Frankenstain
21 Inverno de 1840
Notas iniciais
Zaphire costumava fazer muitas viagens de negócios, mas não gostava de levar os filhos para esse tipo de viagem desgastante, então deixava os meninos na casa do pai.
Nada mais natural.
Porém, Kardia ainda estava doente e Dégel vivia basicamente para encontrar a cura.
Logo, a responsabilidade pelos meninos recaia automaticamente sobre Milo, que não reclamava, mas também não estava de todo feliz.
Afinal os meninos eram verdadeiros anjos no dia a dia, mas se quisessem viravam verdadeiros diabretes!
Era noite e os mais novos tinham que dormir.
Cada um tinha seu quarto e como sempre Krest era o mais fácil de lidar, agora Camus era mais complicado.
¬ Camus, você já tomou banho? – perguntou para o menino que o observava.
O menor não respondeu, apenas continuou assistindo Milo recolher as pedras que aqueceriam sua cama no mais completo silencio.
Milo apenas suspirou. O silencio do menino era uma clara negação.
¬ Vai tomar banho Camus. – pediu paciente.
O menino não disse nada, mas Milo sentia que ele ficou bravo por ser descoberto.
Viu o pequeno pegar uma toalha, um camisolão e uma lamparina, seguindo reto na direção do banheiro.
¬ E não se esqueça de lavar o cabelo! – advertiu antes que a porta fosse fechada.
Milo apenas suspirou.
O que mais lhe perturbava era aquele silencio.
Aquele silencio impossibilitava qualquer um de descobrir o que o garoto pensava, sentia e aprontava. Aquele silencio tornava impossível um dialogo saudável.
E isso deixa qualquer um louco. Ainda mais Milo que gostava de conversar.
Arrumou os travesseiros e cobertas. Colocou as pedras aquecidas sob as cobertas. Colocou mais uma manta grossa na cama. Deixou o fogo vivo e bem alimentado com lenha nova. Escondeu tudo que pudesse gerar uma sombra assustadora. E deixou um copo e uma jarra de água em uma das cômodas.
Terminada suas tarefas, esperou que o menino saísse do banheiro. Tinha que garantir que ele fosse dormir afinal.
Camus saio com a mesma expressão de indiferença que sustentava desde sempre e que raramente era trocada.
¬ Lavou o cabelo? – perguntou Milo.
O menino apenas balançou uma mecha dos fios molhados em resposta.
Milo então o sentou numa cadeira e passou a cuidar de seu cabelo. Secando e penteando com cuidado os fios rubros.
Não teve o mesmo trabalho com Krest, afinal o menino tinha cabelos curtos, mas Camus insistia em deixar seu cabelo crescer e isso exigia cuidados.
¬ Mestra Natassha dizia que uma das maiores alegrias da vida é ter alguém escovando seus cabelos. – comentou com o pequeno. – É verdade?
¬ É bom. – respondeu o menino.
Porque tão curto e, por vezes, grosso?
¬ Pronto. – anunciou depois de um tempo. – Agora cama.
Ajudou o menino a se enfiar debaixo das cobertas. Garantiu que nenhuma brisa entrasse por debaixo das mantas e se curvou cordial antes de seguir na direção da porta.
¬ Milo.
Virou-se na direção no mais novo, a fim de indicar que tinha ouvido e estava disposto a atender.
¬ Diga. – instigou.
Percebeu que o menino parecia indeciso e bastante constrangido.
Abria e fechava a boca, não por falta de palavras, mas sim pela indecisão de como usá-las.
¬ Pode... Cantar para mim? – pediu um tanto encolhido, tentando se esconder de Milo. – S’il vous plaît?
Agora estava curioso.
Encostou a porta e puxou a cadeira para sentar-se junto à cama.
¬ Por quê? – não conseguiu negar a curiosidade.
¬ Mama sempre canta para que eu durma. – confessou corado.
O menino ficava uma graça envergonhado.
Ele, que mal tinha tamanho de gente, sempre se comportava como se já fosse um adulto e ficava envergonhado quando agia como uma criança.
Milo, por alguma razão que não entendia, adorava aquela antítese.
¬ Tem certeza que não é apenas um afago antes de dormir que você quer? – brincou já bagunçando os fios rubros.
O menino apenas afastou sua mão completamente envergonhado e se enfiou ainda mais debaixo das cobertas.
Milo soltou uma longa e melodiosa gargalhada em resposta.
¬ Está bem. – disse sorrindo. – Só me perdoe pela voz desafinada.
O menino só tinha os olhos para fora das cobertas, o que fazia-nos se destacarem ainda mais.
E o olhar que dirigia à Milo era de curiosidade contida.
Aquele olhar lhe dizia tudo, não podia falhar de jeito nenhum, mesmo que fosse uma simples canção de ninar.
Só tinha um problema.
Milo não conhecia uma única música de ninar.
Então desistiu de tentar criar uma e só foi cantarolando conforme sentia o coração mandar.
E quando se deu conta, estava cantando um pequeno verso.
¬ Se for para te proteger,
Não há nada a lamentar.
Porque tomarei qualquer dor
Se for apenas pra te cuidar.
Sempre sorridente estarei
Para o calor do abraço permanecer.
Secarei as lágrimas a cair
Nada deixarei te machucar.
Porque saiba apenas meu amor
Que ao teu lado
Eternamente
Ficarei...
Teria elogiado a si mesmo pela criação, mas ouviu um soluço.
Na mesma hora voltou sua atenção para Camus.
O menino ainda se mantinha oculto pelas cobertas, deixando apenas os olhos de fora e estes lacrimejavam de maneira dolorosa.
¬ Camus... – Milo sentiu o peito pesar. – Está doendo? Machucou-se? – o descobriu só um pouco para ver se tinha algum machucado.
O menino apenas puxou a coberta de suas mãos e se enrolou nela. Não queria que Milo o visse de jeito nenhum.
¬ Merci... Foi a música mais linda que já ouvi na vida. – respondeu ainda com apenas os olhos para fora. – De onde é?
Milo ainda estava preocupado, se não desesperado, com as lágrimas que ainda escorriam. Queria limpá-las, mas acabou contendo-se.
¬ Daqui. – tocou no próprio peito.
¬ Enton é o seu Som do Coração? – perguntou curioso.
Quando Milo ouviu o tom de voz mais curioso que embargado, conseguiu respirar mais aliviado.
Mas... Ele não entendera a pergunta.
¬ O que é isso? – volveu. – Som do Coração?
¬ Mama diz que é a voz do seu coração. – seu tom agora parecia mais alegre por explicar. – Uma voz que só deve ser ouvida pela pessoa amada e no final da vida desse alguém para que assim ele continue vivendo no coração de outra pessoa. É algo muito profundo e particular, poucos já ouviram. – o menino se encolheu um pouco mais, desviando o olhar. – Enton... Foi o seu Som do Coração? Você realmente quis dizer aquilo para mim?
Porque sentiu o rosto esquentar?!
Milo não tinha ideia do que responder numa hora como aquela.
Por isso fez o que achou certo. Mandou a mente se calar e deixou que o coração falasse por si mais uma vez, afinal ele estava bastante prestativo aquele dia.
¬ Não sei ao certo. – estava sendo honesto. – Apesar de ser tão velho ao ponto de ter visto Mestre Dégel e Mestre Kardia ainda meninos, sou novo nas questões humanas e não sei interpretar direito o que sinto ou deixo de sentir. – explicou agora o mirando nos olhos. – Mas se sua dúvida é sobre haver algo ou não em meu coração sobre ti, a resposta é que existe algo sim, só não sei dizer o que é.
O menino então se descobriu um pouco.
Seu rosto estava beirando a cor do cabelo e os lábios tremiam envergonhados.
¬ Um dia você me canta o seu Som do Coração? – os olhos nunca se voltavam para o maior.
Se aquela música realmente fosse o Som do Coração, do seu coração, achava justo uma troca.
¬ Só quando você cantar o seu Som do Coração. – propôs.
¬ Promete? – o menino voltou a se afundar nas cobertas.
Milo sorriu. Realmente estava encantado por aquele menino.
¬ Juro pelo sangue de Athena. – respondeu com uma das mãos no peito e outra erguida.
Camus sorriu por debaixo da coberta. Já era algo afinal.
¬ Bonne nuit, Milo. – desejou ainda bastante corado.
Milo sorriu abertamente, quase arrancando o fôlego do menino.
Afastou a franja ruiva e depositou um beijo ali, uma troca justa pelo beijo ganho um ano antes.
Garantiu que o menor estivesse bem coberto e confortável mais uma vez, atiçou o fogo e se retirou.
¬ Bonne nuit, Camus. – respondeu com um sorriso.
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