Frankenstain
56 Primavera de 1869
Notas iniciais
Era um tanto desagradável estar ali.
Honestamente, não sabia como tinha gente que se sentia confortável.
Os urros de homens bêbados eram ensurdecedores e viviam o tentando para loucura do momento, fazer o que afinal? Também era um homem e gostava de adrenalina.
A bebida, vomito e sangue se misturavam, criando um cheiro no mínimo enjoativo e nojento. Só pelo cheiro iria embora, ou melhor, não teria nem entrado no lugar.
As fieis serventes – não queria faltar com respeito – faziam de tudo para agradar seus clientes e por vezes vinham lhe irritar, mas logo eram dispensadas com sua pior cara.
E o som era de enlouquecer, agitado como um louco, ébrio como um bêbado e desafinado como uma gralha. Aquele som mais ajudava na loucura dos homens do que qualquer coisa.
Mas isso não é relevante.
Estava lá apenas para observar.
Estava lá apenas para zelar.
Viu o ruivo ser atirado ao chão por um soco violento e cuspir um pouco de sangue, com certeza não estava fazendo seu trabalho direito.
Só que também não precisava fazer seu trabalho direito.
O menor soltou um risinho e simplesmente derrubou o oponente com uma rasteira. O brucutu com quem lutava mal caiu no chão e já estava grudado nele, quebrando seu braço com uma chave e trincando suas costelas com a pressão que empunha com as pernas.
Conseguia ouvir os ossos se esmigalhando, aquilo lhe deixava meio enjoado, lembrava o som de pão duro se esfarelando.
Mais uma pequena sucessão de golpes bem aplicados e o gigante caia inerte, silenciando toda aquela agitação.
Parecia que tinham visto a luta de David e Golias, o que não deixava de ser, afinal o ruivo era esguio e um tanto fraco, enquanto que o Golias em questão era um muro.
¬ Em seis meses você fica bem.— disse cuspindo mais um tantinho de sangue e seguindo para os limites da arena clandestina.
O silencio reinava, todos ainda assimilavam o ocorrido.
Em compensação, nem mais se espantava.
O menor apanhou um pano qualquer para secar o suor, pegou suas fichas de aposta com o organizador e seguiu para o segundo andar para se trocar, tinha que ir para casa, estava tarde afinal.
Foi esperar do lado de fora, não queria ficar mais um único momento na parte de dentro, e não precisou esperar muito até que o ruivo saísse com sua farda completa.
O viu selar o cavalo, montar o animal e partir como se não tivesse feito nada demais.
Primeiro o álcool.
Agora as apostas.
Estavam evoluindo maravilhosamente bem, tinha que admitir.
Mas os vícios tinham origens diferentes, e dessa vez o ruivo queria apenas esquecê-lo, essa era sua certeza que não tinham sombra de dúvida.
Talvez o mais novo acreditasse que se batessem o bastante em sua cabeça seria capaz de esquecê-lo eternamente, mas até agora só tinha ganhado alguns galos e cortes bobos.
Disparou na direção de uma casa e começou a escalar sua parede de reboco com a facilidade de um lagarto. Parou no topo, parecendo quase hesitar e então sorriu antes de disparar novamente.
O menor não era burro e provavelmente sentiu-se observado.
Disparou pelas ruas com o cavalo quando virou a esquina, tanto que quando alcançou o telhado ele já estava longe.
Sorriu feliz por ver que nada no mundo tirava a sagacidade do ruivo.
Deu um salto poderoso num vazio negro como breu e aterrissou suavemente no telhado plano de um estabelecimento, nada o impediria de acompanhar o amado de perto, mesmo que esse perto fosse entre as sombras da noite e acima dos telhados.
Escondeu-se atrás de uma chaminé quando viu o mais novo chegar em casa, apenas quando ouviu os trincos da casa é que pode suspirar aliviado e sair de seu esconderijo.
¬ Você não devia estar aqui.
¬ Olá pra você também, América.— respondeu.
¬ Mestre Camus anda muito magoado.— disse a Kirin em sua forma real. – Não devia ficar o acompanhando até em casa, ele sente sua presença e fica ainda mais triste quando chega e percebe que o vazio retorna.
¬ Perdão.— pediu. – Mas vai estar me matando dessa forma... E à ele também.
¬ Então ao menos mantenha uma distancia maior.— cutucou-lhe com o focinho. – Não estou falando para deixar de zelar por ele, estou apenas pedindo que aumente a distancia.
¬ Meu medo é a distancia que ele está anulando.— suspirou.
¬ Era inevitável.— respondeu. – Ele é Aquarius, você é Scorpius. A luta, o dever, a justiça chama pelos dois. Mais cedo ou mais tarde ele faria parte desse mundo, e agora é esse mundo que faz parte dele.
Soltou mais um suspiro, um ainda mais triste e desanimado que o anterior, e fez um leve carinho na orelha da Kirin.
O medo da perda era terrível.
¬ Devia confiar mais nele.— disse sua companheira.
¬ Confio tanto que nem em casa estou.— respondeu sem parar o carinho.
Dali a pouco precisou voltar para o acampamento cigano, ou melhor, o assentamento recém estabelecido oficialmente com o nome de Gerberoy.
¬ Bem vindo de volta.— a moça tomava algo fumegante.
Ela tinha um instinto maternal sem igual.
O filho não era dela, às vezes ela nem conhecia a criança ou adulto, mas lutava e defendia como se fosse ela quem colocara no mundo.
¬ Não devia estar acordada.— não queria ser grosso, mas ela também já não era uma mocinha.
¬ Uma velha mãe coruja sempre será uma velha mãe coruja.— respondeu tomando mais um gole de seu chá. – Brigas clandestinas de novo?
¬ Pelo menos ele só fica nelas.— respondeu com um suspiro antes de sentar. – Alguma novidade?
¬ Nada importante.— respondeu servindo-lhe uma xícara do mesmo chá. – Os olhos viram o perigo. As mãos detiveram o perigo. E os ouvidos continuam atentos. Você precisa descansar também.
¬ Descansar é algo que só vou fazer quando Hades voltar para o Vazio. — comentou tomando um pouco do chá. – Quente... Mas já me ajuda muito saber que está tudo bem por hora.
¬ Você se sobrecarrega demais, parece até o Kagaho. — agora era ela quem suspirava. – Ele tem sido atormentado com grande frequência pela memória de Sui, não dorme direito, não come direito, se quer mais repara no olhar das moças. Apenas quer o mundo nos ombros e garantir o bem de todos sem lembrar o seu próprio. Preocupo-me com meu filho mais do que tudo, mas ele não me ouve mais, então espero que ao menos você ouça; devia tentar ser feliz Milo, as vezes, ser apenas feliz é o certo.
¬ Perdoe-me, Esmeralda. — estava compadecido e entendia perfeitamente sua frustração e conselho. – Mas só vou conseguir ser feliz quando tudo isso acabar.
¬ Ai é que está.— respondeu apoiando a cabeça na mão. – Isso nunca vai acabar. Ou você aceita e tenta ser tão feliz quanto puder, ou você se esconde e continua criando desculpas.
¬ Não quero ter essa discussão.— respondeu frio, se quisesse ouvir estaria se remoendo. – Alguma mensagem da Prússia?
¬ Nada desde três dias atrás.— não era de puxar briga. – Mas as fronteiras continuam bastante tensas.
Soltou um grunhido desgastado e tomou mais de seu chá, não queria nem pensar na Prússia.
Fazia um tempo razoável que a Prússia andava meio estranha.
Discursos nacionalistas capazes de deixar o falecido Napoleão com inveja, conquistas militares que deixariam o defunto com mais inveja ainda, política cada vez mais impecável e centrada, além de alguns movimentos suspeitos por debaixo dos panos.
E como se não bastassem esses burburinhos, França e Prússia nunca se deram bem, logo, o Imperador Francês querendo posar de bom líder ainda queria meter o nariz onde não era chamado.
¬ Eu estou apenas vendo o dia que vou ficar sem dormir por culpa da Prússia.— comentou.
¬ MILO!! MILO!! ONDE ESTÁ VOCÊ DIAVOLO!!
¬ Hum?— estranharam. – Quem é numa hora dessa?
Metade das pessoas tinham saído para ver o que se passava, muitas com cara de sono e enroladas em cobertas.
Um cavalo corria em círculos no centro do lugar e seu cavaleiro berrava à plenos pulmões, sua face de desespero era tão aflitiva que os poucos bebês que acompanhavam suas mães na investigação começaram a chorar.
¬ Mani!— correu até o italiano preocupado. – O que acontece?!
¬ Ma che cazzo?! MA CHE CAZZO?!! — revidou ainda mais aflitivo. – GUERRA, AMICO MIO!! GUERRA!!
¬ Guerra?!— queria tanto que fosse engano seu. – Como assim Guerra?!
¬ O porco roço francês declarou guerra à Prússia porque recebeu um belo dum FODA-SE ao se intrometer!— o coração do homem explodiria a qualquer momento. – E isso não é o pior!
O moreno levantou a aba da bolsa que o cavalo levava no lombo, era uma bolsa evidentemente pesada e de conteúdo importante e, no mínimo, perigoso para estar envolto em tantos panos.
¬ Al tem seus contatos e conseguiu uma para qur eu te mostrasse!— explicou aflito enquanto tirava tantos panos da frente. – Ele me mandou pra cá imediatamente após a declaração de guerra ser anunciada aos lideres prussianos! Consegui atravessar a fronteira antes que ela fosse fechada!
O que viu naquela bolsa era algo desconhecido para si, mas ao vê-la conseguiu sentir o próprio anjo negro rir junto a sua nuca.
¬ Theós nos ajude...
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