Frankenstain
33 Outono de 1851
Notas iniciais
Acabou-se a paz.
A guerra tinha sido declarada e nenhum dos lados podia perder tempo.
Queria ter visitado Camus antes de partir em mais uma jornada e trocado sua pedra-carta com ele, mas o rapaz estava em horário de treinamento e os militares deram uma boa reforçada na segurança da escola.
Pena que enquanto viajava já tinha elaborado a maneira perfeita de invadir o lugar outra vez, apenas para deixar os “guardinhas” de cabelo em pé, era uma diversão para si.
Só esperava não ser pego no flagra dessa vez e muito menos preso.
¬ Calma Diamond. – fez carinho no animal cada vez mais agitado. – Também não gosto do clima da floresta, mas é uma floresta de pinhos, é normal ela ser meio morta digamos assim. Vamos.
Bateu as rédeas do belo animal que, mesmo perturbado por tamanho silencio, seguiu em frente.
Estava atrás de dois grupos de Descendentes que tinham se misturado há muito tempo e que agora compunham um povo bastante forte que se julgava filho de ambas as famílias e não apenas de uma.
Era um grupo muito poderoso pelo que ouvira falar em sua jornada e nem um pouco fácil de lidar, honrado nesse sentido a memória de seus Santos.
Phoenix e Andrômeda.
Não chegou a conhecer o segundo, pois este ascendera muito antes de ser encontrado pelo Santuário, mas conhecia bem o primeiro e tinha certo medo do que estava procurando.
¬ Por favor. – pedia aos céus. – Que ao menos os Descendentes de Andrômeda sejam como o Shun, todos fofos e gentis.
Shun ao que tudo indicava, não era o último de sua linhagem de Descendente, mas era o mais puro até então.
Essa história de pureza não era um caso de eugenia por parte do Santuário, muito pelo contrario, pois eles apoiavam a miscigenação, a união dos povos.
O problema era que as famílias possuíam um pouco do sangue divino de seus respectivos Santos e o cosmo presente nele ia se dissipando conforme as gerações e era difícil ele reaparecer mais tarde.
Por isso, dentro dos Descendentes, se criaram famílias “Reais”, aquelas que manteriam a pureza do sangue o máximo possível e que liderariam todos os membros da família.
Naquele caso, parece que as famílias “Reais” se juntaram em uma única família. Continuavam a ter duas famílias distintas, mas sempre havia a uniam entre essas famílias para que houvesse a liderança, Wánax, e a manutenção da pureza do sangue, Cosmo.
E era com o líder desta família com quem devia tratar.
¬ Parado. – ouviu o gatilho de uma arma.
Com certeza eram os Descendentes de Phoenix, simpatia não era uma característica daquele povo.
Fez com que o cavalo branco parasse, desceu do lombo do animal e ergueu as mãos acima da cabeça, deixando-as bem a vista.
¬ Quem é você e o que faz aqui? – perguntara outra pessoa.
Pelo jeito tinha um grupo de guarda ali e, sinceramente, não esperava menos vindo de um grupo daqueles.
As famílias de Descendentes mais fortes chegavam a ter uma cidade própria ou eram nômades e não confiavam muito em forasteiros, apesar de acolher com todo carinho possível os necessitados.
¬ Meu nome é Milo Dilitírio. – seu tom era o mais calmo possível. – Venho trazer uma mensagem aos filhos de Phoenix e Andrômeda.
Ouviu o barulho de galhos quebrando, já tinha ouvido o bater de corações do cume das árvores, mas não esperava que eles fossem capazes de se passar tão facilmente por aves em descanso.
Certamente os Descendentes não podiam ser desmerecidos de forma algum somente porque eram humanos.
Logo mais se viu cercado por um pequeno grupo de homens, todos muito sérios e vestidos da mesma forma, mas tinham seus diferenciais.
¬ Siga-nos. – disse um dos homens. – Coisas importantes são discutidas no acampamento.
Não falou nada, apenas apanhou a rédea de Diamond e foi atrás dos homens armados que o escoltavam, mais para mantê-lo na mira das armas do que proteger de fato.
¬ Dilitírio não era o nome dos Descendentes de Scorpius? – os homens mais atrás cochichavam entre si.
¬ Ia perguntar o mesmo. – pelo tom de voz eram todos jovens.
¬ Mas pensei que os Dilitírio tinham morrido há séculos.
¬ Calado os três. – disse um mais velho. – Os Dilitírio tinham corações de fogo, em seus peitos residiam pequenas Antares. Não os julguem como acabados apenas porque seu senhor caíra, esses homens e mulheres eram verdadeiros guerreiros.
¬ O lema daquela família era: “A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido e não na vitória propriamente dita”. – disse outro dos mais velhos. – Não importa como, os Dilitírio são guerreiros e merecem o nosso respeito.
Milo sorriu de leve ao fazer carinho no anel de água-marinha, onde o mesmo lema estava gravado no metal escuro.
¬ Mestre Kardia sempre foi forte mesmo. – comentou bem baixo.
O acampamento era bem alegre e colorido, algo relativamente esperado de um acampamento cigano.
As pessoas dali faziam tudo que qualquer outra pessoa fazia, desde brincar de correr com os filhos e irmãos até sentar e conversar com um amigo enquanto costurava uma roupa ou limpava uma carabina.
Mas conseguia ver que eles eram bem mais alegres. Talvez por conta de sua fé inabalável ou quem sabe por conta da vida simples que levavam.
¬ A verdadeira busca pela felicidade se encontra na felicidade da busca. – leu em uma das carroças. – Parece ser uma vida muito boa.
Família interessante a de Phoenix e Andrômeda, talvez fossem assim por conta do lado de Andrômeda, mas ainda sim, aquelas pessoas pareciam muito felizes para alguém como Phoenix.
Soltou um pequeno risinho, agora estava bastante ansioso para conhecer os Descendentes de Cygnus.
¬ O que deseja tratar? – perguntou um dos homens, o mais velho com certeza.
Agora se encontravam no que parecia, ao menos, o centro do acampamento e boa parte das pessoas miravam-nos curiosas.
Não culpava nenhum dos presentes por sua curiosidade. Afinal não era nada comum um homem loiro de 1,84m com cabelos cumpridos cacheados e olhos safira – quando o normal dos homens era 1,70m com cabelos curtos escuros ou sujos e olhos castanhos – escoltado por seus “soldados” até o seu acampamento.
¬ Os assuntos dos quais venho falar são de interesse do Wánax. – não podia falar.
Mensageiros linguarudos do passado comprometeram muito os Descendentes, gerando a perda de muitas vidas inocentes.
Agora nem nos mensageiros eles confiavam direito. Por isso o Santuário agora mandava os próprios Santos darem as mensagens, mas no momento isso não era possível e Milo fora o sorteado, teria que agir e falar com cautela.
Sua mensagem só podia ser dada frente ao Wánax, se dada antes disso sua morte era certa, pois mostraria sua língua grande para quem não gostava de pessoas assim.
¬ Língua afiada essa sua. – o homem pegou o paninho de seu bolso para limpar o suor do rosto, uma clara afronta.
¬ Porque fez justo isso? – perguntou antes de acertar-lhe um soco.
O homem cambaleou para trás, segurando a boca com força e sendo amparado pelos companheiros tão assustado quanto ele próprio.
No mesmo instante viu os homens mirando, um disparo chegou a acontecer e a acertar sua perna esquerda, tinha que admitir que doera, mas manteve-se firme e com as mãos para cima.
¬ Have vos umquam senserit mundus?! – Vocês já sentiram o Cosmo?!
Se isso não o salvasse de seu ato violento e impulsivo, o que mais o salvaria?
¬ Quod lux sapientiae dirigendos pedes nostros. – Que a luz da sabedoria nos guie.
Virou-se imediatamente para o lado, de onde vinha uma jovem mulher com uma criança à frente, um projeto de homem com uma carabina.
A jovem era muito bonita, cabelos de sol e olhos verdes de raposa, ou melhor, olhos de cigana.
¬ Quem é? – perguntou a jovem com as mãos na cintura.
¬ Milo Dilitírio, Wánax. – respondeu educado.
Todos ao redor se surpreenderam, não tinha como perceber logo de cara que a jovem era sua líder. Então como um desconhecido percebeu? Tudo bem que sua chegada levantava a suspeita, mas não o bastante para que o loiro se arriscasse tanto.
A verdade e explicação para tal fato é que Milo via o cosmo que ela emitia e este era muito maior que o dos presentes, o único comparável, se não maior, era o do menino a sua frente.
¬ Pelo que vem?
¬ Seu senhor, Phoenix, os chama para a batalha que se aproxima. – contou calmamente. – Eles escaparam do selo e querem iniciar um novo conflito de grandes proporções. Lady Athena teme uma guerra total.
¬ E porque batera em meu pai? – indicou o homem que cuspira um dente.
¬ Honestamente? – suspirou. – Ele poderia ter feito o que quisesse comigo em condições normais e eu não ia me importar, mas este lenço foi o presente de alguém muito querido.
Camus deu-lhe aquele lenço junto da pedra-carta, dizendo que assim ele pareceria mais apresentável do que com apenas um casaco sem nada de especial. O sorriso do ruivo era tão bonito que não conseguiu deixar de aceitar, mesmo que não visse grande utilidade naquele mero paninho vinte e quatro por quinze.
Não conseguiu deixar de se alegrar com a lembrança.
A jovem acabou por lhe sorrir gentil, como se pudesse ver a verdade contada por seu coração.
¬ Irmãos! Irmãs! – disse o mais alto possível. – Levantem acampamento, afiem suas armas e preparem os mosquetes! Nosso senhor nos chama para batalha e não o deixaremos sem resposta!
No mesmo instante um urro de aprovação percorreu o acampamento e todos os seus membros correram a se organizar para a partida e, principalmente, para as batalhas que certamente viriam.
A moça conversava com o menino como se lhe desse uma bronca e tomou-lhe a carabina enquanto Milo se aproximava um tanto constrangido e manco. Os dois não demoraram a notá-lo.
¬ Desculpe-me a falta de cortesia, mas não sei seu nome. – disse ao se aproximar. – Pensei que era outra pessoa que encontraria.
A jovem pareceu pensar um pouco e logo acenou compreensiva, fazendo carinho nos fios escuros do menino.
¬ Deve estar a falar de meu falecido marido. – respondeu.
Milo se assustou, naturalmente, e apressou-se com suas palavras, certamente a jovem não gostava de comentar sobre aquilo.
¬ Desculpe minha indelicadeza. – pediu se curvando levemente. – E eu sinto muito por seu marido.
¬ Obrigada. Ele certamente está no Reino dos Céus agora. – sorriu gentil. – Eu sou Esmeralda Sintza. E este é meu primogênito, Kagaho.
O menino deu-lhe um pequeno aceno e voltou sua atenção para uma argolinha de tecido em seu pescoço.
¬ É um prazer conhecê-los. – respondeu com um sorriso.
O menino então pareceu estranhado, largou a argolinha e mirou Milo curioso por algum tempo antes de rir divertido. Jurava ter visto os olhos do menino faiscarem.
¬ O prazer é nosso em conhecê-lo, Lord Scorpius. – dissera o menor com um sorriso.
Quase engasgou com aquela afirmação. Como o menino sabia?
¬ Seus olhos estão ficando afiados. – disse a mãe feliz. – Agora vamos cuidar de sua perna, sim?
Apenas acenou enquanto a jovem o guiava seguida do filho.
Não conseguia desviar o olhar do garoto que vira mais que qualquer um e acabou que deu risada.
Pelo jeito, ainda tinha muito para estudar e descobrir naquele mundo nada pequeno, e que vivia para lembrá-lo de quem um dia fora.
Talvez esperando que voltasse a ser.
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