Frankenstain

47 Outono de 1863


Notas iniciais
Primeiramente, desejo a todos um Feliz Natal super atrasado e um maravilhoso Ano Novo também atrasado. Segundamente, gostaria de explicar o que aconteceu para eu sumir. Foi a faculdade? Apenas cinco dias foram culpa da faculdade. Ademais, foi o meu velho companheiro de trincheiras cibernéticas, também conhecido como Notebook, que por pouco não perecera após estes longos 6 anos de batalha ao meu lado. Quando o técnico me informou que meu HD foi pro espaço eu juro que sentei ali mesmo e comecei a chorar (em parte pelo meu bolso e em parte por tudo que devo ter perdido até descobrir o problema). Nem foi vírus, meu técnico vive falando que meu computador é o mais limpo de todos que já vira, o que quase que o findou foi a velhice mesmo. O problema é que precisei correr atrás do prejuízo e ainda estou correndo, afinal perdi muita coisa (PERDI UMA FIC INTEIRA DE 4 ANOS ATRÁS!!), e só pude resgatar meu companheiro dia 10. Não preciso dizer o quanto chorei ao ver o estrago total né? Terceiramente, voltei para ficar, mas ficar apanhando. Eu passei na faculdade com louvor (BRIGADO SENHOR!!), só que vou ter que pegar seis conduções todos os dias, ida e volta somadas. Então estarei aqui sim, mas não com a mesma frequência que eu gostaria de manter. E Quartamente, eu desejo a todos uma boa leitura e (mais uma vez) um maravilhoso Ano Novo =)

Cavalgou pelo já devastado campo.

Com certeza ali jazia um alfaiate, morto e mutilado.

Que mal ele fizera a alguém?

Com certeza ali jazia um vendedor, chorou de dor e medo até a morte.

Porque não mostrar piedade a ele?

Com certeza ali jazia um humilde fazendeiro, cujas mãos frias se agarravam à única foto da família.

Que justificativa davam para tirar um pai de seus filhos?

Com certeza ali jazia um estudante, cujas ideias nunca mudariam o mundo de forma mirabolante.

Porque apagar um futuro tão brilhante?

Guerra.

Era assim.

Brutal e cruel. Malévola e infantil.

Ao cavalgar, deparou-se com cenas terrivelmente desoladoras.

Devastação e caos o cercava enquanto Diamond o levava pelos campos da tão outrora aclamada Virginia.

¬ Obrigado, Lady Athena, por me fazer deixar Sônia em Martinica antes. – disse num suspiro deveras triste.

Continuou cavalgando com a expressão séria.

Sua visão se estendia por um longo e cinzento deserto maculado por fiapos de fumaça.

As águas correntes arrastavam vagarosamente a lama sanguenta.

Não havia um só pedaço de terra que não mostrasse rasgos ou feridas, não havia casa, capela ou senzala que se erguesse como era antes.

Baixou a cabeça com profunda tristeza, conseguia ouvir o lamurio e sentir as dores daquele campo maldito.

Seguiram pelas colinas até que estas ficasse para trás, logo encontraram as barracas dos soldados, as quais evitaram, e depois de mais algum tempo chegaram ao seu destino.

A Fazenda Davenport era uma Ilha dos Abençoados no meio daquele Inferno na Terra.

Ficava num pequeno vale com a entrada discretamente escondida pelas formações rochosas que a cercava

Os campos de algodão se estendiam por grande parte da propriedade em que um humilde riacho corria, algumas casas despontavam junto a um grande casarão e celeiro, e uma floresta ainda tinha seu espaço naquela terra.

Homens trabalhavam no imenso campo de algodão.

Mulheres fiavam aqueles pedacinhos de neve em locais cobertos.

Crianças cuidavam dos poucos animais com todo o carinho possível e depois iam correr pelos campos entre risos.

Aquela era a comunidade mais diversa que encontrara até então.

Uma negra conversava com uma menina morena, ensinando-a como se fiava o algodão e como guardava a linha fiada.

Uma garota loira beijava a bochecha de um rapazinho mulato, tudo porque ganhou uma flor azul muito bonita.

E um mulato ria ao brincar com os filhos de pele mais clara, fazendo cócegas nos dois enquanto terminava de descansar de seu almoço.

A guerra daquelas terras tinha como justificativa a cor da pele e aquelas pessoas viviam como se esse detalhe simplesmente não existisse.

¬ Menino. – chamou pelo pequeno mulato que levava um cesto cheio de algodão. – Pode me dizer onde está o senhor desta fazenda?

¬ Temos dois senhores. – respondeu o mais novo. – Com qual dos dois deseja falar? Imagino que seja o senhor Aspros, já que ele é branco como o senhor.

¬ E porque não poderia ser o outro senhor? – perguntou curioso.

¬ Porque o senhor Deufteros é mulato. – explicou bastante paciente. – Que eu saiba, vocês brancos puros, não gostam de se envolver com ninguém de sangue preto, pois aparentemente somos impuros e inferiores, pena que não percebem o quão burros são.

Um menino bastante ousado aquele, um tanto mal educado também, mas compreendia seu ódio ao se referir aos homens brancos daquele jeito e não o condenava por isso.

¬ Melhor mudar meu argumento. – suspirou descendo de Diamond. – Have vos umquam senserit mundus?

O menino se espantou, mas logo sua postura mudou e até permitiu-se sorrir abertamente para o mais velho.

¬ Eu não aprendi o que isso significa ainda, só sei que quem fala assim é amigo. – disse o menino. – Tanto o senhor Aspros quanto o senhor Deufteros estão trabalhando no campo hoje, parece que esse é um dia bom para ambos.

¬ Se importa de me levar até eles? – sorriu gentil. – Isso, é claro, se não for incomodá-lo.

¬ Não me incomoda, não mais pelo menos. – era um menino honesto, isso é bom. – Só vou deixar essa leva para minha irmã e já volto senhor, me espere aqui mesmo.

Milo aguardou pacientemente o retorno do menino e passou a segui-lo pelo campo quando voltara, adentrando ainda mais aquele mundo formado por pequenas nuvens que era o algodão.

Logo mais avistou dois homens vestidos de forma um pouco mais formal que os demais, porém, tão sujos e suados quanto qualquer um ali.

Ambos sorriam abertamente e pareciam se divertir bastante com o trabalho.

O menino correu até os dois e, agora que eles conversavam entre si, podia ver muito bem suas diferenças e semelhanças.

Os dois homens eram gêmeos idênticos, sem tirar e nem por, até mesmo a altura era idêntica.

Algo já esperado dos Descendentes dos Gemini.

O único diferencial notável entre a dupla univitelina eram suas peles.

Enquanto um era branco feito pó de arroz, o outro era obviamente um mulato, com a pele mais branca do que negra de fato.

Por alguma razão os Santos dividiram-se ao escolher sua família de Descendentes, adotando duas famílias de duas partes do mundo. Depois de milênios elas se uniram como uma, coisa que devia ser desde o começo, e a melhor representação dessa uniam eram aqueles gêmeos.

O gêmeo branco também era o mais velho e o dono daquela terra perante o Estado da Virginia. Seu nome era Aspros Jonathan Grace Davenport.

Já o gêmeo mulato era dado pelo Estado como um bastardo alforriado, mal desconfiavam que aquela fazendo só estava de pé por conta dele. Seu nome era Deufteros Matteo Grace Davenport.

Depois de algum tempo de conversa foi que decidiram vir a ter com Milo, que se apresentou formalmente e fez tudo o que uma boa visita faz.

A principio nenhum dos dois parecia colocar muita fé em suas palavras, agindo de forma bastante cautelosa e chegando a fazer algumas perguntas mais incisivas ou sem aparente sentido.

Mas conseguira entender esse comportamento depois de algum tempo, mesmo sendo bastante ásperos, os dois estavam apenas preocupados com as pessoas que ali viviam e seu modo de vida. Do contrario não teriam lhe perguntado se foi seguido.

Logo mais acabaram por convidá-lo a entrar no casarão, onde poderiam ter uma conversa mais adequada.

¬ Desculpe-nos Sr. Dilitírio. – disse o mais novo ao sentar-se em uma cadeira junto da janela. – Somos muito desconfiados. Como pode ver, não somos uma família muito convencional justamente por ter essa mistura, mas nos orgulhamos muito dela.

¬ Quem pede desculpas sou eu. – disse baixando a cabeça ao sentar em uma pequena poltrona. – Vim incomodá-los num momento difícil.

¬ Não incomoda de forma alguma. – disse o mais velho juntando-se ao irmão logo em seguida. – Se o Santuário o enviou é por boa razão. Então, por favor, conte-nos tudo e garanto que faremos o nosso melhor.

Ficaram um bom tempo acomodados na sala de visitas do casarão, um lugar bastante confortável com lareira para o inverno e muitas estantes de livros para tardes frescas de verão.

Conversaram trivialidades e até mesmo algumas bobagens durante o tempo que ficaram ali dentro.

Milo era bem falante, qualquer pessoa que o conhecesse poderia concluir isso depois de algum tempo, mas ele conseguia usar esse gosto por falar de forma a cativar as pessoas.

Era algo inconsciente, mas muito bem executado.

Fosse através de suas histórias fantásticas ou através de seus pensamentos elaborados, sempre conseguia cativar as pessoas. Logo, não demorou muito para conquistar a confiança dos gêmeos Davenport.

Porém, em dado momento da conversa o mais velho dos gêmeos se retirou de forma apressada, dizendo estar sentindo uma forte dor de cabeça.

O mais novo seguiu o irmão com pura preocupação, deixando um Milo confuso sozinho na sala de visita.

Não entendeu nada do que se passava, então decidiu que o melhor seria esperar o retorno dos gêmeos ou de ao menos um deles.

¬ Isso foi estranho... – tinha que admitir.

Levantou-se de onde estava e começou a observar a sala como um todo.

Não era muito requintada, mas bastante confortável com um número razoável de cadeiras, sofás e poltronas, além de uma pequena mesa de madeira para se deixar o café da tarde e talvez fazer algum jogo de cartas.

As estantes eram repletas dos mais variados livros, isso lembrava um pouco sua casa e o quanto seu amado ruivo gostava de ler um pouco de tudo e de tudo um pouco. Não ousou tocar em nenhuma das obras, mas que ficou curioso ao ver uma capa com o renomado nome “Edgar Allan Poe” ficou.

A lareira era rusticamente bela, toda de pedra e com um balcãozinho de madeira, não tinha nada de especial, no entanto, fazia um belo complemento a sala.

E o destaque de todo aquele cenário, ao menos em sua opinião, era o quadro pousado acima da lareira.

Tinha conhecido muitas mulheres bonitas ao longo de sua vida, Lady Serafina, por exemplo, era uma das mais bonitas. Porém, a mulher daquele quadro tinha algo que a diferenciava, só não sabia dizer o que seria.

A pele de tom terra contrastava elegantemente com o vestido creme sem grandes pompas. O cabelo encaracolado estava preso em um coque alto com um diadema bastante bonito o mantendo. Os olhos cor de mel com alguns pontinhos verdes pareciam reluzir como se estivesse olhando para uma pessoa de verdade. O lábio fino e pintado de majenta se curvava discretamente em um sorriso gentil.

¬ Ela era linda não é?

Sentiu um arrepio bastante desconfortável subir sua espinha e um frio agonizante se instalar por meros instantes, mas tentou não transparecer o susto que levou com a chegada do gêmeo mais novo.

¬ Se não for intromissão de minha parte. – mirou o dono da casa um tanto curioso. – Quem seria essa dama? E... Sim, ela é muito linda.

¬ O nome dela era Alika Mirella Grace. – respondeu com um olhar distante. – Ela era minha mãe e, sem dúvida, a mulher mais incrível que já andou na face deste planeta.

¬ E... – ficou perturbado com a tristeza na voz do outro. – O que aconteceu com ela? Isso é claro se não for incomodo.

O mulato ficou em silencio por alguns instantes, talvez ponderando se era vantajoso ou não contar sua vida para o loiro.

¬ Nasci em uma terra onde a cor da pele é mais importante que o brilho dos olhos. – respondeu num misto de tristeza e ódio. – Minha mãe morreu quando ainda era bem pequeno. Ela estava passeando nos campos próximos a fazenda com meu irmão, algo que sempre fazíamos, enquanto eu estava na cidade com meu pai, que mais uma vez tentava me cadastrar como seu filho legitimo. Alguns homens de passagem viram minha mãe sentada na grama e pensaram ser uma mucamba sem importância, ignorando por completo suas vestes relativamente ricas e o livro de Victor Hugo que tinha em mãos.

Acabou fazendo uma pausa para tomar ar e controlar as emoções em seu peito, certamente, aquela história não acabaria nada bem.

¬ Afastaram Aspros dela, tentaram esconder um do outro... Fizeram atrocidades com a minha mãe, seu vestido ficou até rasgado de tanto que ela lutou... – sua voz começou a ficar embargada, mas lágrima alguma ousava correr por sua face. – Aspros acabou vendo tudo, ele viu o ódio, o medo, a dor, a crueldade... Tudo de perto e com a nossa mãe... Mãe é o nome de Deus nos lábios e coração de uma criança... E meu irmão viu o nosso Deus ser... Ser...

Milo pousou a mão em seu ombro, seu olhar compartilhava uma dor bastante semelhante e emitia um brilho acolhedor, o brilho da compaixão.

¬ Eles a largaram de qualquer jeito... Estava tão machucada pelos abusos que mal podia abrir os olhos de dor e vergonha... – continuou com o lábio tremendo. – Quando os encontraram, meu irmão ainda estava em estado de choque a poucos metros de nossa mãe, que agora estava inconsciente... Os ferimentos foram bastante sérios, não apenas os externos, como também os internos, e ela não conseguiu resistir às inúmeras hemorragias internas que se seguiram... Alguns anos depois meu pai morreu de desgosto com a vida, ele dizia que a única coisa que dava gosto nesse mundo de amargura era eu e Aspros sorrindo... – deu um suspiro dolorosamente triste. – E com tudo isso acontecendo meu irmão adoeceu e eu tive que crescer...

¬ Eu sinto muito pela sua mãe. – disse em tom terno. – Eu tenho certeza de que ela foi uma mulher de fato incrível e que se pudesse ver os filhos dela agora, estaria mais do que orgulhosa dos homens que se tornaram.

¬ Talvez nem tanto. – respondeu de cabeça baixa. – Aspros está doente e eu continuo vivendo nas sombras para que ele fique na luz.

¬ Como assim? – já não sabia mais qual era o problema.

¬ Aspros se remoeu tanto pela morte de nossa mãe que acabou criando uma outra personalidade, uma personalidade cruel e tirânica. – contou mirando o quadro e dando mais um suspiro, um pouco mais conformado e calmo. – Essa dor de cabeça de agora, foi essa personalidade querendo se mostrar. Nessas horas eu tenho que trancá-lo no porão e esperar que ele melhore.

¬ E não tem uma cura? Ao menos algo que alivie a dor?

¬ Nada. – respondeu o mais novo. – Ele já foi em todos os médicos possíveis, até para Europa em busca de uma cura já fomos. Alguns médicos até tinham sugestões e supostas curas, mas todas eram absurdas, no fim das contas tivemos que nos adaptar a esse infortúnio destino.

Continuou em silencio dessa vez, o deixaria falar tudo o que quisesse. Se existe uma coisa que é aprendeu nessa vida era que muitas pessoas precisam apenas falar, não importa o que seja, elas apenas precisam falar.

¬ Somos os Wánax dos Gemini, dividindo o direito de liderança igualmente, então o que falar com um será ouvido pelo outro também. O mal que fizerem a um, será sentido e vingado pelo outro. O coração de um é ritmado pelos mesmos sentimentos que o coração do outro. – mirou o outro com certo nível de agradecimento, mas ainda muita tristeza. – E se a condição é viver nas sombras para que meu irmão permaneça na luz, então aceito tal martírio.

Ponderou um pouco depois de tanta informação.

¬ Posso lhe dar uma sugestão? Na verdade, pode ser uma solução para a dor de Aspros e a sua própria. – acabou por receber um aceno positivo em resposta. – Perdoe, mas não esqueça. Aqueles homens fizeram sim um grande mal a sua família, mas não permita que a dor que lhes foi causada os transformem, vocês que devem transformar o mundo daqueles homens. Você disse que nasceu numa terra onde a cor da pele é mais importante que o brilho dos olhos. Então torne esta terra uma terra em que o brilho dos olhos é mais importante que a cor da pele. O que realmente conta na vida não é apenas o fato de termos vivido, é a diferença que fizemos nas vidas dos outro que determina a importância da nossa própria vida. A maior glória em viver não está em jamais cair, mas em nos levantar cada vez que caímos. Ninguém nasce odiando, Deufteros. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E se podem aprender a odiar, elas também podem aprender a amar. – mirou o mais novo com toda a intensidade que podia. – Vocês não podem e nem precisam viver em antagonismos, não precisam que um viva em graças e o outro em dores, não precisam ser luz e sombra. Precisam ser apenas os homens que a mãe de vocês queria que fossem e que seus irmãos e irmãs precisam nessa terra onde a cor da pele é mais importante que o brilho dos olhos.

Bem que podiam existir mais pessoas como Milo.

Notas finais
Próximo capítulo termina a busca pelos Descendentes e Milo pode voltar para casa :) Depois disso... Veremos. Espero que tenham gostado :) Bjs. L :3