Frankenstain
10 Primavera de 1789
Notas iniciais
Mantiveram-se leais.
Viram os anos correr de forma até dolorosa.
Fazia menos de quatro anos que avô Krest fora enterrado ao lado de sua amada esposa Garnet. Dégel sofreu muito com a perda do avô que tanto amava e que lhe deixou tudo como herança.
O título de Conde, as posses e o negócio na Marinha Mercante.
Coisas essas com que não se importava.
Vivia dizendo: “Se pudesse trazer meu avô de volta em troca destas riquezas, eu o faria”.
Natassha, irmã de Dégel, se casara com um príncipe de terras distantes, agora fazendo parte da família real era mãe de três crianças.
Alone padecera por conta de uma doença a cerca de um ano.
Sasha se casara com Tenma, com quem tinha um filho, e continuava a servir na casa de seu criador, que estava muito doente fazia alguns anos.
Kardia, ao contrario do que muito ameaçara e prometera, permaneceu. Jamais conseguiria deixar aquele que tanto amava, se contentando com o fato de ao menos tê-lo por perto.
Dégel não era feliz em seu casamento, mas não faltava o respeito para com Serafina. Era fiel aos votos que fizera no altar de Notre-Dame, mas não amava aquela com quem dividia o leito, apenas tinha uma boa amizade que não trocaria por ouro ou prata algum.
Os dois rapazes, agora homens, ainda se amavam.
Milo via isso no olhar e comportamento de ambos, mas o máximo que faziam para expressar esse amor era trocar beijos nas mãos, quando muito um abraço.
A sociedade em que viviam era deveras cruel.
E como se não bastasse sua crueldade natural, ela agora se transformava e ameaçava ser algo pior ou algo melhor.
Mas antes, é claro, ela traria o sofrer apenas para lembrar os românticos de que a vida não era sonho.
¬ Merci Milo. – dissera Serafina com um sorriso. – Deve de ser um anjo que caíra do céu.
¬ Não exagere minha senhora. – sorriu gentil terminando de arrumar seus travesseiros. – Deves comer bem para melhorar e para que o pequeno cresça. Aliais como ele vai? Chutando bastante ou silencioso como o pai?
¬ Silencioso como o pai. – respondeu tocando o ventre inchado com carinho.
Depois de longos sete anos de casamento e muitas exigências por parte da família, Serafina enfim esperava um filho de Dégel.
Porém, a gestação era muito turbulenta e a jovem mal saia de sua cama com medo de algo acontecer com o filho ou filha que crescia.
¬ Já decidiram o nome? – perguntou sorrindo ao vê-la terminar de comer.
¬ Ainda não. – soltou um pequeno riso. – Mas Kardia esses dias me sugeriu Zaphire se for menino.
¬ Kardia é bastante criativo, temos que admitir. – riu junto da jovem. – Lembra o nome que ele dera para o potro de Aurora?
¬ Claro. – respondeu sorridente. – Klotsu. Um nome interessante em minha opinião, mas ainda bastante criativo.
¬ Estamos falando do Kardia afinal. – riu junto da jovem novamente. – Alguma noticia de seu irmão?
A jovem suspirou. Não era boa coisa.
¬ Ainda nenhuma carta. – respondeu baixando os olhos. – Estou preocupada, ainda mais com os acontecimentos mais recentes. Tem me preocupado viver em Paris, tenho medo das coisas que ando ouvindo.
Era a vez de Milo suspirar.
Como se não bastasse a gestação turbulenta, Paris inteira estava turbulenta e ele bem sabia e via as razões para preocupação.
Seu medo era de que os rumores fossem reais.
Serafina não tinha condições de viajar, mas eles também não tinham condições de lutar e nem o direito se pensasse melhor.
O povo passava fome e miséria, morria todos os dias centenas nas ruas, enquanto eles não passavam uma única dificuldade. Exigiam os seus direitos, mas eram ignorados, e uma hora certamente explodiriam.
Os burgueses, que estavam entre o povo, olhavam torto para os de sangue nobre, ainda mais os nobres que se metiam no capital, que era o caso daquela família. Usando do povo como massa de manobra, a muito eles queriam tomar o poder.
Uma revolta estava prestes a eclodir e eles estavam bem no epicentro da tempestade.
¬ Sei que vai dar tudo certo. – disse tentando consolar a jovem. – Qualquer problema é só tocar o sino, estarei por perto. Agora, com a sua licença, irei me retirar. – se curvou cordial antes de sair.
¬ Vá com Deus, Milo. – desejou.
¬ E que Ele sempre esteja com a senhora. – respondeu.
Estava indo para cozinha levar a louça suja quando encontrou Kardia e Dégel conversando no caminho, ambos bastante preocupados.
Os dois também o viram e chamaram para o escritório de Dégel.
Milo fez o que tinha de ser feito e logo se juntou aos dois.
¬ Com licença. – disse ao entrar. – Qual a razão de enrugarem tanto as testas?
¬ Sempre preocupado non é mesmo? – respondeu Dégel com um sorriso gentil.
¬ O Rei convocou a Assembleia dos Estados Gerais, coisa que não acontece há 175 anos. – respondeu Kardia mais direito, não gostava de enrolar. – E nós dois já previmos o resultado preocupante que nos enruga as testas.
¬ O povo vai perder não é mesmo? – perguntou em um suspiro desanimado, já tendo a certeza do sim.
¬ Com certeza. – respondeu Dégel. – E isso vai abrir espaço para a burguesia agir, eles certamente vão fazer a cabeça da população e depois só Deus poderá nós ajudar.
¬ O que devemos fazer então Mestre Dégel? – perguntou Milo. – Lady Serafina não está em condições de viajar.
¬ Rezar parece uma boa ideia. – respondeu Kardia. – O resultado certamente vai ser desastroso, ainda mais pelo que vejo quando ando pela cidade. Falta pouco para estourar uma revolução e quando isso acontecer eu gostaria de estar é bem longe daqui.
¬ A situação não vai melhorar de forma alguma. – disse Dégel pensativo. – Temos que nos preparar para o pior.
¬ De que jeito? – Kardia só faltou rir. – Serafina mal sai da cama! Somos conhecidos na Paris inteira! Não tem um burguês que não queira sua cabeça! De que jeito vamos fugir? Seu pai tem um exercito na manga e eu nunca soube?!
¬ Non seja sarcástico, Kardia. – repreendeu o jovem nobre. – Sei que nossa situação non é das melhores, mas pensando no bem de todos, digo que devemos estar prontos para partir a qualquer momento. Milo. Poderia deixar tudo pronto sem que os outros criados saibam?
¬ Certamente. – colocou a mão no peito em respeito.
¬ Farei minha parte também já que Milo parece tão disposto. – anuncio Kardia num suspirou. – Continuarei atento e desviarei as atenções. Melhor me apressar. Com sua licença. – se curvou e deu as costas.
¬ Kardia. – Dégel segurou sua mão, mordendo o lábio nervoso. – Tome cuidado.
Milo naquele momento apenas fingiu que as cortinas eram muito mais interessantes e bonitas que o normal.
Conhecia os dois dede que eram meninos, mas isso ainda não lhe dava o direito de certas intimidades.
¬ Tomarei. – beijou a mão alva e saio. – Não me esperem para o jantar!
Dégel apenas suspirou.
¬ Ele é um bom homem, Mestre Dégel. – disse Milo sorrindo depois de algum tempo. – Certamente vai retornar antes do jantar.
O homem o mirou com carinho e um mínimo sorriso.
¬ Espero que ele sempre possa voltar antes do jantar, Milo.
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