remorso. – Chega a doer no coração.

¬ Enton non corte! – revidou o menino em francês quando viu a primeira mecha cair.

¬ Tem que cortar Camus. – volveu paciente apesar da voz ainda se mostrar irritadiça. – O cabelo dificulta pra achar e matar os piolhos. Se vocês tivessem me escutado eu não estaria tendo que cortar o cabelo de ninguém.

Camus apenas encolheu os ombros e baixou a cabeça, seu corpo tremendo como que por frio, mas aquilo estava longe de ser frio, aquilo era raiva pura.

¬ Agora não se mexe. – disse Milo apanhando a navalha.

O mais novo então, num rompante de raiva, apanhou um dos baldes e atirou em Milo antes de sair correndo.

¬ Ai! – segurou a mão com força, deixando a navalha ensanguentada cair. – CAMUS!!

O menino nem olhou, só continuou correndo.

Milo chiou.

Camus não só o molhara com o balde, também o fez se cortar com a navalha. O corte em si não doía, mais valia pelo susto e pelo tanto de sangue que saia, porque dor mesmo Milo não sentia.

Acabou soltando o cabelo e usando o pano para estancar o sangue antes de ir atrás do menino. A camisa molhada pesava e acabou por tirá-la.

Logo estava à procura do menor, que não foi difícil de achar. Os fios rubros restantes o denunciaram no topo da macieira.

¬ Desça daí Camus. – pediu.

¬ Non! – respondeu se encolhendo.

¬ Não me faça ir ai te buscar. – volveu. – Vamos. Desça dessa árvore.

¬ Nem morto! – respondeu em francês.

Milo vendo que não ia adiantar começou a escalar a árvore, mas o machucado na mão começou a latejar e logo estava de volta ao chão.

Melhor outra abordagem.

¬ Eu sei que está envergonhado e triste Camus. – começou em tom paciente. – Mas isso é para o seu bem. Quanto antes resolvermos isso, melhor vai ser. Com sorte, quando você voltar a se apresentar em sociedade junto dos seus pais seu cabelo já vai estar grande outra vez.

¬ Você non sabe o que é ser chacota! – respondeu furioso. – Eu non quero que meus pais sejam motivo de chacota, pois a culpa é sempre dos pais. Se eu peguei piolho é porque meus pais foram descuidados. – a voz agora estava embargada.

¬ Camus. Por favor. Desça daí. – pediu. – Eu também não quero que essas coisas aconteçam, então vamos logo fazer o que se deve para que ninguém perceba depois.

O menino o olhou por cima do ombro, o olhar lacrimejante e repleto de raiva e vergonha.

¬ O que houve com a sua mão? – era detalhista por natureza.

Imediatamente cobriu o pano cheio de sangue.

¬ Nada demais. – apressou-se em responder. – É apenas um corte bobo que fiz com a navalha, um descuido que tive antes de vir atrás de você.

¬ Mentira! – rebateu o menino se virando para encará-lo. – Fui eu quem te cortei non é?!

Milo ficou constrangido na mesma hora.

¬ Foi. – respondeu em tom baixo.

Um clima bastante desconfortável se instalou entre os dois.

Milo se sentia triste e culpado por saber que os meninos iriam ser motivo de risos na sociedade. Camus se sentia culpado e arrependido por sua rebeldia e por ter machucado Milo.

¬ Vamos fazer um acordo. – disse o mais novo, atraindo a atenção do maior. – Eu deixo que termine de raspar minha cabeça e passar os remédios se me deixar cuidar de sua mão. Pode ser?

Milo apenas sorriu e estendeu os braços, sentindo Camus cair em seu abraço logo em seguida.

Não muito depois estavam de volta. Agora Milo passava os remédios na cabeça raspada do menor, que o mirava bastante curioso.

Então travou o corpo e os poucos pelos se arrepiaram.

Camus passou os dedos pela gigantesca cicatriz que cruzava seu tronco, gerando pequenos choques pelo toque e levando todo sangue possível para o rosto do maior, tinha se esquecido de que ainda estava sem camisa.

¬ Que marcas são essas? – pergunto curioso, a mão ainda na cicatriz.

¬ Pontos. – respondeu engolindo seco e voltando a tarefa de passar os remédios. – Eu tive todo meu corpo costurado. Mas agora esses pontos são mais sutis, já foram bem mais proeminentes e bastante feios, não passam de cicatrizes bobas hoje.

O menino se afastou e saio da bacia quando o mais velho deixou, se enrolando na toalha que este lhe estendia.

¬ Por que você foi todo costurado? – ainda estava curioso.

Milo suspirou enquanto recolhia as coisas, não queria responder.

Terminou de arrumar tudo e deixou que o mais novo cuidasse do corte em sua mão, os toques eram tão sutis que mal os sentia.

¬ Por que você foi todo costurado? – insistiu.

¬ Porque eu nasci de um jeito muito diferente do seu. – respondeu.

¬ E como você nasceu? – queria saber.

Negou-se a responder por longos minutos, mas a insistência de Camus acabou por rendê-lo.

¬ Eu não fui gerado no ventre de uma mulher, nem mesmo vim chorando ao mundo e muito menos fui amado por aquele que seria o meu “pai”. – contava com o olhar um tanto distante. – Não. Eu sou muito diferente, Camus. Eu fui tirado do ventre da terra, jogado, costurado e forçado à vida. Meu criador, o pai de Mestre Dégel, seu bisavô, diria que eu sou um demônio andando como homem.

Camus o mirou assustado.

Pronto. Conseguiu afastá-lo por medo.

Desviou o rosto com um suspiro, só estava esperando o menino ir embora correndo de medo.

Mas surpreendeu-se ao sentir a mão do menor o puxar de volta, fazendo com que os olhares se cruzassem.

¬ Você não é um demônio. Você é melhor do que muitos homens. – ditou firme. – Você cuidou dos meus avôs quando eram meninos, você fez muito por minha avó e meu pai, você sempre ajudou minha família, você sempre zelou por nós. Alguém assim não é um demônio, é um anjo vestido de homem. – o menino então corou forte e o abraçou. – Você é um anjo, Milo. E não deixe ninguém dizer o contrario.

Milo apenas deu um mínimo sorriso, surpreso pela conclusão do menor, e correspondeu ao abraço.

¬ Obrigado Camus. – respondeu com o coração a palpitar.

Notas finais
Espero que tenham gostado :) Bjs. L :3