Frankenstain
23 Outono de 1841
Notas iniciais
Como sempre, entrava sem bater.
¬ Bom dia!
Kardia ainda estava doente, muito doente, e Milo vivia a visitá-lo, tentando levar alguma alegria para o escorpiano.
¬ Que bom que você chegou! – Kardia sorria de orelha a orelha. – Me ajude a levantar!
¬ Hã?!
¬ Me ajude a levantar! – sorriu – Me sinto como um menino e quero levantar! Passar meu dia bom com minha família!
Não perguntou mais nada e muito menos falou, apenas sorriu e ajudou Kardia com sua loucura.
Aquele dia foi bastante divertido e alegre.
Kardia parecia nunca ter estado doente!
Dégel foi até parabenizado, seus esforços salvaram o homem que amava e agora este voltara a ser o mesmo brincalhão de sempre!
Kardia correu pelo jardim com os netos como se tivesse a mesma idade dos meninos, rolando na grama e rindo bobamente para o dia!
Era uma verdadeira criança em corpo de homem!
Fez brincadeiras com o filho e com a nora, mas principalmente com o filho, e conversou bastante com ambos!
Falaram de mil coisas em apenas um dia, teve até a impressão de que o dia foi estendido para que desse tempo de falarem tantos assuntos!
Dançou alegremente com todas as pessoas da casa quando Kouga e a filha inventaram de tocar violino para animar o jantar!
Engraçado mesmo foi ver Krest e Camus tentando ensinar Milo a dançar.
Passou o dia demonstrando seu amor por Dégel, mesmo que de forma discreta. Certamente daria um jeito de amá-lo aquela noite. Sorrisos a trocar não eram em nada raros!
Aquele dia Kardia bebeu, comeu, dançou, cantou, gritou, falou, sussurrou, amou, sorriu, chorou, odiou, brincou, assustou, riu, gargalhou, viveu! Aquele dia Kardia viveu!
Aquele dia Kardia viveu tudo o que muitas pessoas passavam uma vida inteira sem viver!
Aquele dia Kardia fez valer como nenhum outro dia!
Aquele dia Kardia fez sua família feliz!
Aquele dia Kardia foi feliz!
Aquele dia...!
¬ KARDIA!!
O urro desesperado de Dégel acordou a casa inteira. Em minutos todos estavam reunidos no quarto.
¬ KARDIA!! KARDIA!! ACORDE SEU MALDITO ESCORPIÃO!! KARDIA!!
Dégel chacoalhava o corpo em verdadeiro desespero e aflição. Não importando o quanto gritasse, batesse e chorasse, o mais novo não movia um único músculo, que, aliais, já estavam rijos.
¬ KARDIA!! POR DEUS!! ACORDE!! KARDIA!!
No rosto pálido restavam os resquícios de um sorriso e a expressão de quem dormia tranquilamente.
¬ KARDIA!! NÃO ME DEIXE!! KARDIA!! MON AMOUR!! KARDIA!!
As lágrimas grossas do aquariano escorriam dolorosa e vagarosamente por seu rosto alvo antes de pingar no rosto do escorpiano.
¬ KARDIA!! KARDIA!!
¬ PAPA!! DEIXA O PATER DESCANSAR!! – gritou Zaphire aos soluços.
Milo acabou por ajudá-lo a afastar Dégel do corpo.
O mais velho protestava e chorava como nunca antes chorou na vida, pareciam que arrancaram algo de si.
Tenma foi às pressas chamar um padre.
Sasha teve se der socorrida pela neta, que além de tudo ainda foi fazer um chá para que o aquariano se acalmasse. A jovem garota não parava de chorar, mas não abriu a boca uma única vez.
Serena levou os filhos para longe, não querendo que continuassem a ver aquele cenário de dor e desespero. Mas isso em nada impediu que os meninos chorassem, eram muito apegados ao escorpiano.
Milo por outro lado ainda estava em estado de choque.
Aconteceu o que ele mais temia afinal. Morte.
Kardia Dilítirio
1766-1841
“Carpe Diem”
O céu nunca lhe pareceu tão negro enquanto desciam o corpo.
Não chovia, o céu estava limpo de nuvens e o sol brilhava, mas por alguma razão ele lhe parecia absurdamente escuro.
Olhava para os lados e só via a dor condensada nos rostos da família, eles sim podiam dizer que chovia.
Dégel havia chorado tanto, que suas lágrimas secaram e os olhos vermelhos saltavam, querendo chorar mais e sem poder.
Aquele homem já não sabia mais o que era realidade. Suas emoções, no mínimo, lhe sufocavam, seu mundo desabava. Será que saberia dizer o que aconteceu? Só lhe restou correr carregando os sonhos que foi perder na tempestade que chorou.
Teriam que se manter atentos com ele.
Zaphire tentava ser forte, ser tão forte quanto o escorpiano fora em vida, mas falhava miseravelmente e deixava as lágrimas escorrerem livremente, mas sem emitir um único som.
O mesmo valia para Kouga de cabeça baixa.
Serena, Sasha e Seika pareciam um trio de carpideiras silenciosas. Choravam rios de lágrimas, mas suas lamúrias eram mudas.
O coveiro e o padre não expressavam nada, apenas esperavam e assim seguia com o sermão. Deviam ter visto tantas cenas iguais que nem mais se afetavam.
E os meninos, segurando as mãos de Milo, choravam tão silenciosos quanto o pai.
¬ Milo... – chamou Camus, a voz claramente embargada. – Isso no seu rosto é sangue?
Soltou a mão do menino por tempo o bastante para tocar o rosto e averiguar a veracidade de sua pergunta.
Seus dedos estavam manchados de sangue, um sangue estranho da cor vermelha, mas que tinha um estranho brilho dourado.
Lembrou-se do que Cygnus lhe contara quando perguntou se Deuses e Santos choravam.
Eles choravam sim, mas choravam sangue.
Eles geralmente não choravam, mas quando isso acontecesse, era porque a dor era tanta que o coração deles sangrava e esse sangue escorria por seus olhos em forma de lágrimas.
¬ Não... São lágrimas... – respondeu voltando a segurar a mão do pequeno.
Dégel procurou a cura, mas só encontrou a causa.
Tudo que o escorpiano precisava era de algo para ditar o ritmo de seu coração, apenas isso. Algo que dissesse quando e como o coração deveria bater.
E mesmo assim aquele espírito de menino nunca foi abalado pela idade ou pelo coração doente.
Kardia permaneceu sorrindo de forma ladina até nos últimos instantes de sua vida.
Perguntava-se o que teria acontecido se tivesse negado a ajudar o azulado a levantar. Será que ele ainda estaria vivo ou teria morrido do mesmo jeito?
¬ Requiescat in pace. – declarou o padre.
Ficou assistindo o coveiro jogar terra sobre o simples caixão enquanto todos se retiravam.
Kardia viveu toda sua vida como se todos os dias fossem o último dia. Sempre falando e fazendo o que queria e como bem entendia, como se aquela fosse a única chance de falar ou fazer.
O escorpiano foi único para quem conheceu. Foi amado por quem conheceu. Foi bem quisto por quem conheceu. Foi feliz com quem conheceu.
Passou pela vida e levou um pouco de todos que conheceu, assim como deixou um pouco de si com cada um. Isso o tornava único e eterno.
Milo acabou sorrindo entre as lágrimas de sangue.
Théos fora tão bom com Kardia.
Deu-lhe a chance de aproveitar cada minuto de sua vida ao máximo. Deixando-o aproveitar ao máximo o tempo que restava.
Milo tocou a lápide com carinho e, contendo a vontade de soluçar, pousou uma Amarílis sobre a terra fresca.
¬ Adeus Kardia...
Levantou-se e foi juntar-se a família.
Pela primeira vez não colocou “Mestre” antes do nome e isso tinha uma razão.
O homem ali enterrado não era seu Mestre.
O homem ali enterrado era seu amigo, seu pai, seu irmão e seu filho.
O homem ali enterrado era o “Carpe Diem” personificado.
Kardia.
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