Frankenstain
16 Pensamentos de 1796
Notas iniciais
Precisava pensar.
Foram precisos dias para que tudo fosse explicado.
Agora talvez precisasse de anos para absorver e digerir tudo.
Era muita coisa!
Tinha se trancado no mesmo cômodo em que ficou desde que chegou.
Precisava desesperadamente ficar sozinho e pensar.
Cygnus vinha de hora em hora saber como estava, mas respeitava o espaço que ele impusera e não abria a porta. Apenas ouvia os batimentos de seu coração através desta e depois se retirava.
Quase enlouqueceu com todas as revelações e descobertas que teve.
Então se trancou e decidiu se organizar e analisar tudo por partes.
A criação do mundo.
Havia Theós, o Único, que naquela Terra possui muitos nomes.
Ele criou os Deos gerados por seu pensamento.
Cada Deos tinha um nome e representava parte do coração e mente de Theós. Eles eram gerados por vezes sozinhos e por vezes juntos, sendo assim irmãos.
Theós os tinha por companhia antes de tudo ser criado e adorava ouvi-los cantar, por isso estava sempre a propor temas.
De inicio cantavam separados, em pequenos grupos ou apenas observavam, pois cada um era uma parte e compreendiam a si próprio perfeitamente, mas ainda evoluíam devagar na compreensão de seus irmãos.
Não obstante, de tanto escutar, chegaram a uma compreensão mais profunda, tornando-se mais consonantes e harmoniosos.
Então lhes foi proposto um tema elaborado e eles criaram uma magnífica música.
Nessa música, o mundo teve início, pois Theós tornou visível a canção dos Deos, e eles a contemplaram como uma luz nas trevas.
Muitos dentre eles se enamoraram de sua beleza, e também de sua história, cujo início e evolução testemunharam como uma visão.
Então Theós deu Vida a essa visão e a instalou no meio do Vazio, o fogo foi enviado para arder no vazio e dentro dos mundos, e um desses mundos foi chamado de Terra.
Então, aqueles Deos que assim desejaram, levantaram-se e entraram no Mundo no início dos tempos, e foi sua missão realizar esse mundo e, com seus esforços, concretizar a visão que haviam tido.
Dentre esses vários, muitos vieram para Terra e nela foram chamados de Deuses.
Assim foram moldando o mundo com a ajuda de seus Santos, outros espíritos cuja existência também começou antes do Mundo, e da mesma ordem dos Deuses, mas de grau inferior.
São os Santos, o povo dos Deuses, seus criados, auxiliares e guerreiros.
Seu número não é conhecido no total e poucos têm nome, como é o caso dos Santos de Athena. Raramente aparecem em forma visível para os homens.
Ah! Os homens...
Os homens, ou Filhos de Théos, foram criados pela canção.
Os homens eram a personificação de todos os sentimentos e sensações postos na melodia, por isso detinham bastante atenção e carinho dos Deuses, que os cuidavam como um pai cuida de seu amado filho.
Os aliados.
Deuses. Santos. Descendentes.
Athena era uma Deusa, Protetora da Europa Ocidental e Senhora da Sabedoria.
Mentor era seu mais velho e confiável guerreiro, além de ser praticamente seu consorte na liderança dos Santos.
Seus Santos eram divididos em Aurum, Argentum e Aeris. Estes são 90 espíritos que a ajudam e guerreiam ao seu lado.
Os Santos Aurum são treze e seus nomes são Aries, Taurus, Gemini, Cancer, Leo, Virgo, Libra, Scorpius, Sagittarius, Capricornus, Aquarius e Pisces. Dois faltavam e aparentemente citá-los era quase um tabu.
Os Santos Argentum são trinta e oito, muitos já acenderam de volta aos braços de Theós, que certamente os recebera com um sorriso. Eles são a linha de frente na defesa e por isso ascendem com mais frequência.
Os Santos Aeris também são trinta e oito, poucos acenderam até então. Eles realizam missões entre os humanos, assumindo formas e influenciando, seu trabalho é silencioso e raramente são descobertos. E apesar de lutarem com mais bravura e determinação que seus irmãos juntos, são os que menos lutam.
Entre os humanos eles são conhecidos como anjos, arcanjos, serafins, querubins e tronos.
Seu dever sagrado é combater as hordas Daemones, aqueles que os homens chamam de demônios.
Sua fortaleza principal naquela guerra era a gloriosa Notre-Dame, a qual chamavam de Santuário.
Assumiam a forma de estatuas para zelar pelos homens, que os imaginavam como meros enfeites, não sabendo ou se quer imaginando a brutal batalha que era travada ao redor deles todos os dias.
Uma guerra que poderia decidir o destino de todo Mundo, a começar pelo mundo terreno.
Só existia um tipo de homem que sabia dessa guerra e participava dela. Os Descendentes.
Descendentes eram famílias inteiras de humanos escolhidas a dedo para servir diretamente os Santos, os ajudando em suas batalhas e podendo até mesmo usar seus poderes divinos, denominado Cosmo, através de pedras especiais ou símbolos de Athena. Como o caso de certo pingente.
Esses Descendentes assumiam o nome de seus senhores como seus e se identificavam com uma simples pergunta.
Have vos umquam senserit mundus?
Você já sentiu o Cosmo?
E a resposta devia ser dada com a mão no peito.
Quod lux sapientiae dirigendos pedes nostros.
Que a luz da sabedoria nos guie.
Esses eram aliados. Seres de imenso poder, capazes de amar e capazes de matar, mas que sentia poder confiar.
Os inimigos.
Já ouvira aquela história antes.
Um pouco diferente, mas já tinha escutado.
Enquanto a música ainda se desenvolvia, no entanto, surgiu no coração do Deos Lux-Fero o impulso de entremear motivos da sua própria imaginação que não estavam em harmonia com a música. Com isso procurava aumentar o poder e glória do papel a ele designado.
À Lux-Fero, entre os Deos, haviam sido concedidos os maiores dons de poder e conhecimento, e ele ainda tinha um quinhão de todos os dons de seus irmãos.
Ele desejava dar Existência a coisas por si mesmo, começara então a conceber pensamentos próprios, diferentes daqueles de seus irmãos.
Querendo até mesmo ser maior que Théos.
Desejava submeter os Filhos de Théos, todos os seres que surgiriam naqueles mundos, por invejar-lhes os dons que lhes era prometido.
Desejava ter seus próprios súditos e criados, ser chamado de Senhor e ter comando sobre a vontade dos outros.
A partir daí a história não destoava muito da que já ouvira falar naquele livrinho curioso chamado Bíblia Sagrada, onde Lux-Fero era conhecido como Lúcifer.
Théos o banira junto de seus seguidores. Um terço de Deos e Santos caíram no Vazio junto de seu líder, chamados agora de Daemones.
De lá elaboravam maneiras de ferir os Filhos de Théos e tomar o que achavam ser seu por direito, derrubando o próprio Théos.
Daí vinha seus inimigos.
Princeps. Espectros. Fecit. Possidets.
Princeps eram Deos corrompidos. Espectros eram Santos corrompidos.
Hades era um Princeps, combatente feroz de Athena e senhor sobre a morte, condenando todos que caíssem em suas mãos.
Seus Espectros eram divididos em Iudices e Espectros Natos. Os Fecit, ou Espectros Fecit, eram uma classe a parte. Estes são sempre 108 espíritos corrompidos e obrigados a servi-lo.
Os Iudice eram apenas três e seus nomes eram desconhecidos, só se sabe que eles encarnavam como homens e faziam vários malefícios em nome de seu senhor. Dizia boatos que antes eram quatro e um deles foi capaz de ascender, mas deveria ser apenas um engodo para que os Santos tivessem dúvida na hora de matá-los.
Os Espectros Natos eram cinquenta, viviam a invadir a Terra e levar a desgraça por onde passavam. Corrompendo pessoas, ideais e sentimentos, eles eram os mais perigosos e os que mais atacavam.
Os Fecit eram os Feitos. Eram almas que caíram nas mãos de Hades e foram corrompidas de tal maneira que só se livrariam de tamanha maldição com a destruição de sua existência. Eles podiam se passar facilmente por Espectros Natos, mas podiam se esconder melhor entre os homens, podendo fazer o trabalho sujo mais diretamente e agindo como verdadeiras maquinas de matar assim que sentissem o cheiro de sangue.
Os Possidets eram os possuídos, pessoas com quem a Igreja gostava de de gritar e jogar água, algo não muito eficiente. Você não liberta um Possidets, é ele quem se liberta.
Quatro Fecit o atacaram na frente da catedral.
E esses eram seus inimigos. Seres realmente detestáveis e que, conforme falavam, ele aprendeu a temer.
Nephelim.
Ainda restava uma duvida.
O que era Nephelim? E porque lhe chamaram assim?
E mais uma vez se chocou ao ver o quanto Athena e seus Santos sabiam de si, sabiam até mais do que o imaginado. Sabiam até mesmo que fora rejeitado por seu criador humano, mas aceitos pelos filhos do mesmo.
Queriam que ficasse ao lado deles, a salvo dentro daquelas paredes sagradas, por inúmeras razões, dentre elas a insistência de Cygnus em dizer que ele era um tal de Scorpius reencarnado como Nephelim.
Nephelim era a nomenclatura dada aos Santos e Deuses que cometeram um pecado incomensurável, quiseram ser como os filhos de Théos.
Aparentemente o tal Scorpius e o pouco citado Aquarius cometeram esse pecado, sendo lançados no Vazio após a descoberta.
Mas Nephelim não caem no Vazio para se tornar Espectros ou Princeps. Eles caem no Vazio para se redimir e ascenderem para junto de Théos uma vez mais.
Nephelim era algo difícil de explicar, nem mesmo Athena soube lhe explicar o que era um Nephelim, o que ele era ao certo, mas pelo que pode entender sua existência era perigosa e complicada demais para se por em palavras.
Nephelim seria um “anjo torto”, concluiu, dependendo de seus atos posteriores poderia voltar para junto de Théos ou cair eternamente no Vazio, se tornando assim um súdito de Lux-Fero.
Estava enlouquecendo com tudo isso!
Era muita informação!
Mas por fim se rendera, reconhecendo que precisa de ajuda.
Bateu em sua porta suavemente, sabendo que Cygnus muito provavelmente estaria atrás dela.
¬ Cygnus. – chamou com a voz rouca pelo desuso. – Eu quero aprender. Eu entrarei ao lado de vocês nesta batalha, mas, por favor, me ajuda. Eu tenho que voltar para meus Mestres, ter a certeza de que estão bem. Eu quero me redimir de seja lá qual for minha culpa. Eu quero apenas voltar. – seu coração pesava feito chumbo. – Eu não sei de mais nada e tenho medo de sair sozinho.
A porta então abriu, revelando um sorriso acolhedor.
¬ Você não está sozinho, Mestre Scorpius. – respondeu o loiro.
¬ E me chame de Milo, por favor. – respondeu com um pequeno sorriso.
Agora não havia volta.
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