Frankenstain

35 Primavera de 1852


Notas iniciais
O Kiki nesse capítulo é aquele parente que sabe sua vida inteira e tá sempre mais bem informado que todo mundo, mas você nem sabe o nome dele :x Boa leitura :)

¬ Morri... Morri... MORRI!!

Não tinha ideia de qual era a altitude em que estava e muito menos se estava perto ou se estava longe de seu destino, só sabia que estava cansado mentalmente daquilo.

Estava indo encontrar os Descendentes de Mentor e Aries, que eram nada fáceis de encontrar e muito menos seu vilarejo lendário, Hunza.

Pelo que ouvira em sua viagem, as pessoas de Hunza tinham pintas na testa ao invés de sobrancelhas e podiam viver séculos. Não era algo que pudesse ser provado, ao menos por quem lhe contava as histórias, mas todos sabiam que eles viviam bem e por muito tempo.

Tinha histórias de todos os tipos sobre aqueles Descendentes.

Mulheres chegavam aos quarenta anos com rostos e corpos de adolescentes, já as mais velhas, de oitenta anos, tinha corpos e rostos de quarenta. Além da fisionomia, havia histórias de mulheres na tribo com mais de sessenta anos que conseguiam dar a luz.

Os homens dispensavam comentários. Histórias de homens com mais de cem anos tendo o vigor de rapazes de vinte anos eram bastante comuns. O mais velho dos homens, dizem, chegou a viver novecentos anos.

Também dizem que eles são exímios artesões, abençoados pelos deuses, são capazes de dar vida à estatuas com um metal sagrado chamado Oricalco.

Falam que é praticamente impossível o povoado contrair algum tipo de doença, mesmo uma doença nova, nunca antes vista, eles não se afetavam em nada. Nem mesmo tinham problemas de saúde.

Eles são praticamente vegetarianos, comendo muitos serais, verduras, legumes, castanhas, queijo e o famoso Pão de Hunza, que supostamente aumentava seu tempo de vida em dez anos.

O povo de Hunza é bastante ativo, fazendo muitos serviços manuais e praticando muitos exercícios físicos. Eles possuem a fama de serem muito felizes, simpáticos e de bem com a vida, além de viverem num verdadeiro Jardim do Éden.

Hunza fica em algum lugar da cordilheira do Himalaia, a montanha mais alta do lugar pelo que ouvira falar, e sua cede era Jamiel, uma torre de dezenas de metros.

O problema, por mais fantásticas que fossem as histórias, era achar aquele lugar e isso estava drenando a paciência de Milo.

¬ Eu vou numa expedição...

Eu vou numa aventura...

É um dia perfeito para moer gente na pancada.

Quero matar Mentor e Aries é na porrada!

Eu vou numa expedição!

O buraco era bem mais embaixo, mas Milo não podia parar e caso parasse com certeza congelaria. Então cantava e continuava a procurar, mas nem isso o animava.

Mas quem estaria animado numa situação dessas?

Ele estava longe de casa, longe de Camus, longe do Santuário, no meio do nada, cercado de uma grossa camada de neve que batia em seus joelhos, com uma senhora tempestade ameaçando jogá-lo para fora da montanha e caçando um “El Dorado” asiático no meio do nada!

Como estar feliz assim?!

¬ Porque o meio do nada?! – reclamava. – Podiam estar no fim do mundo que eu não ia achar ruim! Mas porque o meio do nada?!

Não queria nem lembrar que ainda teria que ir atrás dos Descendentes de Draco e Libra, que também se misturaram, e que viviam do outro lado daquela maldita cordilheira em que estava.

¬ Quanto ainda falta? – choramingou ao encostar-se a uma pedra para descansar.

O jeito era esperar a tempestade passar e depois continuar, estava esgotado mentalmente e precisava muito de uma pausa.

Encostou-se melhor e adormeceu.

Na manhã seguinte ainda estava dormindo quando encontrou, ou foi encontrado, por quem tanto procurava.

¬ Eu morri? – perguntou-se enquanto olhava para o teto pintado.

Estava deitado em uma cama macia, coberto por mantas feitas com pelo de animais, ouvia um crepitar de lareira ao lado e o teto pintado com o céu estrelado realmente o hipnotizava.

Onde estava afinal?

¬ Você está na minha casa, no vilarejo de Hunza. – respondeu uma voz gentil. – E não, você não morreu, apesar de ter nos assustado.

Tombou a cabeça para o lado na fogueira e encontrou um rapaz sentado em uma cadeira mexendo em algo de metal em seu colo.

¬ Estou em Hunza? – perguntou para ter certeza.

¬ Sim. – respondeu o rapaz o mirando, seus olhos eram violáceos assim como as duas pintas em sua testa. – Mais especificamente em Jamiel.

¬ Papa! Papa!

Milo olhou na direção da porta vendo uma garotinha de cabelo avermelhado entrar toda sorridente com uma coroa de flores. Ela também tinha pontinhos na testa e os olhos verdes faiscavam como os olhos de raposa de Kagaho e Esmeralda.

Riu consigo mesmo, encontrara outra pessoa que via mais que os outros. Será que ela já descobrira que alma era a sua?

¬ Minha princesa! – o rapaz sorriu a erguendo e enchendo de beijos.

A menina gargalhava por sentir cocegas com a barba por fazer do pai, se debatendo um pouco e pedindo em agonia para que o maior parasse.

O pai enfim a atendeu e a colocou no chão, a vendo mostrar a coroa de flores que milagrosamente sobrevivera à pequena farra.

¬ Mama teceu para o moço. – a menina sorriu para si, deixando a coroa em seu colo. – Ah, Papa! Mama disse que logo o almoço está na mesa. – disse virando-se para o pai.

¬ Tudo bem. – sorriu fazendo carinho nos cabelos da pequena. – Agora vai com a Mama que o Papa e o moço precisam conversar.

A menina apenas acenou sorridente, deu um beijo no rosto do maior e saio correndo pela porta.

Era uma graça de menina.

¬ Puxou a mãe dela. – disse o outro sorrindo. – Sorri bobo o dia inteiro depois que ela nasceu.

Milo sentou-se na cama, vendo que estava até mesmo de roupas novas, e mirou seu anfitrião curioso.

¬ Você é o Wánax Kiki Tenzin Ariesu? – tombou a cabeça de leve.

¬ Você parece uma criança, Lord Scorpius. – disse sorrindo, era um elogio. – Mas sim, sou quem procura.

¬ Como sabe...? – ele não tinha os olhos de raposa.

¬ Meus dons são os da mente e o da audição. – explicou ainda mexendo naquela coisa de metal. – Escuto seus pensamentos e enquanto dormia acabei por saber tudo o que o trouxera para cá, além de que minha menina percebeu quem você era. – pareceu ter se assustado com algo, se afastando daquela coisa em seu colo, mas logo voltando a mexer na mesma. – E jamais deixaria meus Senhores sem resposta. Mas primeiro você precisa descansar um pouco e meus irmãos precisam se organizar.

Aquilo foi mais fácil do que esperava.

Geralmente tinha que explicar o porquê de estar ali, se identificar como um servo de Athena, responder um verdadeiro interrogatório, conversar com o Wánax e por fim seguir com todos rumo ao Santuário.

¬ Não somos como os outros Descendentes como pode perceber. – respondeu o rapaz deixando a coisa de metal no chão. – Somos mais simples e diretos, se alguém precisa falar conosco então precisa falar conosco. Preferimos assim, nossa vida é assim e gostamos dela.

¬ Sabe que estou cada vez mais curioso certo? – volveu tombando a cabeça para o outro lado.

¬ Claro. – riu ao ver o objeto de metal criar vida e sair correndo para fora. – Irei responder todas as suas dúvidas com prazer, Senhor. E aquele é o cãozinho de oricalco que fiz para minha menina.

¬ Não acha que é bom começar agora? – respondeu quase sem palavras.

Mal tinha saído do quarto e já estava vendo que muitas das lendas que lhe foram contadas eram reais. Não sabia se ficava assustado ou impressionado.

¬ E o que deseja saber? – perguntou sorrindo.

¬ Tudo!

O rapaz caíra na risada, Milo era alguém adorável aos seus olhos. Definitivamente se encontraram com peças raríssimas.

¬ Acho melhor começarmos de outra forma. – estendeu-lhe a mão em cumprimento. – Kiki Tenzin Ariesu.

¬ Milo Dilitírio. – apertou a mão dele em resposta.

¬ Dilitírio. Faz tempo que não ouço esse nome. – comentou despertando ainda mais sua curiosidade. – Mas depois conversamos sobre seus Descendentes. No momento sei que também está curioso com meus dons.

¬ Muito. – admitiu.

¬ Bem, eu já lhe expliquei o dom da audição. – estendeu o braço para muda de roupas, que começou a levitar. – Agora o dom da mente me permite levitar esta roupa apenas por minha vontade. Também sou capaz de me teleportar, criar ilusões e praticar a telecinesia.

¬ Quantos anos você treinou para isso? – apanhou as roupas, estavam lavadas e passadas.

¬ Levei cinquenta anos de minha vida para atingir o nível em que estou. – riu da expressão de Milo. – Tenho saudáveis cento e dezenove anos, obrigado. E nós não envelhecemos como os outros por conta da vida que levamos e por conta do sangue de Santos em nossas veias. E essas pintas em nossa testa são nossas sobrancelhas desenhadas nesse formato, uma tradição estética que foi mantida desde eras imemoriáveis.

¬ Estou me enchendo mais de duvidas do que respostas. – comentou.

¬ Calma. – respondeu. – Ainda temos bastante tempo para conversar. O que deseja saber agora? Não quero ser intrometido e ouvir seus pensamentos.

¬ Não está sendo. – respondeu enquanto contava nos dedos.

Já entendera os dons de seu anfitrião e também entendeu que o povo dali vivia tanto tempo, mais até que o normal em qualquer lugar, por conta de seus hábitos do dia a dia.

Mas ainda queria saber por que eles viviam no meio do nada e como davam vidas às coisas inanimadas. Queria saber mais sobre os dons e a vida que levavam. E também queria mais material para seu conhecimento de mundo, era curioso afinal.

Histórias fantásticas sem dúvida o aguardavam.

Shun e Camus adorariam ouvir as lendas de Hunza, tinha certeza.

¬ Conhece dois Puros? – o rapaz estava impressionado.

¬ Desculpe? – não entendeu.

¬ Você conhece dois Puros. – afirmou sorrindo. – E são Andrômeda e Aquarius. Que fortuna!

¬ Não estou entendo. – comentou.

¬ Ah! Mil perdões. – pediu se curvando de leve. – Parece que não sabe nada sobre os Puros.

¬ Nem um pouco. – respondeu.

¬ Na verdade os Puros são tão lendários quanto os Nephelim. – disse o rapaz. – Puros e Nephelim são o mesmo ser, a diferença é que os Puros nascem de ventres mortais e passam por essa vida para poder juntar-se aos seus irmãos e irmãs nos Santuários.

Ficou em silencio por um tempo, colocando as ideias no lugar e assimilando as novas. Aquilo não fazia sentido.

¬ Mas pensei que os Santos e Deuses voltavam para os braços de Théos ou então suas almas se dissipavam no mundo. – volveu. – Como pode haver Santos vivendo em peles de homens?

Sua própria existência já era um absurdo, como podia haver outras?

¬ É uma escolha. – respondeu. – Eles escolhem encarnar como Filhos de Théos para que o novo corpo possa ser usado em batalha. Sabe os Santos da Igreja Católica? – acenou positivo. – Eles eram Puros. Encarnaram com a permissão de Théos, passaram por esta vida e quando morreram ascenderam de corpo e alma, podendo voltar para o combate ao lado de seus irmãos e irmãs. Meu Senhor Aries fez isso há muito tempo, ele era meu avô nesta vida e seu nome mortal era Mu.

¬ Mas se eles podem fazer isso, porque vivemos em desvantagem? Porque choramos a perda se eles podem voltar? – perguntou.

¬ Não é fácil fundir uma alma divina com um corpo mortal. – respondeu. – Muitos casos de aborto se devem a isso, o corpo em formação não suportou a alma que queria se abrigar nele. Por isso leva muitos séculos até que os Santos e Deuses consigam encarnar. E isso gera a saudade que nos faz chorar.

Mirou a coroa de flores em seu colo ainda mais confuso.

¬ É muito por hora, eu sei. – disse o rapaz. – Por isso vou deixá-lo descansar e pensar um pouco. Qualquer coisa pode chamar. – e saio.

Voltou a deitar para mirar o teto pintado.

Não estava sobrecarregado e nem nada, queria saber cada vez mais, porém era assombrado com uma certeza.

Cobriu os olhos para as lagrimas de sangue não mancharem a roupa de cama. Camus entraria naquela guerra ele querendo ou não, mais cedo ou mais tarde.

¬ Você já foi arrastado para esta guerra. – soluçou. – Me desculpe, Camus.

Notas finais
O vilarejo de Hunza existe gente! Mas o povo lá não é lemuriano e eles não vivem mais tanto tempo assim :( Espero que tenham gostado :) Próximo capítulo vai ter Camus e quem sabe um beijo ;) Bjs. L :3