Frankenstain
57 Inverno de 1870
Notas iniciais
A política é uma guerra sem derramamento de sangue e a guerra é uma política com derramamento de sangue.
Uma política deveras cruel, afinal era declarada por ricos e empregada por pobres.
Pobres com sobrenomes e família, forçados a lutar uns contra os outros por razões egoístas de lideres mais egoístas ainda.
Vide Napoleão III, o imperador da França e sobrinho do verdadeiro Napoleão. Um idiota brincando de governante num teatrinho de sombras, sonhando com uma gloria maior que a do tio e sendo a piada de qualquer mente sensata.
É sempre assim, os anos lhe ensinaram.
A política da guerra te faz pensar que vai ganhar, te faz rir quando o inimigo se dá mal e te faz chorar quando percebe que todos perderam, independente de qual lado foi declarado vencedor.
Há quem diga que a guerra é a forma dos poderosos perderem o tédio; e, por mais ácida que fosse a opinião, estava começando a concordar.
Milhares foram obrigados ao alistamento e agora tinham que dançar conforme a música de tiros e corpos em queda.
Tiros de militares e alistados, mas corpos de inocentes.
¬ Vamos embora.— chamou o jovem indígena. – Aqui é lugar ruim.
¬ Ainda tem uma casa, Ibirajá. E seu irmão ainda está lá também.— respondeu pousando uma menininha junto da mãe.
Estavam em um morro distante da pequena vila em chamas. Veio o mais depressa possível quando soube do conflito travado num vilarejo de fronteira.
Podia não estar alistado e lutando entre as linhas de frente, mas nem por isso deixaria uma vida inocente ser perdida.
¬ Obrigada meu senhor...— a mãe chorava ao encher a filha de beijos. – Obrigada...
¬ Não precisa agradecer.— sorriu gentil.
O jovem índio então se aproximou da beirada do morro em que estava, vendo as chamas crescerem e ouvindo os gritos de soldados e pobres condenados.
¬ Guerreiros sem honra.— disse o rapaz. – Trouxeram guerra para mulheres e crianças.
¬ Não são as mulheres e nem as crianças deles.— respondeu se aproximando. – Eles não se importam.
O mais novo negou com um suspiro desanimado, ele não tinha raiva em seu ser, somente a pena.
¬ Vamos.— disse já se preparando para descer. – Ainda ouço grito de mulheres e crianças.
Assentiu e logo o estava seguindo para o meio das chamas.
Chamas implacáveis e ferozes como a própria guerra, que ceifava a vida de tantos filhos e filhas.
A diferença entre a paz e a guerra é gritante, afinal, em tempos de paz os filhos enterram seus pais e em tempos de guerra são os pais que enterram seus filhos.
¬ Alguma novidade?— perguntou preocupado.
¬ Nada.— a mais nova negou com um suspiro. – Matriarca morre um pouco por dia.
Kagaho estava desaparecido em combate e sua mãe chorava todo santo dia com a incerteza da vida e da morte, a cigana tinha apenas a índia taurina para consolá-la naquele momento de aflição e desespero.
¬ Ela é forte.— tentou amenizar a preocupação. – E Kagaho também é, sei que ele está por ai, esperando a oportunidade de entrar em contato.
¬ Ele ser bom homem e bom guerreiro.— disse baixando o rosto. – Espero que Mãe Terra não o tenha abraçado antes do tempo.
Pousou a mão no ombro da jovem e sorriu, mesmo sabendo que era contra os costumes da tribo dela um homem tocar uma moça sem serem casados, era óbvio que ela precisava de um apoio maior que meras palavras.
¬ Kagaho vai voltar, ele sempre volta.— disse gentil. – Ele sempre foi assim, ousa chegar onde ninguém mais quis, vai o mais longe impossível de casa, mas ele sempre retorna ao lar.
A mais nova sorriu em resposta, aquilo realmente a tinha ajudado a aliviar o peso que levava.
Mas isso não aliviava o peso de centenas de homens que se questionavam: Porque se matamos uma pessoa somos assassinos, mas se matamos milhares somos celebrados como heróis?
Grandes heróis como Regulus, gravemente ferido em um posto de fronteira e preso ao leito nas catacumbas de uma igrejinha prussiana. Ou então heróis como Sisífo, morto em combate ao tentar resgatar um companheiro ferido. Ou se não, heróis como Tenma, que continuava a mandar cartas em que descrevia as atrocidades que assistia ocorrer nas linhas francesas após o abrir fogo.
¬ Não consigo mais ler.— reclamava consigo mesmo por conta do enjoo.
¬ Deixa de ser frouxo.— reclamava o italiano ao seu lado. – Quis que as cartas dele chegassem até você, agora trate de ler todas.
¬ Isso é um massacre, não uma guerra!— rebateu. – Sinto-me lendo a descrição de uma tortura!
¬ Bem-vindo à escuridão humana que se esconde nas feridas da alma.— respondeu de braços abertos.
A alma possui muitos ferimentos, muitos deles com causas e profundidades diferentes. Muitos de origem física, mas que ainda sim conseguem ferir até mesmo o cerne humano.
A perna esquerda do italiano, por exemplo, teve os tendões rompidos por uma bala que o acertou quando tentava atravessar a fronteira a fim de reencontrar o amigo.
Manigold não foi abatido pelo ferimento, mas sim pela humilhação de ser abatido sem alcançar seu objetivo.
Se bem que em guerras objetivos são coisas supérfluas, tão supérfluas quanto as reclamações que são feitas todos os dias.
¬ Preferia ter perdido a perna.— rosnou se apoiando nas muletas.
¬ Agradeça por ter perna ainda.— respondeu o mirando da porta.
¬ Cazzo!— chiou. – De que adianta ter perna se ela não funciona?! Eu não aguento meu próprio peso, Milo!
¬ Mas sempre aguentou a vida. – rebateu. – Não importando o quão duro ela te batesse, você sempre aguentou a vida. E agora que ela te deu mais esse desafio, você vai mesmo passar o dia reclamando e se lamento? Jogando a culpa pra puta que te pariu? É isso mesmo que eu estou ouvindo, Manigold?
¬ Vaffanculo!— rebateu. – Foda-se a vida! Ela sempre me bateu e eu sempre bati de volta! Mas com a merda da perna assim, como eu vou levantar pra bater nela de volta?!
¬ Então trate de sair dessa merda de casa e dar um jeito na perna!— rebateu.
¬ Então sai da frente da porta, cazzo!
Só podia se contentar em ver o amigo melhorando com o tempo, mas se pudesse voltar no tempo, estaria lá para evitar.
Queria muito estar lá para evitar que tudo isso acontecesse, mas não pode evitar nada, se quer pode evitar a guerra de começar. O que podia fazer afinal?
Os homens não sabem.
Pensam que são donos dos próprios narizes, sendo que todos são os donos de seu nariz menos ele próprio.
Todos acham que estão tomando as próprias decisões, mas na verdade estão tomando as decisões bem aceitas pelos outros, mesmo que inconscientemente, mas estão tomando.
É muito raro ver um ser humano ser realmente dono de seu nariz, mas estas raridades não se encontravam nas cortes europeias.
Na verdade, mais se encontravam acéfalos fúteis do que pensadores em cortes. E esse é o caso de Napoleão III, que jurava ter iniciado a guerra por si próprio sem notar a pessoa que lhe sussurrava aos ouvidos.
Então podia caçar o responsável por tais sussurros.
Passou o último semestre caçando o Espectro responsável pelos sussurros da corte francesa; e o encontrou, entretanto, o maldito estava escondido na corte prussiana.
Tal fato o obrigou a passar a tarefa para Albafica, que agora nem dormia por correr atrás do culpado.
¬ Sabe ao menos dizer o nome?— perguntou com um suspiro cansado. – Palavras têm poder e nomes têm mais poder ainda.
¬ Ele tem atendido como Visconde de Malmö.— respondeu.
Conseguiu atravessar a fronteira pelos Países Baixos.
Não foi uma tarefa fácil e nem mesmo hercúlea, mas definitivamente foi trabalhosa, ainda mais que levava o italiano junto.
¬ Malmö?— o mais novo riu das maldades do destino. – A cidade do Grifo... Estamos enfrentando um Juiz do Vazio, Milo?
¬ Eu queria que não.— admitiu em um suspiro. – Só que não tem como chegarmos ao Príncipe do Vazio sem derrubar seus juízes antes. Até agora só encontramos este e acho que ninguém, nem mesmo eu, quer perder a oportunidade de acabar com ele.
¬ Primeiro que não é fácil devolver um Espectro ao Vazio.— respondeu. – As histórias dizem que os únicos mortais com facilidade para tal eram nossos senhores disfarçados de homens, e mesmo eles tinham seus problemas. Agora quero que você me diga como EU faria com um Juiz, Milo.
¬ Eu nunca lhe faria tal pedido se fosse impossível e, principalmente, perigoso.— estava visivelmente envergonhado. – Eu só tenho você livre da guerra e em território prussiano, não tenho mais a quem recorrer.
Estavam na área comum de uma pequena hospedaria, bem afastado dos demais e com Manigold descansando em um quarto acima de suas cabeças.
Sua situação era no mínimo desesperadora.
O mais novo acabou suspirando, compreendia muito bem a situação terrível em que se encontravam.
¬ Não se preocupe Milo.— respondeu o mais gentil possível, o loiro não era culpado de nada. – Eu vou saber me virar, sempre soube, e sei que meu senhor Pisces estará ao meu lado para ajudar na batalha. E... Agradeço muito por ter trazido Manigold.
¬ El Cid veio vê-lo enquanto se recuperava.— contou. – Trouxe um instrumento curioso para ajudá-lo a andar, ele chamava de Perna de Hephaestus.
¬ Uma perna de metal que compensa o andar, uma obra prima milenar dos Descendentes de Capricornus.— sorriu de leve. – Isso certamente vai ajudar muito, mas Mani é orgulhoso, não sei se ele vai querer usar uma coisa dessas.
¬ É orgulhoso, mas, rezemos, não é idiota.— volveu. – Ele vai acabar usando sim, bem capaz que apenas em momento de necessidade, mas vai usar.
¬ Certo, certo.— suspirou. – Aliais, não queria ser eu a dizer, mas não tem jeito.
¬ O que?
¬ Um de meus rapazes interceptou uma mensagem nas linhas francesas.— explicou. – E a mensagem dizia que 9° a 14° Cavalaria Real seriam mandadas.
¬ Obrigado e até mais ver, Albafica.
Era só o que lhe faltava.
Não lhe bastava apenas a guerra.
Não lhe bastava apenas os amigos que estava perdendo.
Não lhe bastava a situação difícil em que estava com tantos Espectros soltos.
Não lhe bastava saber que o garotinho sonhador do campanário agora era o Príncipe do Vazio.
Não lhe bastava saber que o escudo forjado enferrujou, se desfez em pó e não mais protegia quem amava.
Não lhe bastava saber que cinco das Cavalarias Reais estavam indo para guerra sem a certeza de um retorno.
Não lhe bastava saber nada disso.
Bastava-lhe apenas saber que a única pessoa capaz de fazer seu coração saltar era o maldito Capitão da 11° Cavalaria Real.
Jamais saberia dizer quanto tempo demorou a chegar, ou então dizer qual caminho tinha feito. Apenas sabia que quase derrubou a porta da frente ao entrar e que quase matou uma das cadelas, que saio correndo junto das outras.
¬ VOCÊ NÃO VAI!!
¬ Non tinha a necessidade de quase derrubar minha porta.— a resposta veio do batente da sala. – E o que faz aqui? Se veio desejar-me sorte e proteção, agradeço de coração.
¬ Não seja cínico Camus!— bradou. – Você não vai! Eu não quero e não vou deixar você ir!
Viu o ruivo abafar um riso desgostoso e debochado, a situação definitivamente não podia estar pior.
¬ O Imperador me chama para guerra. É meu dever atender seu chamado.— respondeu. – E quem é você para querer algo, Milo? Quando eu quis que você voltasse para casa, você simplesmente disse Non, deu-me as costas e foi embora, sumindo no mundo como já era de praxe.
¬ Você me mandou embora!— defendeu-se. – E como assim quem sou eu?! Realmente, eu não mando na sua vida, mas me importo com você!
¬ Mas você non precisava ter ido.— havia uma profunda magoa em sua voz. – E preocupa-se mesmo, Milo? Non é o que parece. Sempre fora de casa. Sempre em risco de morte. Sempre me escondendo a verdade. Isso non é se importar.
¬ Não vou discutir isso com você de novo!— respondeu. – Eu já te contei tudo! Você já descobriu tudo! Sigo este caminho a mais tempo do que você existe! Fiz o que fiz pra te proteger!
¬ Oui...— assentiu. – Me protegeu, agradeço. Mas tem um porém, você nunca deixou eu te proteger.
¬ Isso não é discutível!
¬ Como non?!— exasperou-se um pouco. – Non sou mais um garotinho! Sei me cuidar muito bem e já cansei de livrar a sua cara! E agora eu tenho esses poderes estranhos! Quando eu mais precisei da sua ajuda e quando eu mais queria mostrar que podia ficar ao seu lado, você simplesmente me deu as costas!
¬ Mas que merda, Camus!
Quando se deu conta, já estava sobre o menor.
Estava furioso!
Queria gritar o mais alto que podia, urrar para os céus como a vida era injusta e como queria que o tempo tivesse parado de correr nos dias alegres que passou com o menor.
Afastou as mãos dos ombros finos, horrorizado ao perceber que por pouco não o feriu em seu rompante de raiva. Tinha avançado com a intenção de brigar, de trocar socos e chutes com quem mais amava.
A que ponto tinha chegado afinal?!
Afastou-se, ainda sentado no chão, e se abraçou protetoramente ao desviar o olhar.
¬ É suicídio...— não conseguia prender as lágrimas. – O exercito prussiano tem armas novas... Nunca vistas antes... Se vocês seguirem os manuais de Napoleão vão morrer... Eu não vou deixar que você vá, Camus... Eu não posso... Não consigo te perder...
¬ E como são essas armas, Milo?— as lágrimas estavam entaladas na garganta do mais novo. – Se você contar pode fazer uma grande diferença... Podemos alertar o Imperador...
¬ Aquele louco não vai te escutar!— soluçou derrotado. – É um idiota com sonhos de grandeza... Brincando num teatrinho de sombras enquanto todos riem dele... Acorda... Essa história de nação e pátria só vai te matar... Quase matou seu pai... O Imperador não liga pra nada e nem ninguém... Ele só quer ser o tio dele...
O mais novo tomou a iniciativa e se aproximou, tomando o rosto entre as mãos e unindo as testas de forma fraternal.
Sentia uma vontade ainda maior de chorar ao perceber o quão perto estavam depois de tanto tempo longe.
Na verdade, ainda estavam longe.
Um abismo os separava e ainda sim tentavam se alcançar.
¬ Você tem o seu dever...— respondeu o mais novo. – E eu tenho o meu...
¬ Sua lealdade é com o povo, não com o império...— preferia ser rasgado em milhares de pedaços a sentir tamanha dor.
¬ Justamente por isso que vou para guerra...— respondeu.
¬ O povo não quer guerra...
¬ Mas precisa ser defendido dela...— soluçou. – Entendo o que sente melhor que ninguém... Apenas não chore...
¬ Então é isso que sente... Toda vez que saio por aquela porta?...— trincou os dentes, era um verdadeiro monstro.
¬ Sinto pior...— o ar pareceu sumir. – Mas... A dor sempre sumia...
¬ Não...— negava ainda mais destruído. – Não sumia... Como podia sumir?... Quando podia sumir?...
¬ Sumia quando você entrava por aquela porta...— respondeu apertando os olhos.
Negava desacreditado, estava preparado para tudo, menos para isso.
¬ Por favor... Eu imploro...
¬ Non posso...
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