Frankenstain

17 Primavera de 1810


Notas iniciais
Eu disse que é perigoso '-' Boa leitura :)

Tantos anos se passaram que perdeu noção do tempo.

Não envelheceu e nem morreu como os humanos.

Mas estava feliz, pois depois de tantos anos de treinamentos e lições ao lado dos Santos e de Athena, finalmente encontrou seu caminho de volta.

Quando passasse no mercado da agora grandiosa cidade compraria o doce preferido de Zaphire e tomaria o rumo de casa.

A saudade era forte, agora sabia que era saudade.

Cygnus e Phoenix – dos dois, o menos participativo – lhe ajudaram a entender os sentimentos humanos que o acometia. Sempre espantados por ele ser tão parecido com os Filhos de Théos.

Aprendeu que seus sentidos aguçados, sua força e velocidade eram resquícios de sua vida como um suposto Santos.

Sua falta de necessidade de comer, beber e dormir, além de sua juventude aparentemente eterna, também eram resultados dessa suposta vida em que seu coração bate 100 mil vezes a cada 100 anos, demora 300 anos para sentir fome e mil anos para sentir sono de verdade.

Mas isso não tinha importância, ao menos naquele momento.

Aprendeu a controlar seus sentidos com o Santos Libra e Draco, ficando muito feliz e espantado quando os reconheceu.

Libra era o senhor que lhe contara a historia do Império de Jardineiros anos antes. Draco era o viajante da carroça, Shiryu como se apresentara, que lhe deu o colar com o pingente.

Ficou tão feliz de revê-los e eles também ficaram felizes de vê-lo, chegando a abraçá-lo e dizendo palavras de coragem para continuar seguindo.

Sua força e velocidade aprendeu a controlar com os Santos Leo, Sagittarius, Taurus e Gemini. Todos muito pacientes e ótimos professores.

Leo era o mais esquentado e se dizia o mais rápido, apesar de que seu irmão Sagittarius o deixar para trás em uma corrida. Diziam que em tempos antigos os dois eram conhecidos como deuses do vento de tão velozes que eram.

Taurus era gigantesco, uma verdadeira muralha, mas seu coração era doce como o de uma criança. Sempre sorrindo, motivava Milo a seguir com um simples afago e um sorriso ainda maior que o de costume.

Gemini era na verdade Gemini e Gemini. Eram dois Santos que atendiam pelo mesmo nome, além de serem exatamente iguais.

Disseram que eram para serem o mesmo Santos, mas quando nasceram simplesmente se dividiram e assim ficou.

O engraçado era quando alguém chamava e os dois respondiam, gerando uma pequena confusão e tirando alguns risos. Eram bastante unidos e apesar de suas aparências gentis, eram muito poderosos – talvez fosse por isso que se dividiram, era poder demais para um Santos apenas.

Fora educado e ensinado pelos Santos Aries e Virgo.

Ambos muito pacientes, mas violentos se provocados.

Ensinaram-lhe a ler e escrever. Fazer contas. Elaborar teoremas. Averiguar situações. Discernir. Oratória. E saber encontrar a bondade no coração corrompido.

Muitas coisas acabaram não ensinando, pois viram que a curta vida fizera questão de ensinar.

E fora educado na arte do combate por todos os Santos.

Os que mais se destacaram foram os Santos Cancer, Pisces, Capricornus, Phoenix – apesar da carranca, ele lutava muito bem – e Aquila.

Cancer, Pisces e Capricornus tinham um jeitinho peculiar de agir, sempre dizendo que lutar não era apenas lutar, lutar era bailar com Tanathos, um ser muito simpático que costumava ser chamado de Morte.

Phoenix por outro lado defendia a tese de que ele lutaria apenas por querer defender e isso já o tornava forte. Mas ele não aliviava em nada e dizia que se continuasse a subestimar as pessoas sua cabeça não duraria muito grudada ao pescoço.

Aquila era o primeiro Santos que vira na forma de mulher e certamente o que mais lhe marcou.

A precisão é indispensável na batalha.

A habilidade suprema não consiste em ganhar cem batalhas, mas sim em vencer o inimigo sem combater.

A invencibilidade está na defesa; a vulnerabilidade, no ataque.

O bom guerreiro atrai o inimigo para si e nunca inicia o combate.

A velocidade é fundamental, se finja de indefeso e em seguida surpreenda com a velocidade.

A guerra se baseia no engano, se faz pelo ganho e se adapta pela divisão e combinação.

A aparência frágil de Aquila era um engodo, porque era uma excelente guerreira e mesmo com frases difíceis foi a que mais lhe ensinou. Não era a toa que muitos dos Santos Aeris foram seus aprendizes depois de nascerem.

E por fim, a própria Athena lhe ensinou a controlar o cosmo e aquela parte de armadura que se formava a partir de seu pingente.

Foram precisos anos para aprender tanto.

¬ Não tem aluno que não possa ser mestre. – dissera Cygnus no dia de seu combate final, sua “formatura”. – O senhor e Mestre Aquarius viviam a me dizer isso.

Como era grato à Cygnus.

Tinha um carinho muito forte por ele, só não sabia dizer se era carinho de irmão, filho ou pai, pois quando estava perto sentia esse amontoado de sentimentos, mas sem conseguir discernir – se Aries e Virgo descobrissem, ia levar uma bronca sem precedentes.

Mas agora que aprendera tanto pudera sair pra sua primeira missão, que consistia em voltar temporariamente para seus Mestres.

Estava triste que ia ser algo temporário, mas estava feliz por voltar.

Sua missão era simples.

Pegar os diários de seu criador e levá-los para o Santuário.

Era perigoso demais ter a “formula” usada para criá-lo solta pelo mundo, ainda mais com os eventos ainda recentes.

Athena decidiria mais tarde se os diários deveriam ser queimados ou guardados na grandiosa biblioteca.

Porém, esses pensamentos estavam em segundo plano no momento.

Queria mesmo era rever Kardia, Dégel, Zaphire, Sasha, Tenma e Kouga. Além, é claro, de fazer carinho em Klotsu e Boreal, e quem sabe no potro que ela já deve ter tido.

Sorria como bobo pela estrada.

¬ EI VOCÊ!! – tinha certeza que era com ele.

Ah! Por favor! Mal entrara na Prússia e já tinha arrumado problemas?!

Sua resposta foi um grande SIM ao ver o soldado fardado vir com o cavalo bufando atrás de si.

¬ Pronto! O que eu fiz agora? – cobriu o rosto rezando para que não fosse nem Espectro e nem soldado, queria que fosse uma ilusão.

Sentiu as pedrinhas da estrada baterem em sua perna quando o cavalo parou bruscamente, bufando em seu rosto de forma que a franja voasse para trás.

¬ Descubra o rosto. – pediu o oficial.

Milo obedeceu, desacato a autoridade ainda era crime afinal.

¬ Milo... – chamou o soldado.

Ergueu o olhar na mesma hora.

O soldado a sua frente era um adulto recém-feito. Sua farda era num tom bonito de azul e as medalhas sustentadas consistiam com a idade e esforço de quem lutou pra subir com tão pouca idade. Os cabelos eram um tanto rebeldes, curtos e sua cor era escura, não sabia dizer qual.

¬ Desculpe. – disse Milo. – Nos conhecemos?

¬ Não se lembra de mim, Milo?! – o soldado, ou melhor, o Tenente tinha lágrimas presas.

¬ Sinto muito. – respondeu intrigado, tentando lembrar-se de onde conhecia aquele homem. – Não me recordo do senhor.

¬ Mio. No so interesero. – disse com a voz um tanto embargada, tentando imitar um tom infantil.

Na hora um lampejo veio em sua mente e um riso de criança encheu-lhe o olhar de lembranças.

¬ Zaphire...?

¬ Milo! – o homem, um dia menino, o abraçou cheio de saudade e se deixou chorar. – Milo... Graças a Deus! Pensávamos que tinha morrido ou se perdido no mundo... Como é bom vê-lo, Milo... Como é bom tê-lo de volta... Milo...

¬ Trouxe o doce de que gosta... – foi tudo o que conseguiu dizer enquanto o abraçava de volta.

¬ Milo... – chorou com mais intensidade.

Sentiu-se o filho pródigo.

O receberam entre lágrimas e sorrisos, fizeram um jantar para seu retorno, abriram a garrafa do melhor vinho, fizeram-no contar sobre suas andanças, deram-lhe roupas novas e obrigaram-lhe a aparar os cabelos.

O filho pródigo retornou ao lar.

¬ Nem vi o tempo passar. – olhou para as próprias mãos um tanto culpado. – Nem o senti passar.

¬ Não faça essa cara! – dissera Kardia com o mesmo sorriso de sempre, mas com os sinais da idade aparecendo nas rugas dos cantos dos olhos e os cabelos azuis misturados a fios brancos. – Você foi agraciado com uma vida mais longa, permitindo que vivesse mais coisas que qualquer homem viajado. As pessoas te invejariam não por sua juventude, mas sim por sua experiência.

¬ Sem contar que todos nós temos o nosso tempo. – Dégel agora usava óculos para leitura. – Seu tempo é mais longo que o nosso, essa é a única diferença, porque de resto Milo, você continua sendo um membro importantíssimo desta família.

Milo sorriu, por alguma razão não conseguia chorar nem mesmo quando queria, por isso apenas sorriu.

¬ Já disse que amo vocês? – perguntou ainda sorrindo.

Os mais velhos se espantaram, mas sorriram logo em seguida.

¬ Também te amamos, Milo. – responderam.

¬ Com licença. – Zaphire ainda vestia sua farda. – Srta. Sasha gostaria muito de saber o que Milo deseja como sobremesa, pois ela ficou tão afobada que fez três doces diferentes.

¬ Eu senti cheiro de bolo, vou estar mais do que feliz se minha sobremesa for bolo. – respondeu.

O rapaz apenas sorriu feliz e já estava de saída.

¬ Aproveite e tire a farda. – disse Dégel sem nem mesmo olhar para o filho. – Sabe que non gosto em nada dela, então ao menos respeite seu pai e evite usá-la em minha casa.

¬ Vai começar de novo pai? – perguntou o rapaz num suspiro.

¬ Non vou começar nada. – respondeu ainda sem olhá-lo. – Apenas tire a farda, non está em horário de serviço e esta em casa, então tire a farda.

O rapaz apenas suspirou, estava irritado sim, mas nada que o fizesse ser repreendido por sua falta de respeito. Saio fechando a porta.

¬ Qual o problema? – perguntou Milo.

¬ Mandamos Zaphire estudar na província de Vinci, que faz fronteira com as terras francesas e ele acabou foi largando os estudos para se alistar nesse tal de Exercito Nacional da Pátria Francesa. – explicou Kardia pacientemente. – Ele agora vive dizendo que é francês por nascimento e que é seu dever lutar por sua pátria mãe, a França.

¬ Somente quando aquele baixote de peito estufado invadiu parte da Prússia que eu voltei a ver meu filho. – na voz de Dégel existia certo rancor. – Fardado, condecorado e com uma cicatriz de bala no braço. Um maldito discurso tirou meu filho de mim.

¬ Zaphire vive em guerras agora, no momento está estacionado no forte de fronteira. – disse Kardia suspirando com o rancor de Dégel. – Ele parece não entender nossa preocupação e quer seguir carreira no exercito de Napoleão.

Napoleão.

Quem diria...

¬ Mais três anos e eu o arranco de lá. – declarara Dégel.

¬ Três anos? – não entendeu.

¬ Parece que depois de alistado tem que servir oito anos. – respondeu o escorpiano. – Ele já está pra fazer cinco anos nessa cruzada que para nós não tem sentido. Depois desses oito anos os rapazes que sobreviveram podem voltar para suas casas ou seguir no exercito.

¬ Eu não queria me meter, mas essa é uma escolha dele. – disse Milo um tanto encabulado.

¬ Sabemos. – disse Kardia. – Mas isso não muda o que sentimos.

¬ Vamos mudar de assunto. – Dégel não podia ser mais direto.

Milo nunca ousou desrespeitar a vontade de Dégel, ainda mais quando este não estava confortável, e essa não seria a primeira vez.

Kouga, já um rapaz também, trouxe o bolo feito pela mãe. Milo elogiou bastante o doce.

Como sentiu falta da comida que a moça, agora senhora, fazia.

Continuou conversando com Kardia e Dégel por longas horas, sem parar de sorrir um único instante.

Como queria que aquele momento fosse eterno.

¬ Por quanto tempo pretende ficar Milo? – perguntou Kardia depois de ver o relógio cuco que Milo fizera para Zaphire com 2 anos.

¬ Gostaria de dizer que para sempre, mas tenho algumas coisas pra fazer antes de voltar. – contou a verdade em parte. – Mas eu garanto, quando acabar eu volto pra ficar.

¬ Então pedimos apenas que não demore. – disse Dégel sorrindo.

Milo sorriu.

Como é bom estar em casa.

Notas finais
Agora, como diz meu professor de Geografia do Brasil: Sejam mais ou menos felizes u.u Camus está mais perto do que imaginam =D Prepare-se meu povo, é justamente pra não enfartar, sua aparição vai ser convencional, mas tenho certeza que fará muita gente pular kkkkkkk Espero que tenham gostado :) Bjs. L :3