Frankenstain
20 Primavera de 1839
Notas iniciais
Odiava ficar tanto tempo deitado ou sentado, era um atentado a sua pessoa mantê-lo naquele tipo de cativeiro.
Mas dessa vez ele nem reclamava tanto, era um mal necessário afinal.
O amado vivia para ajudá-lo e queria que aquilo acabasse logo, o aquariano tinha uma vida além de só ficar cuidando de si e sua saúde.
Discutiam quase todas as noites pelas mesmas razões.
Durma e coma igual gente, para de se afundar nos livros.
Pare de querer ser um menino, você não tem mais condições para isso.
Dégel, por favor, para de se forçar tanto.
Kardia, por favor, não finja que está tudo bem quando não está.
Dégel, você vai ficar doente assim!
Kardia, você vai morrer assim!
E faziam as pazes logo em seguida pelas mesmas razões.
Desculpe-me, estou sendo infantil, você se preocupa comigo e só quer me ajudar a melhorar.
Perdão, estou me desesperando quando não deveria e estou te preocupando quando não podia, sendo que você só quer meu bem.
Venha cá. Eu te amo.
Também te amo.
Era sempre as mesmas brigas e as mesmas desculpas. Aquilo era cansativo, se quer dormiam na mesma cama ou trocavam um beijo de boa noite, tudo porque o mais velho sofria de medo.
Incrível que ele nunca se pareceu com o pai, mas agora estavam idênticos. Madrugadas acordados em busca de uma cura, dias zelando por quem amava e tardes dormindo na poltrona próxima do leito.
Bateram em sua porta educadamente.
¬ Pode entrar Zaphire. – respondeu alto o bastante para o outro ouvir.
O homem entrou um tanto encabulado, como sempre, e encostou a porte antes de sentar-se na borda da cama.
¬ Como sabia que era eu?
¬ Milo não bate, já chega entrando e dizendo “Bom dia”. – respondeu sorrindo.
Zaphire não respondeu, apenas deu um leve risinho de canto. Ele estava tenso e não conseguia esconder, ao menos de Kardia ele não conseguia.
O escorpiano conhecia e bem o mais novo. Jamais se enganava se algo estava errado, se o filho fizesse um drama ele descobria os segredos e sabia muito bem como ajudar.
¬ O que foi? – perguntou deixando o livro que lia de lado. – Está tenso.
O mais novo agora tremia muito, sem ousar levantar a cabeça uma única vez. Estava chorando e não queria que o mais velho o visse nesse estado.
Kardia apenas apanhou sua mão e apertou com carinho.
Era a forma que encontrou de dizer que estava tudo bem, que não ia julgá-lo, sem usar palavras.
Zaphire ergueu o rosto para mirar o mais velho. Lágrimas grossas escorriam pelo rosto do moreno, marcando a pele com riscos brilhantes.
¬ Papa me contou que seu coração quase parou de novo... – um soluço o impediu de continuar.
Kardia odiava vê-lo chorar.
¬ Oh meu filho... – tocou seu rosto com ternura, limpando uma lágrima que escorria. – Não chore meu menino...
¬ Como não, Pater?! – segurou a mão do mais velho. – Seu coração está fraco! Mal bate direito! Como pode querer que eu não chorasse?!
¬ Zaphire... – suspirou derrotado.
Kardia apenas puxou o mais novo de encontro à seu peito e deixou que chorasse ali, como quando era um menininho.
Fazia um leve carinho nos fios escuros daquele que sempre lhe foi filho. Com o tempo passou a cantarolar para o homem o que ele mais ouvia quando pequeno.
¬ Correndo com o rio.
Voando no ar.
A águia nos guia ao nosso lugar.
Por tantos caminhos aprendi a andar.
Mas pra você quero sempre, sempre voltar.
Kardia tentava se manter forte ao menos pelo filho, mas se viu chorando após terminar de cantar o último verso.
¬ Pater... – soluçou. – Por favor... Seja forte...
¬ Mas eu sou forte. – riu tentando animá-lo. – Eu não aguento seu pai?
¬ Não tente desviar do assunto! – reclamou.
Kardia apenas riu.
A vida era assim às vezes cruel.
Mas tinha que ser forte, não porque sua hora estava chegando, e sim porque não suportava ver o filho e o amado chorarem.
Mesmo que fosse inevitável quando a hora de fato chegasse.
¬ Pode me fazer um favor Zaphire? – não pararia de afagar o cabelo do filho por nada.
¬ Qualquer coisa Pater... – respondeu tentando controlar o choro.
¬ Eu quero que você vá até a cidade e registre Milo como meu parente. – explicou. – Quero que ele ao menos tenha um nome completo quando eu partir.
¬ Por quê? – o mais novo era ciumento. – Por que quer que o Milo herde seu nome?
¬ Milo tem o nome Milo porque seu pai Dégel o chamou assim. – contou com um pequeno sorriso. – Eu estava desmaiado quando isso aconteceu e eu sempre quis dar um nome pro Milo, uma bobagem de criança que me persegue até hoje. Então eu quero que ao menos ele tenha meu sobrenome, quero que ao menos ele tenha uma identidade no mundo.
¬ E por que não eu? – perguntou. – Eu não sou teu filho?
¬ Não confunda as coisas. – respondeu paciente. – Eu te amo. Você é meu filho, meu único e precioso filho. Milo é meu amigo, é meu irmão, é meu filho, é meu pai, nunca dei pra ele o que eu te dei, então que ao menos o nome seja dele.
Desde que Zaphire era menino as coisas eram assim.
Queria porque queria ter o nome de Kardia, mostrar que o azulado era tão importante para si quanto Dégel. Que ele era seu pai tanto quanto o aquariano.
Mas Zaphire já tinha tudo de Kardia e nunca notou.
O sorriso era o mesmo. A forma de olhar era a mesma. A alegria era a mesma. O jeito impulsivo era idêntico.
Zaphire era a junção perfeita de Kardia e Dégel. Ele era o que tinha de melhor nos dois mais velhos e nunca percebeu.
¬ Você, Zaphire, é único. – disse tentando não chorar. – Você é único. Milo é único. E sendo únicos, merecem coisas únicas. – respirou fundo para não chorar, em vão. – Você, meu menino, vai ficar com meu tão amado cachecol vermelho e com meu amor de pai, porque não importa a distancia, eu sempre estarei cuidando do meu amado menino. O mesmo menino que corria pelos jardins, brincando de esconder comigo. O mesmo menino que vinha correndo pra minha cama quando tinha pesadelos. O mesmo menino que dividia chocolate com Milo pra comer o resto sozinho. O mesmo menino que eu vi se tornar o melhor homem do mundo e que me deu mais orgulho do que qualquer coisa que eu tenha feito na vida.
Zaphire o abraçou com mais força, tentando não chorar tão alto.
¬ Milo vai ficar com meu nome e a pedra da minha mãe, a água marinha. – continuou dizendo. – Acho justa essa divisão. Milo foi meu irmão mais velho em dado momento, mesmo que fosse eu a ensiná-lo. Milo foi e sempre será meu amigo, vindo sempre falar comigo e tentando me alegrar. Milo foi meu filho, pois o eduquei e guiei seus passos como um pai. E Milo foi meu pai, porque ele sempre esteve presente, me pegava no braço, embarra em quem for que interrompesse meus passos, sempre encarando o perigo por mim e Dégel. – beijou a cabeça do filho. – Isso é o melhor que posso fazer por Milo e por você. – o afastou delicadamente e o fez cruzar olhares. – Agora me diga. Vai fazer esse favor para seu velho Pater?
¬ Pelo senhor eu faço qualquer coisa. – declarou ainda entre lágrimas.
Kardia sorriu e terminou de secar as lágrimas do filho, deixando que ele voltasse a deitar junto de seu coração.
Era tarde e Zaphire, eventualmente, acabou dormindo no peito do escorpiano, exatamente como quando era criança.
¬ Oh... – Dégel entrou no quarto e suspirou. – Serena estava desesperada atrás dele.
¬ Então acho que devemos devolver o homem à sua mulher. – respondeu Kardia com um discreto sorriso.
O aquariano apenas acenou em resposta e esperou o escorpiano beijar a cabeça do mais novo antes de levá-lo cambaleante até o quarto que dividia com a esposa.
Quando voltou, encostou a porta e beijou a cabeça de Kardia com carinho.
¬ Ele pediu pra devolver. – disse o mais velho sorrindo.
O azulado apenas sorriu e o puxou o amado para um abraço.
Dê um beijo de boa noite em seus filhos mesmo que eles estejam dormindo.
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