Frankenstain
34 Inverno de 1851
Notas iniciais
Fazia um bom tempo que não via nenhum membro da família de Zaphire, ao menos não cara a cara, pois sempre procurou manter-se informado sobre todos e estava bastante feliz com a vida que estavam levando.
Zaphire e Serena passavam cada vez mais tempo em casa, mas não sabia ao certo se isso era bom ou ruim na vida de um diplomata como Zaphire.
Rezava para que fosse bom.
Krest estava terminando seus estudos em Coimbra e vinha se mostrando um líder nato. Com os contatos de Zaphire era certeza que o rapaz alcançaria altos cargos em pouco tempo.
Se bem que era orgulhoso demais para querer ascender com a ajuda do pai.
Camus era tão genial e dedicado, que tinha avançado e até mesmo pulado várias etapas na escola militar, fazendo inveja até mesmo para os melhores alunos. Escolheu seguir carreira pela cavalaria, que também servia como segurança pública em Paris, e apresentava as qualidades de um verdadeiro líder.
Acenderia facilmente na carreira com ou sem os contatos do pai.
Suspirou mirando a pedra-carta dada por Camus, era uma pedra tom terra muito bonita.
Queria tanto ir pra casa, passar algum tempo com aquelas pessoas que lhe eram tão queridas. Mas tinha um dever a cumprir e fazia um bom uso desse dever principalmente para aprender.
¬ Que pedra bonita. – disse Esmeralda ao sentar-se do seu lado. – É uma ágata de fogo bruta?
¬ Sim. – afagou a pedra. – Foi alguém muito querido quem me deu.
A jovem o mirou por algum tempo e sorriu.
¬ Camus parece ser alguém maravilhoso. – disse a jovem.
Milo não reclamava de intromissão, para ele não era intromissão alguma. Só não entendia como aquilo funcionava.
¬ Como consegue descobrir essa coisa? – perguntou guardando a pedra no bolso.
¬ Desculpe minha intromissão. – disse a moça desviando o rosto corado. – É mais forte do que minha vontade.
¬ Não é intromissão. – respondeu. – Camus é maravilhoso de fato e adoraria passar o dia falando o quanto, mas eu quero entender como vocês descobrem essas coisas sem ninguém falar.
¬ O cosmo. – voltou a mirá-lo e indicou os próprios olhos. – O cosmo altera nossa visão, ou melhor, ele nos dá o dom da visão. Não é como o dos Santos, mas é algo bastante útil, pois com esse dom podemos ver o que realmente se passa pelo coração da pessoa.
¬ Então quando meu coração bateu pela lembrança de Camus...
¬ Eu vi o Camus. – sorriu por ver que ele estava entendendo. – Mas não só isso, com um pouco de esforço e pratica, podemos até ver a alma das pessoas. Por isso Kagaho conseguiu identificá-lo como Scorpius.
¬ E como eu sei que vocês tem esse dom? – perguntou curioso. – Pela forma com que fala parece que nem todos o têm.
¬ Os dons são difíceis de despertar e são muito diferentes um dos outros. – explicou. – Meu marido, por exemplo, tinha o dom da palavra. Ele conseguia resolver qualquer coisa apenas falando, podia acabar com desavenças de anos apenas com palavras. Eu tenho o dom da visão, eu vejo o coração e alma das pessoas. Identificar esses dons é um pouco difícil, mas é fácil perceber que eles existem e quais são se você prestar atenção. O mais fácil da identificar é o da visão, onde todos tem estes olhos de raposa.
¬ Conheço um menino que tem os mesmo olhos. – sorriu gentil. – Exatamente iguais aos seus.
¬ Shun. – disse a moça sorrindo. – Que nome bonito.
Milo abriu um grande sorriso para a moça.
A lembrança deixava tudo mais leve, principalmente por saber que logo teria mais lembranças para fazê-lo sorrir.
A moça então lhe desejou uma boa noite e saio, estava ficando tarde e tinha um filho para colocar na cama, deixando Milo sozinho com seus pensamentos e lembranças.
Suspirou deitado ao lado da fogueira em brasa, gostava daquele pequeno calor, era como um abraço.
¬ Amanhã terei de partir atrás de mais um grupo. – pensava alto se remexendo. – Vai ser um caminho longo.
Até então já tinha reunido nove famílias de Descendentes em pequenas cidades ao redor de Paris, todas prontas para serem chamadas a qualquer momento.
Ainda teria muito trabalho pela frente, mas certamente o concluiria. Tinha um dever e não podia faltar com ele, mesmo que a saudade urrasse em seu peito.
¬ Está indo pra casa? – perguntou Kagaho sentado em uma das árvores do bosque.
¬ Sinto falta da minha família. – respondeu com um sorriso.
Tinha acabado de chegar com mais dois grupos, a saudade já não se aguentando no peito e o sorriso ao lembrar-se de quem amava não lhe saia do rosto bonito.
¬ Sei como é. Sinto falta do meu pai e do meu irmão também. – o menino pulou da árvore, aterrissando sem problemas. – Trás o Camus um dia. Tenho certeza que ele vai amar passar o dia aqui.
¬ Você vê demais com esses olhos de raposa. – riu com o menino.
¬ O que posso fazer? – disse risonho antes de sair correndo até a mãe que o chamava. – Os olhos são característica da família!
Sorriu enquanto se afastava.
Estava ansioso para voltar, por isso atiçou o cavalo e deixou que o animal corresse a velocidade que quisesse na direção da cidade.
¬ Tocam os sinos! – falou alegre ao ouvir o característico badalar. – Está ouvindo Diamond? Estamos em casa!
Guiou o animal pelas ruas cada dia mais movimentadas, não dando muita atenção para as pessoas que reclamavam e lhe perguntavam onde era o incêndio, o máximo que fazia era pedir desculpas.
Logo se viu na frente de sua tão querida casa de Paris, entrou com as chaves que ainda mantinha, levou o cavalo para o pequeno curral que tinham e entrou em casa, tirando os sapatos sujos.
¬ Oh de casa! – chamou bem alto.
Nenhuma resposta, mas as portas e paredes eram grossas, podiam não ter lhe ouvido chamar.
¬ Zaphire! Lady Serena! – chamou enquanto andava pelo corredor. – Alguém em casa?
¬ Não fale alto Milo. – reclamou a voz conhecida. – Não tem ninguém além de mim e você em casa, ao menos dentro dela.
Milo virou-se sorrindo para a pequena Brownie, fazendo um carinho nos fios dourados da pequenina com ar sonolento, devia estar cochilando quando ele chegou.
¬ Oi Lumi. – sorriu gentil, coçando a nuca da pequena com carinho. – Quando foi que saíram?
¬ Há quatro dias rumo Império Austro-Húngaro. – bocejou escondendo a pequena boca. – Desde então estou cuidando da casa junto de Camus.
¬ Camus? – sorriu mais abertamente. – Mas ele não deveria estar na Escola Militar?
¬ Ele está de folga e deve estar no jardim. – abraçou sua mão como a um travesseiro. – Deve estar na sua cabana.
Milo sorriu e apanhou a pequenina, levando-a para a sala e deixando-a da caminha feita encima dos armários. Cobrindo-a com cuidado e fazendo um último carinho em seus cabelos.
¬ Descanse Lumi. – ouviu um gemido vindo da pequena e sorriu, devia estar bem cansada.
Tirou seu casaco e apanhou uma pera ao passar pela cozinha, saio pela porta dos fundos e começou a seguir o som do coração batendo e da respiração ofegante.
¬ MERDE!! – ouviu a reclamação não tão distante.
Encontrou um homem da sua altura e corpo esguio treinando combate corpo a corpo com um boneco velho, lembrava muito bem do dia em que confeccionara aquele boneco.
Conforme os golpes iam acertando o boneco, o longo cabelo escarlate seguia elegantemente os movimentos do corpo, era um verdadeiro milagre ter mantido o cabelo cumprido no meio militar.
¬ Merde! – reclamou ao acertar o golpe de forma errada, machucando a mão. – Merde! Merde! Merde!
Continuou a comer da pera enquanto assistia o mais novo treinar sem notá-lo ali. Camus se tornou um homem muito bonito e merecia ser admirado em silencio por algum tempo.
Acabou deitando na grama cansado, já devia estar naquilo há um bom tempo, o que ficava evidente por conta da pele com a fina camada de suor.
A cabeça do rapaz, quase homem, tombou para o lado da cabana de Milo, deixando que um suspiro escapasse de seus lábios.
¬ Se for para te proteger,
Não há nada a lamentar.
Porque tomarei qualquer dor
Se for apenas pra te cuidar.
Sempre sorridente estarei
Para o calor do abraço permanecer.
Secarei as lágrimas a cair
Nada deixarei te machucar.
Porque saia apenas meu amor
Que ao teu lado
Eternamente
Ficarei...
Nunca imaginou que a voz do menor fosse tão bonita.
Seu espanto era tamanho que deixou a fruta cair, fazendo um barulho abafado ao bater no chão e atiçando os sentidos de Camus.
Em um instante Milo se viu na mira de uma arma que Camus empunhava com uma expressão fria e decidida, sem um pingo de remorso.
¬ Camus...
O rapaz acabou fraquejando ao ver que era Milo ali, deixando a arma de lado e deixando um sorriso nervoso tomar seu rosto.
¬ Milo. – sorria feliz, tentando não chorar como quando era menino. –Você está aqui mesmo?
¬ Camus. – sorriu ao se aproximar.
Sentou-se ao lado do menor e o abraçou com força, expressando naquele abraço apertado todo o carinho e saudade que sentia. O abraço foi correspondido no mesmo instante, o menor chegava a apertá-lo com mais força ainda.
¬ Senti tanto a sua falta, Milo. – a voz estava embargada, mas se recusava a chorar.
¬ Eu também senti sua falta, Camus. – beijou sua têmpora com algum esforço, ele já passava de seu peito.
¬ Vai ficar dessa vez? – perguntou sorridente.
¬ Ainda não. – respondeu um tanto triste. – Ainda tenho o que fazer. Mas prometo fazer o meu melhor para sempre te ver.
¬ Você é horrível com promessas, Milo. – brincou com o mais velho.
¬ Eu sei. – se afastou vendo uma lágrima escorrer e a secando com um leve carinho. – Mas procuro mantê-las e trouxe sua pedra-carta.
¬ Você ainda lembra. – disse sorrindo. – Também estou com a sua, mas dentro de casa.
¬ Depois pegamos nossas pedras então. – respondeu rindo.
Os dois deitaram na grama, a pera caída tinha sido completamente esquecida, e passaram a conversar.
Conversaram sobre tudo que jamais poderia ser posto em cartas e sobre tudo que encontros de pequena duração não seriam o bastante para falar. Milo era o que mais falava, mas Camus não reclamava em nenhum momento, gostava da voz do mais velho e o ouviu com um grande sorriso.
Riram de piadas bestas, brincaram um com o outro, se divertiram como se o dia não tivesse fim. Chegaram a discutir como seria para invadir a Escola Militar de Paris da próxima vez.
¬ Camus. – chamou depois de um tempo. – Você se lembra de algo da noite que ficou bêbado? Antes que eu te desse a pedra-carta.
¬ Non... – a voz era triste, ele tentava lembrar e ficava frustrado sempre. – Eu queria lembrar. Sinto que tem algo que eu devia lembrar, mas non consigo.
¬ Tudo bem. – respondeu Milo num suspiro.
¬ Pardon Milo. – pediu se virando para o maior.
¬ Não precisa se desculpar. – também se virou.
Estavam frente a frente agora, o olhar não desviava do outro justamente pelo que expressavam.
Milo sempre teria aquele olhar de amor velado, aquele olhar de quem ama, mas não quer machucar.
Tinha aprendido com os anos a diferenciar o amor que ainda tinha por Aquarius e o amor que tem por Camus, mesmo eles sendo a mesma pessoa, queria amar Camus pelo que ele é e não pelo que ele foi.
Camus, por outro lado, era um enigma.
Os olhos do francês expressavam sim alguma forma de amor, mas ele não sabia dizer qual e não sabia dizer se ali era o amor de Aquarius ou o amor de Camus.
Porque a vida é tão confusa? Porque tinham de ser confusos?
¬ Milo. – chamou com a voz um tanto arrastada. – Posso fazer uma coisa estranha?
Milo deu risada ao ver o rosto do menor esquentar de leve, mas sentou-se com um sorriso.
¬ Desde que não seja nada potencialmente nocivo a saúde, sinta-se a vontade. – respondeu ainda com o mesmo sorriso de menino.
Camus apenas sentou-se de frente para Milo e inclinou para frente, depositando um leve beijo no rosto do maior que travou com aquilo. Metade da boca fina do ruivo estava na bochecha do loiro e metade estava nos lábios do mesmo.
Camus então se afastou apenas um pouco e o abraçou bem apertado, como se tivesse medo de que Milo fosse fugir a qualquer momento.
¬ Eu nunca esqueci as palavras que vieram de seu coração e calaram no meu. – disse ao pé de seu ouvido, falava da música. – Senti sua falta, Milo.
Apenas abraçou o mais novo de volta, sendo uma sombra ou não, queria ser egoísta o bastante para aproveitar ao menos aquele mínimo amor que Camus lhe oferecia.
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