Frankenstain
32 Outono de 1850
Notas iniciais
Phoenix era pura ignorância com todos, principalmente Leo e Pegasus.
Shun morreria queimado se não fosse seu amado irmão para salvá-lo. Agora o menino também estava muito doente, vivia tossindo sangue e a febre era uma constante.
Phoenix estava tão insuportável que nem mesmo Athena estava suportando o gênio forte do Santos.
Mas a fúria e desespero do Santos não era a principal preocupação da Deusa naquele momento, a preocupação era os Espectros que escaparam do selo e agora andavam pelo mundo.
¬ Milo. – chamou a deusa. – Quero que você reúna os Descendentes para a batalha que se aproxima.
Costumava assistir as reuniões do Santuário, não participava de fato de tais discussões, apenas escutava em algum canto.
¬ Preciso apenas de suas localizações e meios de alcançá-los. – aquilo era um trabalho meio hercúleo, mas o faria.
¬ Então será feito. – disse a Deusa. – Precisamos que os Descendentes sejam reunidos o quanto antes para que pos-...
A Deusa se calou em meio a sentença, enrijecendo a postura e deixando sua expressão geralmente serena se tornar carregada. Todos os presentes acabaram imitando seu gesto, enrijeceram a postura e prenderam a respiração.
Eles estavam chegando e queriam cabeças para contar.
Os Santos sacaram suas armas imediatamente e começaram a voar para os portões da catedral, enquanto Athena era escoltada por Nike em sua forma verdadeira para um lugar mais seguro.
Milo vestiu a parte de sua armadura e também correu para junto de seus amigos e irmãos de armas.
¬ Quantos Daemones?! – perguntara Capricornus ao seu lado.
¬ Eu estimo centenas! – respondera Draco do seu outro lado. – A maioria são Possidets e Fecit!
¬ Estimativas. Possidets. Fecit. Eles só não podem entrar! – Aquila passara por si velozmente.
Foi quando o afastado Virgo barrou sua passagem e abriu os olhos, coisa que nunca o virá fazer. Podia ver o infinito dentro daquele olhar.
¬ Proteja. – dissera o Santos antes de sair em disparada.
Milo protestou por alguns instantes consigo mesmo, mas acabou por acatar o que lhe fora dito, correndo na direção do quarto de Shun antes de seguir para junto de Athena e Nike.
¬ Milo... – o menino estava muito fraco. – O que... Acontece...?
¬ Temos que sair daqui. – ditou o apanhando no colo ainda enrolando em cobertas.
Os seres de armadura negra brotavam das ruas e vielas aos montes. Seus corpos aos poucos se formavam a partir daquela fumaça densa e escura, destruindo tudo em seu caminho com uivos e rosnados.
¬ OS REINOS DE THÉOS ESTÃO EM NOSSOS CORAÇÕES E AO NOSSO REDOR!! – urrou Mentor ao lado de seu velho companheiro Libra.
¬ CORTE UM PEDAÇO DE MADEIRA E LÁ ESTAREI!! – urravam os Santos em resposta, cada um tomando sua posição na enorme fortaleza. – LEVANTE UMA PEDRA E ME ENCONTRARÁS!!
Não demorou para que os Santos, em sua grande maioria Aeris, se lançassem contra os invasores com fúria sem igual.
O campo de batalha que se formou ao redor da catedral era coberto por cinzas e brasas dos seres trevosos derrotados.
Outros mais começaram a atacar por cima, vindo dos telhados com as mãos em forma de garra e os dentes caninos afiados bem avista.
Seus restos cinzentos cobriam os corpos dos Santos enfurecidos enquanto tentando derrubá-los de qualquer jeito.
¬ Aquela... É a Aurora... Boreal?... – perguntou o menino inocente nos braços da deusa.
Quando um Daemones descende de volta ao vazio seu corpo se desfaz em cinzas e brasas enquanto sua alma, uma fumaça densa, se dissipa.
Quando um Deus ou Santos ascendem de volta aos braços de Théos seus corpos perdem tanto sangue divino que este entra em combustão, consumindo seus corpos e libertando suas almas que ascendiam aos céus como fachos de luz semelhantes às Auroras Boreal e Austral.
¬ N-Não... – respondeu Milo trêmulo, enrijecendo sua postura de combate. – Aquilo não é a Aurora Boreal...
¬ Então... O que é?... – perguntou fraquinho para a deusa que o abraçava.
Athena não respondeu.
Por seu rosto e pelo rosto de Nike escorriam lágrimas de sangue.
Aquela era uma resposta muda à pergunta do menino, que preferiu mil vezes permanecer na ignorância a descobrir daquela forma.
¬ Irmão... – apertou o travesseiro que segurava tentando não chorar.
Não estavam mais conseguindo segurar tantos.
Os Possidets e Fecit escalavam as grandiosas paredes da catedral, furando a pedra com suas unhas afiadas, sorrisos deformados adornavam seus rostos mortos.
¬ Mentor! – Libra estava ficando aflito, seu companheiro sequer se mexia e aqueles seres estavam chegando. – Mentor!
¬ Acalma-te Libra! – reprendeu o mais velho dos Santos.
¬ Mentor... – agora era Crater, outro companheiro, quem chamava, eles estavam muito perto.
O mais velho tirou as pregas douradas que prendiam seu manto, deixando o tecido escorrer por seus ombros, e sacou um bastão de sua cintura, o batendo com força no chão.
¬ Maximum Pope.
A armadura cobriu-lhe ombros, parte do peito e cintura, as pernas e braços. O elmo escondeu seu rosto e os machados surgiram ameaçadores em suas mãos, sendo unidos ao bastão e formando uma melhor arma.
Aquele era o sinal que os outros dois santos precisavam.
¬ Kiffa Australis.
¬ Alkes.
As armaduras envolveram seus corpos como acontecera com Mentor e suas armas eram empunhadas com maestria, estavam prontos para o combate.
¬ Sem piedade. Levem junto o máximo que puderem. – ditou o mais velho. – Somos a última linha de defesa. Este é nosso dever sagrado.
A batalha tinha se tornado ainda mais violenta com os Santos tentado impedir a invasão a qualquer custo, mas eram muitos e eles eram poucos a muito tempo.
Um urro ensurdecedor de Mentor recedeu o Fecit que invadira e fora transformado em cinzas logo em seguida.
¬ Milo! – chamou Nike limpando o sangue de seu rosto. – Vá lutar!
¬ O que?! – não era louco o bastante.
¬ Vá lutar! – a Deusa deu-lhe um beijo e saio o empurrando. – Tem minha benção! Agora vai!
Quando se deu conta estava caindo da torre alta.
Agarrou um Possidets e o colocou abaixo de si com a lamina em seu pescoço, aliviando sua queda e dando conta de mais um invasor.
Se em meio à batalha foi lançado, então à batalha se lançaria.
As jovens Deusas apenas se entreolharam e miraram o menino assustado.
¬ Não pode ser... – disse Nike desacreditada. – Vieram buscá-lo...
Fazia algum tempo que sentia um pequeno cosmo maligno ressoar com o dos seres lá de fora, procurou sem parar pelo que pudesse ser e tudo apontava para o pequeno.
¬ Calada. – disse Athena. – Ele não é quem pensa. Só temos de mantê-lo aqui dentro.
Nike não ousara dizer mais nada. Apenas se prostrou para o combate e rezou para que sua benção bastasse.
Custasse o que custasse, Shun não podia sair dos limites da catedral.
A batalha seguia violenta. Corpos eram empalados, perfurados, rasgados, destruídos, esmagados. Luzes e cinzas eram quase uma constante enlouquecedora.
Era apenas um Santos para muitos invasores, mas se trabalhassem juntos conseguiriam vencer aquela batalha.
¬ PHOENIX!! CYGNUS!! ATRÁS DE MIM!! – gritou por cima da batalha.
Estavam encurralados em um quarto da catedral e precisavam escapar.
Milo então derrubou a porta fechada, a segurando com firmeza e passou a empurrar os inimigos com toda sua força na direção contraria. Os Santos vinham logo atrás, matando os Possidets e Fecit que escapavam.
Os empurrou até uma das muitas janelas grandiosas, derrubando vários e vendo Sagittarius e Aquila lhes dar um fim com as enormes asas de sua armadura.
¬ CUIDADO!! – só teve tempo de ver uma mão quase lhe acertar.
Gemini agora caia com vários Fecit em suas costas e um nos braços, o que tentara atacar Milo. O teria ajudado, mas vira o outro Gemini se aproximar velozmente para socorrer o irmão.
Leo e Pegasus estavam cercados e com sérias dificuldades, mas eram os que lutavam com mais bravura e determinação. Morreriam se fosse necessário, mas morreriam cumprindo sua missão.
Capricornus e Draco pulavam de pilar em pilar, tomando impulso para que suas armas fizessem cortes limpos e mortais. Suas expressões eram neutras, talvez vazias, mas seus olhos refletiam a fúria de quem teve sua fé desonrada.
Taurus, Aries, Virgo e outros mais não deixavam que mais inimigos invadissem, os abatendo antes que pudessem subir até as torres da catedral. Nunca antes os vira tão fora de si, estavam enfurecidos e queriam sua compensação.
Pisces e Cancer abatiam os descuidados e feridos. Não era hora de clemência ou honra para eles, aquela era a hora do abate e nada mais.
Aquela era uma luta brutal e horrenda, mas nenhum homem a testemunhava.
Santos derrubavam tetos e paredes para escapar de seus rivais e findá-los sem perecer em batalha. Uniam-se em duplas ou pequenos grupos para investir com mais violência e obter uma defesa mais efetiva. Outras partes da catedral ruíam pelos abalos sofridos e engoliam muitos inimigos e um ou outro aliado, que queria findar aqueles que caíam.
Mesmo em evidente desvantagem os Santos não recuavam, jamais recuariam, continuaram avançando com cada vez mais bravura e coragem. Em contra partida, seus inimigos estavam cada vez mais assustados.
¬ NÃO OS DEIXEM ESCAPAR!! – bradou Sagittarius se lançando atrás dos invasores que recuavam.
A maioria dos Santos o seguiram, muitos poucos ficaram para trás, afinal ainda tinha muitos Possidets dentro da fortaleza que é Notre-Dame.
¬ Milo! Venha! – Pegasus o chamou.
Correu para ajudar os Santos na nova tarefa de “limpar” o Santuário.
Mas naquele momento da batalha, quando a preocupação principal era findar a ameaça, eles se esqueceram de seus bens mais preciosos.
A parede do quarto fora estourada e o cenário se transformou ao mesmo tempo em que Shun soltava um grito assustado.
¬ Como vai, Nike? – perguntava o Iudice com um sorriso cruel.
¬ Radamanto... – a deusa cuspia sangue.
¬ Admito que me pesa peito fazer isso, afinal ainda dou muito valor aos nossos dias de juventude ao lado de Théos. – respondeu. – Mas devo levar meu Senhor comigo.
¬ Você não tem o direto de pronunciar o nome do Único. – dissera Athena se pondo na frente de Shun. – E você não ira levá-lo Radamanto! Sapiente!
A armadura envolveu o corpo da deusa no mesmo tempo de um abrir e fechar de olhos, seu escudo dourado pesou em seu braço esquerdo e a lança foi empunhada com habilidade pelo braço direito.
Ela não era apenas uma figura, um símbolo ou um ser indefeso.
Ela era uma Deusa.
O Iudice tirou o punho do peito da outra deusa, que caíra como se não passasse de um monte de panos.
¬ Quer mesmo lutar contra mim? – perguntou sorrindo.
¬ Não sou a mesma Deos. – respondeu lançando o primeiro ataque.
O choque de forças foi tão grande que chacoalhou toda a construção e assustou os Santos, que somente naquele momento perceberam sua falha para com sua deusa, ignorando os inimigos e correndo ao seu socorro.
¬ LEO!! – Pegasus saio em disparado atrás de seu irmão.
Erro crasso.
Assim que dera as costas um urro escapara de seus lábios por conta do ferimento aberto por um Fecit em suas costas. Caíra ao chão com um ferimento grande, mal aguentando se apoiar no braço pelo corte que rasgara seu ombro.
Imediatamente os invasores que resistiam avançaram sobre o Santos Aeris sem clemência alguma. Descenderiam, mas levariam quantos Santos conseguissem.
¬ PEGASUS!! – o Santos Aurum começou a voltar assim que ouviu o primeiro urro.
Também o atingiram pelas costas, fazendo-o cair de joelhos enquanto assistia a alma de Pegasus acender.
¬ ANTARES!! – o disparo jogou o Fecit para longe e matou os Possidets. – Leo! Você está bem? Céus! É muito sangue!
¬ Mald-...
¬ ANTARES!! – mais um disparo contra os inimigos.
Milo tentou conter o sangue do Santos, mas este o afastava e negava, se recusando a receber ajuda.
¬ Deixe de ser orgulhoso Leo! – brigou Milo. – Você precisa de ajuda!
¬ Não! – o empurrou para longe, revelando suas lágrimas de sangue. – Eu quero estar com meu irmãozinho... Eu quero estar com Pegasus... Me deixe ir Milo...
¬ Leo... – seu peito pesou.
¬ Eu condenei Scorpius e Aquarius em minha juventude... – confessou caindo nos braços do loiro quando fraquejou. – Agora os entendo quando eles queriam falar das diferentes formas de amor... Eles adoravam falar disso... Vocês adoravam falar disso...
¬ Leo, por favor... – não queria perder mais um amigo. – Não se esforce...
¬ Vocês gostavam de debater e questionar... Coisas que nós não costumávamos fazer... Vocês eram tão diferentes e especiais, nós que não víamos... – cuspiu uma quantidade absurda de sangue. – Me desculpe... Scorpius... Só fui... Te entender... Apenas... Ao sentir o... Mesmo...
As chamas não machucavam, eram acolhedoras e gentis, como um último abraço. Aos poucos a alma escapava de seu corpo e acendia aos céus.
¬ SAIA DE MINHA MORADA!!
Athena atirou o Iudice para fora da catedral através de um dos grandiosos vitrais, aquela era sua luta e por isso nenhum Santos a interferira.
¬ Está batendo mais forte! Devo lhe parabenizar! – exclamou animado e sarcástico.
A deusa acertou-lhe a boca do estômago com o escudo, fazendo sangue ser cuspido pelo outro.
¬ Por mais que queira findá-lo, este não é meu dever. – disse a deusa ao pé de seu ouvido. – Desapareça. Não tente invadir novamente. Não terei clemência da próxima vez.
¬ Continua tola... – soltou um riso dolorido. – Meu Senhor virá até nós... Você querendo ou não...
¬ Shun não é seu Senhor. – respondeu ácida.
¬ Ele é... – deu risada e se desfez em fumaça.
A deusa mirou enfurecida o Iudice que fugia, queria muito acabar com aquilo, mas aquela não era sua luta.
Athena então ruiu, escondendo seu rosto em lágrimas enquanto o sol começava a despontar. Perdera tantos Santos, tantos irmãos e irmãs, tantos amigos. Não ligava para suas forças reduzidas, ligava para aqueles que perderam.
Prometa-me que sempre lutaremos juntos; e que sempre protegeremos um ao outro; e que, aconteça o que acontecer, nós iremos ou sobreviver juntos ou morrer juntos.
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